Quando a Ridley apresentou o Ridley Ignite GTX no início de 2026, a reação mais comum entre ciclistas foi um misto de surpresa e confusão. Não é todo dia que uma marca belga, conhecida por suas bikes de estrada e gravel, aparece com algo que se parece, do pescoço para baixo, com uma mountain bike hardtail — mas que, do pescoço para cima, tem um guidão drop clássico de gravel. A pergunta que todo mundo faz na hora que vê a bike é sempre a mesma: “isso é uma gravel ou uma mountain bike?”
A resposta honesta é: as duas coisas ao mesmo tempo. E, dependendo de como você enxerga esse conceito, isso pode ser o maior trunfo ou o maior problema do Ridley Ignite GTX. Passei bastante tempo acompanhando os testes e as especificações técnicas dessa bike, e o que posso dizer é que ela satisfaz exatamente o nicho para o qual foi criada — mas esse nicho é muito, muito específico.
De onde surgiu a ideia do Ridley Ignite GTX?
A história do Ridley Ignite GTX começa nas trilhas de terra das corridas de ultra-endurance. Nos últimos anos, uma tendência crescente entre ciclistas independentes (os chamados “privateers”) que participam de eventos como o Atlas Mountain Race e o Tour Divide é instalar um guidão drop em uma mountain bike hardtail. A lógica é simples: você ganha versatilidade para terrenos extremamente técnicos sem perder a eficiência aerodinâmica e de posição que um guidão drop oferece nas longas seções de ligação entre trilhas.
Bert Kenens, gerente sênior de produto da Ridley, explicou a origem do projeto: a marca percebeu que um número crescente de consumidores estava convertendo suas mountain bikes em gravel bikes para terrenos mais técnicos e acidentados. Como havia pouquíssimas bicicletas disponíveis no mercado com essa configuração como especificação de fábrica, o Ridley Ignite GTX surgiu como resposta a essa demanda — mesmo que seja um segmento de nicho.

Atletas profissionais que dependem de patrocinadores precisam usar bicicletas disponíveis no catálogo oficial das marcas que os apoiam. Então, ao lançar o Ridley Ignite GTX, a fabricante belga também abre a porta para que corredores patrocinados possam competir em eventos técnicos com um equipamento verdadeiramente desenvolvido para isso, sem precisar de uma gambiarra artesanal.
O quadro: um Ignite SLX com identidade dupla
O coração do Ridley Ignite GTX é o mesmo quadro do Ignite SLX, a mountain bike cross-country da Ridley. Não há nenhuma modificação estrutural no quadro — ele foi literalmente reaproveitado e acoplado a componentes de gravel. Isso explica o tubo superior inclinado de forma bastante agressiva, tão característico das MTBs, e que garante uma altura de passagem menor, permitindo o uso de um canote mais exposto e, consequentemente, mais absorção de vibração vertical.

O material utilizado é o carbon Essential Series da Ridley, uma combinação de fibras Toray 24T e 30T. É o segundo nível da linha da marca — abaixo dos quadros Elite Series, que usam fibras 50T e 60T. Para um tamanho médio sem pintura, a Ridley declara 1.061g de peso de quadro, o que é razoável para essa categoria. Os flexstays (os estabilizadores traseiros flexíveis) foram mantidos do projeto original da MTB e entregam uma absorção de impacto traseira surpreendentemente boa para uma bike desse porte.
Um detalhe que chama atenção — e que gerou alguma controvérsia — é a opção pelo canote de 27,2mm de diâmetro em vez dos 31,6mm comuns no mundo das mountain bikes. A Ridley justifica a escolha pela maior flexibilidade e conforto que o diâmetro menor proporciona, mas isso limita as opções de dropper post compatíveis. E olha, para uma bike que foi feita para trilhas técnicas, a ausência de um canote retrátil de fábrica é uma das maiores críticas que podem ser feitas ao Ridley Ignite GTX.

Em termos de clearance de pneu, a bike aceita pneus de até 29×2,3 polegadas (ou 700c x 58mm) — uma das maiores folgas já vistas em uma bicicleta da categoria gravel/adventure. O padrão de movimento central é o BB92, que garante ampla compatibilidade com diferentes pedivelas. Na parte de freios, a roda dianteira usa um disco maior, de 180mm, enquanto na traseira o rotor fica no padrão de 160mm.
A geometria: quase uma gravel bike, quase uma MTB

O Ridley Ignite GTX está disponível em quatro tamanhos (S, M, L e XL) e compartilha a mesma geometria da Ignite SLX — o que a Ridley chama de “geometria pura de mountain bike”. O ângulo de 70 graus no tubo da direção está alinhado com a tendência atual das gravel bikes de aventura, mas ainda está acima do que bikes mais progressivas entregam. Modelos como a Kona Ouroboros e a BMC URS, por exemplo, chegam a 69,5 graus, conferindo uma direção levemente mais estável em descidas agressivas.

A Ridley optou por não ir abaixo dos 70 graus porque queria manter a direção ágil e responsiva, deixando o wheelbase (distância entre os eixos) responsável pela estabilidade. Para o tamanho médio, o alcance (reach) de 418mm é razoável, mas não é especialmente longo para uma bike pensada para aventuras extremas. O stack de 614mm é bastante alto, o que eleva o guidão e oferece uma posição mais ereta — útil em terrenos técnicos prolongados.
| Tamanho | S | M | L | XL |
|---|---|---|---|---|
| Ângulo tubo direção (°) | 70 | 70 | 70 | 70 |
| Reach (mm) | 400 | 418 | 440 | 460 |
| Stack (mm) | 609 | 614 | 623 | 642 |
| Tubo superior (mm) | 580 | 600 | 625 | 650 |
| Chainstay (mm) | 430 | 430 | 430 | 430 |
| Wheelbase (mm) | 1.080 | 1.100 | 1.126 | 1.152 |
Garfo de suspensão: o detalhe que muda tudo
A grande diferença do Ridley Ignite GTX em relação a qualquer outra gravel bike com suspensão no mercado está exatamente aqui: enquanto a maioria das concorrentes usa garfos com 40mm de curso — e a recém-lançada RockShox Rudy XL chegou a 60mm — o Ignite GTX chega com um garfo de 100mm de curso, idêntico ao que equipa a mountain bike Ignite SLX.

Isso não é um exagero pensado para impressionar nas fichas técnicas. A Ridley foi clara ao explicar que especificar um garfo de gravel convencional nessa bike afetaria negativamente a dinâmica de pilotagem, porque a geometria do quadro não foi projetada para os cursos menores. Em outras palavras: o quadro e o garfo foram feitos um para o outro, e mudar a equação desequilibraria toda a configuração.
Na versão testada, o garfo utilizado é o RockShox Recon Gold, um modelo de nível intermediário dentro da linha RockShox. Ele funciona bem para uso geral, mas não tem o refinamento das linhas superiores como o Reba ou o SID/SID SL, que oferecem melhor amortecimento, molas de ar mais precisas e construção mais leve. Para uma bike posicionada como referência de endurance em condições extremas, o Recon Gold é adequado como ponto de partida, mas seria o primeiro item a ser substituído por quem planeja levar o Ridley Ignite GTX para eventos como o Atlas Mountain Race.
O garfo vem equipado com o RockShox PopLoc, uma alavanca remota de bloqueio presa ao guidão. Na prática, essa alavanca plástica, volumosa e de ergonomia discutível incomoda bastante — especialmente para quem usa bolsa de guidão no bikepacking, já que o cabo dela interfere diretamente na fixação. Sem dúvida, é um dos pontos mais criticáveis da especificação.
Transmissão e componentes: escolhas discutíveis
O grupo usado no Ridley Ignite GTX é o SRAM Rival 1, um conjunto 1×11 que tem quase dez anos de mercado. A própria Ridley admitiu que a escolha foi motivada por questões práticas de estoque disponível — não é exatamente o argumento mais animador para quem está desembolsando mais de três mil euros em uma bike nova.

No cassete, o alcance vai até 11-42t — e a Ridley usou uma pedivela SRAM NX Eagle com coroa de 32 dentes, o que pelo menos ajuda nas subidas mais íngremes. Mas o problema é que, com grupos modernos usando cassetes de até 46t, 50t ou até 52t, o teto do 42t do Rival 1 se torna uma limitação real em longos dias de bikepacking com terreno montanhoso. Você vai chegar no maior pinhão com frequência — e não vai ter para onde ir.
Uma alternativa muito mais lógica seria o SRAM Apex Eagle, que é de 12 velocidades, aceita cassetes de até 52t e é totalmente compatível com os grupos eletrônicos AXS da SRAM para eventuais upgrades. O Rival 1, ao contrário, praticamente obriga a troca de todo o sistema se você quiser evoluir para um grupo mais moderno.
As rodas são da 4ZA, marca própria da Ridley, modelo XCD-SL em alumínio, com largura interna de apenas 23mm — estreita para uma bike que suporta pneus de 2,3 polegadas. O guidão é o Ritchey VentureMax XL, de 44cm, com 24 graus de flare e drop curto de 102mm. O flare acentuado é um acerto para terrenos técnicos, mas o formato das drops tem um ponto de inflexão no meio que pressiona o polegar quando você segura a alavanca de freio — algo desconfortável em jornadas longas.





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