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Montmartre revoluciona etapa final do Tour de France: da polêmica ao sucesso absoluto

Descubra como Montmartre transformou a etapa final do Tour de France 2025, criando um dos finais mais emocionantes da história recente. Van Aert protagonizou momento épico ao vencer com ataque na subida parisiense.

Montmartre revoluciona etapa final do Tour de France: da polêmica ao sucesso absoluto

Quando a ASO anunciou em maio que a etapa final do Tour de France 2025 passaria três vezes pela Butte de Montmartre, a reação do pelotão foi dividida. Jonas Vingegaard deixou claro: “não é exatamente uma boa ideia“. Wout van Aert chamou de “perigoso“. Jasper Philipsen lamentou ver a tradição mudar. Mas ninguém imaginava que aquele bairro boêmio de Paris, com suas ruas estreitas de paralelepípedos e a imponente Basílica do Sacré-Cœur no topo, ia escrever um dos capítulos mais emocionantes da história recente do Tour.

No domingo, 27 de julho, Wout van Aert – justamente um dos que criticaram a mudança – protagonizou uma das chegadas mais dramáticas que Paris já testemunhou. E de quebra, calou os céticos.

Por que Montmartre entrou no roteiro

A ideia não surgiu do nada. Durante os Jogos Olímpicos de Paris 2024, meio milhão de pessoas lotaram as ruas de Montmartre para ver as provas de ciclismo de estrada. O clima era de festa popular, aquele tipo de atmosfera que faz você se arrepiar mesmo assistindo pela TV. As subidas pela rue Lepic – aquela mesma do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” – viraram palco de ataques decisivos e sprints eletrizantes.

Christian Prudhomme, diretor do Tour, não perdeu tempo. Se funcionou nos Jogos, por que não trazer essa energia para a corrida que ele organiza? Ainda mais em 2025, quando a chegada nos Champs-Élysées completava exatos 50 anos.

Mas convencer todo mundo não foi fácil. A Polícia de Paris resistiu inicialmente – e com razão. Laurent Nunez, chefe da polícia metropolitana, explicou o óbvio: “a área é densamente povoada, cheia de terraços de cafés e lojas, criando uma dimensão de segurança complicada“. Precisou da intervenção direta do presidente Emmanuel Macron para destrancar a negociação. Sim, até o Palácio do Eliseu entrou na jogada.

O percurso que mudou o jogo

O formato final ficou assim: depois de 51,7 km desde Mantes-la-Ville, o pelotão entraria em Paris para quatro voltas tradicionais nos Champs-Élysées. Até aí, tudo como sempre foi. Mas então vinha a novidade: três passagens por um circuito alongado de 16,7 km que incluía a Côte de la Butte Montmartre – 1,1 km a 5,9% de inclinação média, pavimentado com aqueles paralelepípedos irregulares que fazem qualquer pneu estremecer.

E o mais importante: a última subida terminava a apenas 6,1 km da linha de chegada. Perto demais para um pelotão anular qualquer ataque. Longe demais para os sprinters terem garantia de alcançar eventuais fujões.

Thierry Gouvenou, desenhista do percurso, defendeu a escolha com convicção: “Montamos isso tudo pelo interesse esportivo. Não é apenas um desfile ou uma visita turística a Montmartre. Temos quase certeza de que os corredores vão competir“.

O dia em que Van Aert calou os críticos

E competiram mesmo. Antes do início dos circuitos em Montmartre, a organização neutralizou a classificação geral após a chuva começar a cair – decisão acertada para evitar que três semanas de corrida fossem decididas num piso molhado e traiçoeiro. Tadej Pogačar já tinha o quarto título garantido no bolso.

Mas isso não significou passeio. Na segunda ascensão de Montmartre, foi o próprio Pogačar quem puxou um grupo de seis corredores. A multidão gritava. As câmeras captavam cada pedrada nos paralelepípedos. E então, na terceira e última vez subindo a rue Lepic, aconteceu o impensável: Wout van Aert atacou e deixou Pogačar para trás.

Sim, você leu certo. Pela primeira vez no Tour de France 2025 inteiro, alguém conseguiu distanciar o esloveno numa subida. Van Aert desceu de Montmartre como se estivesse contra o relógio, aquela especialidade que ele domina tão bem. Pogačar tentou reagir, foi alcançado por Matteo Jorgenson, Matej Mohorič e Davide Ballerini, mas nada adiantou. Van Aert cruzou a linha sozinho, de braços abertos, provando que o novo formato funcionava – e como funcionava.

A classificação final e os outros destaques

Pogačar terminou em quarto lugar na etapa, mas nada tirava o brilho do seu tetracampeonato. Ele fechou a corrida com 4 minutos e 24 segundos de vantagem sobre Jonas Vingegaard, que ficou com o vice. Nos detalhes: Jonathan Milan garantiu a camisa verde dos pontos, e Georg Lipowitz levou a branca de melhor jovem.

Mas o grande vencedor moral daquele domingo foi mesmo Montmartre. O bairro que serviu de inspiração para pintores impressionistas agora entrava definitivamente para o imaginário do ciclismo profissional.

Organizadores já planejam repetir a dose

Mal a poeira baixou e Pierre-Yves Thouault, diretor-adjunto do Tour, já falava em transformar a novidade em tradição. Em entrevista ao Le Parisien, ele não escondeu o entusiasmo: “Obviamente, queremos continuar passando por Montmartre. O sucesso superou nossas expectativas“.

O vice-prefeito de Paris para esportes, Pierre Rabadan, também aprovou: “Todos adoraram. O público e os corredores“. Agora, falta só sentar com representantes da prefeitura e da polícia para acertar os detalhes logísticos – incluindo melhorias no acesso do público em algumas áreas.

Ah, e tem outro detalhe interessante: Christian Prudhomme já havia sinalizado durante a corrida que o Tour pode eventualmente terminar fora de Paris em alguns anos, assim como fez em Nice em 2024. Mas sempre mantendo “uma relação muito forte com a cidade de Paris“, como ele mesmo disse à Cycling Weekly. Traduzindo: Montmartre pode virar figurinha repetida, mas os Champs continuam sendo o palco principal.

Números que impressionam

O Tour de France 2025 começou em Lille no dia 5 de julho, com 184 corredores de 27 nacionalidades. Foram 3.320 km pedalados ao longo de três semanas. A prova teve 23 equipes pela primeira vez – a UCI permitiu uma equipe wildcard a mais em 2025.

A etapa 19 teve até que ser modificada de última hora por causa de um surto de dermatose nodular contagiosa entre bovinos no Col des Saisies. O percurso foi encurtado de 129,9 km para 93,1 km, eliminando algumas subidas categorizadas. Ciclismo é isso: você planeja uma coisa, e a realidade manda outra bem diferente.

E já que estamos falando de números: a última ascensão categorizada do Tour 2025 foi justamente Montmartre – a 68ª da edição. Simbólico, não?

O que vem por aí

Para 2026, os organizadores já avisaram que querem suspense até a penúltima etapa. O roteiro incluirá Pirineus, Maciço Central, Vosges e duas etapas separadas subindo o Alpe d’Huez – antes do (provável) retorno a Montmartre em Paris. Os sprinters puros continuarão reclamando da falta de oportunidades planas, mas esse parece ser o novo normal do Tour: menos desfiles, mais corrida de verdade até o último quilômetro.

E olha, depois de ver Van Aert solando para a vitória naquelas ruas que o próprio Amélie Poulain teria aplaudido, fica difícil não concordar com a mudança de filosofia. O ciclismo precisa disso: finais que façam você levantar do sofá, mesmo quando o campeão já está decidido.

Perguntas Frequentes

1. Por que Montmartre foi incluída no Tour de France 2025?

A decisão veio inspirada pelo sucesso das provas olímpicas de ciclismo em 2024, que passaram por Montmartre e atraíram meio milhão de espectadores. Os organizadores queriam recriar aquela atmosfera popular e tornar a etapa final mais competitiva, especialmente no ano do 50º aniversário da primeira chegada nos Champs-Élysées.

2. Quantas vezes o pelotão subiu Montmartre?

Foram três ascensões completas da Côte de la Butte Montmartre, cada uma com 1,1 km de extensão a 5,9% de inclinação média. A última subida terminava a apenas 6,1 km da linha de chegada nos Champs-Élysées.

3. A inclusão de Montmartre mudou o resultado final do Tour?

Não mudou o campeão geral – Pogačar já tinha o título garantido. Mas criou uma etapa final emocionante que foi vencida por Wout van Aert, que conseguiu o feito raro de distanciar Pogačar numa subida. Foi a primeira vez no Tour 2025 inteiro que alguém conseguiu deixar o esloveno para trás numa escalada.

4. Montmartre vai continuar no percurso do Tour nos próximos anos?

Muito provavelmente sim. Os organizadores declararam que o sucesso superou as expectativas e que querem manter Montmartre no roteiro. Pierre-Yves Thouault, diretor-adjunto do Tour, disse claramente que “o desejo de tornar essa nova rota um sucesso de longo prazo está lá“. Só precisam acertar alguns detalhes logísticos com a prefeitura e a polícia de Paris.

5. Quais foram as principais críticas dos ciclistas à mudança?

Jonas Vingegaard expressou preocupação com o excesso de corredores (cerca de 150) disputando posições numa subida estreita, criando estresse desnecessário. Wout van Aert classificou como perigoso. Jasper Philipsen lamentou a mudança na tradição. Mas ironicamente, Van Aert acabou vencendo a etapa com um ataque justamente em Montmartre, mostrando que a mudança trouxe mais emoção ao final da corrida.

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