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Fabio Jakobsen e o lado obscuro do ciclismo profissional: quando pedalar demais pode destruir sua saúde

Fabio Jakobsen revela o lado obscuro do ciclismo profissional ao comparar ciclistas a fisiculturistas do sistema cardiovascular.

Fabio Jakobsen e o lado obscuro do ciclismo profissional

Sabe aquela história de que “o que não te mata te fortalece”? Pois é, no ciclismo profissional essa frase deveria vir com um asterisco enorme e uma nota de rodapé explicando que, às vezes, o esporte pode sim te deixar mais fraco. E quem está contando isso não sou eu, mas Fabio Jakobsen, um dos velocistas mais talentosos que vimos nos últimos anos.

O holandês deu uma entrevista recentemente em Calpe que deveria fazer todo mundo parar para pensar. Não foi aquela entrevista de início de temporada cheia de promessas vazias e frases prontas. Foi diferente. Foi real. Foi um cara de 29 anos olhando nos olhos da realidade e admitindo algo que muita gente no pelotão prefere varrer para debaixo do tapete: o ciclismo profissional pode ser extremamente prejudicial para sua saúde.

Quando ser atleta de elite vira uma roleta russa cardiovascular

A frase que Jakobsen soltou deveria virar manchete em todo lugar: “Somos como fisiculturistas, mas fisiculturistas do sistema cardiovascular”. Deixa eu te explicar o que isso significa na prática, porque não é só uma metáfora bonita para ganhar cliques.

Quando um fisiculturista exagera no treino e nos anabolizantes, a gente vê. O cara fica com aquele shape exagerado, veias saltadas, às vezes problemas cardíacos aparecem. Mas no ciclismo? O coração e as artérias estão lá dentro, trabalhando no limite, sendo empurrados além do que a natureza planejou, e ninguém vê nada até que seja tarde demais. Até que um problema na artéria ilíaca apareça do nada e pare sua carreira.

Foi exatamente isso que aconteceu com Jakobsen. Em março do ano passado, diagnosticaram nele uma restrição no fluxo sanguíneo da artéria ilíaca — o mesmo problema que acabou de forçar Eli Iserbyt a se aposentar precocemente e que está atormentando outros ciclistas pelo pelotão afora.

Dois anos de inferno: quando tudo dá errado

Vamos ser sinceros aqui. As últimas duas temporadas de Jakobsen foram, nas palavras dele mesmo, “uma merda”. E olha que ele não é de reclamar. Depois de sobreviver àquele acidente horroroso na Polônia em 2020 — sério, quem viu aquelas imagens nunca mais esquece —, o cara voltou, ganhou etapas de Grand Tour, mostrou que era um dos sprinters mais rápidos do mundo.

Mas aí veio 2024. Uma vitória. Uma única vitória em todo o ano. Para um cara que estava acostumado a levantar os braços regularmente, isso é devastador psicologicamente. E 2025 foi ainda pior. Ele mal correu, e quando correu, não conseguia entregar nos sprints finais. Aquela explosão que faz a diferença nos últimos 200 metros simplesmente não estava lá.

Imagina a frustração. Você treina igual (ou até mais), dorme direito, come certinho, faz tudo que mandam você fazer, e na hora H suas pernas não respondem. É desesperador. “Pelo menos havia um diagnóstico de por que eu não conseguia mais sprintar para vencer no final”, disse Jakobsen sobre descobrir o problema arterial. “Alívio é a palavra errada, mas pelo menos você entende o porquê e como, e entende que tinha menos a ver com treino, nutrição, sono e todas as outras coisas.”

O preço que ninguém te conta que você vai pagar

Aqui é onde a história fica séria de verdade. Jakobsen explicou com uma honestidade brutal: “Conforme você envelhece, percebe que nada é permanente e o esporte de alto nível pode ser prejudicial ou às vezes deletério para sua saúde. Mas felizmente hoje em dia podemos pelo menos consertar isso no mundo médico.”

Vamos pensar juntos no que significa um treino normal de um ciclista WorldTour. Cinco, seis, sete horas em cima da bike. Não é pedalar devagar no parque não. É treino intervalado puxado, é subir montanha, é manter frequência cardíaca elevada por horas a fio. E depois tem as corridas. Três semanas de Grand Tour onde você pedala 21 dias seguidos, muitas vezes com mais de 5 horas de esforço intenso por dia.

O corpo humano não foi feito para isso. A gente evoluiu para caçar, correr atrás da presa por alguns quilômetros, descansar. Não para ficar em cima de uma bicicleta empurrando 400 watts por horas consecutivas durante meses. E aí o sistema cardiovascular começa a sofrer adaptações que nem sempre são saudáveis.

As artérias ilíacas — aquelas que levam sangue para as pernas — ficam comprimidas pela posição na bike, pelo esforço extremo, pelo volume absurdo de treinamento. Com o tempo, elas podem desenvolver restrições no fluxo sanguíneo. É um problema que está se tornando assustadoramente comum no pelotão profissional, especialmente entre velocistas que dependem de explosões anaeróbicas máximas.

A pressão de 2026: vencer ou desaparecer

Agora Jakobsen está numa posição complicadíssima. Ele tem um contrato de três anos com a dsm-firmenich PostNL terminando neste inverno. O time já tem outros velocistas bons — Pavel Bittner e Casper van Uden estão lá, esperando oportunidades. E no ciclismo, diferente de outros esportes, não tem muito espaço para sentimentalismo.

Se Jakobsen não mostrar resultado logo no início da temporada, dificilmente o time vai querer renovar. E com o histórico recente dele, outros times vão pensar duas vezes antes de fazer uma oferta. Ele sabe disso. Todo mundo sabe disso.

“Nem estou pensando nisso ainda, estou focado no aqui e agora”, disse ele quando perguntaram sobre o futuro. “Não estou conversando com outros times ainda porque ninguém sabe — e eu também não sei — como vai ser. Não acho que seja meu último ano sobre a bike. Mas primeiro precisamos começar a correr e ter um bom semestre para ver como vai.”

A dsm-firmenich PostNL também está numa situação delicada. Perderam Tobias Lund Andresen, Romain Bardet e Oscar Onley nos últimos meses. Não contrataram nenhum líder para substituí-los. Teoricamente, isso abre espaço para Jakobsen ter mais oportunidades se conseguir recuperar a forma. Mas é um “se” enorme.

O plano para 2026: começar devagar e torcer

Jakobsen não vai fazer Grand Tour por enquanto. Seria loucura. Ele vai começar a temporada nas provas do Oriente Médio — AlUla Tour e UAE Tour. São corridas com muitas etapas planas, perfeitas para sprinters, onde ele pode testar as pernas sem se expor demais.

Depois vem o calendário belga: Le Samyn, Nokere Koerse e Scheldeprijs. Essas semi-clássicas de paralelepípedos são o terreno dele. Se conseguir brigar por vitórias ali, é sinal de que a forma está voltando. Se não conseguir, bem… a conversa sobre renovação de contrato fica bem difícil.

“Acho que se você vem de um ano assim, então falar apenas sobre vencer talvez seja até um passo muito alto”, admitiu Jakobsen com realismo. “Posso sentir no treino que está nas pernas, e agora é sobre mostrar aquele sprint final no final das corridas.”

Uma epidemia silenciosa no pelotão

O que está acontecendo com Jakobsen não é caso isolado. Simon Yates acabou de se aposentar de surpresa, citando que o ciclismo é um esporte sacrificial demais. Eli Iserbyt foi forçado a parar por problemas arteriais idênticos aos de Jakobsen. E tem mais gente sofrendo em silêncio, com certeza.

O problema é que existe uma cultura no ciclismo profissional de empurrar limites constantemente. Treinar mais, correr mais, recuperar menos. Os caras estão competindo 80, 90, 100 dias por ano, sem contar os treinos. É muita carga para o corpo aguentar década após década.

E olha, a tecnologia de monitoramento melhorou muito. Hoje todo mundo usa medidor de potência, monitor cardíaco, análise de sono, o escambau. Mas será que isso está sendo usado para proteger a saúde dos atletas ou só para espremer mais rendimento deles? Porque pelos problemas que estão aparecendo, parece que é mais a segunda opção.

O que podemos aprender com isso tudo

Se você pedala, seja amador ou profissional, a história do Jakobsen deveria servir de alerta. Não é porque você pode treinar 20 horas por semana que você deve. Não é porque você consegue fazer aquele treino monstro que seu corpo vai agradecer no longo prazo.

O corpo dá sinais. Quando você não consegue mais performar no final das provas, quando as pernas não respondem como antes, quando você precisa de cada vez mais tempo para se recuperar — esses são avisos. Ignorar esses avisos pode custar sua saúde.

Jakobsen falou uma coisa que me marcou: “Fazemos coisas anormais”. E é verdade. Treinos de sete horas não são normais. Grand Tours de três semanas não são normais. O corpo tenta se adaptar, mas tem um limite para quanto ele consegue se adaptar antes de começar a quebrar.

A boa notícia é que hoje existe tratamento para esses problemas arteriais. Jakobsen passou por procedimento, ficou meses se recuperando, e agora está voltando. Mas nem todos têm essa sorte. E mesmo quando o tratamento funciona, você nunca mais é o mesmo atleta de antes.

O futuro incerto de um talento inegável

Olhando para frente, é impossível prever o que vai acontecer com Jakobsen. Ele pode voltar a vencer, provar que ainda é um dos velocistas mais rápidos do mundo, garantir um contrato bom. Ou pode continuar sofrendo, não conseguir recuperar aquela explosão final, e acabar virando mais um nome numa lista de carreiras interrompidas por problemas de saúde.

O que dá para dizer é que ele está encarando a situação com uma maturidade impressionante. Não está fazendo promessas vazias, não está fingindo que está tudo bem, não está botando a culpa em ninguém. Está sendo honesto sobre os desafios, sobre as incertezas, sobre o fato de que simplesmente não sabe o que vai acontecer.

“Sou positivo de que posso performar novamente, mas vai ser esperar para ver”, disse ele. “Posso dizer agora que estou confiante e vou vencer de novo, mas ninguém realmente sabe.”

E essa honestidade, essa vulnerabilidade, é mais valiosa do que qualquer vitória. Porque ao falar abertamente sobre esses problemas, Jakobsen está ajudando a quebrar o silêncio em torno dos efeitos negativos do ciclismo profissional na saúde. Está abrindo espaço para uma conversa que o esporte precisa ter há muito tempo.

Porque no fim das contas, não adianta nada ganhar todas as corridas do mundo se você destruir seu corpo no processo. O ciclismo deveria ser sobre saúde, longevidade, qualidade de vida. Quando vira sobre espremer cada gota de performance sem pensar nas consequências, algo está muito errado.

Torço para que Jakobsen consiga voltar ao seu melhor nível. Torço para que ele prove que é possível se recuperar desses problemas e continuar competindo em alto nível. Mas torço ainda mais para que a história dele faça as equipes, os médicos, os treinadores e os próprios atletas pensarem duas vezes antes de empurrar o corpo além de seus limites naturais.

Porque ser “fisiculturista do sistema cardiovascular” pode até parecer legal no papel, mas quando suas artérias começam a falhar aos 29 anos, a metáfora perde a graça bem rápido.


Perguntas Frequentes sobre Saúde no Ciclismo Profissional

O que são problemas na artéria ilíaca e por que afetam tanto os ciclistas?

Os problemas na artéria ilíaca acontecem quando há restrição no fluxo sanguíneo nas artérias que levam sangue para as pernas. No ciclismo, a posição aerodinâmica na bike e o esforço extremo repetitivo podem comprimir essas artérias ao longo do tempo. O resultado é que, nos momentos de máximo esforço (como sprints finais), as pernas não recebem sangue suficiente para performar. É um problema que está se tornando cada vez mais comum entre ciclistas profissionais, especialmente velocistas.

Quantas horas por dia um ciclista profissional treina?

Ciclistas profissionais frequentemente treinam entre cinco e sete horas por dia durante períodos de preparação. Durante a temporada de corridas, eles podem competir por 80 a 100 dias por ano, muitas vezes em provas de múltiplas etapas que duram até três semanas consecutivas. Esse volume de treinamento e competição é considerado extremo e está muito além do que o corpo humano evoluiu para fazer naturalmente.

É possível se recuperar completamente de problemas arteriais no ciclismo?

Depende da gravidade e do tipo de problema. Existem procedimentos médicos e cirúrgicos que podem ajudar a restaurar o fluxo sanguíneo, como os que Fabio Jakobsen passou. No entanto, a recuperação leva meses e não há garantia de que o atleta retornará ao mesmo nível de performance anterior. Alguns ciclistas conseguem voltar a competir em alto nível, enquanto outros são forçados a se aposentar precocemente, como foi o caso de Eli Iserbyt.

Quais são os sinais de alerta de que você está treinando demais?

Os principais sinais incluem: queda persistente de performance mesmo treinando regularmente, dificuldade em se recuperar entre treinos, aumento da frequência cardíaca em repouso, problemas de sono, mudanças de humor frequentes, perda de motivação, e incapacidade de atingir potências ou velocidades que antes eram normais. Se você notar vários desses sintomas simultaneamente, é hora de reduzir o volume de treino e consultar um médico especialista em medicina esportiva.

O ciclismo amador também pode causar esses mesmos problemas de saúde?

Embora os problemas sejam mais comuns em profissionais devido ao volume extremo de treinamento, ciclistas amadores que exageram também podem desenvolver questões similares. A diferença é que a maioria dos amadores não treina com a mesma intensidade e volume que os profissionais. Ainda assim, é importante respeitar os limites do corpo, fazer check-ups médicos regulares, e não tentar imitar os treinos dos profissionais sem acompanhamento adequado. O segredo está no equilíbrio entre treino, recuperação e saúde de longo prazo.

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