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Lesão de Wout van Aert é mais grave do que parece e coloca em risco temporada de clássicas 2026

A lesão no tornozelo de Wout van Aert é mais complexa do que o anunciado pela Visma-Lease a Bike. Médicos revelam fratura com cirurgia de osteossíntese e recuperação de até 3 meses, colocando em risco sua participação nas clássicas da primavera de 2026.

Lesão de Wout van Aert é mais grave do que parece e coloca em risco temporada de clássicas 2026

O que começou como um comunicado minimalista da equipe Visma-Lease a Bike sobre “uma pequena fratura” no tornozelo de Wout van Aert ganhou contornos bem mais preocupantes nas últimas horas. Fontes médicas belgas consultadas pelo jornal francês L’Équipe revelam que a lesão sofrida pelo ciclista no Exact Cross de Mol é significativamente mais complicada do que a equipe sugeriu inicialmente — e o tempo de recuperação pode comprometer seriamente sua participação nas grandes clássicas da primavera europeia.

A queda de sexta-feira na neve belga não foi apenas mais um percalço na carreira do tricampeão mundial de cyclocross. Foi o tipo de acidente que pode redefinir completamente uma temporada antes mesmo dela começar.

O que realmente aconteceu com Van Aert

Durante o Exact Cross de Mol, Wout van Aert protagonizava o que prometia ser um dos duelos mais memoráveis da temporada de cyclocross contra seu eterno rival Mathieu van der Poel. O belga estava em sua melhor forma técnica do inverno, finalmente mostrando que poderia competir de igual para igual com o holandês em condições adversas.

Mas numa curva à direita em setor pavimentado, com neve transformando o asfalto em gelo, tudo mudou. Van Aert perdeu o controle, caiu pesadamente e a torção do tornozelo foi instantânea e brutal. As imagens mostram o belga tentando se levantar, o joelho sangrando, mas era o tornozelo que gritava em protesto. Mancando visivelmente, ele abandonou a prova — e com ela, não apenas a temporada de cyclocross, mas potencialmente uma fatia considerável dos seus objetivos de 2026.

A verdade médica por trás dos comunicados oficiais

Quando a Visma-Lease a Bike divulgou que Van Aert havia sofrido “uma pequena fratura”, muitos interpretaram como uma lesão de menor gravidade. A realidade médica, porém, conta uma história diferente.

Segundo fontes médicas belgas ouvidas pelo L’Équipe, Van Aert sofreu uma fratura no maléolo lateral direito — a parte interna da fíbula — acompanhada de entorse significativo. Mais revelador ainda: a cirurgia realizada no sábado envolveu osteossíntese, procedimento que utiliza pinos ou placas para fixar o osso fraturado.

Isso não é uma “pequena fratura” no sentido coloquial do termo. É uma lesão que exige tempo, paciência e um protocolo de recuperação rigoroso.

O prognóstico que preocupa: quanto tempo Van Aert ficará fora?

O jornal francês não economizou esforços ao consultar especialistas que trabalham diretamente com ciclistas profissionais. E os números que emergiram dessa investigação são bem menos otimistas do que os torcedores de Van Aert gostariam.

Professor Gilbert Versier, cirurgião ortopédico e traumatologista do Tour de France, foi direto ao ponto: Van Aert precisará usar uma órtese na perna por aproximadamente um mês, período durante o qual deve permanecer completamente imóvel.

A linha do tempo prevista pelos médicos consultados é a seguinte:

  • 4 a 6 semanas: tempo mínimo antes que Van Aert possa retomar atividades físicas com apoio de peso e caminhada
  • 4 a 6 semanas: período antes de poder treinar no rolo (alguns médicos sugerem 3 semanas em cenário otimista)
  • Aproximadamente 2 meses: tempo necessário antes de retornar aos treinos em estrada, considerando as vibrações e impactos
  • 3 meses no total: prazo para retorno às competições em condições ideais

Dr. Mathieu Le Strat, que tratou a fratura no tornozelo de Kévin Vauquelin ano passado, ofereceu um vislumbre de esperança ao sugerir que, “se tudo correr muito bem”, Van Aert poderia estar no rolo em três semanas. Mas até o médico mais otimista reconhece: isso seria o melhor cenário possível, não o mais provável.

Clássicas da primavera em risco real

Aqui reside o verdadeiro problema. Se seguirmos a matemática básica, três meses a partir de 3 de janeiro colocam o retorno de Van Aert por volta do início de abril. O Tour de Flandres está marcado para 5 de abril. A Paris-Roubaix, sua corrida dos sonhos, acontece em 12 de abril.

Teoricamente, Van Aert poderia estar fisicamente apto a competir nessas datas. Mas em que condições? Como você se prepara adequadamente para o Inferno do Norte quando perdeu dois meses cruciais de treino base? Como você constrói a forma necessária para vencer em monumentos quando seu período de preparação foi cortado pela metade?

O Professor Versier foi além: acredita que Van Aert pode levar até dois meses para retornar ao treinamento em estrada devido às vibrações envolvidas. Se essa previsão se confirmar, estaríamos falando de um retorno à competição apenas um mês depois — justamente no período das clássicas.

“Em teoria, ele poderia retornar para Flandres em 5 de abril, exatamente três meses a partir de agora”, avalia o especialista. “Mas em que condição ele estaria para uma corrida tão importante? Isso é impossível prever.”

Por que a equipe minimizou a gravidade?

A discrepância entre o comunicado inicial da Visma-Lease a Bike e a realidade médica levanta questões interessantes. Por que uma equipe World Tour optaria por chamar de “pequena fratura” o que claramente requer intervenção cirúrgica significativa?

A resposta provavelmente está na gestão de expectativas e pressão. Van Aert vem de uma temporada 2024 marcada por azar, incluindo o abandono na Vuelta após grave acidente. A última coisa que a equipe — e o próprio Van Aert — precisavam era alimentar narrativas de fragilidade ou má sorte crônica.

Mas médicos não mentem para jornais especializados. E quando múltiplos profissionais de saúde que trabalham no ciclismo profissional convergem para diagnósticos similares, a conclusão é inevitável: esta é uma lesão séria que terá impacto profundo na temporada 2026 de Van Aert.

O contexto mais amplo: um padrão preocupante?

Este é o terceiro incidente significativo envolvendo Van Aert em menos de dois anos. Em 2023, ele sofreu queda grave no contrarrelógio da Volta ao País Basco. Em 2024, o abandono forçado na Vuelta. Agora, início de 2026, mais uma lesão séria.

Alguns podem argumentar que isso é simplesmente azar — e certamente há verdade nisso. O ciclismo profissional é inerentemente perigoso. Quedas acontecem. Mas quando elas se acumulam com um atleta específico, começamos a questionar: há algo mais?

Seria o calendário excessivamente carregado? A divisão de foco entre cyclocross no inverno e estrada no verão está cobrando seu preço? Ou é genuinamente má sorte, aquele tipo de sequência estatística que eventualmente atinge qualquer atleta?

O próprio Van Aert não escondeu a frustração em comunicado oficial: “Claro que estou muito desapontado por ter que terminar minha temporada de cyclocross desta forma“. É o tipo de declaração contida que esconde um oceano de emoções não ditas.

O que vem pela frente para Van Aert

A cirurgia foi realizada com sucesso em Herentals, Bélgica, no sábado dia 3 de janeiro. Agora começa a parte mais difícil: a recuperação. Não a recuperação física — essa tem protocolos estabelecidos, profissionais competentes e prazos previsíveis. Estamos falando da recuperação mental.

Como um atleta do calibre de Van Aert lida mentalmente com mais um revés? Como ele mantém a motivação quando o universo parece conspirar contra seus objetivos mais importantes? Como ele gerencia a ansiedade de ver o calendário avançar, sabendo que cada dia imóvel é um dia a menos de preparação para as corridas que realmente importam?

A Visma-Lease a Bike confirmou que um estágio de treinamento em altitude em Tenerife está programado para fevereiro. Mas a equipe já admite que é cedo demais para confirmar se Van Aert poderá participar sem modificações no cronograma.

Tradução: ninguém sabe realmente quando ele voltará. E isso, por si só, já é preocupante.

Lições para o pelotão e os torcedores

A situação de Van Aert serve como lembrete brutal de que no ciclismo profissional, tudo pode mudar em um instante. Uma curva mal calculada, neve no lugar errado, e de repente meses de planejamento e preparação viram fumaça.

Para os fãs que aguardam ansiosamente os duelos entre Pogačar, Vingegaard, Evenepoel e Van Aert nas grandes corridas, esta lesão é um lembrete de que devemos apreciar cada corrida, cada momento, porque não há garantias.

Para o próprio Van Aert, talvez a lição seja diferente. Talvez seja hora de repensar o calendário de cyclocross. Talvez seja momento de priorizar mais claramente entre os objetivos de inverno e primavera. Ou talvez, simplesmente, seja aceitar que às vezes o esporte não é justo.

Considerações finais

Enquanto escrevemos estas linhas, Wout van Aert está provavelmente em casa, tornozelo imobilizado, assistindo seus companheiros e rivais treinarem nas estradas ensolaradas do sul da Europa. Está contando dias, calculando prazos, tentando não pensar no quanto as coisas seriam diferentes se aquela curva em Mol tivesse sido dois graus menos inclinada.

A pergunta que fica não é se ele voltará — Van Aert já provou ser resiliente demais para duvidarmos disso. A questão é: quando ele voltar, será a tempo de competir nas corridas que definem carreiras? E estará em condições de vencer?

Por enquanto, tudo que podemos fazer é aguardar, torcer pela melhor recuperação possível, e lembrar que no ciclismo profissional, os grandes campeões não são definidos apenas por suas vitórias, mas também por como eles se levantam após as quedas mais difíceis.

E se há algo que Wout van Aert já provou repetidamente ao longo de sua carreira, é que ele sabe se levantar.

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