Tem certas coisas no ciclismo profissional que não mudam, não importa o quanto a tecnologia avance ou o quanto a moda ditada pelos departamentos de aerodinâmica das equipes tente impor uma nova realidade. Para Mathieu van der Poel, uma dessas coisas é o tamanho do guidão. Enquanto praticamente todo o pelotão migrou para barras cada vez mais estreitas nos últimos anos — chegando perto do mínimo exigido pela UCI —, o holandês da Alpecin-Premier Tech segue pedalando com guidões de 450 mm de largura externa, uma medida que hoje chama atenção como se fosse um item de museu.
A pergunta que muita gente vinha se fazendo nas corridas foi finalmente respondida pelo próprio Van der Poel durante o Tirreno-Adriatico 2026, onde ele, de quebra, ainda ganhou duas etapas. A resposta foi tão simples que surpreende: “Eu simplesmente uso os guidões que usei a vida toda.” Pronto. Sem rodeios, sem filosofia complexa sobre posição no bike ou equações de arrasto aerodinâmico. É hábito, é conforto, é o que funciona pra ele.
O pelotão foi ficando estreito — Van der Poel ficou do mesmo jeito
Nos últimos anos, a tendência de estreitar os guidões tomou conta do WorldTour de forma quase avassaladora. A busca incessante por ganhos aerodinâmicos fez com que equipes e fabricantes de componentes investissem muito em cocas aerodinâmicas integradas, barras com entrada de ar reduzida e guidões que chegavam cada vez mais próximos do limite regulatório da UCI. Hoje, ver um ciclista de ponta com guidão largo parece, visualmente, uma anomalia.

A UCI estabeleceu regras claras sobre a largura mínima dos guidões: pelo menos 400 mm de largura externa, com inclinação máxima de 10 graus para dentro e no mínimo 280 mm de distância entre os manetes de freio. Esse regulamento surgiu exatamente como resposta à corrida pelo guido mais estreito possível — a federação precisou colocar um limite para preservar a segurança dos ciclistas, especialmente no pelotão.
A maioria dos corredores hoje opera rente a esse mínimo. Mathieu van der Poel, não. Com seus 450 mm externos, ele está 50 mm acima do limite mínimo — uma diferença considerável no contexto do ciclismo moderno de alto desempenho. Para efeito de comparação, seu companheiro de equipe Jasper Philipsen, um dos melhores sprinters do mundo, usa barras de 410 mm. E mesmo assim, é Van der Poel quem frequentemente bate Philipsen nos sprints mais disputados.
O cockpit que Van der Poel usa — e por que parece ainda mais largo
De acordo com informações obtidas pela Cyclingnews diretamente com a Canyon, Mathieu van der Poel usa o cockpit Canyon CP0049 Pro Pace, um sistema modular que permite ajustes de largura, com faixa declarada pelo fabricante de 350 mm a 400 mm de centro a centro nas manetes. Só que isso não fecha a conta.
A Cyclingnews já havia medido os guidões de Van der Poel no Tour de France com sua Canyon Aeroad personalizada e registrou 420 mm de centro a centro — já fora da faixa padrão do componente. Isso indica que ele provavelmente usa uma versão personalizada e mais larga do cockpit, desenvolvida especificamente para atender às suas preferências. No Tirreno-Adriatico, um mecânico da Alpecin-Premier Tech pegou a fita métrica e confirmou o número: 450 mm de externa a externa. Sem inclinação das manetes para dentro, quase como os guidões de décadas passadas.
O resultado visual é marcante. Quando você vê Van der Poel de frente numa corrida, a largura da posição contrasta com o restante do pelotão de maneira quase teatral. Ele parece mais largo, mais sólido — e de certa forma, mais imponente.
A lógica por trás da escolha: potência acima de aerodinâmica
Quando pressionado a explicar o motivo de não acompanhar a tendência, Mathieu van der Poel foi direto ao ponto em entrevista à Cyclingnews às margens do Tirreno-Adriatico: “Talvez eu perca um pouco de vantagem aerodinâmica, mas gosto de ter potência quando levanto dos pedais.”
Essa é a chave. Van der Poel é um ciclista que não se encaixa nos padrões convencionais de um corredor de estrada moderno. Ele é multimodal — venceu em ciclocross, mountain bike, estrada, gravel — e cada uma dessas modalidades exige uma relação diferente com a bicicleta. No ciclocross e no MTB, guidões mais largos são a norma justamente porque oferecem mais controle e potência na tração. É provável que esse background tenha moldado permanentemente a forma como ele se sente confortável sobre a bike.
Além disso, há uma questão física que não pode ser ignorada. Mathieu van der Poel tem uma estrutura corporal robusta para os padrões do pelotão — ombros largos, musculatura de ciclista completo, não o físico leve e esguio típico dos escaladores. Um guidão mais largo se alinha melhor com essa estrutura, permitindo que ele aplique força de forma mais eficiente, especialmente nos momentos de esforço máximo em que ele literalmente empurra a bike para frente com o peso do corpo.
Ele mesmo reconhece que existe uma desvantagem aerodinâmica. Mas os números dizem que isso não está atrapalhando. No Tirreno-Adriatico 2026, ele ganhou o sprint da etapa 2 com estradas de gravel molhadas, batendo Isaac del Toro (UAE Team Emirates-XRG) e Giulio Pellizzari (Red Bull-Bora-Hansgrohe). Dois dias depois, venceu o sprint da etapa 4 num grupo reduzido que incluía ninguém menos que Wout van Aert e o eternamente aerodinâmico Filippo Ganna. Com guidão largo e tudo.
O que diz a ciência por trás dos guidões estreitos
É verdade que a tendência pelos guidões estreitos tem embasamento científico. Estudos de aerodinâmica aplicada ao ciclismo mostram que a posição do corpo é o maior fator de resistência ao ar — responsável por entre 70% e 80% do arrasto total do sistema atleta+bicicleta. Reduzir a largura dos ombros e dos braços pela posição mais estreita das mãos no guidão pode diminuir significativamente a área frontal do ciclista, especialmente em velocidades acima de 40 km/h.
Em testes de túnel de vento realizados por várias equipes do WorldTour, guidões de 380-400 mm demonstraram economias de alguns watts em relação a guidões de 420-440 mm, dependendo da morfologia do atleta. Para ciclistas com ombros mais estreitos, o ganho pode ser maior. Para ciclistas com estrutura mais larga — como Van der Poel —, a diferença tende a ser menor, e o trade-off entre aerodinâmica e potência pode perfeitamente pender para o lado da potência.
Há também o fator da estabilidade. Guidões mais largos distribuem melhor o peso do ciclista, especialmente em pavimentos irregulares ou em situações de esforço extremo. Nas clássicas, onde Van der Poel é rei — com vitórias em Paris-Roubaix, Tour das Flandres, Milão-San Remo e Ronde van Vlaanderen —, o piso é frequentemente coberto por paralelepípedos ou superfícies difíceis. Ter mais controle pode valer muito mais do que um punhado de watts a menos de arrasto.
Uma questão de identidade — e de respeito à própria história
Mathieu van der Poel é filho de Adri van der Poel, um clássico belgo-holandês dos anos 80 e 90, e neto de Raymond Poulidor, o eterno segundo do ciclismo francês. Cresceu pedalando desde criança, passou pelo ciclocross e o mountain bike antes de chegar ao estrada, e traz na bagagem uma relação com a bicicleta que vai muito além do que qualquer túnel de vento poderia capturar.
Quando ele diz “Eu simplesmente uso os guidões que usei a vida toda”, não é preguiça de adaptação. É uma declaração de identidade. É o ciclista dizendo que a bike precisa ser uma extensão do corpo, não uma equação de engenharia a ser otimizada por engenheiros num escritório. Ele acrescenta: “Estou acostumado com o tamanho, então por enquanto vou continuar com guidões largos.”
Essa postura — rara no ciclismo profissional moderno, onde cada detalhe é debatido à exaustão em busca de ganhos marginais — é, paradoxalmente, uma das coisas que tornam Van der Poel tão fascinante de acompanhar. Ele compete com uma confiança quase irritante, como se as regras do jogo fossem apenas sugestões. E continua ganhando.
O que esperar de Van der Poel nas Clássicas da Primavera 2026
Com o Tirreno-Adriatico no bolso e o físico claramente afiado, Mathieu van der Poel chega às Clássicas da Primavera 2026 como um dos grandes favoritos — se não o maior. A temporada dele começa com vitória no Omloop Het Nieuwsblad, e a sequência inclui o Tour das Flandres e a Paris-Roubaix, suas duas provas prediletas no calendário.
Nos paralelepípedos de Roubaix e nas subidas íngremes do Flandres, aqueles 450 mm de guidão não serão uma desvantagem — serão uma ferramenta. E quando Van der Poel atacar faltando 30 km para o final e começar a abrir vantagem sobre o pelotão, ninguém vai estar pensando em guidões estreitos. Todo mundo vai estar tentando, sem sucesso, acompanhar.
FAQ — Perguntas Frequentes
Qual é a largura exata do guidão que Mathieu van der Poel usa?
Mathieu van der Poel usa guidões com 450 mm de largura externa a externa, conforme medido por um mecânico da Alpecin-Premier Tech durante o Tirreno-Adriatico 2026. Isso é significativamente mais largo do que a maioria dos ciclistas profissionais, que operam próximo ao mínimo regulatório da UCI de 400 mm.
Por que a UCI criou uma largura mínima para guidões no ciclismo profissional?
A UCI implementou a regra de largura mínima de 400 mm externos para guidões após constatar que muitos ciclistas estavam usando barras excessivamente estreitas em busca de vantagem aerodinâmica, o que comprometia o controle da bicicleta e aumentava o risco de acidentes no pelotão. A norma também define que a distância mínima entre os manetes de freio seja de 280 mm e que a inclinação máxima das pontas seja de 10 graus para dentro.
Guidão mais largo realmente faz diferença na potência do ciclista?
Sim, especialmente para ciclistas com estrutura física mais robusta e aqueles com histórico em modalidades como ciclocross e MTB. Guidões mais largos permitem uma aplicação de força mais eficiente ao pedalar em pé, melhoram o controle em pisos irregulares e distribuem melhor o peso corporal. A desvantagem é o aumento da área frontal, que eleva levemente o arrasto aerodinâmico — algo que Van der Poel reconhece, mas considera secundário diante dos ganhos de potência.
Qual cockpit Mathieu van der Poel usa na Canyon Aeroad?
De acordo com informações da Canyon, Mathieu van der Poel usa o cockpit Canyon CP0049 Pro Pace, um sistema modular que permite ajuste de largura. No entanto, as medidas registradas nas corridas indicam que ele utiliza uma versão personalizada mais larga do que a faixa padrão do produto, desenvolvida especialmente para atender às suas preferências de posição.
Outros ciclistas de topo também usam guidões mais largos?
A maioria dos ciclistas profissionais de alto nível migrou para guidões estreitos nos últimos anos. No caso da própria Alpecin-Premier Tech, o sprinter Jasper Philipsen usa 410 mm — já bem mais estreito que Van der Poel. Alguns ciclistas mais corpulentos ou com background off-road tendem a preferir guidões ligeiramente mais largos, mas ninguém no pelotão atual chega perto dos 450 mm que Van der Poel usa de forma tão natural.





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