Quando a Wilier lançou a nova Filante SLR iD2 no final da temporada de 2025, não economizou nas palavras. A marca italiana declarou que sua nova criação representa “a evolução definitiva” de suas bikes de corrida e, pasmem, a mais rápida do cenário WorldTour. São palavras fortes, dessas que fazem a gente erguer a sobrancelha com aquele ar meio desconfiado.
A primeira afirmação até que faz sentido. Depois de entregar aquela Rave SLR iD2 para gravel que arrancou elogios, e tendo lançado a Verticale SLR há pouco tempo, dá pra perceber que a Wilier está numa fase inspirada. Mas essa história de ser a mais rápida do WorldTour? Aí já complica.
A Promessa Ousada da Wilier
Segundo a fabricante, a Filante iD2 superou “cinco bikes topo de linha do WorldTour” em testes comparativos, com uma performance média 2,42% superior. O problema? A Wilier não revelou quais cinco bikes foram essas. E olha, isso não é incomum no mercado – nenhuma marca quer comprar briga direta com a concorrência – mas deixa aquela pulga atrás da orelha.
Pensando bem, para ela realmente merecer esse título pomposo, a Filante precisaria bater modelos dedicados à aerodinâmica como a Cervélo S5, a Colnago Y1Rs, a Canyon Aeroad, a Scott Foil e por aí vai. E tem ainda a Factor One, que chegou depois dela ao mercado, mas já mostrou números impressionantes.
O Tal do “Teste Visual”
Aqui vai uma confissão: quando você olha para a Filante SLR iD2, ela não grita “eu sou aerodinâmica” do jeito que outras fazem. Claro que dá pra perceber a intenção aero – tem aquelas garfos mais fundos, tubo diagonal com perfil truncado e os garrafeiros integrados – mas não é nada que faça sua mandíbula cair.
Sabe aquelas bikes que parecem ter saído de um filme de ficção científica? Tipo a Ridley Noah Fast, a Van Rysel RCR-F ou a Dare VA-AFO, com tubos profundos por todo lado? A Wilier não é assim. Ela é mais… discreta, digamos.
E não tem nada de “estranho” nela também. A Cervélo tem aquele cockpit dividido, a Factor vem com garfo largo e tubo de direção estreito, a Colnago… bom, a Colnago tem tudo de diferente, né? Já a Filante parece quase normal. O cockpit F-Bar iD2 de peça única é novo e estreito, mas visualmente discreto. O canote é mais fino que o da versão anterior, mas nada que chame muita atenção. As rodas de 50mm são… rodas de 50mm. O dropout fechado da garfo é só um detalhe pequeno.
Se tem algo que salta aos olhos, são os garrafeiros Aerokit desenvolvidos em parceria com a Elite. Mas mesmo esses já viraram meio que padrão de mercado depois que BMC e Trek popularizaram a ideia.
Enfim, a conclusão inicial batendo o olho é: velocidade não precisa necessariamente parecer esquisita. Mas será que ela entrega o que promete?
Direto Para o Túnel de Vento
Como o pessoal do Cyclingnews não trabalha com achismos, eles fizeram o que tinha que ser feito: levaram a bike para o túnel de vento da Silverstone Sports Engineering Hub para colocar essas afirmações à prova.
A Filante foi testada contra a bike de referência deles – uma Trek Emonda ALR de 2015 com freios a disco, cabos externos e guidão redondo. Nada de sofisticação. É tipo aquele fusca que todo mundo usa pra comparar consumo de combustível.
Como Funcionam os Testes
Mantendo a mesma metodologia dos testes anteriores (que incluíram bikes como a Specialized S-Works Tarmac SL8, Trek Madone e outras feras), o protocolo foi rigoroso:
- Teste só com a bike: Oferece repetibilidade e precisão máximas, mas perde um pouco do realismo já que bikes não pedalam sozinhas, né?
- Teste com ciclista: Adiciona realismo, mas com margem de erro maior (cerca de 2-3 watts) porque é difícil um humano manter exatamente a mesma posição em todas as medições.
- Teste só com a bike usando rodas padronizadas: Permite avaliar se a performance vem mesmo do quadro ou se são as rodas de fábrica que fazem toda a mágica.
Cada configuração foi testada em sete ângulos de vento diferentes (de -15° a +15°), que é o que chamam de “yaw angle” – basicamente o ângulo de onde o vento vem. A velocidade de teste foi 40 km/h, que é a velocidade média em corridas amadoras, contra-relógios e escapadas longas no pelotão profissional.
Todos os testes usaram pneus Continental GP5000 S TR de 25mm na dianteira para garantir comparação justa. Quando testaram com as rodas Enve de controle, usaram GP5000 de 28mm.
E os Resultados?
Vamos aos números que todo mundo estava esperando.
Teste Só com a Bike
Começando pelos dados brutos de CdA (coeficiente de arrasto aerodinâmico), a Filante se comporta bem. Não tem aquele efeito de “vela” que a Factor One consegue (onde a bike fica até mais rápida com vento cruzado em certos ângulos), mas a linha do gráfico é bem mais achatada que a da Trek Emonda, mostrando que ela lida melhor com ventos laterais.
Em termos de economia de watts, a Filante SLR ficou no meio da tabela. Ela salvou 34,54 watts comparada à Trek Emonda de referência, mas ficou 5,74 watts atrás da Factor One (que foi a melhor do teste) e 10,32 watts à frente da Look Blade 795 RS.
Considerando a margem de erro, ela poderia subir até a posição da Factor OSTRO VAM ou cair até a da Dogma F. Meio termo, digamos assim.
Teste com Ciclista
Aqui a coisa ficou interessante. Com um ser humano de verdade sobre a bike, a Filante subiu na classificação e ficou em um respeitável terceiro lugar, perdendo apenas para a Cervélo S5 e a Factor One, mas superando a Colnago Y1Rs e a Specialized Tarmac SL8.
Ela economizou 24,5 watts contra a Trek Emonda de referência, ficando uns três watts atrás da Cervélo e da Factor. É verdade que a margem de erro aqui é quase do tamanho das diferenças entre as bikes, então o resultado não é super conclusivo. Mas olhando pelo lado positivo, dá pra dizer que sim, a Filante pode brigar pelo título de mais rápida do WorldTour.
Teste com Rodas Padronizadas
Quando trocaram as rodas Miche Kleos 50 originais pelas Enve de controle, aconteceu algo curioso: a bike melhorou um pouquinho. Ganhou 1,04 watts de economia. Não é uma diferença absurda, mas se você está na dúvida se vale a pena trocar as rodas de fábrica, esse dado pode ajudar na decisão.
O Veredito Final
Levando em conta os dados dos testes e a experiência de quem já testou a bike na estrada, a maior conclusão é que a Wilier Filante SLR iD2 é uma grata surpresa.
Ela tem uma aparência bonita, mas discreta. A intenção aero está ali, especialmente com aqueles garrafeiros Aerokit, mas não esperávamos que ela ficasse no páreo com monstros como a Factor One e a Cervélo S5.
Nos testes sem ciclista, ela não consegue sustentar sozinha aquela declaração bombástica de “mais rápida do WorldTour”. Mas com um ciclista a bordo, seu terceiro lugar é bem impressionante considerando a concorrência de peso. E por causa da margem de erro, ela até tem uma reivindicação técnica válida ao topo do pódio.
Será que isso vai ajudar David Gaudu a reconquistar o posto de líder na Groupama FDJ United? Ou impulsionar o promissor talento francês Romain Grégoire em sua ascensão? Só o tempo dirá.
O que podemos afirmar é que a Wilier entregou uma bike aerodinâmica de alto nível sem recorrer aos designs extremos que vemos por aí. Às vezes, a velocidade não precisa ser espalhafatosa – ela pode estar nos detalhes sutis que você nem percebe à primeira vista.
Contexto Atual do Mercado de Bikes Aero
Vale lembrar que o mercado de bikes aerodinâmicas está em constante evolução. Nos últimos anos, vimos fabricantes apostando em soluções cada vez mais ousadas para ganhar watts preciosos contra o vento.
A Cervélo, por exemplo, tem investido pesado em pesquisa e desenvolvimento, enquanto a Factor trouxe conceitos inovadores com sua geometria moderna e aquele garfo diferentão. A própria UCI teve que atualizar regulamentações para acompanhar essas inovações.
Nesse cenário competitivo, a estratégia da Wilier de buscar performance sem design radical é interessante. Mostra que ainda há espaço para eficiência aerodinâmica sem precisar assustar os ciclistas mais conservadores.
Perguntas Frequentes
A Wilier Filante SLR iD2 é realmente a bike mais rápida do WorldTour?
Depende de como você interpreta os dados. Nos testes apenas com a bike, ela ficou no meio da tabela, cerca de 5-6 watts atrás dos líderes. Mas com ciclista, ela alcançou o terceiro lugar, ficando apenas 3 watts atrás da líder. Considerando a margem de erro dos testes, ela tecnicamente pode reivindicar o título de mais rápida, mas o resultado não é conclusivo o suficiente para afirmar isso categoricamente.
Vale a pena trocar as rodas Miche Kleos 50 que vêm de fábrica?
Os testes mostraram que trocar para rodas Enve resultou em uma melhora de apenas 1,04 watts. É uma diferença pequena, mas se você está buscando cada detalhe de performance ou quer rodas com outras características (peso, rigidez, durabilidade), pode fazer sentido considerar uma troca. Para a maioria dos ciclistas, as rodas de fábrica já oferecem excelente performance.
Como a Filante se compara com outras bikes aero populares?
A Filante mostrou performance competitiva, ficando atrás apenas da Factor One e Cervélo S5 nos testes com ciclista, mas à frente de nomes conhecidos como Colnago Y1Rs, Specialized Tarmac SL8 e várias outras. Sua principal vantagem é combinar performance aero de alto nível com design mais tradicional e menos radical.
Os garrafeiros Aerokit realmente fazem diferença?
Embora os testes não isolem especificamente o benefício dos garrafeiros, o comportamento da bike com ciclista (onde ela se saiu melhor) sugere que eles ajudam. Os garrafeiros integrados ficam na zona de ar turbulento entre as pernas do ciclista, e essa pode ser uma das razões pelas quais a Filante mantém boa performance em diferentes ângulos de vento.
Testes em túnel de vento são confiáveis para escolher uma bike?
Testes em túnel de vento são uma ferramenta valiosa, mas não contam a história completa. Eles medem apenas a aerodinâmica em condições controladas. Uma bike excelente também precisa ter bom peso, rigidez adequada, conforto, geometria que funcione para você e facilidade de manutenção. Use dados de túnel de vento como um dos fatores na decisão, não como o único.

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