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Por Que Tantos Ciclistas Profissionais Estão Se Aposentando Mais Jovens?

A temporada de 2025 trouxe uma onda sem precedentes de aposentadorias precoces no ciclismo profissional. Descubra por que grandes nomes como Geraint Thomas, Romain Bardet e Simon Yates estão deixando o esporte mais cedo.

Por Que Tantos Ciclistas Profissionais Estão Se Aposentando Mais Jovens?

Olha, preciso começar esse texto com uma confissão: nunca imaginei que veria tantos nomes gigantes do ciclismo pendurando as sapatilhas tão cedo. E quando digo gigantes, não estou falando de corredores medianos que chegaram ao limite natural das suas carreiras. Estou falando de gente como Geraint Thomas, Romain Bardet, Alexander Kristoff – verdadeiros campeões que, há poucos anos, ainda brigavam por vitórias nas maiores corridas do mundo.

A temporada de 2025 trouxe algo que ninguém esperava ver: uma onda de aposentadorias precoces que deixou muita gente se perguntando o que diabos está acontecendo com o ciclismo profissional. E não é apenas uma questão de números – embora 58 corredores do WorldTour e ProContinental tenham se despedido das competições. O que realmente chama atenção é a qualidade e profundidade de experiência que está sendo perdida.

A Corsa Contra o Relógio (E Contra Si Mesmo)

Sabe aquele papo de que o ciclismo sempre foi um esporte duro? Esqueça. Porque o que estamos vendo agora é outra história completamente diferente. O esporte que conhecíamos – aquele onde você podia administrar sua energia, escolher suas batalhas, ter uma corrida “tranquila” de vez em quando – simplesmente não existe mais.

A pandemia mudou tudo. E quando digo tudo, é tudo mesmo. Depois que o mundo voltou a girar em 2020, algo diferente voltou junto com as corridas. Uma mentalidade nova, mais agressiva, mais desesperada até. Os corredores retornaram com uma fome que beirava o selvagem, e essa intensidade nunca mais foi embora.

Jacopo Guarnieri, ex-profissional que virou agente de ciclistas da UCI, tem uma visão privilegiada dessa transformação. Ele aponta para duas revoluções que aconteceram quase simultaneamente: a mudança radical na nutrição durante as corridas e o surgimento de uma nova geração de corredores absolutamente destemidos.

“Foi uma grande revolução no ciclismo. Ainda usamos duas rodas, e uma bike continua sendo uma bike, mas isso foi uma diferença enorme. Antes era um esporte mais conservador, porque você nunca sabe quando vai ter uma pane de energia. Então a ideia era administrar-se e, no final, esvaziar o tanque. Agora, se você se alimenta adequadamente, pode ter essa energia ou poder durante todo o dia”, explica Guarnieri.

Quando o Asfalto Virou Campo de Batalha

Aqui está o problema: com todos podendo manter potências absurdas por mais tempo, as corridas começaram a explodir muito antes do que seria “normal”. Ataques a 150 quilômetros da chegada? Isso virou rotina. Batalhas por posição em curvas técnicas no meio do nada? Todo santo dia. E sabe o que acontece quando todo mundo está no limite, brigando por cada centímetro de asfalto?

Acidentes. Muitos acidentes.

A questão da segurança no pelotão virou um elefante na sala que ninguém quer reconhecer abertamente. Mas os números não mentem, e os corredores que estão se aposentando também não. Tim Declercq, que pendurou as sapatilhas no final de 2025 depois de uma carreira inteira como gregário de luxo, foi direto ao ponto: “Ter sua vida é sempre mais importante, e ter um pouco mais de respeito uns pelos outros no pelotão, eu acho que isso é algo de que todo o pelotão poderia se beneficiar”.

E olha que interessante: Declercq não é nenhum jovenzinho mimado reclamando das dificuldades. O cara passou a carreira inteira puxando pelotão, comendo vento para os outros, fazendo o trabalho sujo que 99% dos fãs casuais nem percebe que existe. Se até ele está dizendo que a falta de respeito está insuportável, é porque a situação está realmente feia.

A Nova Geração Não Quer Saber de Papo

Tem outro fator que está mexendo com a dinâmica do pelotão, e esse talvez seja o mais fascinante de todos: a chegada de uma geração de jovens corredores absurdamente preparados que não têm o menor interesse em respeitar hierarquias tradicionais.

Antigamente, tinha toda uma cultura não-escrita no pelotão. Os veteranos mandavam, os jovens obedeciam, aprendiam, esperavam sua vez. Era quase uma coisa de máfia, sabe? Você tinha que provar seu valor ao longo de anos antes de poder impor seu ritmo nas corridas.

Hoje? Esquece. Os moleques chegam com 20, 21 anos já voando, com dados de potência que fariam muitos campeões do passado ficarem verdes de inveja. E mais importante: eles sabem que são bons. Muito bons. Então por que diabos eles ouviriam um cara 10 anos mais velho, mas 50 watts mais fraco?

Como Guarnieri bem coloca: “É meio uma coisa de macho alfa. Eu lembro nas corridas quando você era mais jovem, você não tinha o nível dos corredores mais velhos, e quando você tentava se impor, sempre tinha um cara fisicamente mais forte. Agora temos uma geração jovem muito mais forte que os caras mais velhos, e eles estão bem preparados. Eles sabem muito sobre ciclismo, sobre como treinar, como se alimentar. Eles não querem ouvir os mais velhos”.

O Preço do Show Tem Que Continuar

E por trás de toda essa loucura, tem uma questão que ninguém gosta muito de falar, mas que está lá, pesando nas costas de todo mundo: a grana está curta, os patrocinadores estão exigindo resultados imediatos, e o sistema de pontos da UCI para manter a licença WorldTour virou um pesadelo.

Sabe o que acontece quando você junta pressão financeira com corridas mais rápidas e pelotão mais agressivo? Uma bomba-relógio, basicamente. Os times menores vivem na corda bamba, e mesmo as equipes grandes estão sentindo o aperto. Não à toa vimos a fusão da Lotto com a Intermarché e o desaparecimento completo da Arkéa-B&B Hotels.

Para os corredores, isso significa que não existe mais corrida “fácil”. Toda prova, desde a Tour de France até uma etapa perdida no meio da Noruega, virou uma batalha do inferno. O nível está absurdamente alto em qualquer lugar que você vá. E isso cobra seu preço – físico, mas principalmente mental.

Guarnieri não tem ilusões sobre essa realidade: “Agora as carreiras são muito mais curtas e muito mais exigentes do que antes. Seja você correndo o Tour de France ou a Arctic Race of Norway ou o Tour of Hungary, o nível é super alto em qualquer corrida. Isso torna cada dia, cada corrida, muito exigente – fisicamente, mas principalmente mentalmente. Nunca tem uma corrida onde você pode simplesmente se preparar para correr”.

Quando os Grandes Campeões Dizem Basta

O que está acontecendo não é só sobre corredores comuns chegando ao fim natural de suas carreiras. Estamos vendo campeões em plena forma olhando para o espelho e decidindo que não vale mais a pena.

Pega o caso do Jannik Steimle, por exemplo. O cara passou os melhores anos da carreira na QuickStep, uma das melhores equipes do mundo. Em novembro, ele postou no Instagram explicando sua decisão de parar. E sabe o que mais chamou atenção? A honestidade brutal do post.

Ele falou abertamente sobre como ter um filho mudou completamente sua perspectiva sobre os riscos que estava correndo. Sobre como “a exigência de constantemente empurrar os limites vem com um risco – um que eu, como pai de família, avalio de forma diferente hoje”. E cara, isso é pesado. Isso é real.

Steimle continuou falando sobre sua empolgação em ter “uma vida que não é ditada por watts, horários e calendários de corrida”, e sobre voltar a pedalar “sem pressão, sem obrigação, simplesmente pela alegria de fazer isso”.

E não foi só ele. Simon Yates, um dos melhores escaladores da sua geração, anunciou no começo de 2026 que estava fora. O cara venceu a Vuelta, teve podiums em Grand Tours, era respeitado em todo o pelotão. E simplesmente decidiu que já tinha dado o que tinha que dar.

Quando a Rouleur entrevistou Romain Bardet em janeiro, o francês foi na mesma linha: “Chega um ponto em que a balança pende para o lado errado, e simplesmente não vale a pena fazer tantos sacrifícios para resultados menores”.

O Que Isso Significa Para o Futuro?

Olha, eu não vou mentir: a situação é preocupante. Estamos perdendo não só corredores excepcionais, mas toda uma cultura de profissionalismo e experiência que levou décadas para ser construída. Esses caras que estão saindo não eram só bons de pedal – eles eram líderes, mentores, as pessoas que mantinham alguma ordem no caos.

Guarnieri reconhece que a perda desses veteranos vai ser sentida principalmente dentro das equipes: “O maior impacto de perder todos esses corredores mais velhos vai ser nas próprias equipes deles. É uma desvantagem para os times porque ter alguém que é simplesmente um ombro maior que o seu, porque ele é mais velho e já passou por isso, pode realmente levantar o time quando o momento é difícil. É uma lição que você aprende”.

Mas ao mesmo tempo, tem algo de poético nisso tudo. O ciclismo sempre foi sobre evolução, sobre mudança, sobre cada geração empurrando o esporte para um novo nível. Só que talvez, dessa vez, a mudança tenha vindo rápido demais, violenta demais.

A verdade é que não dá para voltar atrás. Como Guarnieri mesmo diz: “Tudo mudou, e temos que lidar com isso. Não podemos voltar atrás. Acho que está indo em uma direção”. A questão é: será que essa direção é sustentável? Será que o esporte consegue continuar nesse ritmo sem perder ainda mais talentos?

Mais Que Ciclismo, Uma Vida

No fim das contas, o que está acontecendo no ciclismo profissional é um reflexo de algo maior que está rolando no mundo inteiro. As pessoas estão questionando mais, avaliando melhor o custo-benefício das suas escolhas, colocando a qualidade de vida acima de tudo.

Esses corredores que estão se aposentando não são fracos. Não são desistentes. São, na verdade, humanos fazendo escolhas muito conscientes sobre o que querem para suas vidas. E talvez, só talvez, eles estejam mostrando um caminho que o próprio esporte precisa prestar atenção.

Porque no final, como Guarnieri coloca de forma tão bonita: “O ciclismo é apenas uma parte da vida de alguém, uma parte incrível, mas tem que chegar ao fim. Era meu tempo e o momento certo, e eu estava empolgado para fazer algo diferente”.

E talvez seja exatamente isso que o esporte precisa entender: que antes de serem ciclistas profissionais, essas pessoas são seres humanos com vidas, famílias, sonhos que vão muito além de cruzar uma linha de chegada em primeiro lugar. E que está tudo bem em reconhecer quando o preço ficou alto demais.

A era dos ganhos marginais e da evolução gradual acabou. O que vem agora ninguém sabe ao certo. Mas uma coisa é clara: o ciclismo que conhecíamos não existe mais. E talvez, para o bem de todos que pedalam, seja hora de repensar se a velocidade alucinante que estamos imprimindo vale mesmo todos os custos que estão sendo cobrados.


Perguntas Frequentes

Por que tantos ciclistas profissionais estão se aposentando mais jovens?

As aposentadorias precoces acontecem por uma combinação de fatores: o aumento brutal da intensidade das corridas após a pandemia, questões de segurança no pelotão cada vez mais agressivo, a pressão mental constante de competir em alto nível o ano inteiro, e uma reavaliação pessoal sobre qualidade de vida e riscos envolvidos. Muitos corredores, especialmente os que têm família, simplesmente decidiram que os sacrifícios não valem mais a pena os resultados que conseguem alcançar.

Como a pandemia mudou o ciclismo profissional?

A COVID-19 marcou um divisor de águas no ciclismo. Depois do retorno em 2020, as corridas ficaram muito mais agressivas, com ataques acontecendo muito antes do esperado. Isso se combinou com avanços na nutrição esportiva durante as provas, permitindo que os corredores mantivessem potências altas por períodos mais longos. O resultado foi um novo estilo de corrida muito mais exigente física e mentalmente, sem trégua em nenhum momento da temporada.

Qual o papel da nova geração de ciclistas nessa mudança?

Os jovens corredores chegam ao profissionalismo muito mais preparados do que as gerações anteriores, com conhecimento avançado sobre treino, nutrição e análise de dados. Eles são fisicamente mais fortes e não respeitam as hierarquias tradicionais do pelotão. Essa quebra da velha guarda criou um ambiente onde os veteranos perderam o controle que costumavam ter sobre o ritmo e a segurança das corridas, tornando tudo mais caótico e imprevisível.

A pressão financeira no ciclismo está piorando?

Sim, definitivamente. Com patrocinadores exigindo mais resultados, equipes lutando financeiramente (vimos fusões e fechamentos em 2025), e o sistema de pontuação da UCI colocando pressão para manter licenças WorldTour, não existe mais corrida “fácil”. Mesmo em provas de menor prestígio, o nível de competição está altíssimo porque todos precisam pontuar. Isso cria um ambiente de estresse constante que cobra um preço alto dos atletas ao longo de carreiras que antes eram mais longas.

O que o ciclismo perde com a saída desses veteranos?

Além de perder corredores talentosos, o esporte está perdendo liderança, experiência e uma cultura de profissionalismo construída ao longo de décadas. Esses veteranos eram mentores dentro das equipes, ajudavam a manter alguma ordem no pelotão e transmitiam conhecimento valioso para os mais jovens. Sua saída precoce significa que equipes ficam com menos “ombros fortes” para apoiar corredores em momentos difíceis, e o pelotão como um todo fica mais selvagem e menos controlado.

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