Tem uma coisa acontecendo no pelotão profissional que Julian Alaphilippe não está deixando passar batido. O francês, que aos 33 anos já carrega no currículo duas medalhas de arco-íris e um punhado de vitórias que fariam qualquer ciclista se aposentar feliz, está notando uma transformação silenciosa – e um tanto preocupante – na cabeça da nova geração de corredores.
Em entrevista ao podcast Sigma Sports Unplugged, Alaphilippe foi direto ao ponto de uma forma que só quem viveu os dois lados da história pode ser. “Às vezes eu sinto que é meio triste, porque quando eu converso com alguns caras, eles não sonham mais em vencer corridas”, desabafou o campeão mundial de 2020 e 2021. “Eles estão felizes só porque fizeram um bom teste de cinco minutos, porque têm bons números.”
A obsessão pelos watts está matando o sonho?
Não dá pra negar que o ciclismo virou um esporte completamente dependente de dados. Medidores de potência, análises de FTP, zonas de treinamento, VO2 máximo – tudo isso virou parte do vocabulário básico de qualquer ciclista que leva a coisa minimamente a sério. E olha, isso não é necessariamente ruim. Os números ajudam, e muito, principalmente na hora de contratar atletas.
As equipes WorldTour gastam fortunas procurando diamantes brutos nos escalões inferiores, e os dados de potência são uma forma objetiva de identificar talentos que talvez nunca tivessem chance de brilhar por outros motivos – seja porque correm em equipes pequenas, seja porque as táticas de corrida não favorecem seu perfil. Nesse sentido, a tecnologia democratizou um pouco as oportunidades no pelotão.
Mas aqui mora o problema que Alaphilippe está apontando: quando os números viram o fim, e não o meio, alguma coisa se perde no caminho. E essa coisa, segundo o francês, é justamente a essência do que faz alguém subir no topo do pódio em grandes clássicas ou vencer etapas históricas de Grand Tours.
A geração do ciclocomputador
“Eu vejo algumas pessoas, elas não conseguem sair de bike se não tiverem todos esses computadores”, criticou o corredor da Tudor Pro Cycling. E quem pedala sabe exatamente do que ele está falando. Tem gente que simplesmente não sai para um pedal se o Garmin estiver sem bateria ou se o medidor de potência der pau. Como se a pedalada só valesse alguma coisa se estiver registrada, quantificada, comparada.
Alaphilippe defende uma abordagem diferente – quase filosófica, eu diria. Para ele, o que realmente importa é ter a paisagem ao redor como prioridade. “Se você só fica sentado olhando os números, o programa, o computador, e não olha para as árvores ao redor, o céu, mesmo que esteja cinza, você não se importa porque está olhando para o medidor de potência. Isso é meio triste, e você perde o prazer de simplesmente ser um ciclista.”
Não é que ele esteja dizendo para jogar os medidores no lixo. A questão é mais sutil: quando você transforma cada pedalada em uma métrica a ser batida, você corre o risco de perder justamente o que te trouxe para o ciclismo no começo – aquela sensação de liberdade, de estar presente no momento, de sentir as pernas girando e o vento no rosto.
Onde está a diferença real?
Aqui vem um dos pontos mais interessantes da reflexão de Alaphilippe. “Onde você faz a diferença é na sua cabeça, quando você realmente sonha muito com algo”, afirmou. E isso bate direto no coração do que separa um corredor competitivo de um campeão.
Pode parecer papo de auto-ajuda, mas não é. A história do ciclismo está cheia de exemplos de caras que não tinham necessariamente os melhores números, mas que na hora H encontraram algo dentro deles que nenhum wattímetro consegue medir. Pensa no Pantani voando na Alpe d’Huez, ou no Sagan escapando em corridas que teoricamente ele não deveria ganhar. Esses momentos não acontecem porque alguém cravou 420 watts por 20 minutos – eles acontecem porque existe um fogo interno, um desejo tão grande de vencer que supera qualquer planilha.
E talvez seja exatamente isso que está faltando em parte da nova geração. Não a capacidade física – essa até melhorou, vide os tempos absurdos que estão sendo feitos nas subidas atualmente. Mas aquela fome, aquela vontade quase irracional de ser o primeiro a cruzar a linha de chegada, custe o que custar.
A carreira cada vez mais curta dos ciclistas
Outro ponto que Alaphilippe menciona, e que vale a pena prestar atenção, é sobre a longevidade das carreiras no ciclismo profissional. Segundo ele, os corredores estão se aposentando cada vez mais cedo, e a obsessão pelos números pode ter um papel nisso.
Quando você transforma o ciclismo em uma planilha de Excel ambulante, quando cada treino é medido, comparado, julgado, quando você vive sob a pressão constante de “performar” nos testes de laboratório e nas sessões de FTP, o esporte deixa de ser prazeroso. E quando o prazer vai embora, quanto tempo você aguenta continuar? Três anos? Cinco? Dez se tiver muita sorte?
Compare isso com os caras da velha guarda, que pedalavam até os 40 anos (alguns ainda fazem isso). Eles tinham uma relação diferente com a bike, menos quantificada, mais visceral. Não que fossem menos profissionais – muito pelo contrário. Mas existia um componente de amor puro pelo esporte que parece estar em falta hoje em dia.
Alaphilippe: longe do melhor, mas ainda vencedor
O próprio Julian é bem consciente de onde está na carreira. “Eu sei que estou muito longe de ser o melhor. Eu não sou uma máquina”, admitiu sem papas na língua. Mas essa autoconsciência não o impede de continuar competindo no mais alto nível.
Em 2024, já correndo pela Tudor Pro Cycling, ele conseguiu apenas uma vitória – mas que vitória! O GP de Québec mostrou que, quando as circunstâncias são favoráveis e ele consegue usar a tática e o instinto a seu favor, ainda é capaz de bater corredores teoricamente mais fortes no papel.
É verdade que o pelotão está andando mais rápido do que nunca. Comparando com 2021, quando ele conquistou seu segundo título mundial, o ritmo médio das corridas subiu assustadoramente. Mas Alaphilippe continua relevante justamente porque não abandonou aquilo que o trouxe até aqui: corridas agressivas, oportunismo tático, e uma mentalidade de atacante nato.
“Eu sei quando estou em boa forma e quando me sinto bem, e posso brincar com minhas pernas e meu instinto, eu posso fazer parte disso”, explicou. Repara como ele usa a palavra “brincar”? Não é “executar o plano de potência” ou “manter a zona 4”. É brincar, se divertir, sentir.
O que os números não conseguem medir
Tem uma cena do Tour de France que ilustra perfeitamente o ponto de Alaphilippe. Na etapa 15 da edição de 2024, ele chegou em terceiro lugar, mas comemorou como se tivesse vencido. Porque para ele, naquele momento, aquilo representou muito mais do que um número no resultado final – foi a confirmação de que ainda tinha gás no tanque, de que ainda podia competir com os melhores.
Esses momentos são o que fazem o ciclismo ser especial. E são exatamente o tipo de coisa que os dados brutos nunca vão capturar. Você pode ter o FTP mais alto do mundo, mas se não tiver a coragem de atacar a 80km da chegada numa clássica de paralelepípedo, de que adianta?
As críticas de Alaphilippe não são contra a tecnologia em si. O cara não está defendendo um retorno aos anos 80, quando ninguém sabia quantos watts estava fazendo. O que ele está dizendo é que a tecnologia deveria ser uma ferramenta, não o objetivo final. Ela deveria te ajudar a treinar melhor, a entender seu corpo, a evitar lesões. Mas no final das contas, quem ganha corridas é o coração, não o medidor de potência.
O futuro do ciclismo profissional
As observações do bicampeão mundial levantam questões importantes sobre para onde o esporte está indo. Existe o risco real de estarmos criando uma geração de ciclistas tecnicamente perfeitos, mas emocionalmente vazios? Corredores que sabem exatamente quantos watts precisam fazer para manter a roda de um líder, mas que nunca desenvolvem o instinto assassino necessário para vencer?
Olha para os caras que dominam o ciclismo atual – Pogačar, Van der Poel, Vingegaard, Evenepoel. O que eles têm em comum? Números absurdos, sim, mas também uma mentalidade vencedora inabalável. Eles não estão felizes só por fazer um bom FTP test. Eles querem vencer, e vencer muito. Essa fome é o que os separa do resto do pelotão.
O ideal, claro, seria combinar as duas coisas: usar a tecnologia para maximizar o potencial físico, mas nunca perder de vista o fogo interno que faz alguém querer ser campeão. Treinar com inteligência, mas correr com paixão. Estudar os dados na segunda-feira, mas estar disposto a jogar tudo pro alto no domingo se a corrida pedir.
A lição de um veterano
No fim das contas, talvez o recado mais importante que Alaphilippe está passando seja este: não deixe que a busca pela perfeição numérica te impeça de sonhar grande. Os watts importam, claro. O VO2 máximo também. Mas se você quer mesmo fazer história no ciclismo, vai precisar de algo mais.
Vai precisar daquela borboleta no estômago na noite antes de uma grande corrida. Vai precisar da coragem de atacar quando todo mundo diz que é loucura. Vai precisar acreditar, de forma quase irracional, que você pode vencer. E isso, meu amigo, não aparece em nenhum display de ciclocomputador.
Então da próxima vez que você for pedalar, experimenta deixar o medidor de potência em casa. Ou pelo menos, tenta dar uma olhada nas árvores ao redor, sente o vento, presta atenção nas sensações. Porque no fim, é isso que faz valer a pena – não os números que você postou no Strava, mas como você se sentiu durante aquelas horas sobre a bike.
Como diria Alaphilippe: onde você faz a diferença é na sua cabeça, quando você realmente sonha muito com algo. E esse sonho, pode anotar, nenhum algoritmo vai conseguir replicar.
Perguntas Frequentes
O que Julian Alaphilippe criticou sobre o ciclismo moderno?
Alaphilippe observa que muitos jovens ciclistas profissionais não sonham mais em vencer corridas, mas ficam satisfeitos apenas por terem bons números em testes de potência. Ele também critica a dependência excessiva da tecnologia, onde alguns corredores não conseguem pedalar sem todos os seus computadores de bordo, perdendo assim o prazer de simplesmente ser ciclista e apreciar a paisagem ao redor.
Julian Alaphilippe é contra o uso de medidores de potência?
Não exatamente. Alaphilippe reconhece que os dados e a tecnologia são importantes e necessários no ciclismo profissional, especialmente no processo de contratação de atletas. Sua crítica é contra tornar os números o objetivo final, em vez de usá-los como ferramentas. Ele defende que o foco excessivo nos dados pode fazer os ciclistas perderem o prazer do esporte e a mentalidade vencedora necessária para conquistar grandes vitórias.
Quantas vitórias Alaphilippe conseguiu em 2024 pela Tudor Pro Cycling?
Em 2024, seu primeiro ano pela Tudor Pro Cycling Team, Alaphilippe conquistou apenas uma vitória, mas significativa: o GP de Québec. Apesar de não estar mais no auge de sua carreira e admitir estar “longe de ser o melhor”, essa vitória demonstrou que ele ainda pode competir no mais alto nível quando usa táticas inteligentes e confia em seu instinto de corredor.
Por que Alaphilippe acha que as carreiras dos ciclistas estão ficando mais curtas?
Segundo Alaphilippe, a obsessão pelos números e a perda do prazer de pedalar podem estar contribuindo para carreiras mais curtas no ciclismo profissional. Quando cada treino se torna apenas uma métrica a ser batida e o esporte perde seu componente de diversão, os atletas tendem a se queimar mais rapidamente. Ele defende que manter o prazer de estar sobre a bike e apreciar a paisagem durante os treinos ajuda na longevidade das carreiras.
Qual é a principal mensagem de Alaphilippe sobre mentalidade vencedora?
A principal mensagem do bicampeão mundial é que “onde você faz a diferença é na sua cabeça, quando você realmente sonha muito com algo”. Para Alaphilippe, ter números impressionantes de potência é importante, mas o que realmente separa os vencedores do resto do pelotão é a mentalidade, o desejo ardente de vitória e a coragem de atacar nos momentos certos. Ele acredita que esses aspectos mentais são mais decisivos do que qualquer métrica numérica.

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