Tem algo no ar do Algarve que faz o coração de quem ama ciclismo bater mais forte. Talvez seja a luz dourada que banha as estradas portuguesas, ou quem sabe o fato de que, todo mês de fevereiro, esse canto do sul de Portugal se transforma numa espécie de laboratório a céu aberto onde os maiores nomes do pelotão testam pernas, equipamentos e ambições para a temporada que se avizinha. A Volta ao Algarve 2026 não é diferente — e, se depender do pelotão que se apresenta na linha de partida, pode ser uma das edições mais disputadas da história.
A 52ª edição da prova acontece entre 18 e 22 de fevereiro de 2026, com cinco etapas que somam cerca de 697 quilômetros e algo em torno de 11.000 metros de desnível acumulado. Para quem acompanha a corrida há anos, a fórmula é conhecida: etapas para velocistas, chegadas ao alto que decidem a geral e um contrarrelógio que não perdoa ninguém. Mas há novidades que prometem temperar ainda mais essa receita.
Por que a Volta ao Algarve importa tanto?
Antes de mergulhar nos detalhes desta edição, vale a pena lembrar por que essa corrida ocupa um lugar tão especial no calendário. Fundada em 1960 (com uma edição isolada em 1936), a Volta ao Algarve passou décadas sendo uma prova essencialmente portuguesa. A partir do final dos anos 1990, porém, começou a atrair talentos internacionais de peso. Alex Zülle, Floyd Landis, Alberto Contador, Tony Martin, Primož Roglič, Tadej Pogačar, Remco Evenepoel — três vezes campeão, diga-se — e, mais recentemente, Jonas Vingegaard, que conquistou o título em 2025. Olhar para essa lista é como folhear um álbum de figurinhas do ciclismo mundial.
Hoje, integrada ao circuito UCI ProSeries, a corrida atrai regularmente 12 das 18 equipes WorldTour. É um termômetro confiável do que esperar nas grandes voltas e nas clássicas de primavera — e muitos diretores desportivos escolhem deliberadamente o Algarve para fazer estreias e testar formações.
Percurso da Volta ao Algarve 2026: etapa por etapa

A organização desenhou um percurso que equilibra oportunidades para praticamente todos os tipos de corredor. Há dias feitos sob medida para os sprinters, montanhas que vão separar os homens dos meninos, e um contrarrelógio que pode virar a classificação geral de ponta-cabeça. Veja o que cada etapa reserva.
Etapa 1 — Vila Real de Santo António → Tavira (183,5 km)
Quarta-feira, 18 de fevereiro. A corrida larga de uma cidade colada à fronteira com a Espanha e segue rumo a Tavira ao longo de 183,5 quilômetros com cerca de 2.300 metros de desnível. O perfil é convidativo para os velocistas: há duas subidas catalogadas no meio do percurso — uma de 6,2 km a 4,4% e outra de 7,9 km a 2,6% —, mas os últimos 40 quilômetros são completamente planos, o que deve garantir uma chegada ao sprint.

A grande novidade desta edição é o chamado “Quilômetro de Ouro”, com três sprints bonificados concentrados em apenas 1.100 metros na reta histórica de Vila Real de Santo António. Cada um oferece bonificações de 3, 2 e 1 segundo. Na linha de chegada, os três primeiros recebem 10, 6 e 4 segundos de bonificação. Para quem luta pela classificação geral, esses segundos podem valer ouro — literalmente.
Etapa 2 — Portimão → Alto da Fóia, Monchique (147,2 km)
Quinta-feira, 19 de fevereiro. Aqui começa a valer de verdade para os candidatos à geral. São 147 quilômetros com 3.154 metros de desnível, terminando no Alto da Fóia, o ponto mais elevado de toda a região do Algarve. A escalada final tem 8,5 km com rampas que chegam a 14%, o que a coloca na categoria de primeira — e numa versão mais exigente do que nos anos anteriores, já que a organização decidiu usar uma subida inédita, mais seletiva.

O Fóia é presença constante na Volta ao Algarve desde 2017, e já coroou nomes como Pogačar e Evenepoel. Em 2025, foi Jan Christen quem cruzou primeiro no alto. O vento, frequente naquela altitude perto dos 1.000 metros, promete ser um fator a mais na equação.
Etapa 3 (Contrarrelógio) — Vilamoura → Vilamoura (19,5 km)
Sexta-feira, 20 de fevereiro. O relógio não mente e não tem piedade. Depois de dois anos sem contrarrelógio individual na corrida, ele retorna em formato clássico: 19,5 quilômetros num circuito ao redor da marina de Vilamoura. O perfil, à primeira vista, parece plano, com apenas 188 metros de desnível. Mas quem conhece a região sabe que há pequenas ondulações constantes e trechos técnicos que vão exigir mudanças de ritmo e inteligência na gestão do esforço.

É aqui que especialistas como Filippo Ganna e Stefan Küng podem brilhar — mas também onde candidatos à geral com bom motor contra o relógio, como João Almeida e Juan Ayuso, têm a chance de cavar diferenças decisivas.
Etapa 4 — Albufeira → Lagos (175,1 km)
Sábado, 21 de fevereiro. Depois de dois dias duros, o pelotão respira — pelo menos em teoria. Os 175 quilômetros entre Albufeira e Lagos incluem apenas uma subida de terceira categoria, e o perfil é claramente favorável a outro sprint massivo. A tradição manda que em Lagos as equipes de sprinters consigam controlar a corrida e levar seus homens rápidos até a linha de chegada.

Há, porém, um detalhe que pode agitar as coisas: duas metas volantes bonificadas concentradas em apenas um quilômetro perto de Aljezur, o ponto mais ocidental do percurso. Para os líderes da geral, é mais uma oportunidade de ganhar — ou perder — tempo precioso.
Etapa 5 — Faro → Alto do Malhão, Loulé (148,4 km)
Domingo, 22 de fevereiro. O veredicto final. A última etapa sai de Faro e termina no Alto do Malhão — a subida mais emblemática da Volta ao Algarve, curta mas explosiva: 2,1 km a 9,3% de inclinação média. São 148 quilômetros com 3.264 metros de desnível, e a corrida vai ganhando intensidade à medida que o pelotão entra num circuito final desenhado para decidir tudo.

Antes do Malhão, os corredores passam pela emblemática aldeia de Alte, onde o famoso estendal da Volta ao Algarve — uma tradição carinhosa da comunidade local — cria um cenário único no ciclismo mundial. É nesse ambiente de festa que se decide quem vai para casa com a camisola de líder.
Favoritos e nomes para ficar de olho
Se há uma coisa que a Volta ao Algarve 2026 não vai ter, é falta de talento. A lista de partida traz 12 equipes WorldTour entre as 24 presentes, num total de 167 ciclistas. Aqui vão os nomes que, na minha opinião, vão dar o que falar.
João Almeida — o favorito da casa
O ciclista de Caldas da Rainha usa o dorsal número 1 e carrega consigo a pressão — e o prazer — de correr em casa. João Almeida foi segundo classificado em 2025, atrás de Vingegaard, e nunca escondeu o desejo de colocar esta corrida no seu palmarés. Com vitórias na Itzulia Basque Country, Tour de Suisse e Tour de Pologne em 2025, além de um segundo lugar recente na Volta a la Comunitat Valenciana, ele chega em forma e com uma equipe forte da UAE Team Emirates-XRG — incluindo Brandon McNulty, António Morgado e os irmãos Ivo e Rui Oliveira.
Juan Ayuso — a estreia carregada de simbolismo
Para Juan Ayuso, esta não é apenas mais uma corrida. É a sua primeira prova com a camisola da Lidl-Trek, após uma saída conturbada da UAE. Aos 23 anos, o espanhol tem talento de sobra para brigar pela geral — escalador forte e bom contrarrelogista, o perfil da corrida encaixa como uma luva no seu estilo. A narrativa de ex-companheiros que agora se enfrentam como rivais acrescenta uma camada extra de drama à competição.
Oscar Onley — recomeço na INEOS Grenadiers
O britânico de 22 anos também faz a sua estreia com equipe nova. Oscar Onley chega à INEOS Grenadiers com o Tour de France como objetivo declarado para 2026, e o Algarve serve como primeiro teste para entender a dinâmica da nova formação. Ao lado de Thymen Arensman e Filippo Ganna, a INEOS monta um trio poderoso que pode surpreender tanto na montanha quanto no contra o relógio.
Outros nomes que merecem atenção
Florian Lipowitz (Red Bull-BORA-hansgrohe) é um escalador promissor que pode ser a surpresa da corrida. Paul Seixas (Decathlon-CMA CGM) é outro talento a observar no pelotão. Jarno Widar, o neoprofissional belga da Lotto Intermarché, chega com a confiança de quem quer se testar contra os grandes. E entre os sprinters, é difícil olhar para outro lugar que não Jasper Philipsen (Alpecin-PremierTech), Arnaud De Lie (Lotto Intermarché) e Paul Magnier (Soudal-QuickStep), que devem protagonizar finais eletrizantes nas etapas 1 e 4.
Julian Alaphilippe, que corre pela Tudor, e o compatriota Stefan Küng acrescentam ainda mais brilho a um pelotão recheado de qualidade. E não se pode esquecer de Afonso Silva, da equipa continental Team Tavira, que terá o apoio entusiasmado do público local.
Equipes confirmadas na Volta ao Algarve 2026
A corrida conta com uma mistura saudável de equipes WorldTour, ProTeam e continentais portuguesas. Entre as WorldTour, marcam presença: UAE Team Emirates-XRG, INEOS Grenadiers, Lidl-Trek, Red Bull-BORA-hansgrohe, Soudal-QuickStep, Alpecin-PremierTech, Decathlon-CMA CGM, EF Education-EasyPost, Lotto Intermarché, Team Jayco AlUla, Team Picnic PostNL e Pinarello Q36.5. As ProTeams Tudor, NSN Cycling Team e Caja Rural-Seguros RGA completam o quadro internacional, enquanto equipes continentais como Team Tavira, Anicolor, Efapel, Aviludo-Louletano e outras representam o ciclismo português com orgulho.
Onde assistir à Volta ao Algarve 2026
Quem quer acompanhar a corrida tem algumas opções, dependendo de onde está no mundo. Infelizmente, para o público brasileiro a situação não mudou: até o momento, nenhum canal ou plataforma de streaming confirmou transmissão no Brasil. Mas há alternativas.
Transmissão gratuita em Portugal
A RTP2 transmite todas as etapas ao vivo, e o sinal pode ser acompanhado gratuitamente pela plataforma RTP Play, sem necessidade de cadastro. A cobertura começa por volta das 15h (horário de Lisboa) e se estende até aproximadamente as 17h.
Reino Unido
No Reino Unido, a corrida vai ao ar pelo TNT Sports e pode ser transmitida via Discovery+. As quatro primeiras etapas passam no TNT Sports 1, e a etapa final no TNT Sports 3.
Estados Unidos
Nos EUA, o streaming fica por conta do HBO Max, com planos a partir de US$ 18,49 por mês para acesso ao pacote que inclui ciclismo ao vivo.
Canadá
Os canadenses contam com o FloBikes, com assinatura anual de CAN$ 203,88 ou mensal de CAN$ 39,99. Atenção: assinantes do FloBikes nos EUA não terão acesso a esta corrida — os direitos são exclusivos para o Canadá.
Horários das etapas
A cobertura televisiva acompanha os seguintes horários aproximados de chegada (hora local de Lisboa / WET):
- Etapa 1 (18/02) — largada às 12h05, chegada prevista por volta das 16h40
- Etapa 2 (19/02) — largada às 12h55, chegada prevista por volta das 16h30
- Etapa 3 – CRI (20/02) — início às 13h05
- Etapa 4 (21/02) — largada às 11h10, chegada prevista por volta das 16h
- Etapa 5 (22/02) — largada às 12h10, chegada prevista por volta das 16h30
O duelo Almeida vs. Ayuso: ex-companheiros, agora rivais
Se existe uma subtrama que torna esta Volta ao Algarve 2026 ainda mais interessante, é o reencontro entre João Almeida e Juan Ayuso. Os dois correram juntos na UAE Team Emirates durante temporadas em que o clima interno nem sempre foi dos mais harmoniosos. A saída de Ayuso para a Lidl-Trek no final de 2025 foi marcada por tensões, e agora o espanhol tem a chance de provar que pode brilhar fora da sombra de Tadej Pogačar.
Do lado de Almeida, a motivação é dupla: defender o terreno em casa e mostrar que a UAE continua dominante mesmo sem o esloveno na corrida. É o tipo de rivalidade que faz o ciclismo ser tão fascinante — e o Algarve será o primeiro capítulo dessa história em 2026.
O que esperar: previsões e análise
Depois de acompanhar esta corrida por tantos anos, aprendi que é arriscado fazer previsões categóricas — principalmente numa prova de início de temporada, quando a forma dos ciclistas ainda é uma incógnita. Dito isso, alguns cenários parecem prováveis.
A etapa 2 ao Alto da Fóia deve ser o primeiro grande filtro. A nova subida, mais dura que a utilizada nos anos anteriores, pode criar diferenças significativas. O contrarrelógio de Vilamoura vai redistribuir as cartas, e o Malhão, no último dia, será o juiz final. Historicamente, quem chega ao domingo com menos de 30 segundos de diferença para o líder ainda tem chance — o Malhão é tão curto e tão explosivo que mudanças de posição na geral são a regra, não a exceção.
Se tivesse de apostar, diria que João Almeida parte como ligeiro favorito pela combinação de forma recente, conhecimento do terreno e qualidade da equipe. Mas Juan Ayuso com o brilho nos olhos de quem quer mostrar serviço na nova casa, e Oscar Onley com a ambição silenciosa dos britânicos, são ameaças reais. E nunca subestime Florian Lipowitz — quem viu a temporada 2025 da Red Bull-BORA sabe do que essa equipe é capaz.
Contexto histórico: os últimos campeões
Para dimensionar o que significa vencer a Volta ao Algarve, basta olhar para a lista recente de campeões. Jonas Vingegaard levou o título em 2025 após dominar o contrarrelógio final. Antes dele, Remco Evenepoel venceu três vezes (2020, 2022 e 2023), Daniel Martínez em 2024, e Tadej Pogačar em 2021. São nomes que, no fim das contas, definiram o ciclismo da última década. Entrar nessa lista é, por si só, um atestado de grandeza.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quando acontece a Volta ao Algarve 2026?
A Volta ao Algarve 2026 acontece de 18 a 22 de fevereiro de 2026, com cinco etapas pelo sul de Portugal. A corrida parte de Vila Real de Santo António e termina no emblemático Alto do Malhão, em Loulé.
Onde assistir à Volta ao Algarve 2026 de graça?
A transmissão gratuita fica por conta da RTP2 em Portugal, disponível também pela plataforma online RTP Play, sem necessidade de cadastro. No momento, não há confirmação de transmissão gratuita no Brasil.
Quem são os principais favoritos da Volta ao Algarve 2026?
Os grandes candidatos à classificação geral são João Almeida (UAE Emirates-XRG), Juan Ayuso (Lidl-Trek), Oscar Onley (INEOS Grenadiers) e Florian Lipowitz (Red Bull-BORA-hansgrohe). Nos sprints, destaque para Jasper Philipsen, Arnaud De Lie e Paul Magnier.
Quantas etapas tem a Volta ao Algarve 2026?
A corrida tem cinco etapas: duas com final previsto ao sprint (etapas 1 e 4), duas com chegada ao alto (etapas 2 e 5) e um contrarrelógio individual de 19,5 km em Vilamoura (etapa 3). O total percorrido é de aproximadamente 697 quilômetros.
Qual é a etapa mais importante da Volta ao Algarve 2026?
A etapa 2, com chegada ao Alto da Fóia (8,5 km a 6,2% de média, com rampas de 14%), e a etapa 5, com o final no Alto do Malhão (2,1 km a 9,3%), são as jornadas decisivas para a classificação geral. O contrarrelógio da etapa 3 também pode ser determinante para quem brigar por cada segundo.
Este artigo é atualizado conforme novas informações sobre a Volta ao Algarve 2026 são divulgadas. Acompanhe o Ciclismo Pelo Mundo para cobertura completa da temporada 2026.
Fontes e referências: Site oficial da Volta ao Algarve | Cyclingnews | ProCyclingStats | CyclingUpToDate




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