Sabe aquela sensação de ficar sem marcha no meio de uma subida técnica? Ou quando você precisa acelerar depois de uma curva fechada e as pernas simplesmente não respondem? Pois é, a cadência no mountain bike é um dos aspectos mais subestimados por quem pedala trilha. E olha, não estou falando daquelas fórmulas mágicas de “pedale sempre a X rpm” que a galera do speed adora. No MTB, a coisa é bem diferente.
Depois de anos pedalando trilha e conversando com preparadores físicos, percebi que ser versátil na cadência faz mais diferença do que qualquer upgrade de componente. E não é exagero não, viu? Quando você domina diferentes ritmos de pedalada, consegue enfrentar qualquer desafio que a trilha jogar na sua cara.
Por Que a Cadência no MTB é Tão Diferente do Ciclismo de Estrada?
Vou ser direto com você: esqueça aquela história de faixa ideal de rpm que funciona para todo mundo. No mountain bike, o terreno muda a cada segundo. Numa hora você está subindo aquele single track íngreme onde mal consegue manter 40 rpm, no segundo seguinte precisa girar rápido para passar por cima de uma raiz traiçoeira.
A verdade é que você precisa ser eficiente em toda a faixa de cadência. Isso mesmo, desde aquela pedalada pesada e lenta até o spin rápido das acelerações. É como ter várias marchas no motor das pernas, sacou?
Outro ponto que muita gente ignora: nas trilhas técnicas, você simplesmente não tem tempo de trocar marcha o tempo todo. Sério, já reparou quantas vezes você mantém a mesma relação por minutos seguidos, só variando a cadência? É aí que mora o segredo dos pilotos mais experientes.
Sentado vs. Em Pé: A Arte de Variar no Selim
Quem pedala MTB passa muito mais tempo em pé que qualquer outro ciclista. Mas tem um detalhe importante aqui: quando você levanta do selim, uma cadência moderada a baixa sempre vai ser mais eficiente. Principalmente se você vai ficar de pé por mais tempo que uns dois ou três segundos.
Pensa comigo: quando você está subindo em pé numa marcha muito leve e girando rápido, logo sente o corpo começar a balançar, não é? Pois então, isso gasta energia à toa e ainda atrapalha sua tração nas trilhas soltas.
Os 4 Treinos que Vão Ampliar Sua Faixa de Cadência
Agora vem a parte boa. Separei quatro treinos testados e aprovados que vão te ajudar a dominar qualquer cadência. Não precisa fazer todos de uma vez, tá? O ideal é ir encaixando eles na sua rotina de treinos ao longo das semanas.
1. Single-Speed: O Treino Mais Libertador (e Desafiador) que Existe
Cara, se você nunca experimentou pedalar com marcha única, está perdendo uma das melhores ferramentas de treino. E olha, nem precisa ter uma bike single-speed. Basta escolher uma relação intermediária e prometer para si mesmo que não vai trocar marcha durante todo o pedal.
O que acontece? Nas subidas, você vai sofrer com aquela marcha pesada, empurrando cada pedalada. Nos trechos planos, vai ter que girar rápido para manter velocidade. E nas descidas? Bom, aí você pode até descansar um pouco enquanto desliza.
Esse treino força você a se adaptar ao terreno só pela variação da cadência, sem a muleta das trocas de marcha. No começo é estranho, mas depois de algumas vezes você vai sentir uma diferença absurda na sua capacidade de pedalar em qualquer situação.
2. Subida Longa em Ritmo Controlado: Construindo a Base Muscular
Esse aqui é para quem quer músculos de aço nas pernas. Procure uma subida que leve uns 30 minutos para completar. A ideia é manter uma intensidade moderada (zona 3 de frequência cardíaca ou cerca de 84-94% do seu FTP se você usa medidor de potência).
A cadência alvo fica entre 50 e 70 rpm. Parece lento? É mesmo! Mas é exatamente esse ritmo mais pesado que vai fortalecer seus músculos para aquelas subidas técnicas onde você não consegue girar rápido.
Aqui vai o truque especial: a cada cinco minutos, reduza ainda mais a cadência para 30-40 rpm, levante do selim e pedale em pé por 20-30 segundos. Mantém a mesma intensidade, só muda a posição. Isso serve para usar grupos musculares diferentes, aliviar a pressão no quadril e alongar os flexores enquanto continua subindo.
Para quem já tem experiência com single-speed, pode inverter: pedale 30 minutos em pé e sente apenas por 20-30 segundos a cada cinco minutos. É outro nível de sofrimento, mas funciona demais.
3. Spin-Ups: Aprendendo a Girar Como um Relógio Suíço
Esse treino parece simples, mas exige muita coordenação motora. Em uma marcha bem leve, você vai aumentar gradualmente a cadência durante 30 segundos até chegar no seu limite de rpm mantendo a pedalada suave e controlada.
O segredo está em manter o corpo relaxado. Se você começar a quicar no selim ou perder a fluidez, significa que passou do ponto. Quando isso acontecer, reduza um pouco a velocidade, recupere a forma e mantenha ali.
Recomendo fazer 8 repetições de 30 segundos, com 3 minutos de pedalada tranquila entre cada uma. Você pode encaixar esse treino no aquecimento ou no desaquecimento de qualquer pedal. É rápido, eficiente e os resultados aparecem logo.
4. Acelerações de Alta Força: Potência Explosiva para Situações Reais
Esse aqui simula perfeitamente aquelas situações de corrida ou de trilha técnica onde você precisa de explosão. Encontre uma subida leve e reduza a velocidade até estar quase parando, pedalando com apenas 30-40 rpm naquela marcha pesada.
Agora vem a parte boa: sem trocar de marcha, acelere o mais forte que conseguir até atingir sua cadência máxima. Mantém essa velocidade por uns 2 segundos e depois deixa a força diminuir naturalmente. O esforço todo dura cerca de 8 a 10 segundos.
Faça 10 repetições com 3 minutos de descanso completo entre elas. Parece pouco? Experimente fazer com tudo que tem e vai ver que é suficiente. Esse treino desenvolve tanto força quanto a capacidade de acelerar rapidamente em diferentes cadências.
Como Encaixar Esses Treinos na Sua Rotina
Olha, não adianta querer fazer tudo de uma vez. O ideal é escolher um ou dois treinos por semana e ir alternando. Por exemplo: numa semana você faz o single-speed e os spin-ups, na outra faz a subida longa e as acelerações.
Uma dica que aprendi com o tempo: os spin-ups são perfeitos para adicionar em qualquer treino, seja no aquecimento ou no final. Já a subida longa e as acelerações exigem mais das pernas, então deixe para dias que você está descansado.
E tem outra coisa importante: esses treinos vão te cansar diferente. Você pode estar acostumado a fazer pedais longos, mas trabalhar especificamente a variação de cadência recruta os músculos de jeitos diferentes. Respeita o corpo e dá tempo para se adaptar.
Os Benefícios Além da Performance
Uma coisa legal que percebi depois de trabalhar a cadência: as pernas ficam menos cansadas nos pedais longos. Parece contraditório, mas quando você consegue variar a cadência conforme a trilha pede, acaba distribuindo melhor o esforço entre diferentes grupos musculares.
Além disso, sua técnica de pilotagem melhora naturalmente. Quando você não precisa mais pensar tanto nas trocas de marcha, sobra mais atenção para ler o terreno, escolher as linhas e reagir rápido aos obstáculos.
Outro ponto: você vai perceber que consegue manter tração em terrenos soltos com muito mais facilidade. Isso porque pedalar com cadência moderada a baixa em certas situações evita aquela derrapada das rodas que acontece quando você tenta girar rápido demais.
Erros Comuns ao Treinar Cadência
Vou te contar alguns erros que eu mesmo cometi quando comecei a trabalhar isso. O primeiro é achar que precisa fazer todos os treinos na intensidade máxima. Calma lá, campeão! Cada treino tem seu objetivo específico e sua intensidade ideal.
Outro erro clássico: negligenciar o descanso entre as repetições. Principalmente nas acelerações de alta força, você precisa estar recuperado para executar o próximo tiro com qualidade. Fazer várias repetições cansado só vai te ensinar a ter uma técnica ruim.
E tem a galera que quer resultados imediatos. Olha, trabalhar cadência é um processo de adaptação neuromuscular que leva algumas semanas. Você precisa dar tempo para o corpo aprender esses novos padrões de movimento.
Sinais de que Você Está Evoluindo
Como saber se o treino está funcionando? Primeiro sinal: você vai perceber que consegue manter uma cadência baixa sem travar as pernas. Aquela sensação de força acabando na metade da subida vai diminuir.
Segundo sinal: nas acelerações, você vai notar que consegue passar de marcha pesada para leve com muito mais fluidez. O corpo vai responder mais rápido quando você precisar mudar o ritmo.
E o melhor indicador de todos: você vai parar de pensar tanto sobre isso durante os pedais. Quando a variação de cadência vira automática, é porque seu corpo já internalizou essas habilidades.
Equipamento Faz Diferença?
Muita gente me pergunta se precisa de equipamento especial para trabalhar cadência. A resposta curta é: não. Sua bike normal já serve perfeitamente.
Agora, se você tem acesso a um sensor de cadência, ele pode te ajudar a ter noção exata dos números. Mas sinceramente? Depois de um tempo você aprende a sentir a cadência sem precisar olhar para nenhum número.
O que realmente importa é ter uma bike bem regulada, com as marchas funcionando direitinho. De nada adianta tentar fazer esses treinos se sua corrente está pulando ou se os câmbios não estão ajustados.
Perguntas Frequentes sobre Treino de Cadência no MTB
Qual a cadência ideal para mountain bike?
Não existe uma cadência ideal universal para MTB. Diferente do ciclismo de estrada, no mountain bike você precisa ser eficiente em toda a faixa de cadência, desde 30 rpm em subidas técnicas até mais de 100 rpm nas acelerações. O segredo é desenvolver versatilidade para adaptar sua cadência conforme o terreno e a situação exigem.
Com que frequência devo fazer treinos de cadência?
O ideal é incluir trabalhos específicos de cadência 2-3 vezes por semana, alternando entre os diferentes tipos de treino. Você pode fazer spin-ups como parte do aquecimento em qualquer treino, enquanto as subidas longas e acelerações merecem sessões dedicadas. Lembre-se de respeitar os dias de descanso para permitir adaptação neuromuscular adequada.
É melhor pedalar sentado ou em pé nas subidas de MTB?
Depende da situação e duração do esforço. Para trechos curtos e obstáculos pontuais, pedalar em pé com cadência moderada a baixa é mais eficiente. Já em subidas longas, o ideal é alternar entre as duas posições a cada poucos minutos, o que ajuda a usar grupos musculares diferentes, aliviar pressão no quadril e alongar os flexores do quadril enquanto mantém o esforço.
Quanto tempo leva para melhorar a versatilidade de cadência?
As primeiras adaptações neuromotoras acontecem nas primeiras 3-4 semanas de treino consistente, mas para desenvolver verdadeira maestria na variação de cadência você precisa de pelo menos 8-12 semanas de trabalho regular. A boa notícia é que você vai sentir progressos graduais desde o início, com cada sessão ficando um pouco menos desconfortável e mais natural.
Posso fazer treino de cadência em rolo ou preciso estar na trilha?
Você pode fazer praticamente todos esses treinos em rolo ou trainer, principalmente os spin-ups e as acelerações de alta força. Os rolos inteligentes que simulam subidas são perfeitos para o treino de subida longa. No entanto, o treino single-speed e a aplicação prática dessas habilidades precisam ser feitos na trilha, onde você enfrenta as variações reais de terreno, tração e demandas técnicas que tornam a versatilidade de cadência tão importante.





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