O calendário do ciclismo profissional para 2025 traz algumas novidades interessantes vindas dos Estados Unidos e da África do Sul, com a União Ciclística Internacional confirmando o registro de novas equipes continentais masculinas nessas regiões. Porém, essa notícia positiva vem acompanhada de um dado que preocupa bastante quem acompanha o esporte: estamos vendo uma queda dramática de 46% no número total de equipes continentais ao redor do mundo.
Quando olhamos os números divulgados pela UCI nas últimas semanas, fica evidente que o ciclismo profissional está passando por uma fase de reestruturação bastante significativa. As equipes continentais sempre foram a porta de entrada para jovens talentos chegarem ao pelotão WorldTour, e ver esse número caindo tanto assim acende um sinal amarelo importante para o desenvolvimento do esporte em escala global.
O que está acontecendo com as equipes continentais?
Vamos contextualizar melhor essa situação. As equipes continentais representam o segundo escalão do ciclismo de estrada profissional, ficando abaixo das equipes WorldTour e ProTeams. Elas funcionam como verdadeiras escolas de formação, onde ciclistas jovens ganham experiência competindo em provas nacionais e algumas corridas internacionais antes de, eventualmente, darem o salto para equipes maiores.
O problema é que manter uma equipe continental funcionando não é exatamente barato. Mesmo sendo estruturas menores comparadas às gigantes do WorldTour, essas equipes precisam de patrocínio consistente, infraestrutura adequada, salários para corredores e equipe técnica, além de cobrir os custos de viagens e participação em competições. E com a economia global ainda se recuperando de diversos desafios recentes, encontrar patrocinadores dispostos a investir tem se tornado cada vez mais complicado.
As novas equipes nos EUA e África do Sul
Apesar desse cenário desafiador, algumas regiões continuam demonstrando interesse em desenvolver o ciclismo de base. Os Estados Unidos historicamente sempre tiveram uma relação interessante com o ciclismo de estrada. O país produz ciclistas de altíssimo nível e tem uma base de fãs dedicada, mas o esporte ainda compete por atenção com modalidades muito mais populares por lá, como futebol americano, basquete e beisebol.
As novas equipes americanas que receberam licença continental para 2025 representam uma aposta na renovação geracional do ciclismo no país. Com corredores veteranos se aproximando do fim de carreira, existe uma necessidade clara de estruturas que possam preparar a próxima geração de talentos americanos. E considerando que os EUA já revelaram nomes importantes para o pelotão mundial, como diversos atletas bem-sucedidos ao longo das décadas, investir na base faz todo sentido estratégico.
Já a África do Sul tem uma tradição ciclística respeitável, especialmente quando falamos de ciclismo de montanha e provas de longa distância. O país já produziu ciclistas que brilharam em palcos internacionais, e ver novas equipes continentais surgindo por lá demonstra que existe tanto talento local quanto interesse em desenvolver esses atletas dentro de uma estrutura profissional adequada.
O ciclismo sul-africano tem características próprias, com um calendário de competições domésticas robusto e condições de treinamento que favorecem o desenvolvimento de atletas resistentes e versáteis. As novas equipes continentais sul-africanas provavelmente focarão em preparar corredores locais para eventualmente competirem em provas africanas de maior prestígio e, quem sabe, conquistarem oportunidades em equipes europeias.
Por que tantas equipes estão desaparecendo?
Uma queda de 46% no número de equipes continentais não acontece por acaso. Vários fatores contribuem para essa redução significativa, e entender essas causas é fundamental para pensar em soluções.
Primeiro, temos a questão financeira. O patrocínio esportivo em geral tem enfrentado desafios nos últimos anos. Empresas estão mais cautelosas com investimentos em marketing esportivo, especialmente em modalidades que não oferecem o mesmo retorno de exposição que esportes mainstream proporcionam. Para uma empresa de médio porte, destinar centenas de milhares de euros anuais para patrocinar uma equipe continental precisa fazer sentido do ponto de vista de retorno sobre investimento, e nem sempre esse cálculo fecha positivamente.
Além disso, o custo operacional de uma equipe continental subiu consideravelmente. Regulamentações mais rígidas da UCI sobre salários mínimos, padrões de segurança e requisitos administrativos aumentaram a barra de entrada para manter uma licença continental. Isso é positivo do ponto de vista da profissionalização e proteção dos atletas, mas inevitavelmente torna mais difícil para estruturas menores continuarem operando.
Outro fator importante é a concentração de recursos no topo da pirâmide. As equipes WorldTour e ProTeams recebem convites automáticos para as principais corridas do calendário, garantindo exposição de mídia e, consequentemente, atraindo os melhores patrocinadores. Isso deixa menos recursos disponíveis para as equipes continentais, que muitas vezes precisam lutar por convites para corridas de médio porte e raramente conseguem participação em eventos de grande prestígio.
O impacto dessa redução no desenvolvimento de atletas
Quando falamos sobre menos equipes continentais, estamos falando sobre menos oportunidades para jovens ciclistas. Imagine um corredor talentoso de 20 anos que está terminando sua passagem pelas categorias de base. Anteriormente, ele teria diversas opções de equipes continentais onde poderia assinar um contrato profissional e começar a construir sua carreira. Com 46% menos equipes, essas oportunidades simplesmente desaparecem.
Isso cria um gargalo preocupante. Temos jovens com potencial sendo forçados a abandonar o sonho de se tornarem ciclistas profissionais simplesmente porque não conseguem encontrar uma equipe disposta a contratá-los. E não estamos falando de corredores medianos, estamos falando de atletas que poderiam, com a experiência e desenvolvimento adequados, eventualmente chegar ao WorldTour.
Para países com tradição ciclística menor, como muitos na América Latina, Ásia e África, essa redução é ainda mais impactante. Uma equipe continental local frequentemente representa a única estrutura profissional disponível para corredores dessas regiões. Sem essas equipes, esses talentos ficam completamente isolados do circuito profissional internacional.
Possíveis caminhos para reverter essa tendência
Apesar do cenário desafiador, existem algumas iniciativas e ideias que poderiam ajudar a estabilizar e eventualmente reverter esse declínio no número de equipes continentais.
Uma discussão recorrente é sobre a redistribuição de recursos dentro do ciclismo profissional. Atualmente, a maior parte da receita gerada pelo esporte fica concentrada nas equipes WorldTour e nos organizadores das grandes voltas. Criar mecanismos para que parte desse dinheiro chegue às equipes continentais, seja através de um fundo de desenvolvimento ou de garantias de participação em mais corridas de prestígio, poderia fazer uma diferença significativa.
Outro caminho seria a flexibilização de alguns requisitos para licenças continentais, mantendo obviamente os padrões fundamentais de segurança e tratamento dos atletas. Permitir estruturas um pouco mais enxutas em termos administrativos, ou criar uma categoria intermediária entre as equipes continentais e as estruturas de base, poderia abrir espaço para mais times entrarem no cenário profissional.
A promoção regional do ciclismo também precisa melhorar. Corridas continentais e nacionais precisam de mais cobertura de mídia, mais investimento em transmissões e mais esforços para construir uma base de fãs local. Quanto mais relevante o ciclismo se tornar em mercados específicos, mais atrativo será para empresas locais investirem em patrocínio.
O que esperar para 2025 e além
O ano de 2025 será crucial para entendermos se essa tendência de redução nas equipes continentais vai continuar ou se conseguiremos ver alguma estabilização. As novas equipes dos EUA e África do Sul mostram que ainda existe interesse e investimento em desenvolver o ciclismo em algumas regiões, o que é animador.
A UCI certamente está ciente desses números e das implicações de longo prazo. Esperamos que a entidade máxima do ciclismo trabalhe em soluções criativas para garantir que o pipeline de desenvolvimento de atletas continue funcionando adequadamente. Afinal, o WorldTour de amanhã depende das equipes continentais de hoje para formar os campeões do futuro.
Para os fãs de ciclismo, acompanhar as corridas continentais em 2025 será particularmente interessante. Veremos como as equipes sobreviventes se adaptam a esse novo cenário mais enxuto, e se as novas estruturas americanas e sul-africanas conseguem se estabelecer como players relevantes em seus mercados.
Uma coisa é certa: o ciclismo profissional está passando por mudanças estruturais importantes, e as decisões tomadas agora vão definir como o esporte se desenvolverá nas próximas décadas. Torcer para que essas mudanças priorizem o desenvolvimento sustentável do esporte, criando oportunidades reais para jovens talentos e mantendo o ciclismo diverso e acessível globalmente.
Perguntas Frequentes
Quantas equipes continentais existem atualmente no ciclismo mundial?
Com a redução de 46% confirmada pela UCI, o número atual de equipes continentais masculinas registradas para 2025 representa pouco mais da metade do que existia anteriormente. Embora os números exatos variem anualmente, essa queda significa que centenas de vagas profissionais para ciclistas simplesmente desapareceram do mercado, impactando diretamente as oportunidades de desenvolvimento para atletas emergentes ao redor do mundo.
Por que as equipes continentais são importantes para o ciclismo?
As equipes continentais funcionam como verdadeiras escolas de formação para o ciclismo profissional. É nessas estruturas que jovens corredores ganham experiência competitiva, aprendem a trabalhar em equipe, desenvolvem aspectos táticos e técnicos, e eventualmente chamam atenção de equipes maiores. Sem essas equipes, o caminho entre as categorias de base e o WorldTour fica praticamente impossível para a maioria dos atletas, especialmente aqueles de países sem forte tradição ciclística.
Quanto custa manter uma equipe continental funcionando?
Os custos variam bastante dependendo da região e do nível de ambição da equipe, mas estamos falando de centenas de milhares de euros anuais no mínimo. Isso inclui salários para corredores e staff técnico, custos de viagem e hospedagem para competições, equipamentos e bicicletas, veículos de suporte, seguro saúde para atletas, e toda a estrutura administrativa necessária para manter a licença UCI. Para uma equipe continental com ambições maiores, esse valor pode facilmente ultrapassar um milhão de euros por temporada.
As novas equipes dos EUA e África do Sul têm chances reais de competir internacionalmente?
Depende muito da estrutura e investimento que essas equipes conseguirem atrair. Historicamente, tanto os Estados Unidos quanto a África do Sul já produziram ciclistas de altíssimo nível internacional, então definitivamente existe talento nessas regiões. O desafio será construir estruturas competitivas o suficiente para desenvolver esses talentos adequadamente e conseguir convites para corridas europeias de prestígio, onde a maior parte da exposição e oportunidades de crescimento se concentram. Com planejamento estratégico e investimento consistente, essas equipes podem sim se tornar trampolins importantes para corredores locais alcançarem o cenário internacional.
O que a UCI está fazendo para ajudar as equipes continentais?
A UCI tem implementado algumas medidas nos últimos anos para profissionalizar e proteger as equipes continentais, incluindo requisitos mínimos de salário para atletas e garantias contratuais mais robustas. No entanto, essas medidas, embora positivas para os corredores, acabaram aumentando os custos operacionais e contribuindo indiretamente para a saída de algumas equipes do mercado. O desafio agora é encontrar um equilíbrio entre manter padrões profissionais adequados e tornar viável financeiramente a existência dessas estruturas. Há discussões sobre possíveis fundos de desenvolvimento e mecanismos de redistribuição de receita, mas ainda não vimos implementações concretas dessas ideias.

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