O irlandês Ben Healy, que conquistou a camisa amarela do Tour de France 2025, acaba de trazer à tona uma conversa que muita gente no ciclismo profissional prefere evitar. Em uma entrevista franca ao jornal Irish Mirror, o corredor da EF Education-EasyPost falou sobre os desafios reais que os sistemas de controle antidoping enfrentam hoje em dia – e não poupou nas verdades desconfortáveis.
Aos 24 anos, Healy já carrega nas costas a responsabilidade de ser uma das principais esperanças do ciclismo irlandês moderno. Depois de conquistar o bronze no Mundial de Ruanda em setembro passado – o melhor resultado de um irlandês desde Sean Kelly em 1989 – ele sabe bem o peso que vem com o sucesso. E também sabe que, infelizmente, qualquer grande performance no pelotão vem acompanhada de suspeitas e questionamentos.
A honestidade que o esporte precisa ouvir
Quando perguntado sobre o estado atual do controle antidoping no ciclismo, Healy não tentou pintar um quadro cor-de-rosa da situação. Ao contrário de muitos atletas que preferem respostas diplomaticamente vazias, o irlandês foi direto ao ponto com uma sinceridade quase refrescante:
“Em qualquer esporte, acho impossível dizer: ‘Ah sim, o esporte está 100% limpo’. Isso não significa diminuir tudo que o esporte e os órgãos governamentais fazem para tentar mantê-lo limpo e pegar as pessoas.”
É uma declaração que merece atenção. Healy não está dizendo que o ciclismo é um antro de trapaças – longe disso. O que ele está fazendo é reconhecer algo que qualquer pessoa racional já sabe: sistemas de controle têm limites. E fingir que esses limites não existem é, na melhor das hipóteses, ingênuo.
O caso Lazkano como prova de que o sistema funciona
Para ilustrar seu ponto, Healy citou um exemplo bem recente: Oier Lazkano, o corredor espanhol que foi provisoriamente suspenso após anomalias detectadas em seu passaporte biológico. O caso, que resultou na perda do lugar de Lazkano na Red Bull-Bora-Hansgrohe, demonstra que os mecanismos de detecção estão, de fato, funcionando.
“Olhe para o Oier Lazkano – todo mundo está sendo testado minuciosamente e com bastante frequência, para ser honesto, potencialmente até mais do que em outros esportes“, observou o irlandês. E ele tem razão. O ciclismo profissional é, sem dúvida, um dos esportes mais rigorosamente testados do mundo. Os ciclistas do WorldTour podem ser acordados às 6 da manhã para testes surpresa, precisam informar sua localização 24/7 através do sistema ADAMS da WADA, e estão sujeitos a controles em competição e fora dela.
Mas – e aqui está o ponto crucial que Healy está levantando – mesmo com toda essa estrutura impressionante, garantias absolutas são impossíveis. Sempre haverá aqueles que tentam ficar um passo à frente, e sempre haverá uma corrida entre os trapaceiros e os detectores.
Velocidades crescentes: culpa do doping ou evolução tecnológica?
Outro ponto fascinante que Healy abordou foi a questão das velocidades médias cada vez mais altas no Tour de France e em outras grandes corridas. Nos últimos anos, temos visto recordes sendo quebrados com frequência alarmante, o que naturalmente levanta sobrancelhas e alimenta suspeitas.
Mas Healy aponta para uma explicação muito mais mundana – e comprovável: a evolução tecnológica das bicicletas.
“Acho que a maior coisa a atribuir ao porquê as corridas estão tão rápidas agora – olhe para o equipamento que estamos usando agora comparado a quando eu estava correndo meu primeiro ano no sub-23, que foi há apenas cinco anos. As bikes são praticamente do dia para a noite diferentes, essa é a primeira coisa.”
E ele está absolutamente certo. Nos últimos cinco anos, testemunhamos uma revolução silenciosa na tecnologia ciclística. Rodas mais aerodinâmicas, quadros otimizados em túneis de vento, transmissões sem fio mais eficientes, pneus tubeless de alta performance, posicionamentos estudados ao milímetro – tudo isso contribui para ganhos marginais que, somados, resultam em diferenças significativas.
Além disso, Healy menciona a mudança nas táticas de corrida. Ele cita especificamente a UAE Team Emirates de Tadej Pogačar, que revolucionou a forma como as equipes dominam as corridas por etapas:
“Olhe para a UAE – eles simplesmente montam seu trem e, um por um, os corredores puxam a corrida na velocidade máxima possível. Isso faz uma grande diferença.”
Esse estilo de corrida implacável, onde uma equipe simplesmente acelera desde o início das etapas de montanha, elevando o ritmo a um nível que elimina competidores um por um, é uma abordagem relativamente nova. E é devastadoramente eficaz. Mas também requer um nível de preparação física, táctica e tecnológica que poucos anos atrás seria considerado impossível – sem necessariamente envolver substâncias proibidas.
Os planos ambiciosos de Healy para 2026
Falando sobre seus objetivos para a temporada 2026, Healy foi ao mesmo tempo ambicioso e realista. Ele deixou claro que seu foco principal será o Campeonato Mundial no Canadá, onde buscará melhorar ainda mais seu resultado do bronze conquistado em Ruanda.
Quanto ao Tour de France, o irlandês mantém os pés no chão. Embora reconheça que todo ciclista sonha em vencer a Grande Boucle, ele admite que “é potencialmente um pouco ambicioso demais” no momento. Em vez disso, sua primavera será focada em corridas como a Strade Bianche e as Clássicas das Ardenas – provas que combinam perfeitamente com suas características de escalador explosivo.
É uma abordagem inteligente. Ao invés de se queimar tentando competir desde já com fenômenos como Pogačar ou Remco Evenepoel, Healy está construindo sua carreira de forma estratégica, focando em objetivos alcançáveis enquanto continua desenvolvendo suas capacidades para desafios maiores no futuro.
O contexto mais amplo: ciclismo e a luta contra o doping
As declarações de Healy chegam em um momento particularmente sensível para o ciclismo profissional. O esporte ainda carrega as cicatrizes do passado – a era EPO dos anos 90, o escândalo de Lance Armstrong, inúmeros outros casos que mancharam a reputação da modalidade por décadas.
Mas também é verdade que o controle antidoping evoluiu tremendamente. O passaporte biológico, implementado em 2008, revolucionou a detecção ao permitir que os fiscais identifiquem variações suspeitas nos marcadores sanguíneos dos atletas ao longo do tempo – mesmo quando não há uma substância específica detectável. É como um “perfil” biológico individual que levanta bandeiras vermelhas quando algo não bate.
Além disso, os métodos de detecção estão constantemente se aprimorando. Amostras podem ser armazenadas por até 10 anos e retestadas quando novas técnicas ficam disponíveis. Isso significa que trapaceiros de hoje podem ser pegos pelos avanços de amanhã – um efeito dissuasor poderoso.
Ainda assim, como Healy corretamente observa, certeza absoluta é impossível. E talvez reconhecer essa limitação seja, paradoxalmente, o primeiro passo para manter a integridade do esporte. Quando admitimos que o sistema não é perfeito, podemos trabalhar continuamente para melhorá-lo, em vez de nos acomodarmos em falsas garantias.
A maturidade de uma nova geração
O que mais impressiona nas declarações de Healy não é apenas o conteúdo, mas o tom. Aqui temos um corredor jovem, no auge de sua carreira, disposto a falar abertamente sobre um assunto delicado sem recorrer a clichês ou respostas ensaiadas. É o tipo de honestidade que o esporte precisa desesperadamente.
Em vez de defensividade ou negação, vemos reconhecimento da complexidade do problema. Em vez de apontar dedos, vemos uma análise equilibrada dos diferentes fatores que contribuem para performances impressionantes. É uma maturidade que vai além de seus 24 anos.
Healy representa uma nova geração de ciclistas que cresceu vendo as consequências do doping – não apenas para os trapaceiros, mas para todo o esporte. Eles entendem que a transparência e a honestidade são tão importantes quanto as vitórias em si. Talvez seja isso que, no final das contas, ajudará a restaurar a confiança pública no ciclismo: não a negação dos problemas, mas o reconhecimento franco deles e o compromisso contínuo de enfrentá-los.
Enquanto isso, Healy continuará fazendo o que faz de melhor: treinar duro, correr limpo e, ocasionalmente, brindar o público com aqueles ataques explosivos que o tornaram um dos nomes mais empolgantes do pelotão atual. E se tudo correr bem, 2026 pode ser o ano em que veremos esse talento irlandês brilhar ainda mais intensamente – não apenas pelas vitórias, mas pela integridade com que as conquista.
Perguntas Frequentes
1. Por que as velocidades médias no Tour de France estão aumentando tanto nos últimos anos?
As velocidades crescentes no Tour de France são resultado principalmente da evolução tecnológica das bicicletas e mudanças nas táticas de corrida. Nos últimos cinco anos, houve avanços significativos em aerodinâmica, materiais de quadro, rodas, pneus e componentes. Além disso, equipes como a UAE Team Emirates adotaram estratégias mais agressivas, mantendo ritmos elevados desde o início das etapas. Esses fatores combinados explicam grande parte do aumento de performance, independentemente de questões relacionadas ao doping.
2. Como funciona o passaporte biológico no ciclismo?
O passaporte biológico é um sistema de monitoramento que acompanha variáveis biológicas de cada atleta ao longo do tempo, como valores sanguíneos e hormonais. Em vez de procurar substâncias específicas proibidas, o sistema identifica mudanças anormais nos marcadores individuais do ciclista. Se os valores se desviarem significativamente do perfil estabelecido, isso pode indicar o uso de substâncias proibidas ou métodos de dopagem, mesmo quando a substância em si não é detectável diretamente.
3. Com que frequência os ciclistas profissionais são testados para doping?
Os ciclistas do WorldTour estão entre os atletas mais testados do mundo. Eles podem ser submetidos a controles surpresa a qualquer momento, inclusive fora de competição. Os atletas devem fornecer sua localização exata através do sistema ADAMS da WADA, permitindo que fiscais apareçam sem aviso prévio para coletar amostras de sangue e urina. Durante as grandes competições como o Tour de France, vencedores de etapa e líderes de classificação são automaticamente testados, além de outros corredores selecionados aleatoriamente.
4. Quais são os objetivos principais de Ben Healy para 2026?
Para 2026, o principal objetivo de Ben Healy é conquistar a camisa arco-íris no Campeonato Mundial no Canadá, após ter conquistado o bronze em Ruanda. Na primavera, ele focará em corridas como a Strade Bianche e as Clássicas das Ardenas, que se adequam bem ao seu perfil de escalador explosivo. Quanto ao Tour de France, embora reconheça que todo ciclista sonha com a vitória, Healy admite que competir pelo título geral ainda é “um pouco ambicioso demais” nesta fase de sua carreira.
5. Por que Ben Healy diz que é impossível garantir que qualquer esporte está 100% limpo?
Healy reconhece realisticamente que nenhum sistema de controle é perfeito. Embora o ciclismo tenha um dos programas antidoping mais rigorosos do esporte mundial, sempre existirão limitações nos métodos de detecção e pessoas tentando ficar à frente dos testes. Sua declaração não é uma crítica aos esforços antidoping, mas sim um reconhecimento honesto de que certezas absolutas são impossíveis em qualquer esporte competitivo. Esse tipo de transparência, segundo especialistas, é mais saudável para o esporte do que falsas garantias que podem criar complacência.

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