Quem pedala regularmente costuma ouvir que está fazendo um favor enorme à própria saúde. E é verdade — o ciclismo melhora o condicionamento cardiovascular, fortalece a musculatura das pernas, ajuda no controle de peso e ainda funciona como uma espécie de terapia sobre duas rodas. Mas existe um lado dessa história que raramente aparece nas conversas de pelotão ou nos grupos de WhatsApp dos pedais de domingo: a baixa densidade óssea.
Parece contraditório, não? Afinal, estamos falando de um esporte que exige horas de esforço físico intenso, queima centenas de calorias e desafia o corpo de formas que poucos outros exercícios conseguem. Acontece que, justamente por ser uma atividade sem impacto, o ciclismo não estimula os ossos da maneira que eles precisam para se manterem fortes. E quando somamos isso a certas práticas comuns no pelotão profissional — como restrição calórica e aversão à musculação — o cenário fica ainda mais preocupante.
Por que o ciclismo pode enfraquecer os ossos?
Para entender por que a baixa densidade óssea é tão presente entre ciclistas, precisamos voltar um pouco ao básico. Nosso esqueleto não é uma estrutura estática. Ele é formado por tecido vivo que está em constante remodelação. Dentro dos ossos existem dois tipos de células que trabalham o tempo todo: os osteoblastos, responsáveis por formar osso novo, e os osteoclastos, que fazem a reabsorção do tecido ósseo antigo.
Quando você corre, salta ou levanta peso, a força mecânica aplicada sobre os ossos ativa os osteoblastos. É como se o corpo entendesse o recado: “preciso de ossos mais fortes aqui”. Já quando a pessoa fica muito tempo sem impacto — como acontece com astronautas no espaço ou, em menor grau, com ciclistas no selim — esse estímulo simplesmente não chega. E sem esse sinal, o equilíbrio entre formação e reabsorção óssea pode pender para o lado errado.
O problema vai além da ausência de impacto. Durante exercícios aeróbicos prolongados e intensos, o corpo consome grandes quantidades de cálcio para manter as contrações musculares funcionando. E adivinhe de onde vem boa parte desse cálcio? Dos próprios ossos. É o que os especialistas chamam de homeostase do cálcio — o organismo literalmente “minera” o esqueleto para dar conta da demanda.
O que a ciência já comprovou sobre ciclismo e baixa densidade óssea
Em 2023, um grupo de pesquisadores espanhóis publicou um estudo que chamou bastante atenção no meio esportivo. O título era direto: “Uma temporada no ciclismo profissional já é suficiente para afetar negativamente a saúde óssea”. Os cientistas acompanharam 18 ciclistas profissionais masculinos, com idades entre 20 e 40 anos, todos competidores de alto nível que haviam disputado pelo menos um Grand Tour nos anos anteriores.
Os resultados foram claros. Ao comparar exames realizados nas pré-temporadas de 2018 e 2019, houve um declínio geral na densidade mineral óssea desses atletas ao longo de apenas uma temporada. Esse achado confirmou pesquisas anteriores feitas com ciclistas amadores, jovens, masters e até nadadores — outro grupo de atletas de esporte sem impacto que enfrenta desafios semelhantes.
E não estamos falando de algo que atinge apenas veteranos. A baixa densidade óssea pode se instalar em qualquer idade, avançar de forma silenciosa e, o mais frustrante de tudo, ser muito difícil de reverter depois que o estrago está feito. O pico de massa óssea acontece por volta dos 20 e poucos anos nas mulheres e no final dos 20 nos homens. Depois disso, a tendência é de perda gradual — e o ciclismo intenso pode acelerar esse processo.
As práticas do ciclismo profissional que agravam o problema
Existe algo que precisa ser dito com todas as letras: o ciclismo profissional historicamente abraçou práticas que colocam a saúde dos ossos em risco. Durante décadas, a cultura do pelotão incentivou corredores a manterem o peso corporal o mais baixo possível, muitas vezes através de restrição calórica severa. A musculação era vista com desconfiança — como se ganhar um grama de músculo a mais fosse sinônimo de perder velocidade na montanha. E esportes de impacto durante a temporada? Praticamente proibidos.
Essa mentalidade está mudando, ainda que lentamente. Therese Hammerschmith, diretora de performance da equipe Human Powered Health, é uma das vozes que têm ajudado a empurrar essa transformação. Em entrevista à Cyclingnews, ela descreveu como a equipe prioriza a saúde dos atletas acima de tudo.
“Tenho muito orgulho da nossa equipe por priorizar a saúde dos atletas em primeiro lugar. Fazemos avaliações de base todos os anos para ver onde cada um está em termos de força, densidade mineral óssea, taxa metabólica de repouso e capacidade aeróbica. A partir daí, conseguimos personalizar as necessidades específicas de cada atleta”, explicou Hammerschmith.
Como as equipes profissionais estão enfrentando a baixa densidade óssea
A boa notícia é que o assunto deixou de ser tabu. Graças a uma conscientização crescente, a maioria das equipes do WorldTour já inclui exames de densitometria óssea (DEXA scan) nas avaliações anuais dos corredores. Esse tipo de exame é fundamental para identificar casos de osteopenia — o estágio intermediário de perda óssea — antes que evoluam para osteoporose.
“A conversa está ficando mais alta e mais frequente, e acho que estamos caminhando na direção certa”, afirmou Hammerschmith. “A temporada de ciclismo é tão longa que não seria incomum ver alguma queda na densidade óssea. Mas os declínios mais acentuados acontecem naqueles atletas que não priorizam atividades complementares fora da bicicleta, como musculação, pliometria ou até uma corrida leve uma vez por semana.”
A abordagem da Human Powered Health serve como modelo. A equipe combina os dados do laboratório de performance com orientações da equipe médica, nutricionistas e treinadores para garantir que cada corredor tenha um programa de treino que proteja os ossos sem comprometer o desempenho nas corridas. É um equilíbrio delicado, mas cada vez mais equipes estão investindo nele.
Fatores de risco: o que você pode e o que não pode controlar
Nem todos os fatores que levam à baixa densidade óssea estão sob nosso controle. Uma alimentação pobre durante a infância pode resultar em um pico de massa óssea mais baixo, criando uma desvantagem que acompanha a pessoa pela vida toda. Etnia — europeus e asiáticos correm mais risco —, herança genética e estatura pequena também são variáveis que não escolhemos. E, por coincidência ou não, esse perfil físico descreve boa parte dos ciclistas profissionais.
Algumas condições médicas também aumentam o risco, como doença celíaca não tratada (que prejudica a absorção de cálcio e vitamina B12), doenças inflamatórias intestinais, problemas renais ou hepáticos, câncer e artrite reumatoide. O uso crônico de glucocorticosteroides é outro fator que merece atenção.
Mas existem fatores que você pode, sim, mudar. Parar de fumar, reduzir o consumo de álcool, melhorar a alimentação e — talvez o mais importante para ciclistas — garantir que não esteja em déficit calórico crônico são medidas ao alcance de qualquer pessoa.
O risco é ainda maior para as mulheres
Embora a baixa densidade óssea afete ciclistas de ambos os sexos, as mulheres enfrentam um risco consideravelmente maior. O principal motivo é hormonal: o estrogênio desempenha um papel crucial na manutenção dos ossos, e quando os níveis desse hormônio caem — como acontece na menopausa — a perda de massa óssea pode se acelerar de forma alarmante.
Mulheres também tendem a ter estrutura óssea menor, o que significa menos massa óssea de partida. A terapia de reposição hormonal pode ajudar a desacelerar o declínio, mas especialistas recomendam que mulheres ativas conversem com seus médicos sobre a questão da saúde óssea já a partir dos 35 anos de idade — especialmente se praticam ciclismo com frequência.
RED-S: o perigo silencioso da restrição calórica
Um dos maiores vilões da saúde óssea em atletas de endurance é algo que os especialistas chamam de RED-S — sigla para Síndrome de Deficiência Energética Relativa no Esporte. Antigamente conhecida como “tríade da atleta feminina”, hoje se sabe que a RED-S atinge homens e mulheres.
A lógica é simples e assustadora ao mesmo tempo: quando o corpo não recebe energia suficiente para sustentar suas funções básicas mais o gasto com exercício, ele começa a “desligar” processos que considera menos urgentes. A saúde óssea é um deles. Desequilíbrios hormonais se instalam, e os ossos começam a pagar o preço.
Hammerschmith reforçou esse ponto com clareza: “Não queremos que as pessoas entrem em baixa disponibilidade energética. Não importa se você está consumindo cálcio suficiente — se não está recebendo combustível total adequado, não vai performar bem e o corpo vai sofrer. Garantir ingestão energética adequada é fundamental para evitar desequilíbrios hormonais.”
Nas mulheres, a interrupção da menstruação funciona como um sinal de alerta precoce. Nos homens, os sintomas são mais vagos: queda de rendimento, irritabilidade, insônia, humor deprimido ou redução da libido. A RED-S está diretamente ligada à baixa densidade óssea em ambos os gêneros.
O que o ciclista comum pode aprender com os profissionais
Você não precisa ser corredor do WorldTour para se preocupar com seus ossos. Na verdade, se você pedala várias vezes por semana e esse é o seu principal exercício, vale a pena prestar atenção nas seguintes recomendações:
Inclua exercícios de impacto na sua rotina. Algumas corridas leves por semana, exercícios de pliometria (como saltos) ou sessões de musculação podem fazer uma diferença enorme. Não precisa ser nada radical — o importante é dar aos seus ossos aquele estímulo mecânico que o pedal não proporciona.
Coma o suficiente. Parece óbvio, mas muitos ciclistas amadores caem na armadilha de querer emagrecer cortando calorias demais enquanto mantêm volumes altos de treino. Isso é receita para problemas. A baixa disponibilidade energética não é só um problema de profissionais.
Atenção ao cálcio e à vitamina D. Alguns estudos sugerem que consumir alimentos ricos em cálcio ou tomar um suplemento de cálcio antes do treino pode reduzir a quantidade que o corpo retira dos ossos durante o esforço. A vitamina D é igualmente importante, pois auxilia na absorção do cálcio.
Faça exames regulares. Conversamos muito sobre frequência cardíaca, potência em watts e VO2 máximo, mas quase ninguém fala em fazer uma densitometria óssea. Se você tem mais de 35 anos e pedala com frequência, considere incluir esse exame nos seus check-ups.
Respeite a individualidade. Como Hammerschmith frisou, cada pessoa tem uma fisiologia diferente. O que funciona para um colega de pelotão pode não funcionar para você. Buscar orientação profissional — de um nutricionista esportivo e de um médico que entenda de esporte — é sempre o caminho mais seguro.
Um caminho na direção certa
O ciclismo profissional está, aos poucos, deixando para trás a mentalidade que durante tanto tempo prejudicou a saúde óssea dos corredores. A inclusão de exames de densidade óssea nas avaliações pré-temporada, a valorização da nutrição adequada e a aceitação de que musculação e exercícios complementares não são inimigos do desempenho representam avanços reais.
“Precisamos cuidar de cada indivíduo como ele é e garantir que estamos alimentando sua fisiologia individual para os melhores resultados, tanto no lado da performance quanto da saúde”, concluiu Hammerschmith.
Para quem ama pedalar — e pretende continuar pedalando por muitos anos —, essa é uma mensagem que vale ouro. A baixa densidade óssea é um problema real, silencioso e potencialmente grave. Mas com informação, acompanhamento e algumas mudanças simples na rotina, é possível manter os ossos fortes enquanto continuamos fazendo o que mais gostamos: rodar.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O ciclismo realmente causa baixa densidade óssea?
Sim, diversas pesquisas científicas confirmam que o ciclismo intenso e prolongado pode contribuir para a baixa densidade óssea. Por ser uma atividade sem impacto, pedalar não gera o estímulo mecânico necessário para fortalecer os ossos. Além disso, o esforço aeróbico intenso faz com que o corpo consuma cálcio dos próprios ossos para suprir a demanda muscular.
Quais exercícios complementares ajudam a proteger os ossos de ciclistas?
Atividades que envolvam impacto e sustentação de peso são as mais indicadas. Musculação, corrida leve, exercícios pliométricos como saltos e agachamentos são excelentes opções. Mesmo uma ou duas sessões semanais já trazem benefícios significativos para a manutenção da massa óssea.
A partir de que idade ciclistas devem se preocupar com a densidade óssea?
A preocupação deve começar cedo, uma vez que o pico de massa óssea ocorre entre os 20 e 30 anos. A partir dos 35 anos, especialmente para mulheres, é recomendável incluir a densitometria óssea nos exames de rotina. Quanto mais cedo se identificar qualquer alteração, mais fácil será intervir.
O que é RED-S e qual a relação com a baixa densidade óssea?
RED-S (Síndrome de Deficiência Energética Relativa no Esporte) ocorre quando o atleta não consome calorias suficientes para suprir o gasto energético do treino somado às funções básicas do corpo. Esse déficit provoca desequilíbrios hormonais que, entre outras consequências, aceleram a perda de densidade óssea tanto em homens quanto em mulheres.
Tomar suplemento de cálcio antes de pedalar ajuda a proteger os ossos?
Alguns estudos indicam que sim. Consumir alimentos ricos em cálcio ou um suplemento antes do exercício pode reduzir a quantidade de cálcio que o organismo retira dos ossos durante o esforço. No entanto, isso deve ser combinado com uma ingestão calórica adequada, vitamina D suficiente e exercícios de impacto para resultados efetivos. Consulte sempre um profissional de saúde antes de iniciar qualquer suplementação.





Deixe um Comentário