Às vezes, um campeão precisa fazer escolhas difíceis. E foi exatamente isso que Primož Roglič fez quando sentou com a cúpula da Red Bull-BORA-hansgrohe para definir seu calendário de 2026. O esloveno deixou bem claro qual é sua ambição: ele não quer simplesmente participar do Tour de France – ele quer fazer história na Vuelta a España.
A decisão pode parecer surpreendente à primeira vista, mas faz todo sentido quando você entende o que está em jogo. Roglič está a uma vitória de se tornar o maior vencedor de todos os tempos da corrida espanhola. É o tipo de recorde que permanece nos livros de história do ciclismo.
A Conversa que Mudou Tudo
Zak Dempster, o responsável pelas decisões esportivas da equipe alemã, voou até Mônaco especialmente para essa reunião. O papo foi longo, sincero e esclarecedor. “Voei para Mônaco e conversei longamente com Primož. Ele quer ganhar de novo, porque é isso que o faz feliz”, revelou Dempster em entrevista ao Wielerflits.
E veja bem, não é que Roglič tenha algo contra o Tour. Muito pelo contrário. O problema é que, com a chegada de Remco Evenepoel e a ascensão de Florian Lipowitz na hierarquia da equipe, o esloveno teria que aceitar um papel secundário em julho. Seria o gregário, o caçador de etapas, aquele cara que trabalha pros outros. E isso? Simplesmente não estava nos planos dele.
O Recorde que Virou Obsessão
Atualmente, Roglič divide com o espanhol Roberto Heras o posto de maior vencedor da Vuelta a España, com quatro conquistas cada um. São títulos que Primož conquistou em 2019, 2020, 2021 e, mais recentemente, em 2024, logo após sua chegada à Red Bull-BORA.
Mas aqui está a questão que mexe com qualquer competidor de verdade: ser o primeiro é sempre melhor do que ser um dos primeiros. Uma quinta vitória na Vuelta colocaria Roglič sozinho no topo, como o único pentacampeão da história da corrida espanhola. É o tipo de legado que nenhum contrato, nenhum salário, consegue comprar.
“Ele ainda pode buscar vitórias de etapa no Tour. E quem sabe o que seria possível na classificação geral. Mas ele tinha um forte desejo de dar os passos certos para vencer a Vuelta novamente. Se isso ainda está ao alcance dele, podemos debater por dias. Mas essa é a prioridade de Primož”, explicou Dempster com uma franqueza admirável.
A Estratégia é Clara: Tudo pela Vuelta
Não participar do Tour de France não é uma decisão que se toma de ânimo leve no ciclismo profissional. A Grande Boucle é o evento mais importante do calendário, aquele que atrai os maiores patrocinadores, as maiores audiências, o maior prestígio.
Mas Roglič sabe exatamente o que quer. E mais importante: sabe exatamente o que não quer. Ele não quer dividir atenções. Não quer gastar energia em julho que poderia reservar para agosto e setembro. Não quer chegar na Espanha já cansado das batalhas alpinas.
A Vuelta a España acontece tradicionalmente no final da temporada, entre agosto e setembro. É uma corrida brutal, com subidas impiedosas sob o calor escaldante espanhol. Exige frescor nas pernas, lucidez mental e uma preparação específica que o Tour simplesmente não permite.
O Tour Terá Seus Próprios Protagonistas
Enquanto Roglič mira setembro, a Red Bull-BORA-hansgrohe não ficará de mãos vazias em julho. A equipe alemã vai para o Tour com uma formação de respeito, tendo Remco Evenepoel e Florian Lipowitz como líderes para a classificação geral.
Evenepoel, que faz sua estreia pela nova equipe, terá um calendário cuidadosamente planejado na primavera. Ele vai correr o TTT da Mallorca Challenge e a Volta à Comunitat Valenciana antes de um longo período de treinamento focado. Só então aparecerá na Volta à Catalunya, preparando-se para as clássicas das Ardenas e, finalmente, para o Tour.
A filosofia por trás desse planejamento é interessante. Dempster explica que corridas como Paris-Nice e Tirreno-Adriatico estão entre as mais exigentes do calendário World Tour em termos de gasto energético. “Se você olhar para as corridas World Tour mais duras, você chega em Paris-Nice, Volta à Catalunya e Critérium du Dauphiné. Você queima o maior número de quilojoules nessas corridas. É por isso que acho a combinação Paris-Nice e Catalunya incrivelmente perigosa”, argumentou.
A Montagem do Dream Team para o Tour
Uma coisa curiosa sobre a formação da Red Bull-BORA para o Tour é que ela ainda está surpreendentemente em aberto. Evenepoel e Lipowitz são certezas, assim como Mattia Cattaneo e Maxim van Gils. Mas as outras vagas? Aí é que a coisa fica interessante.
Dempster não descarta nem mesmo a presença de um velocista como Jordi Meeus na formação final. Tudo dependerá de como a temporada se desenrolar. “Sem entrar em muitos detalhes: temos caras no time que estiveram no pódio de Grand Tours e que poderiam estar agora em nossa equipe do Tour. Daniel Felipe Martínez é um exemplo disso. Ele teve um 2025 muito difícil, mas eu absolutamente o vejo como uma figura-chave em nossa equipe”, revelou o dirigente.
Jai Hindley é outro nome que aparece nas conversas. Depois de correr o Giro d’Italia, ele poderia se juntar ao Tour como gregário de luxo e caçador de etapas. A quarta etapa, por exemplo, já está no radar como uma oportunidade perfeita para uma fuga. “A etapa quatro já será para uma escapada; essa etapa combina quase perfeitamente com ele”, animou-se Dempster.
O Motor da Equipe: Os Gregários de Elite
Todo líder precisa de uma equipe forte ao seu redor, e a Red Bull-BORA tem alguns dos melhores “motores” do pelotão. São aqueles caras que não aparecem nos holofotes, mas sem os quais nenhuma vitória acontece.
“Você só precisa encontrar o equilíbrio certo. Você também precisa de uma sala de máquinas. Essa é uma razão pela qual contratamos alguém como Mattia Cattaneo. Alguém como Nico Denz também é muito bom nisso, Jan Tratnik é de classe mundial em seu trabalho, assim como Gianni Moscon”, listou Dempster.
E tem mais. A equipe está apostando alto em uma nova geração de gregários de elite: Mick e Tim van Dijke, Laurence Pithie e outros jovens talentos que estão amadurecendo rapidamente no pelotão profissional.
Curiosamente, Jan Tratnik, que é o braço direito de Roglič há anos, pode acabar indo para o Tour mesmo sem seu líder habitual. Seria uma daquelas ironias interessantes do ciclismo profissional – o fiel escudeiro trabalhando para outros líderes enquanto seu general se prepara para outra batalha.
A Rivalidade que Promete na Vuelta
Se Roglič vai ter paz na busca pelo seu quinto título? Nem pensar. A Vuelta de 2026 já tem confirmados alguns dos melhores escaladores do pelotão atual. João Almeida, que oficialmente não vai disputar o Tour, está confirmado para a corrida espanhola. Assim como Felix Gall, Matthew Riccitello, Mattias Skjelmose e Enric Mas.
Será uma batalha épica pelas montanhas da Espanha, com Roglič tentando se isolar na história enquanto jovens famintos por glória tentarão derrubar o veterano. É o tipo de narrativa que faz o coração de qualquer fã de ciclismo bater mais forte.
A Maturidade de Saber Dizer Não
O que mais impressiona na decisão de Roglič é a clareza com que ele enxerga sua carreira neste momento. Aos 35 anos (completará 36 em outubro de 2026), o esloveno sabe que não tem tempo infinito no topo do esporte. Cada temporada conta. Cada objetivo precisa ser bem escolhido.
Em um mundo onde muitos atletas aceitariam qualquer papel apenas para estar no Tour de France, Roglič teve a coragem de dizer: “não, obrigado”. Ele preferiu mirar em algo maior, algo que ninguém jamais conquistou, em vez de aceitar migalhas na corrida mais famosa do mundo.
É uma lição valiosa não apenas para ciclistas, mas para qualquer pessoa que tenha objetivos ambiciosos: às vezes, dizer não para o que é bom é necessário para alcançar o que é extraordinário.
O Legado em Construção
Se tudo correr como planejado e Roglič conseguir sua quinta coroa na Vuelta, ele entrará para a história de uma forma que poucos conseguem. Não será apenas mais um grande campeão – será O maior campeão da Vuelta a España.
É curioso como esse recorde não recebe tanta atenção quanto deveria. Vivemos em uma era dominada por feitos de Tadej Pogačar, Mathieu van der Poel e Evenepoel, mas o que Roglič está fazendo na Espanha é igualmente impressionante. Quatro vitórias já seriam suficientes para garantir lenda status. Cinco? Isso é imortalidade.
A última vez que vimos Roglič no Tour foi em 2024, quando ainda corria pela Jumbo-Visma. Agora, em 2026, ele garantiu que não estará lá. É uma decisão corajosa, mas que faz todo sentido quando você entende o que está em jogo. E o melhor: a Red Bull-BORA respeitou completamente a escolha do seu campeão.
Como disse Dempster de forma bem direta: “Se isso ainda está ao alcance dele, podemos argumentar por dias. Mas essa é a prioridade de Primož.” E quando um campeão dessa magnitude tem suas prioridades tão bem definidas, o melhor que uma equipe pode fazer é apoiar totalmente.
O relógio está correndo. Setembro está chegando. E Primož Roglič, longe dos holofotes do Tour de France, estará trabalhando silenciosamente para escrever seu nome nos livros de história de uma forma que ninguém jamais conseguiu. Cinco vezes campeão da Vuelta. Tem um certo charme, não tem?
Perguntas Frequentes
Por que Primož Roglič decidiu não correr o Tour de France 2026?
Roglič decidiu focar exclusivamente na Vuelta a España porque quer conquistar seu quinto título na corrida espanhola, o que o tornaria o maior vencedor de todos os tempos da prova. Na Red Bull-BORA-hansgrohe, ele teria que aceitar um papel secundário no Tour, trabalhando para Remco Evenepoel e Florian Lipowitz, o que não estava em seus planos. A decisão foi dele mesmo, não da equipe.
Quantas vezes Primož Roglič já venceu a Vuelta a España?
Roglič já venceu a Vuelta quatro vezes: em 2019, 2020, 2021 e 2024. Ele está atualmente empatado com o espanhol Roberto Heras como os maiores vencedores da história da corrida. Uma quinta vitória em 2026 o colocaria sozinho no topo desse recorde histórico.
Quem serão os líderes da Red Bull-BORA-hansgrohe no Tour de France 2026?
A equipe alemã terá Remco Evenepoel e Florian Lipowitz como líderes para a classificação geral do Tour de France 2026. Eles contarão com o apoio de gregários de peso como Mattia Cattaneo, Maxim van Gils, Daniel Felipe Martínez, e possivelmente Jai Hindley, que pode vir do Giro d’Italia como caçador de etapas.
Por que não correr o Tour ajuda Roglič a vencer a Vuelta?
A Vuelta acontece em agosto e setembro, após o Tour de France. Ao pular o Tour, Roglič pode planejar uma preparação específica para a corrida espanhola, chegando com as pernas frescas e sem o desgaste das três semanas de corrida em julho. Isso lhe dá uma vantagem significativa sobre rivais que disputarão ambas as corridas. Além disso, evita corridas muito desgastantes na primavera, como Paris-Nice, que “queimam muitos quilojoules” segundo a equipe.
Quem são os principais rivais de Roglič na Vuelta 2026?
Entre os rivais confirmados para a Vuelta 2026 estão João Almeida (que também não disputará o Tour), Felix Gall, Matthew Riccitello, Mattias Skjelmose e Enric Mas. Será uma batalha de alto nível, com vários escaladores de elite tentando impedir que Roglič faça história com sua quinta vitória na corrida espanhola.

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