Sabe aquela discussão eterna sobre se suspensão faz sentido em bikes gravel? Pois é, a Pinarello decidiu entrar de cabeça nesse debate – e de uma forma que ninguém esperava. A marca italiana, tradicionalmente conhecida pelas suas máquinas de estrada (quem nunca sonhou com uma Dogma?), acabou de lançar a Grevil MX, uma bike que basicamente pega tudo que aprendemos sobre gravel e joga pela janela.
E olha, quando digo que essa bike é diferente, não estou brincando. Ela vem equipada com um garfo de suspensão de 100mm – isso mesmo, cem milímetros de curso, que é exatamente o que você encontraria numa cross-country raiz. A questão é: isso faz sentido? Bom, depende de com quem você conversa.
Quando uma gravel encontra o DNA de mountain bike
O mais interessante dessa história toda é que a Pinarello não está inventando a roda do zero. A empresa voltou recentemente ao universo do mountain bike com a Dogma XC, a mesma bike que o Tom Pidcock usou para conquistar o ouro olímpico. E adivinha? Muita coisa da Grevil MX veio diretamente de lá.

O quadro é feito em carbono Toray M40J e traz aquela estrutura triangular característica que a marca italiana adora usar para aumentar a rigidez lateral. Isso significa mais eficiência na hora de pisar forte nos pedais, especialmente em subidas ou sprints. Mas o que realmente chama atenção é o desenho assimétrico da traseira.

Os tirantes têm alturas diferentes: mais baixo no lado da transmissão, mais alto do lado oposto. As varas também seguem esse padrão assimétrico. A ideia? Combater aquela torção irritante que acontece quando você coloca muita força nos pedais. É engenharia italiana no seu melhor – ou será que é exagero? Vai de cada um decidir.
Geometria que não engana: é quase uma XC completa
Aqui é onde as coisas ficam realmente interessantes. Se você pegar os números da geometria da Grevil MX e comparar com uma mountain bike de cross-country moderna, vai perceber que elas são praticamente irmãs gêmeas. No tamanho grande, temos:
- Ângulo de direção: 68 graus (bem na faixa das XC atuais)
- Reach: 470mm (confortável mas não exagerado)
- Ângulo de tubo de selim: 69,75 graus (posição bem à frente)
- Comprimento das varas: 428mm (curtas para manter agilidade)
Esses números contam uma história clara: a Pinarello não está brincando de fazer gravel. Eles querem que essa bike encare terrenos que fariam outras gravels chorarem pedindo arrego. E com capacidade para pneus de até 50mm, dá pra imaginar que ela realmente aguenta o tranco.
Transmissão emprestada do MTB e guidão versátil
Outro detalhe que mostra como essa bike é diferente das gravels tradicionais: a transmissão. Ao invés de usar aqueles grupsets específicos para gravel que todo mundo conhece, a Grevil MX vem com uma combinação bem MTB mesmo: coroa de 38 dentes na frente combinada com um cassete de 10-52 dentes atrás. Isso aí é SRAM puro de mountain bike, gente.

Essa combinação de marchas faz todo sentido quando você pensa no propósito da bike. Com aquele cassete enorme atrás, você tem uma marcha bem leve pra subir qualquer coisa, mas sem perder muito nas descidas. É o tipo de configuração que te dá confiança pra enfrentar aquele singletrack técnico que aparece no meio do pedal de gravel.
E tem mais: embora a bike venha de série com um cockpit integrado em carbono da MOST (aqueles guidões drop bonitos), a Pinarello diz que dá pra trocar por um guidão reto se você quiser. Basicamente, eles estão dizendo: “olha, se você quiser transformar isso numa MTB de verdade, a gente não vai te impedir”.
Ah, e ela também aceita canote telescópico de 30,9mm de diâmetro. Porque, convenhamos, se você vai enfrentar descidas sérias com uma bike dessas, vai querer poder abaixar o selim rapidinho, né?
O elefante na sala: o preço e a disponibilidade
Tá, até aqui você deve estar pensando “nossa, que bike interessante, quero uma”. Sinto informar que as notícias não são boas. Primeiro, o preço: €8.500. Sim, oito mil e quinhentos euros. Pra você ter uma ideia, isso dá uns R$ 54 mil na cotação atual, sem contar impostos, frete e toda a burocracia de importação.
Mas espera, tem mais. A Grevil MX está sendo lançada em apenas 28 países da Europa e África. E adivinha quem ficou de fora? Isso mesmo: Brasil não está na lista. Aliás, até o Reino Unido ficou de fora dessa primeira leva, segundo informou a própria Pinarello.
Quando perguntamos sobre planos para disponibilizar a bike no mercado brasileiro, a resposta foi um silêncio constrangedor. Não há previsão. Nada. Zero. Então, por enquanto, a gente só pode admirar de longe e torcer pra que algum dia essa tecnologia chegue por aqui a preços menos estratosféricos.
Suspensão em gravel: luxo desnecessário ou futuro inevitável?
Aqui é onde a coisa fica filosófica. Tem gente que acha que suspensão em bike gravel é frescura total. “Pra que isso se você pode simplesmente calibrar os pneus com menos pressão?”, dizem os puristas. E olha, tem lógica nisso. Uma das grandes belezas das gravels é justamente a simplicidade: menos coisas pra quebrar, menos manutenção, mais liberdade.
Por outro lado, quem já encarou aqueles trechos de terra bem castigados, cheios de buracos e pedras soltas, sabe que ter um garfo de suspensão pode ser a diferença entre terminar o pedal sorrindo ou com as mãos dormentes e o corpo todo dolorido. Além disso, suspensão te dá mais controle e tração em descidas técnicas – e isso não é pouca coisa.
O lance é que o segmento gravel está em constante evolução. O que começou como “bikes de estrada com pneus mais largos” virou um universo próprio, com diferentes filosofias e propostas. Tem gravel pra fazer bikepacking leve, gravel pra competir em provas de asfalto e terra, e agora tem gravel que é basicamente uma MTB disfarçada.
A Pinarello claramente está apostando que existe um público que quer empurrar os limites do que uma gravel pode fazer. E talvez eles estejam certos. Com eventos como o Unbound Gravel ficando cada vez mais técnicos e desafiadores, faz sentido que as bikes evoluam junto.
Vale a pena ou é melhor comprar logo uma MTB?
Essa é a pergunta de um milhão de dólares – ou melhor, de 8.500 euros. E a resposta honesta é: depende do que você quer fazer.
Se o seu lance é misturar bastante asfalto com trechos de terra, fazer aqueles pedais longos onde você nunca sabe exatamente que tipo de terreno vai encontrar, aí sim a Grevil MX pode fazer sentido. Ela mantém a eficiência no asfalto (graças à geometria e ao design aerodinâmico que a Pinarello herdou das suas bikes de estrada), mas te dá ferramentas pra encarar trilhas quando elas aparecerem.
Agora, se você quer mesmo é fazer trilha hardcore, descer aqueles singletracks técnicos cheios de pedra e raiz, aí sinceramente é melhor investir numa mountain bike de verdade. Por mais capaz que a Grevil MX seja, ela ainda tem limitações que uma MTB não tem – começando pelos meros 100mm de suspensão e pela geometria que, apesar de próxima, não é idêntica.
E tem outra coisa: pelo preço de uma Grevil MX, você compra uma mountain bike top de linha e ainda sobra dinheiro pra uma gravel tradicional. Aí você tem o melhor dos dois mundos sem fazer concessões. Mas claro, tem gente que prefere ter uma bike só pra tudo, e pra esse perfil a proposta faz todo sentido.
Detalhes técnicos que fazem diferença
Olhando os detalhes mais técnicos, a Pinarello caprichou em alguns pontos importantes. O movimento central roscado é uma escolha sábia – nada de pressfit pra dar dor de cabeça com rangidos. O sistema de passagem de cabos TiCR da marca mantém tudo internamente roteado mas com acesso facilitado pra manutenção.
A escolha do carbono M40J também não é por acaso. É um material que oferece um excelente equilíbrio entre rigidez e conforto, sem ser aquele carbono super premium (e super caro) que algumas marcas usam. Suficientemente bom pra performance, mas mantendo a bike em um patamar de preço ainda viável (dentro do possível, né).
Um detalhe que pode passar despercebido mas é muito importante: a bike aceita pneus de 50mm de largura. Isso te dá uma versatilidade absurda. Vai fazer um pedal mais rápido em estradas de terra boa? Coloca um 40mm slick. Vai encarar lama e pedregulho? Bota um 50mm com cravos agressivos. É quase como ter duas bikes em uma.
O que isso diz sobre o futuro das gravels
A entrada da Pinarello no segmento de gravel com suspensão não é um movimento isolado. Outras marcas também têm testado as águas com propostas similares, embora poucas tenham ido tão longe quanto a italiana. Isso sugere que existe sim um mercado crescente pra esse tipo de equipamento.
O que a gente está vendo é uma segmentação dentro do próprio segmento gravel. Assim como no mountain bike você tem XC, trail, enduro e downhill, no gravel está começando a aparecer subdivisões claras: gravel leve pra pedais longos em terra batida, gravel aero pra competição, e agora gravel com suspensão pra quem quer aventuras mais selvagens.
E isso é legal, na verdade. Significa que o esporte está amadurecendo e se especializando. Daqui a alguns anos, quando alguém falar “vou comprar uma gravel”, a primeira pergunta provavelmente será: “que tipo de gravel?”. Do mesmo jeito que hoje ninguém mais fala só “vou comprar uma MTB” sem especificar se é pra XC, trail ou o que for.
A Grevil MX representa esse futuro. Pode ser que ela seja cedo demais pro mercado atual, ou pode ser que daqui a cinco anos todo mundo esteja andando com gravel suspensionadas achando absurdo que um dia isso não existia. Só o tempo vai dizer.
Considerações finais
Olhando pra Pinarello Grevil MX com honestidade, é difícil não admirar a coragem da marca em criar algo tão específico e nichado. Numa época onde muitas empresas jogam no seguro fazendo mais do mesmo, ver a italiana italiana criando uma bike que divide opiniões é refrescante.
Claro, o preço é proibitivo pra maioria dos mortais, e a disponibilidade limitada frustra quem se interessou. Mas como conceito, como demonstração de tecnologia e engenharia, a Grevil MX é fascinante. Ela mostra que ainda há espaço pra inovação e experimentação no mundo das bikes.
Se você está no mercado por uma bike realmente versátil e tem dinheiro não sendo problema (e mora num dos 28 países sortudos), vale a pena pelo menos testar. Agora, se você é como a maioria de nós brasileiros, vai ter que se contentar em admirar pelas fotos e torcer pra que essa tecnologia eventualmente chegue por aqui em versões mais acessíveis de outras marcas.
No fim das contas, a grande sacada da Grevil MX não é ser a bike perfeita pra todo mundo. É expandir as possibilidades do que uma gravel pode ser. E nisso, ela cumpre o papel com sobras.
Quer saber mais sobre a Grevil MX? Dá uma olhada no site oficial da Pinarello pra ver todas as especificações técnicas e fotos em alta resolução.
Perguntas Frequentes sobre a Pinarello Grevil MX
Qual é o preço da Pinarello Grevil MX no Brasil?
A Grevil MX não está oficialmente disponível no Brasil. Na Europa, o preço é de €8.500, o que convertido e com impostos chegaria facilmente aos R$ 70-80 mil no mercado brasileiro, caso fosse importada. Por enquanto, a Pinarello não tem planos confirmados de lançamento no nosso mercado.
Vale a pena ter suspensão em uma bike gravel?
Depende muito do tipo de terreno que você vai enfrentar. Se seus pedais incluem trechos técnicos com muitas pedras, raízes e terreno irregular, a suspensão vai te dar mais conforto, controle e tração. Mas se você pedala principalmente em estradas de terra conservadas e asfalto, uma gravel rígida tradicional com pneus bem calibrados pode ser suficiente e mais eficiente.
A Grevil MX serve para fazer bikepacking?
Sim, a bike tem geometria estável e aceita pneus largos, o que é ótimo pra viagens longas com bagagem. Porém, ela não tem tantos pontos de fixação pra bags quanto algumas gravels específicas pra bikepacking. Se você quer fazer expedições longas com muito equipamento, talvez existam opções mais adequadas no mercado.
Como a geometria da Grevil MX se compara com uma mountain bike XC?
A geometria é muito similar às MTBs de cross-country modernas, com ângulo de direção de 68 graus e reach de 470mm no tamanho grande. A principal diferença está no guidão drop ao invés de flat, e nas varas um pouco mais longas que a maioria das XC hardtails. Mas no geral, os números mostram que a Pinarello claramente se inspirou nas MTBs ao desenhar essa bike.
Posso trocar o guidão drop por um flat na Grevil MX?
Sim! A Pinarello confirmou que a bike é compatível com o cockpit flat da MOST, permitindo transformá-la numa configuração mais próxima de uma mountain bike tradicional. Isso dá bastante versatilidade pra quem quer usar a bike principalmente em trilhas técnicas onde o guidão reto oferece mais controle.

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