Quem acompanha o ciclismo profissional de perto sabe que a relação entre fãs e atletas mudou bastante nos últimos anos. Com a explosão das redes sociais, aquele encontro espontâneo na estrada virou oportunidade de conteúdo — e, não raro, fonte de problemas. É justamente por isso que a Emirates-XRG decidiu adotar uma medida que, até pouco tempo atrás, seria impensável: escalar motos batedoras para proteger Tadej Pogačar durante os treinos.
Por que a Emirates-XRG decidiu usar batedores nos treinos de Tadej Pogačar
A decisão não surgiu do nada. Uma sequência de episódios desagradáveis envolvendo fãs e ciclistas profissionais acendeu o alerta dentro da estrutura da equipe dos Emirados Árabes. O diretor esportivo Matxin Joxean Fernández explicou ao jornal espanhol AS que o fenômeno das redes sociais transformou treinos abertos em verdadeiras armadilhas.
“Isso é sobre momentos e conseguir mais visualizações, algo que está muito na moda hoje em dia”, disse Fernández. O espanhol detalhou situações em que ciclistas amadores, tomados pela empolgação de encontrar seus ídolos, sacam o celular no meio da pista para gravar vídeos — sem considerar o trânsito, a velocidade do grupo ou os riscos envolvidos.
Fernández foi além e apontou um problema que muitos profissionais enfrentam calados: quando o ciclista reage de forma ríspida para evitar um acidente, é ele quem sai mal na história. O vídeo editado, sem contexto, circula nas redes e o atleta vira vilão. “O que vemos é o que percebemos como certo ou errado. Às vezes não consideramos o contexto completo da situação”, completou o dirigente da Emirates-XRG.
Como funciona o esquema de proteção durante os treinos
Durante o estágio de pré-temporada da equipe em Alicante, na Espanha, a Emirates-XRG colocou em prática o novo protocolo de segurança. Uma motocicleta passou a acompanhar o grupo de Tadej Pogačar, posicionada logo atrás dos ciclistas.
A lógica é simples e eficiente. A equipe treina em grupos reduzidos de cerca de oito corredores — diferente dos pelotões de vinte ou mais que outros times costumam formar. Grupos menores permitem que os carros ultrapassem com mais facilidade, reduzindo o impacto no trânsito local. Porém, quando ciclistas amadores se juntam ao grupo atraídos pela presença de Pogačar, esse número cresce rapidamente e o trânsito trava.
“O que fazemos é colocar uma moto atrás do Tadej para garantir que o grupo pequeno seja respeitado e que os carros possam passar sem criar um engarrafamento”, explicou Fernández. É uma solução que equilibra a segurança do atleta com o bom senso no convívio com outros usuários da via.
O episódio que fez Tadej Pogačar se pronunciar publicamente
Na semana passada, Tadej Pogačar publicou um desabafo no seu perfil do Strava que repercutiu em todo o mundo do ciclismo. O campeão do Tour de France relatou que foi xingado por um fã que ficou impaciente ao ser pedido para aguardar alguns minutos antes de tirar uma foto.
O esloveno pediu respeito e bom senso. É o tipo de situação que parece banal, mas que se repete com uma frequência preocupante. Pogačar estava conversando — possivelmente com companheiros de equipe ou membros do staff — quando foi abordado. Ao pedir gentilmente que o fã esperasse um momento, recebeu uma resposta agressiva. O desabafo no Strava trouxe à tona um debate que fervilha nos bastidores do pelotão há tempos.
A queda de Jonas Vingegaard causada por fã insistente
Se o caso de Pogačar foi constrangedor, o de Jonas Vingegaard teve consequências bem mais sérias. Em janeiro, o dinamarquês da Visma-Lease a Bike sofreu uma queda durante um treino ao tentar se livrar de um ciclista amador que insistia em segui-lo numa descida.
Vingegaard, que já passou por um gravíssimo acidente na Volta ao País Basco em 2024, acabou no chão tentando escapar de quem queria apenas um vídeo ou uma selfie. O resultado foi que o bicampeão do Tour de France perdeu o UAE Tour, uma prova importante no calendário de preparação da temporada.
Esses dois episódios, envolvendo justamente os dois maiores nomes do ciclismo mundial atual, aceleraram a tomada de decisão dentro da Emirates-XRG e levantaram discussões em outras equipes do UCI WorldTour.
Um problema que vai além de Pogačar e da Emirates-XRG
A verdade é que a questão dos fãs invadindo o espaço de trabalho dos ciclistas profissionais não é exclusiva de Tadej Pogačar ou da Emirates-XRG. O ciclismo vive um momento de popularidade sem precedentes — impulsionado por documentários como o “Tour de France: Unchained” da Netflix — e isso naturalmente atrai mais pessoas para as estradas onde os profissionais treinam.
Regiões tradicionais de treinamento como a Costa Blanca espanhola, Mallorca e o sul da França viram o número de ciclistas amadores disparar nos últimos anos. O problema é que nem todos compreendem que, para um profissional, o treino é trabalho. Não é passeio, não é momento de lazer. Cada pedal faz parte de uma planilha milimetricamente calculada, e interrupções podem comprometer horas de preparação.
Fernández pede empatia de ambos os lados
O que chamou a atenção na entrevista de Matxin Fernández foi o tom equilibrado. Ele não demonizou os fãs, não pediu que fossem proibidos de se aproximar. Pelo contrário, fez questão de reconhecer que erros acontecem dos dois lados.
“Se cometemos um erro em algum momento, pedimos desculpas”, disse o dirigente. E completou com uma reflexão que, honestamente, serve para muito além do ciclismo: “Todos temos que nos colocar no lugar do outro. Precisamos estar dispostos a pedir desculpas e ser respeitosos”.
Fernández usou o próprio exemplo de Pogačar para ilustrar: imagine que você está no meio de uma conversa importante e alguém chega pedindo uma foto. Você pede dois minutos de paciência e a pessoa se irrita. Quem está certo? Quem pede um momento ou quem exige atenção imediata?
O que muda daqui para frente no pelotão profissional
A iniciativa da Emirates-XRG pode abrir caminho para que outras equipes adotem protocolos semelhantes. A Visma-Lease a Bike, por razões óbvias após o incidente com Vingegaard, já estuda alternativas. E não seria surpresa se a própria UCI acabasse emitindo alguma orientação formal sobre o assunto nos próximos meses.
Para os fãs que adoram encontrar seus ídolos nas estradas de treino, a mensagem é clara: admirem, torçam, vibrem — mas com distância e respeito. Tadej Pogačar e os demais ciclistas do WorldTour são atletas em horário de trabalho. Um aceno rápido, um grito de incentivo à beira da estrada, tudo isso é bem-vindo. Agora, colar na roda, sacar o celular no meio do grupo e exigir fotos é outra história.
O ciclismo é, talvez, o esporte profissional mais acessível do mundo. Você pode literalmente pedalar ao lado de um campeão do Tour de France numa manhã qualquer de terça-feira. Esse privilégio precisa ser preservado com bom senso — caso contrário, medidas mais restritivas podem acabar afastando os fãs de vez.
FAQ — Perguntas frequentes
Por que a Emirates-XRG usa motos batedoras para proteger Tadej Pogačar?
A equipe adotou motos batedoras após uma série de incidentes com fãs que se aproximavam perigosamente durante os treinos, buscando fotos e vídeos para redes sociais. A moto garante que o grupo de treino de Pogačar mantenha o tamanho ideal e que o trânsito ao redor não seja prejudicado.
O que aconteceu com Jonas Vingegaard por causa de um fã?
Jonas Vingegaard caiu durante um treino em janeiro de 2026 ao tentar se desvencilhar de um ciclista amador que insistia em segui-lo numa descida. A queda fez com que o dinamarquês perdesse o UAE Tour, comprometendo parte de sua preparação para a temporada.
Tadej Pogačar já foi agredido verbalmente por um fã?
Sim. Em fevereiro de 2026, Pogačar relatou no Strava que foi xingado por um fã que ficou impaciente quando o ciclista pediu que aguardasse alguns minutos antes de tirar uma foto. O episódio gerou grande repercussão e reacendeu o debate sobre os limites da interação entre fãs e profissionais.
Outras equipes do WorldTour também usam batedores nos treinos?
A Emirates-XRG foi pioneira nessa medida, mas outras equipes, como a Visma-Lease a Bike, já avaliam alternativas semelhantes após o acidente com Vingegaard. A tendência é que mais equipes adotem protocolos de segurança nos próximos meses.
É permitido pedalar junto com ciclistas profissionais durante os treinos?
As estradas são públicas e qualquer pessoa pode utilizá-las. No entanto, colar na roda de um grupo profissional, filmar enquanto pedala ou exigir atenção dos atletas pode criar situações perigosas. O ideal é manter distância, respeitar o espaço de trabalho dos ciclistas e, se possível, demonstrar admiração de forma breve e segura.





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