Quem acompanha o ciclismo há décadas sabe que poucas marcas carregam tanta história nas estradas quanto a Cannondale. E quando a marca americana resolve atualizar um dos seus modelos mais emblemáticos, o mundo do ciclismo presta atenção. Foi exatamente isso que aconteceu com o lançamento da quinta geração da Cannondale SuperSix Evo, uma bicicleta que, pelo menos no papel, prometia ser mais rápida, mais leve e mais versátil do que nunca.
Mas promessa no papel é uma coisa. Dados de túnel de vento são outra completamente diferente. E foi justamente isso que a equipe da Cyclingnews decidiu fazer: levar a nova Cannondale SuperSix Evo Lab71 ao prestigiado Silverstone Sports Engineering Hub, na Inglaterra, e colocá-la frente a frente com suas concorrentes diretas em condições controladas de laboratório.
Uma evolução, não uma revolução
Antes de mergulharmos nos números, vale a pena entender o que de fato mudou nesta quinta geração da Cannondale SuperSix Evo. E a resposta mais honesta é: não tanta coisa assim — pelo menos à primeira vista. A Cannondale optou por um caminho de refinamento em vez de reinventar a roda. É o tipo de abordagem que, sinceramente, eu respeito bastante. Quando você tem uma bike que já funciona bem, às vezes o melhor caminho é polir o que já existe.
As mudanças mais perceptíveis estão no canote de selim, que ficou absurdamente fino quando visto de frente — uma lâmina, praticamente. Ele agora adota um design em linha (sem recuo), o que permite uma posição de pilotagem mais avançada sobre o bottom bracket. Combinado com a tendência atual de pedivelas mais curtos e fronts mais baixos, o resultado é uma posição potencialmente mais aerodinâmica e agressiva para quem busca performance.
Além disso, os perfis dos tubos na parte dianteira do quadro ficaram levemente mais profundos e mais finos, projetados para performar melhor nas velocidades cada vez mais altas que vemos no ciclismo profissional atual. O espaço para pneus mais largos também foi ampliado — um aceno importante para quem entende que conforto e aerodinâmica não precisam ser inimigos.
Os porta-garrafas semi-integrados continuam presentes, com aquelas garrafas quadradas que se alinham ao perfil do quadro. É um detalhe que a Cannondale vem aperfeiçoando há gerações e que faz uma diferença real na maneira como o ar passa pelo conjunto.
A bicicleta do pelotão WorldTour

Não dá para falar da Cannondale SuperSix Evo sem mencionar o trabalho da EF Education-EasyPost, a equipe WorldTour que utiliza essa bicicleta. A SuperSix já mostrou que é capaz de vencer em praticamente qualquer cenário: clássicas de paralelepípedos, etapas de montanha em Grand Tours, escapadas épicas (Ben Healy que o diga) e até sprints. A conquista de um título mundial na temporada passada só reforça a versatilidade dessa plataforma.
Ou seja, estamos falando de uma bike que não precisa provar nada para ninguém. E quando a Cannondale decide atualizá-la, a pergunta natural é: será que ficou mais rápida de verdade?
O protocolo de teste no túnel de vento
Para quem leva dados a sério, o método importa tanto quanto o resultado. Os testes seguiram o mesmo protocolo rigoroso utilizado nos anos anteriores pela Cyclingnews, permitindo a comparação direta entre bicicletas testadas em dias diferentes. Isso é fundamental, porque as condições atmosféricas variam, e sem um protocolo padronizado, os números perdem significado.
A Cannondale SuperSix Evo Lab71 foi testada no túnel de vento de Silverstone contra uma bike de referência constante: uma Trek Emonda ALR 2015, equipada com freios de aro, cabos externos e guidão redondo. Ao manter essa referência inalterada entre cada sessão de testes, é possível calcular o delta — a diferença de arrasto — de forma confiável, independentemente das condições do dia.
Cada configuração foi testada em sete ângulos de yaw diferentes (de -15° a +15°, em incrementos de cinco graus), simulando diversas condições de vento que um ciclista encontra na estrada. A velocidade de teste foi de 40 km/h, um ritmo representativo tanto para provas amadoras quanto para dias de fuga no pelotão profissional.
Foram realizados três tipos de teste para cada bicicleta:
- Somente a bicicleta: alta repetibilidade, sem interferência do ciclista, ideal para isolar a performance do quadro.
- Com ciclista: acrescenta realismo, embora com uma margem de variação maior (aproximadamente 2 a 3 watts) pela dificuldade de manter uma posição perfeitamente idêntica a cada repetição.
- Somente a bicicleta com rodas padronizadas: permite entender se os ganhos aerodinâmicos vêm do quadro em si ou das rodas fornecidas pelo fabricante.
Para manter a equidade entre os testes, todos os detalhes foram padronizados: pneu dianteiro Continental GP5000 S TR de 25 mm, selim Ergon SR Women Team (idêntico em forma e material para versões com trilhos redondos e de carbono), garrafas, suportes de computador e até a roupa do ciclista que participou dos testes. É esse nível de cuidado que dá credibilidade a resultados como estes.
Os resultados: o que os números dizem sobre a Cannondale SuperSix Evo
Vamos ao que interessa. Nos testes realizados apenas com a bicicleta, a nova Cannondale SuperSix Evo se mostrou 34,79 watts mais rápida do que a Trek Emonda ALR de referência. Além disso, ela superou a geração anterior da SuperSix em 1,46 watts — uma melhoria modesta, é verdade, mas que confirma a evolução aerodinâmica prometida pelos engenheiros da marca.
No entanto, a Cannondale SuperSix Evo ficou 5,49 watts atrás da líder absoluta dos testes: a Factor ONE. Uma diferença que, em contexto de corrida, é relevante, mas que precisa ser analisada levando em conta que a Factor é um modelo puramente aerodinâmico, enquanto a SuperSix se posiciona como uma all-rounder.
O comportamento no vento lateral também chamou atenção. A zero graus de yaw, a Cannondale SuperSix Evo apresentou sua melhor performance. Mas, ao contrário de bicicletas com tubos redondos — que sofrem progressivamente à medida que o ângulo do vento aumenta —, os perfis laminados do quadro da SuperSix ajudam a minimizar esse efeito negativo. Na faixa de 15 graus, ela inclusive performou melhor do que a 10 graus, sugerindo um leve efeito vela que trabalha a seu favor.
Com ciclista: a história fica diferente
Quando um ciclista real é colocado na bicicleta, a dinâmica muda. Com o piloto, a Cannondale SuperSix Evo economizou 20,75 watts sobre a Emonda ALR, mas ficou 6,5 watts atrás da Cervélo S5 (modelo 2025), posicionando-se bem no centro da tabela.
Um ponto interessante: em ângulos de yaw mais extremos com ciclista, a SuperSix chegou a superar a Factor ONE, possivelmente porque o design mais radical da Factor sofre algum efeito de stall (perda de sustentação aerodinâmica) nessas condições. Porém, é preciso ponderar que, nas velocidades para as quais a Factor foi projetada, esses ângulos extremos são raramente experimentados na prática.
Comparada ao modelo anterior, a melhoria com ciclista é notável: a versão anterior da SuperSix despencava para a parte inferior da tabela nos testes com piloto, enquanto esta quinta geração se mantém firme no meio do grupo. É uma evolução significativa nesse aspecto.
A surpresa dos pneus mais largos
Um achado particularmente interessante dos testes diz respeito à largura dos pneus. A Cannondale SuperSix Evo veio equipada com rodas ENVE 4.5 e pneus de 25 mm. Quando os testadores substituíram por pneus de 28 mm (mantendo as mesmas rodas ENVE), a economia foi de 1,17 watts a favor dos pneus mais largos.
Isso faz sentido quando consideramos que as rodas ENVE 4.5 possuem uma largura interna e externa generosas, que funcionam melhor com pneus mais largos, criando uma transição mais suave do ar entre o pneu e o perfil do aro. E casa perfeitamente com o fato de que a nova SuperSix ampliou suas folgas para acomodar justamente esses pneus maiores.
Para quem ainda vive preso à ideia de que pneu fino é pneu rápido, os dados seguem demonstrando que essa lógica está ultrapassada. A aerodinâmica no ciclismo moderno é muito mais complexa do que simplesmente reduzir a área frontal.
Onde a Cannondale SuperSix Evo se encaixa no pelotão
Posicionando a Cannondale SuperSix Evo no contexto mais amplo, ela se encontra num grupo bastante disputado de bicicletas polivalentes de alto desempenho. Está no mesmo patamar da Specialized Tarmac SL8 e da Seka Spear — ambas também all-rounders leves que surpreendem na categoria aerodinâmica.
Ela não compete diretamente com as máquinas puramente aerodinâmicas como a Factor ONE, a Colnago Y1Rs, a Van Rysel RCR-F ou a Ridley Noah 3.0. Essas bikes fazem escolhas de design muito mais radicais — tubos profundíssimos, garrafas totalmente integradas ao quadro — que resultam em ganhos aerodinâmicos significativos, especialmente em ângulos de yaw baixos.
Mas a SuperSix nunca se propôs a ser isso. Ela é, em essência, uma bicicleta de corrida polivalente que faz tudo muito bem: sobe montanhas com leveza, mantém uma posição confortável em etapas longas, e não deixa ninguém na mão quando a velocidade sobe no pelotão.
O canote como grande protagonista
Se eu tivesse que apontar uma única mudança que define esta geração da Cannondale SuperSix Evo, seria o novo canote. Aquela peça extremamente fina e com design semi-recuo oferece o melhor dos dois mundos: permite uma posição avançada para quem busca agressividade aerodinâmica, mas mantém uma dose de compliance (flexibilidade controlada) que absorve vibração da estrada.
Canotes em linha muito rígidos já foram um problema notório em modelos como a Cervélo S5 de gerações anteriores. A Cannondale parece ter aprendido com os erros dos outros e encontrou um equilíbrio inteligente que favorece tanto a performance quanto o conforto em provas longas.
Considerações que vão além da aerodinâmica
É fundamental lembrar que um teste de túnel de vento, por mais rigoroso que seja, mostra apenas uma fatia da performance total de uma bicicleta. A Cannondale SuperSix Evo foi atualizada pensando também em geometria, peso, compliance e versatilidade de uso — aspectos que não aparecem nos gráficos de CdA, mas que fazem toda a diferença na experiência real de pilotagem.
A rigidez do quadro, a facilidade de manutenção, a qualidade dos componentes fornecidos, e até mesmo a relação da marca com o consumidor final — tudo isso pesa na hora de escolher sua próxima bicicleta. Aerodinâmica é importante, sem dúvida. Mas não é tudo.
Para quem se interessa por comparações mais detalhadas entre superbikes, a Cyclingnews já publicou testes abrangentes com 11 superbikes em 2024 e 12 bicicletas aero em 2025, utilizando o mesmo protocolo. São leituras obrigatórias para quem quer entender o cenário completo.
O veredito: uma evolução na direção certa
A quinta geração da Cannondale SuperSix Evo faz exatamente o que o nome sugere: evolui. Não reinventa. Não provoca. Não surpreende com designs arrojados. Mas melhora onde era preciso, mantém o que funcionava, e entrega uma plataforma ainda mais competente para quem quer uma bicicleta de corrida que funcione em qualquer terreno e em qualquer situação.
Os 1,46 watts de ganho sobre a geração anterior podem parecer pouco isoladamente, mas somados às melhorias em geometria, conforto e compatibilidade com pneus mais largos, o pacote se torna consideravelmente mais atraente. E quando lembramos que estamos falando de uma bike que já era competitiva o suficiente para vencer Clássicas e Grand Tours, a mensagem é clara: a Cannondale SuperSix Evo continua sendo uma das all-rounders mais sérias do mercado.
Pessoalmente, confesso que adoraria ver a Cannondale ressuscitar a SystemSix como uma proposta puramente aerodinâmica, sem concessões. Mas enquanto isso não acontece, a SuperSix segue fazendo o seu trabalho — e fazendo bem.
FAQ — Perguntas Frequentes
A nova Cannondale SuperSix Evo é mais rápida que a geração anterior?
Sim. Nos testes de túnel de vento realizados no Silverstone Sports Engineering Hub, a quinta geração da Cannondale SuperSix Evo apresentou uma economia de 1,46 watts em relação ao modelo anterior, considerando o teste apenas com a bicicleta a 40 km/h. Com ciclista, a posição relativa na tabela também melhorou significativamente.
Qual é a bicicleta mais aerodinâmica nos testes?
A Factor ONE ocupa a primeira posição nos testes de túnel de vento realizados pela Cyclingnews, ficando 5,49 watts à frente da Cannondale SuperSix Evo nos testes somente com a bike. Porém, a Factor é uma bicicleta projetada exclusivamente para aerodinâmica, enquanto a SuperSix é uma polivalente.
Pneus de 28 mm são mais aerodinâmicos que os de 25 mm na SuperSix Evo?
Nos testes com rodas ENVE 4.5, os pneus de 28 mm foram 1,17 watts mais rápidos que os de 25 mm na Cannondale SuperSix Evo. Isso se deve à melhor transição aerodinâmica entre o pneu mais largo e o perfil do aro, que possui largura interna generosa.
A Cannondale SuperSix Evo compete com bicicletas aero puras?
Não diretamente. A Cannondale SuperSix Evo se posiciona como uma all-rounder — uma bicicleta versátil para todos os tipos de terreno. Ela não adota os designs radicais de modelos como a Factor ONE, Colnago Y1Rs ou Cervélo S5, que priorizam aerodinâmica acima de tudo. Ainda assim, seus números são sólidos e a colocam na metade superior das tabelas gerais.
Qual equipe profissional usa a Cannondale SuperSix Evo?
A Cannondale SuperSix Evo é a bicicleta oficial da equipe WorldTour EF Education-EasyPost, que já conquistou vitórias em Clássicas, etapas de Grand Tours e até um título mundial com esse modelo.





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