Tem dias em que o ciclismo nos lembra por que a gente se apaixonou por esse esporte. A Milão-San Remo Feminino 2026 é um desses momentos. Marcada para o dia 21 de março de 2026, a segunda edição da versão feminina de La Classicissima chega cercada de expectativa depois que a estreia, em 2025, entregou tudo o que o público sonhava: drama, estratégia, ataques ousados e um sprint de tirar o fôlego na Via Roma.
Se você acompanha o pelotão feminino com atenção, sabe que o calendário de primavera na Itália ficou irresistível. São três provas de um dia do Women’s WorldTour em sequência: a Strade Bianche no dia 8 de março, o Trofeo Alfredo Binda em 15 de março, e a Milão-San Remo Feminino 2026 fechando essa tríade magnífica no sábado seguinte. Para quem gosta de clássicas, é como se fosse Natal três semanas seguidas.
A história que antecede a Milão-San Remo Feminino 2026
Antes de falar sobre o que vem pela frente, vale a pena recuar um pouco no tempo. A ideia de uma corrida feminina ligada à Milão-San Remo não é nova. Entre 1999 e 2005, existiu uma prova chamada La Primavera Rosa, que percorria os últimos 118 quilômetros do percurso masculino e incluía as duas subidas mais emblemáticas: a Cipressa e o Poggio. Nomes como Sara Felloni, que venceu a edição inaugural, Diana Žilūtė, Susan Ljungskog, Mirjam Melchers e Zoulfia Zabirova gravaram seus nomes nessa história.
Depois de 2005, porém, a corrida simplesmente sumiu do calendário. Foram vinte anos de silêncio. Quando a RCS Sport anunciou o retorno para 2025, a notícia foi recebida com entusiasmo genuíno por parte das ciclistas, das equipes e de quem cobre o esporte. A Milão-San Remo Feminino tornava-se, instantaneamente, o quarto dos cinco Monumentos do ciclismo disponíveis para o pelotão feminino — ao lado do Tour de Flandres, da Paris-Roubaix Femmes e da Liège-Bastogne-Liège.
Como foi a edição inaugural de 2025: o dia em que Wiebes fez história
Quem assistiu à primeira edição da Milão-San Remo Feminino em março de 2025 dificilmente vai esquecer aquele final. A corrida partiu de Gênova e seguiu pela Via Aurelia ao longo da costa da Ligúria, cobrindo 156 quilômetros até San Remo. O percurso era relativamente comportado até a Cipressa, com seus 5,6 km de subida, onde o pelotão começou a se partir de verdade.
Antes disso, a holandesa Anne Knijnenburg, da VolkerWessels, animou a corrida com um ataque solo que durou mais de 70 km — daqueles esforços teimosos e bonitos que fazem parte do DNA das clássicas. Mas o pelotão, controlado com mão firme pela SD Worx-Protime e pela Visma-Lease a Bike, não deixou a fuga prosperar por muito tempo.
No Poggio, a corrida explodiu. Cecilie Uttrup Ludwig puxou o ritmo para Kasia Niewiadoma, depois veio Juliette Labous com um ataque a um quilômetro do topo, seguida por Kimberley Le Court. Nenhuma conseguiu abrir vantagem decisiva. No alto da subida, cerca de 15 ciclistas ainda estavam juntas — incluindo as velocistas Lorena Wiebes e Elisa Balsamo.
Na descida, Demi Vollering e Puck Pieterse usaram toda a sua habilidade técnica para esticar o grupo. Mas o momento decisivo veio logo depois, quando Elisa Longo Borghini lançou um ataque fulminante nos últimos dois quilômetros. A campeã italiana abriu uma vantagem que parecia suficiente para a vitória. Só que ela não contava com a determinação brutal de Lotte Kopecky.
A então campeã mundial belga fez uma perseguição épica, arrastando Lorena Wiebes na sua roda. Kopecky foi buscar Longo Borghini praticamente na linha de chegada, e Wiebes, com aquela explosão característica, completou o trabalho de equipe com um sprint perfeito. Marianne Vos ficou em segundo lugar, e a suíça Noemi Rüegg, da EF Education-Oatly, completou o pódio em terceiro.
“Eu sabia o quanto a Lotte é forte, e ela me colocou na posição perfeita”, disse Wiebes logo depois de cruzar a linha. “Senti que estava bem na Cipressa, e quando passei no topo do Poggio entre as cinco primeiras, soube que ia disputar a vitória.”
Pauline Ferrand-Prévot, que terminou originalmente em quarto lugar, acabou rebaixada para a 12ª posição por irregularidade na corrida — um detalhe que gerou muita discussão no pelotão.
Milão-San Remo Feminino 2026: o que esperar da segunda edição

A Milão-San Remo Feminino 2026 acontece no sábado, 21 de março, e mantém a chegada em San Remo como parte do UCI Women’s WorldTour. Ainda não foram divulgados todos os detalhes do percurso, mas a expectativa é de que a estrutura siga o modelo da edição inaugural: partida na região de Gênova, trajeto pela costa ligure e o final clássico com a dupla Cipressa-Poggio definindo a corrida antes da descida técnica até a Via Roma.

A edição de 2025 cobriu aproximadamente 156 km, e há chances de que o trajeto de 2026 seja ligeiramente mais longo, mantendo a essência que faz da Milão-San Remo uma prova tão especial: horas de tensão crescente que desembocam em meia hora de loucura nos quilômetros finais.
Um dos desafios logísticos que precisou ser resolvido para o retorno da corrida foi o conflito de datas com o Trofeo Alfredo Binda, que historicamente ocupava o mesmo fim de semana. Em 2026, o Binda foi antecipado para 15 de março, abrindo espaço para a San Remo feminina uma semana depois. Isso criou uma sequência italiana intensa: Strade Bianche (8/3), Binda (15/3) e Milão-San Remo Feminino 2026 (21/3).
As favoritas para a Milão-San Remo Feminino 2026
Difícil falar em favoritas sem começar por quem venceu a edição passada. Lorena Wiebes chega como campeã defensora e, se a forma do início de temporada servir de indicativo, vai ser novamente uma das ciclistas a serem batidas. A holandesa da SD Worx-Protime já mostrou que consegue sobreviver às subidas e chegar ao sprint final com energia de sobra — algo que pouquíssimas velocistas no pelotão conseguem fazer numa corrida desse calibre.
Ao lado dela, Lotte Kopecky é talvez a ciclista mais completa do mundo neste momento. A belga pode vencer de qualquer maneira: no ataque, no sprint de grupo pequeno, ou simplesmente esmagando a concorrência numa fuga solo. Em 2025, ela sacrificou suas chances pessoais para trazer Wiebes à vitória. Será que em 2026 a equipe vai jogar de forma diferente?
Demi Vollering, agora com mais uma temporada sob as cores da FDJ United-SUEZ, é outra candidata séria. A holandesa já começou 2026 em grande forma, com a vitória geral na Setmana Ciclista Valenciana incluindo duas vitórias de etapa. Se ela conseguir se manter na roda até o Poggio, sua capacidade de atacar nas subidas pode fazer a diferença.
Elisa Longo Borghini, que em 2025 quase conseguiu a vitória com aquele ataque corajoso na descida do Poggio, certamente vai traçar estratégia semelhante pela UAE Team ADQ. A italiana venceu o UAE Tour Women 2026 pela terceira vez e chega à primavera italiana em estado de graça. Falta-lhe apenas ajustar o timing: em 2025, foi apanhada a metros da glória.
Outros nomes que merecem atenção: a lendária Marianne Vos, que ficou em segundo na edição inaugural e sabe como poucas ler uma corrida dessas; Elisa Balsamo, pela Lidl-Trek, que venceu o Trofeo Binda em 2025 e tem velocidade para disputar o sprint final; Puck Pieterse, cujas descidas agressivas podem criar cenários imprevisíveis; e a jovem britânica Cat Ferguson, da Movistar, que aos 18 anos já se mistura confortavelmente com as melhores do mundo.
O percurso: Cipressa e Poggio como juízes finais
O charme (e o tormento) da Milão-San Remo Feminino 2026 está todo concentrado nos quilômetros finais. A Cipressa, com 5,6 km de extensão, funciona como o primeiro filtro: ali, as equipes impõem ritmo alto para eliminar quem já está no limite. A subida não é brutal em termos de inclinação, mas depois de mais de 120 km de corrida nervosa pela costa, ela cobra seu preço.
E então vem o Poggio di San Remo. São apenas 3,7 km a uma inclinação média de 3,7%, mas esse número esconde a verdade. No contexto de uma clássica de um dia, com a fadiga acumulada e a tensão no máximo, o Poggio é onde as campeãs se revelam. É onde Longo Borghini atacou em 2025. É onde Niewiadoma e Le Court tentaram a sorte. E é na descida técnica que se segue — sinuosa, rápida, perigosa — que os grupos se desfazem e as corridas são muitas vezes decididas antes mesmo da Via Roma.
Na versão masculina, a Milão-San Remo é famosa pelo ditado: “a corrida mais fácil de terminar, mas a mais difícil de vencer.” Para o pelotão feminino, com um percurso mais curto mas igualmente exigente no final, a frase ganha contornos parecidos. Qualquer tipo de ciclista pode sonhar com a vitória — velocistas, atacantes, todas-terreno — e é exatamente isso que torna a prova tão fascinante.
O contexto do Women’s WorldTour em 2026
A Milão-San Remo Feminino 2026 faz parte de um calendário que continua a crescer em prestígio e profundidade. O Women’s WorldTour de 2026 conta agora com 14 equipes de nível máximo e uma série de provas que vão da Austrália ao Oriente Médio, passando por toda a Europa.
A temporada começou com o Women’s Tour Down Under na Austrália, passou pelo UAE Tour Women (dominado por Elisa Longo Borghini), pela Setmana Ciclista Valenciana (onde Demi Vollering brilhou), e agora entra na fase mais eletrizante: as clássicas de primavera europeias. Depois da San Remo, o calendário segue com o Tour de Flandres e a Paris-Roubaix Femmes, que em 2026 promete o percurso mais duro já visto, com mais paralelepípedos e três novos setores.
Como bem observou Elisa Longo Borghini no início da temporada, o ciclismo feminino vive uma fase de expansão impressionante, mas que também exige atenção. A italiana alertou que o calendário crescente pode drenar recursos das corridas de base, comprometendo o desenvolvimento de futuras gerações. É uma reflexão importante, especialmente quando corridas como a Milão-San Remo Feminino precisam de um ecossistema saudável para continuar prosperando.
Dados rápidos da Milão-San Remo Feminino 2026
| Data | 21 de março de 2026 (sábado) |
| Distância estimada | Aproximadamente 156 km |
| Chegada | San Remo, Via Roma |
| Categoria | UCI Women’s WorldTour |
| Campeã defensora | Lorena Wiebes (SD Worx-Protime) |
| Subidas decisivas | Cipressa (5,6 km) e Poggio (3,7 km) |
Por que a Milão-San Remo Feminino 2026 importa tanto
Há algo poderoso em ver o ciclismo feminino reconquistar espaços que lhe foram negados por décadas. A Milão-San Remo Feminino ficou fora do calendário por vinte anos. Vinte. Gerações inteiras de ciclistas — Marianne Vos entre elas — nunca puderam disputar essa clássica no auge de suas carreiras.
Agora que a corrida voltou, e com força, cada edição ganha um peso especial. A Milão-San Remo Feminino 2026 é só a segunda, mas já carrega a responsabilidade de construir uma tradição à altura do monumento masculino, que existe desde 1907. E se a edição de 2025 servir de referência, estamos no caminho certo. Como disse a própria Wiebes após sua vitória histórica: “Foi uma corrida linda. Espero que haja muitas mais edições no futuro.”
O ciclismo feminino não pede permissão — ele conquista. E em 21 de março, nas ruas de San Remo, mais um capítulo dessa conquista será escrito.
FAQ — Perguntas frequentes sobre a Milão-San Remo Feminino 2026
Quando acontece a Milão-San Remo Feminino 2026?
A corrida está agendada para o sábado, 21 de março de 2026, como parte do calendário do UCI Women’s WorldTour. Ela acontece no mesmo dia da prova masculina, ocupando a primeira janela do dia.
Quem venceu a Milão-San Remo Feminino em 2025?
A holandesa Lorena Wiebes, da equipe SD Worx-Protime, venceu a edição inaugural em um sprint emocionante, superando Marianne Vos e Noemi Rüegg na Via Roma. O trabalho de equipe de Lotte Kopecky foi decisivo para neutralizar o ataque de Elisa Longo Borghini nos metros finais.
Quais são as subidas decisivas do percurso?
As duas subidas que definem a corrida são a Cipressa (5,6 km de extensão) e o Poggio di San Remo (3,7 km com inclinação média de 3,7%). A descida técnica do Poggio até a Via Roma também é um momento crucial, onde ataques e reagrupamentos podem acontecer a qualquer instante.
Quem são as principais favoritas para 2026?
As grandes favoritas incluem a campeã defensora Lorena Wiebes, sua companheira de equipe Lotte Kopecky, Demi Vollering (FDJ United-SUEZ), Elisa Longo Borghini (UAE Team ADQ), Marianne Vos (Visma-Lease a Bike) e Elisa Balsamo (Lidl-Trek).
A Milão-San Remo Feminino é considerada um Monumento do ciclismo?
Sim. Desde o seu retorno em 2025, a Milão-San Remo Feminino é reconhecida como o quarto Monumento do calendário feminino, juntando-se ao Tour de Flandres, à Paris-Roubaix Femmes e à Liège-Bastogne-Liège. Falta apenas o Il Lombardia para que o pelotão feminino tenha acesso aos cinco Monumentos tradicionais.





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