Quando março chega e o inverno europeu começa a dar sinais de que vai embora, o coração do pelotão profissional dispara por um motivo muito específico: a Milão-San Remo 2026 está batendo à porta. Marcada para o dia 21 de março, a 117ª edição de La Classicissima promete mais um capítulo eletrizante numa corrida que, há mais de um século, consegue reinventar-se sem perder nada daquilo que a torna única.
E se existe algo que a Milão-San Remo ensinou ao longo de sua história é que previsibilidade não faz parte do seu vocabulário. Estamos falando da prova de um dia mais longa do calendário profissional — quase 290 quilômetros de estrada — e do primeiro dos cinco Monumentos do ciclismo na temporada. Não à toa, os italianos a chamam também de La Primavera, a primavera, porque sua chegada marca o início oficial da grande temporada de clássicas.
Milão-San Remo 2026: o que esperar da 117ª edição
A edição de 2026 da Milão-San Remo parte da região ao sul de Milão, atravessa as planícies da Lombardia e do Piemonte, vence a longa subida do Passo del Turchino e finalmente encontra o Mar Mediterrâneo. A partir de Gênova, a rota segue margeando a Riviera Ligure rumo ao oeste, em direção à França, até terminar nas ruas de San Remo. São quase 300 km que testam a paciência, a resistência e, principalmente, o timing de quem quer vencer.
O percurso da Milão-San Remo 2026 segue o mesmo traçado dos anos anteriores, inclusive por conta de problemas persistentes nas estradas do Turchino, que frequentemente sofrem com deslizamentos de terra. Isso significa que os ciclistas passarão pela sequência clássica dos três capi — Capo Mele, Capo Cervo e Capo Berta — antes de encarar os dois momentos decisivos da corrida: a escalada da Cipressa (5,6 km a 4,1% de inclinação média) e o Poggio di Sanremo (3,7 km a 3,7% de inclinação média, com trechos que chegam a 8%).

Depois do Poggio, há uma descida técnica e veloz até o centro de San Remo, onde a chegada acontece na famosa Via Roma. É nesse trecho final que a corrida normalmente é decidida — e onde os sonhos de muitos são destroçados em poucos segundos.

Van der Poel chega como defensor do título — e como favorito
Mathieu van der Poel não precisa de apresentações quando o assunto é Milão-San Remo. O holandês da Alpecin-Premier Tech chega à edição de 2026 como bicampeão da prova, tendo vencido em 2023 com um ataque devastador no topo do Poggio e repetido a dose em 2025, desta vez em sprint na Via Roma ao lado de Filippo Ganna e Tadej Pogačar.
O que impressiona em Van der Poel é sua capacidade de se adaptar a qualquer cenário que a corrida apresente. Em 2023, ele simplesmente detonou a subida do Poggio com um ritmo absurdo — cravando o recorde de escalada em 5 minutos e 40 segundos — e chegou sozinho. Em 2025, quando o pelotão conseguiu se reorganizar após os ataques de Pogačar na Cipressa, o holandês mostrou que seu sprint também é capaz de resolver as coisas.
Para 2026, Van der Poel vem de uma intensa temporada de ciclocross no inverno, incluindo competições em provas da Copa do Mundo de Ciclocross da UCI e o Campeonato Mundial em Hulst. Essa base de corridas duras — algo que ele faz todos os anos — costuma ser o ingrediente secreto que o coloca num patamar de competitividade altíssimo já nas primeiras clássicas de estrada. Seu companheiro de equipe e compatriota na Alpecin-Premier Tech, Jasper Philipsen, alterou seu programa de primavera para 2026, trocando o UAE Tour pela Volta ao Algarve como preparação para a Milão-San Remo e a Paris-Roubaix.
Pogačar e a busca incansável pelo título que lhe escapa
Se existe uma corrida que continua resistindo ao domínio de Tadej Pogačar, essa corrida é justamente a Milão-San Remo. O esloveno da UAE Team Emirates-XRG, que já conquistou praticamente tudo o que há para conquistar no ciclismo de estrada — incluindo três Tours de France, dois Giros d’Italia e o Campeonato Mundial — ainda não conseguiu subir no degrau mais alto do pódio em San Remo.
Não é por falta de tentativa. Em 2025, Pogačar acendeu o pavio na Cipressa com uma aceleração brutal, explodindo o pelotão. Mas não conseguiu se isolar. Van der Poel e Ganna grudaram na sua roda e, no sprint final, ele terminou na terceira posição. Em 2024, a mesma história se repetiu em moldes diferentes: os ataques foram controlados e Pogačar acabou em terceiro no sprint vencido por Philipsen.
Para 2026, indicações sugerem que Pogačar pode fazer sua estreia na temporada de estrada na Strade Bianche, em 7 de março — apenas duas semanas antes da Milão-San Remo. É uma janela apertada para afinar a forma. Mas se tem algo que aprendemos com Pogačar ao longo dos anos é que ele raramente precisa de muitas corridas para estar voando.
Os outros nomes que podem bagunçar o jogo
Seria um erro gravíssimo reduzir a Milão-San Remo 2026 a um duelo entre Van der Poel e Pogačar. Essa é, afinal, uma corrida que sempre encontra maneiras de surpreender. A lista de inscritos — já divulgada pelo ProCyclingStats — traz nomes de peso que podem muito bem se intrometer no resultado.
Filippo Ganna, da INEOS Grenadiers, mostrou em 2025 que é muito mais do que um contrarrelogista. Sua capacidade de acompanhar os melhores no Poggio e ainda disputar o sprint o coloca entre os favoritos. Wout van Aert, da Visma-Lease a Bike, ao lado de Christophe Laporte e Matteo Jorgenson, representa outra ameaça constante — Van Aert, aliás, já venceu a prova em 2020.
Os velocistas puros, como Jonathan Milan (Lidl-Trek), que tem investido em ajustes aerodinâmicos para 2026, e Mads Pedersen também sonham com um sprint na Via Roma. E não podemos esquecer de nomes como Tom Pidcock, Matej Mohorič (campeão em 2022), Jasper Stuyven (campeão em 2021) e Julian Alaphilippe, todos confirmados para esta edição.
A história por trás de La Classicissima
Entender a Milão-San Remo é mergulhar numa das narrativas mais ricas do ciclismo mundial. A ideia de uma corrida entre Milão e a cidade litorânea de San Remo nasceu no início do século XX, num período em que grandes provas estavam sendo criadas por toda a Europa. A Unione Sportiva Sanremese organizou um evento amador de dois dias em 1906, e no ano seguinte a Gazzetta dello Sport assumiu a organização, transformando-a numa corrida profissional.
O francês Lucien Petit-Breton venceu a primeira edição, em 1907, completando os 286 km a uma velocidade média de pouco mais de 26 km/h — condições climáticas extremas castigaram aqueles 33 corajosos que tomaram a largada, e apenas 14 chegaram ao fim. Luigi Ganna trouxe a primeira vitória italiana em 1909. Depois da Primeira Guerra Mundial, Costante Girardengo consolidou-se como uma lenda ao acumular seis vitórias e 11 pódios entre 1917 e 1928.
Ao longo do século XX, a corrida viu nomes monumentais gravarem seus nomes na história: Alfredo Binda, Gino Bartali, Fausto Coppi. Em 1963, o britânico Tom Simpson tornou-se o primeiro vencedor não continental. Depois veio Eddy Merckx, o canibal belga, que com sete conquistas segue como o maior vencedor de todos os tempos da Milão-San Remo.

A galeria de campeões também inclui lendas como Roger De Vlaeminck, Sean Kelly, Laurent Jalabert, Andre Tchmil e Fabian Cancellara, além de velocistas puros como Erik Zabel, Oscar Freire, Mario Cipollini e Mark Cavendish — cada um à sua maneira, reforçando o caráter multifacetado desta corrida.
Cipressa e Poggio: onde a corrida realmente acontece
O formato atual da Milão-San Remo deve muito a duas adições fundamentais ao percurso: a subida do Poggio, incorporada em 1961, e a Cipressa, em 1982. Juntas, elas criaram a fórmula que define a corrida até hoje — e que alimenta o eterno duelo entre atacantes e velocistas.

A Cipressa, com seus 5,6 km de escalada, serve como o primeiro filtro. É ali que os corredores mais agressivos tentam eliminar os sprinters e forçar seleções. Se os ataques na Cipressa não funcionam, o Poggio é a última chance. Com 3,7 km e trechos de até 8% de inclinação, é curto o suficiente para que ninguém se esconda e longo o suficiente para que os mais fortes façam a diferença.
A descida do Poggio até San Remo é outro capítulo à parte: técnica, estreita, com curvas fechadas que exigem sangue frio e habilidade. Quem chega ao topo com vantagem nem sempre mantém a dianteira lá embaixo. É justamente essa combinação de variáveis que faz da Milão-San Remo aquilo que os italianos repetem com orgulho: a corrida mais fácil de terminar, mas a mais difícil de vencer.
Os recordes que definem a grandeza da Milão-San Remo
Ao longo de mais de um século de história, a Milão-San Remo acumulou recordes que refletem a grandeza dos campeões que por ela passaram. O recorde de escalada do Poggio pertence a Mathieu van der Poel, que em 2023 completou a subida em 5 minutos e 40 segundos — um tempo que muitos consideravam impossível.
Eddy Merckx lidera com folga a lista de maiores vencedores, com sete títulos conquistados entre 1966 e 1976. O vencedor múltiplo mais recente é o espanhol Oscar Freire, com três vitórias (2004, 2007 e 2010). A Itália é a nação mais vitoriosa, com 51 triunfos, seguida pela Bélgica com 22. O vencedor mais jovem foi Ugo Agostoni, com apenas 20 anos em 1914, enquanto o mais velho foi Andrei Tchmil, com 36 anos em 1999. A edição mais rápida da história aconteceu em 1990, quando Gianni Bugno triunfou a uma velocidade média de 45,806 km/h.
A novidade: Milão-San Remo Donne no mesmo dia
Assim como aconteceu em 2025, a edição feminina da corrida — agora rebatizada como Milão-San Remo Donne — será disputada no mesmo dia que a prova masculina. A versão feminina percorre uma distância menor, partindo de Gênova e utilizando o mesmo trecho final com Cipressa e Poggio. A inclusão da prova feminina é um passo importante na busca por maior igualdade no ciclismo profissional, e a expectativa é que em 2026 o evento ganhe ainda mais relevância dentro do UCI Women’s World Tour.
Dados rápidos: Milão-San Remo 2026
| Informação | Detalhe |
|---|---|
| Data | 21 de março de 2026 (sábado) |
| Partida | Milão |
| Chegada | San Remo (Via Roma) |
| Distância | 290 km |
| Categoria | UCI WorldTour |
| Edição | 117ª |
| Último vencedor | Mathieu van der Poel (Alpecin-Deceuninck, 2025) |
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quando será a Milão-San Remo 2026?
A Milão-San Remo 2026 será realizada no sábado, 21 de março de 2026. A prova é tradicionalmente disputada no terceiro sábado de março, marcando o início oficial da temporada de clássicas do ciclismo profissional.
Qual é a distância da Milão-San Remo 2026?
O percurso da Milão-San Remo 2026 terá aproximadamente 290 quilômetros, mantendo seu status de corrida de um dia mais longa do calendário profissional mundial. A rota vai de Milão até San Remo, passando pela costa da Ligúria.
Quem é o favorito para vencer a Milão-San Remo 2026?
Mathieu van der Poel é apontado como principal favorito, sendo o atual bicampeão da prova (2023 e 2025). Tadej Pogačar, que busca seu primeiro título na corrida, e Jasper Philipsen, campeão em 2024, também estão entre os grandes candidatos à vitória.
Quem tem mais vitórias na história da Milão-San Remo?
O belga Eddy Merckx detém o recorde absoluto de vitórias na Milão-San Remo, com sete conquistas (1966, 1967, 1969, 1971, 1972, 1975 e 1976). Costante Girardengo vem em segundo lugar com seis vitórias.
Qual é o recorde de escalada do Poggio na Milão-San Remo?
O recorde atual de escalada do Poggio di Sanremo pertence a Mathieu van der Poel, que completou a subida em 5 minutos e 40 segundos durante a edição de 2023 da Milão-San Remo — um tempo considerado histórico por especialistas.





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