Olha, eu já assisti muitas corridas em condições extremas, mas o que está acontecendo no Tour Down Under nesta semana me deixou realmente preocupado. A previsão meteorológica para Adelaide aponta temperaturas beirando os 41 graus Celsius neste fim de semana, e isso não é apenas desconfortável – é potencialmente perigoso para os atletas.
Vamos ser sinceros: quem aqui já tentou pedalar com 35 graus sabe o quanto é desafiador. Agora imagina fazer isso em ritmo de competição WorldTour, com o pelotão acelerando, atacando, disputando cada curva. É um cenário que mistura esporte de alto rendimento com uma situação climática que beira o limite do aceitável.
O Cenário Preocupante da Semana na Austrália
A situação está assim: a etapa 3 da prova masculina, programada para sexta-feira, deve ser disputada com temperaturas próximas aos 40°C. Mas o pior ainda está por vir. A etapa rainha de sábado, aquela com a tripla subida de Willunga Hill que todo mundo adora assistir, pode ultrapassar os 40 graus. E no domingo? Mesma história.
Não estou exagerando quando digo que isso é sério. A UCI tem um protocolo específico para altas temperaturas, medido através do índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature). Esse índice leva em conta não só a temperatura do ar, mas também umidade, vento e radiação solar direta. Quando o WBGT ultrapassa 28°C, entramos na chamada “zona vermelha” – e as três etapas mencionadas devem cair exatamente nessa faixa de alto risco.
Mais Que uma Questão de Performance
Quando eu estava na Austrália há dois anos para cobrir o Tour Down Under, lembro claramente do calor. E olha que eu não estava competindo, apenas caminhando de um ponto a outro com minha câmera. A sensação era de que o sol pesava fisicamente sobre você. Agora multiplica isso por horas de esforço máximo sobre a bike.
Os ciclistas profissionais são atletas de elite, sim. Eles têm equipes médicas, carros com ar condicionado, toneladas de gelo e bebidas isotônicas. Mas no fim das contas, são seres humanos pedalando sob um sol escaldante, com frequências cardíacas disparadas e corpos sendo levados ao limite.
O protocolo da UCI não está lá por acaso. Ele sugere medidas como mudança de horários de largada e chegada, neutralização de trechos da corrida ou, em casos extremos, cancelamento puro e simples do evento quando o nível de risco é considerado alto demais.
A Mudança Climática Já Chegou ao Pelotão
Aqui entra um ponto que muita gente prefere ignorar, mas que não dá mais para fugir: as mudanças climáticas estão impactando diretamente o ciclismo profissional. E de uma forma que poucos outros esportes sentem tão intensamente.
Pensa bem: futebol, basquete, tênis – a maioria das competições de elite acontece em ambientes controlados ou com pausas frequentes. O ciclismo de estrada? É você, a bike e o clima, sem escapatória. Chuva torrencial, vento cortante, neve, calor extremo – tudo isso faz parte do jogo. Mas quando o “extremo” se torna a nova normalidade, temos um problema real.
A ciclista australiana Maeve Plouffe, que é de Adelaide, escreveu algo no The Guardian que me deixou pensando. Ela disse que é como “receber amigos internacionais em uma casa que está visivelmente pegando fogo”. Você tenta desviar a atenção, mostrar o espetáculo, o sol, mas a realidade está ali, impossível de ignorar.
Ela fez as contas: se aplicassem rigorosamente a política de cancelamento acima de 37°C usada pela Federação de Ciclismo da Austrália do Sul, 25 etapas do Tour Down Under já teriam sido canceladas até hoje. Vinte e cinco! Isso não é pouca coisa.
O Elefante na Sala: Patrocínios Contraditórios
Tem outra questão aqui que incomoda bastante. O Tour Down Under é patrocinado pela Santos, uma empresa australiana de petróleo e gás que já foi muito criticada por suas emissões de gases de efeito estufa. É meio irônico, não? Falar sobre as consequências das mudanças climáticas enquanto uma empresa do setor de combustíveis fósseis estampa seu nome na competição.
E não é só na Austrália. Você vê isso em várias equipes do WorldTour também. UAE Team Emirates com a XRG, Bahrain Victorious com a Bapco… É um paradoxo difícil de engolir quando discutimos sustentabilidade no esporte.
Não É Só na Austrália: O Problema é Global
Eu já estive no Tour de France em dias que pareciam um forno. Lembro de procurar sombra em estacionamentos subterrâneos só para me manter saudável enquanto trabalhava. E eu não estava pedalando 200 quilômetros em ritmo de corrida!
A Vuelta a España deste ano vai passar boa parte do tempo na Andaluzia em pleno verão. Quem conhece o sul da Espanha em agosto sabe que não é brincadeira. Temperaturas altíssimas são praticamente garantidas.
A questão é: até quando vamos continuar empurrando com a barriga? O protocolo de calor existe, mas precisa ser aplicado com rigor. Não podemos esperar que aconteça uma tragédia para começar a levar isso a sério.
Repensando o Calendário e as Estratégias
O Tour Down Under acontecer em janeiro faz todo sentido logístico. É verão na Austrália, começo de temporada europeia, tudo se encaixa perfeitamente. Mas será que o calendário tradicional ainda funciona numa realidade climática diferente?
A Austrália merece ter uma corrida WorldTour tanto quanto qualquer outro lugar do mundo. Mas talvez seja hora de repensar as datas, os horários, as rotas. Etapas começando às 6 da manhã em vez das 11h? Percursos alternativos que evitem as áreas mais quentes? São ideias que merecem ser discutidas seriamente.
E tem a pegada de carbono também. Trazer equipes inteiras da Europa para a Austrália não ajuda exatamente na questão climática, não é? É um ciclo complicado: quanto mais voamos pelo mundo, mais contribuímos para o problema que está tornando essas viagens cada vez mais desafiadoras.
O Que Precisa Acontecer Agora
Primeiro, e mais importante: o protocolo de segurança da UCI precisa ser seguido à risca. Não pode haver meio-termo quando se trata da saúde dos ciclistas. Se o índice WBGT indica zona vermelha, as medidas de proteção devem ser implementadas, ponto final.
Segundo, o ciclismo como esporte precisa acordar para a realidade das mudanças climáticas. Não estamos mais falando de projeções para 2050 ou 2100. O impacto já está aqui, acontecendo agora, afetando corridas que estamos assistindo neste exato momento.
Terceiro, precisamos de uma conversa honesta sobre patrocínios. Empresas de combustíveis fósseis investindo em ciclismo enquanto o esporte sofre com as consequências da crise climática é uma contradição que não pode mais ser ignorada.
E por último, mas não menos importante: os organizadores de corridas, a UCI e as equipes precisam trabalhar juntos para adaptar o esporte a essa nova realidade. Isso pode significar mudanças nos calendários, nos horários, nas rotas e até nas regras das competições.
Conclusão: 40°C É Quente Demais
O título do artigo já diz tudo, mas vale repetir: 40 graus Celsius é quente demais para corridas de ciclismo. Simples assim. Não é questão de os atletas serem “fortes o suficiente” ou de “sempre ter sido assim”. As coisas mudaram, o planeta mudou, e precisamos mudar também.
Espero genuinamente que esta semana no Tour Down Under passe sem incidentes sérios. Que os ciclistas consigam completar as etapas com segurança, que as equipes médicas façam seu trabalho brilhantemente e que as manchas de sal nos uniformes sejam o único efeito colateral visível.
Mas não podemos contar com a sorte para sempre. A conversa sobre regulamentações mais rígidas da UCI, adaptação do calendário e sustentabilidade no ciclismo profissional não pode mais ser adiada. O futuro do esporte – literalmente – depende de como lidamos com essas questões agora.
E você, o que acha? Já pedalou em calor extremo? Como acha que o ciclismo deveria lidar com essas temperaturas cada vez mais altas? Compartilha sua experiência nos comentários – vamos manter essa conversa viva, porque ela é importante demais para ser ignorada.
Perguntas Frequentes
Qual a temperatura máxima segura para competições de ciclismo?
A UCI utiliza o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature) para determinar os níveis de risco. Quando esse índice ultrapassa 28°C, entramos na zona vermelha de alto risco. Nesse ponto, medidas de segurança como mudança de horários, neutralizações ou até cancelamentos devem ser consideradas. Não existe uma temperatura específica do ar como limite, já que o WBGT considera também umidade, vento e radiação solar.
Como os ciclistas profissionais se protegem do calor extremo durante as corridas?
Os ciclistas usam várias estratégias: hidratação constante com bebidas isotônicas e água, aplicação de gelo no pescoço e capacete, roupas mais leves e com melhor ventilação, além de ajustes na intensidade do esforço quando possível. As equipes também fornecem bidons extras e têm carros de apoio com ar condicionado para os momentos antes e depois da corrida. Mesmo assim, em temperaturas acima de 40°C, essas medidas podem não ser suficientes para prevenir problemas de saúde.
O Tour Down Under já teve etapas canceladas por causa do calor?
Embora o Tour Down Under já tenha enfrentado temperaturas extremas diversas vezes ao longo de sua história, cancelamentos completos são raros. Segundo dados citados pela ciclista Maeve Plouffe, se a regra de cancelamento acima de 37°C fosse aplicada rigorosamente, 25 etapas históricas da prova teriam sido canceladas. O que normalmente acontece são ajustes nos horários de largada, encurtamento de percursos ou neutralizações parciais quando as condições ficam muito perigosas.
As mudanças climáticas estão realmente afetando o ciclismo profissional?
Sim, e de forma cada vez mais evidente. O ciclismo de estrada é particularmente vulnerável porque acontece ao ar livre, em longas distâncias e sem possibilidade de pausa quando as condições climáticas pioram. Estudos mostram que temperaturas extremas estão se tornando mais frequentes e intensas, o que força organizadores a repensar calendários, horários e até a viabilidade de certas corridas em seus formatos tradicionais. O impacto vai desde ajustes práticos nas provas até questões mais profundas sobre a sustentabilidade do esporte.
Outras grandes corridas também enfrentam problemas com calor extremo?
Absolutamente. O Tour de France já teve etapas extremamente quentes, especialmente nas regiões do sul da França. A Vuelta a España, que acontece em agosto e setembro, frequentemente enfrenta temperaturas acima de 35°C, principalmente quando passa pela Andaluzia. Mesmo o Giro d’Italia, tradicionalmente em maio, tem registrado dias de calor intenso. A diferença é que essas corridas têm mais flexibilidade de ajustar percursos e horários por serem eventos consolidados há décadas, mas o desafio continua crescendo a cada ano.

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