Sabe aquela sensação de que algumas equipes do pelotão parecem jogar um jogo completamente diferente das outras? Pois é, você não está louco. Jan Bakelants, ex-vencedor de etapa do Tour de France e um dos caras mais lúcidos que já passou pelo ciclismo profissional, acabou de soltar uma bomba que muita gente pensa mas poucos têm coragem de falar: o ciclismo está voltando a ter um pelotão de duas velocidades. Só que dessa vez, o vilão não é o doping tradicional — é o doping financeiro.
Em entrevista ao jornal belga Het Laatste Nieuws, o belga foi direto ao ponto: “No passado, era causado pelo doping. Agora é causado pelo doping financeiro.” E olha, quando um cara que venceu etapa do Tour de France fala uma parada dessas, a gente precisa prestar atenção.
Quando o Dinheiro Virou o Verdadeiro Melhoramento de Performance
Vamos ser honestos: sempre existiu desigualdade no ciclismo. Mas o que está acontecendo agora é outro nível. Bakelants não está falando de equipes que têm orçamentos maiores — isso sempre existiu. Ele está falando de um sistema de transferências que virou um leilão, onde os times mais ricos simplesmente pegam os melhores talentos das equipes menores sem qualquer pudor.
Pensa comigo: você é uma equipe menor, investe anos desenvolvendo um jovem talento, dá oportunidades, constrói ao redor dele… e aí, do nada, aparece uma UAE Team Emirates, uma Visma-Lease a Bike, uma INEOS Grenadiers ou uma Lidl-Trek com um cheque gordo e leva o cara embora. Simples assim. Não tem conversa, não tem plano de carreira, não tem projeto. Tem dinheiro. E pronto.
O belga colocou de um jeito que dói: “Se você pode correr pela Visma-Lease a Bike, UAE Team Emirates-XRG, Lidl-Trek, Red Bull-BORA-hansgrohe, INEOS Grenadiers e agora também pela Decathlon AG2R La Mondiale, sua vida parece muito diferente de correr pela Lotto-Intermarché. E isso também é uma equipe WorldTour.”
Repara que ele citou a Lotto — uma equipe com anos de história, que já revelou campeões, que compete no mais alto nível. Mas que hoje, na prática, não consegue competir com os gigantes financeiros. É tipo comparar um time da Série A com um dos “12 grandes”. Tecnicamente estão na mesma liga, mas todo mundo sabe que o jogo é outro.
O Sistema de Transferências Virou Coisa de Futebol (E Isso É Péssimo)
Uma das coisas que Bakelants destaca — e que é absolutamente genial — é que o problema não está apenas em times ricos contratando bem. O problema é que o sistema de transferências moderno permite que equipes ricas destruam projetos inteiros das equipes menores sem pensar duas vezes.
No futebol, a gente já está acostumado com isso. Os clubes grandes pagam cláusulas de rescisão milionárias e levam embora qualquer jogador que queiram. Mas no ciclismo? O ciclismo sempre teve uma dinâmica diferente. Tinha lealdade, tinha projeto de equipe, tinha desenvolvimento de talento a longo prazo.
Isso está acabando. E rápido.
O que a gente vê agora são transferências milionárias acontecendo com uma facilidade absurda. Um ciclista faz uma temporada boa e pronto — já tem três ou quatro super-equipes oferecendo contratos que a equipe atual dele jamais conseguiria igualar. E olha, não dá para culpar o atleta. Cara, se oferecessem para você o triplo do salário para fazer o mesmo trabalho, você não aceitaria?
Mas o resultado disso é que as equipes menores viram, literalmente, celeiros de formação para as equipes grandes. Elas investem, desenvolvem, e no final das contas só servem para preparar atletas que depois vão brilhar com outras camisas. É frustrante demais.
O Abismo dos Orçamentos Está Ficando Ridículo
Bakelants jogou números na mesa que fazem a gente engasgar: “Um enorme desequilíbrio em orçamentos está surgindo dentro do pelotão.”
E ele tem razão. Vamos falar de números redondos aqui (porque os exatos são segredo mais bem guardado que fórmula de Coca-Cola): uma UAE Team Emirates ou Visma trabalha com orçamentos que passam fácil de 30, 40, talvez 50 milhões de euros por ano. Uma equipe como a Lotto? Trabalha com uns 15 milhões, se muito.
Agora imagina o seguinte cenário: a UAE quer contratar um corredor que está brilhando em uma equipe menor. Eles oferecem 5 milhões de euros de transferência. Para a UAE, isso representa talvez 10% do orçamento anual — totalmente gerenciável. Para a equipe pequena, esses mesmos 5 milhões representam 25% ou mais do orçamento total do ano.
Como você compete com isso? Simples: você não compete.
O resultado é um ciclo vicioso terrível: equipes grandes ficam cada vez mais fortes, acumulam talentos, vencem mais corridas, atraem mais patrocinadores, têm ainda mais dinheiro para contratar. Enquanto isso, equipes menores lutam para sobreviver, perdem seus melhores corredores, têm resultados piores, perdem patrocínios e ficam ainda mais fracas.
É darwinismo financeiro na veia. E não é bonito de se ver.
A Lição de Mathieu van der Poel e a Alpecin
Uma das partes mais interessantes da análise de Bakelants é quando ele fala sobre Mathieu van der Poel e a Alpecin-Deceuninck. Porque essa é, basicamente, a exceção que prova a regra.
A Alpecin conseguiu crescer organicamente ao redor de Van der Poel. Eles apostaram no holandês quando ele ainda estava começando na estrada (já era fenômeno no ciclocross, claro), construíram a equipe ao redor dele, e conseguiram se desenvolver até virar uma força respeitável no WorldTour.
Mas — e aqui vem o ponto crucial — isso só foi possível porque aconteceu antes do mercado de transferências virar essa loucura toda. Como Bakelants mesmo disse: “Quando ele realmente estourou na estrada, a prática que está se tornando comum agora ainda não estava realmente estabelecida. Se Mathieu van der Poel tivesse vencido sua primeira grande Clássica hoje, uma equipe oportunista como a INEOS ou Lidl-Trek certamente teria entrado com uma oferta astronômica.”
E é verdade, cara. Se o Van der Poel de 2025 estivesse começando hoje, com aquele talento todo, você acha mesmo que a Alpecin conseguiria segurar ele? Não teria chance. Algum gigante financeiro já teria levado faz tempo.
O caso da Alpecin é lindo, inspirador até. Mas é também um aviso: histórias como essa estão se tornando impossíveis de se repetir no ambiente atual do ciclismo profissional.
Por Que Isso Importa Tanto?
Tem gente que pode estar pensando: “Ah, mas futebol sempre foi assim e funciona.” Verdade. Mas o futebol tem algumas coisas que o ciclismo não tem:
- Ligas fechadas com divisões claras: No futebol, se você é muito fraco para a primeira divisão, você cai. No ciclismo, todo mundo compete junto no WorldTour
- Receitas de TV gigantescas: Os times de futebol têm múltiplas fontes de receita que não dependem só de desempenho esportivo
- Torcidas organizadas e leais: Um time de futebol pode passar anos sem ganhar nada e ainda assim manter sua base de fãs e receita
O ciclismo não tem nada disso. Patrocinadores investem em equipes de ciclismo por visibilidade. E visibilidade vem de resultados. Se você não vence, você perde patrocínio. Se perde patrocínio, perde orçamento. Se perde orçamento, perde corredores. Se perde corredores, vence ainda menos. E o ciclo se fecha.
Bakelants resume perfeitamente: “Sponsors esperam um retorno, e a diminuição da exposição enfraquece todo o modelo.”
É por isso que equipes com anos de tradição, como a Lotto-Intermarché, estão lutando para sobreviver mesmo competindo no WorldTour. Eles conseguem se classificar tecnicamente para o mais alto nível, mas financeiramente não conseguem jogar o mesmo jogo das grandes.
Os Corredores Também Estão Mudando a Mentalidade
Outro ponto que Bakelants levanta — e que é super interessante — é que os próprios corredores estão mudando sua mentalidade. Antigamente, ser líder de uma equipe menor tinha muito valor. Você era O cara, tinha responsabilidade, construía seu nome sendo protagonista.
Hoje? Muitos corredores preferem ser coadjuvantes em uma super-equipe do que líderes em uma equipe média. E faz todo sentido do ponto de vista deles:
- Ganham mais dinheiro
- Têm mais segurança de carreira
- Correm com melhores colegas de equipe
- Têm acesso a melhor estrutura (nutricionistas, médicos, equipamentos)
- Disputam as corridas mais importantes
Por que você seria líder da Lotto, levando a pressão sozinho, quando pode ser gregário da Visma, ajudar Jonas Vingegaard ou Tadej Pogačar, ganhar o dobro do salário, e ainda por cima ter chances reais nas corridas onde você é líder?
É uma lógica cruel, mas é lógica.
Estamos na Encruzilhada
O título da matéria original tinha uma palavra importante: crossroads (encruzilhada). E Bakelants está certíssimo. O ciclismo está em um momento decisivo.
A pergunta que fica é: o que fazer? Como resolver esse problema sem quebrar o sistema todo?
Algumas ideias que circulam (e que têm seus prós e contras):
Teto salarial e limitação de orçamento
Tipo NBA ou futebol americano. Todas as equipes teriam que operar com orçamentos similares. O problema? Como você força isso em um esporte global com patrocinadores privados de diferentes países?
Taxação de transferências
Equipes que gastam muito em transferências pagariam uma taxa que seria distribuída para as equipes menores. Interessante na teoria, complicado na prática.
Sistema de divisões com promoção/rebaixamento
Criar uma estrutura mais parecida com futebol europeu, onde equipes fracas caem de divisão. Mas isso poderia matar completamente equipes com história que passassem por momentos ruins.
Proteção de atletas jovens
Criar regras que impeçam transferências de ciclistas sub-23 por valores absurdos, dando tempo para as equipes de formação se beneficiarem do trabalho de desenvolvimento.
Nenhuma dessas soluções é perfeita. E todas teriam resistência gigantesca tanto de equipes grandes quanto de patrocinadores e até corredores.
O Paralelo Com o Passado É Perturbador
Sabe o que é mais assustador na comparação que Bakelants faz? É que ele está dizendo que voltamos ao mesmo lugar de antes, só que por motivos diferentes.
Nos anos 90 e começo dos 2000, tínhamos um pelotão dividido entre quem usava EPO e quem não usava. O resultado? Corridas previsíveis, domínio absoluto de alguns poucos, competitividade zero. Era triste.
Agora, temos um pelotão dividido entre quem tem dinheiro infinito e quem tem que contar centavos. O resultado? Corridas previsíveis, domínio absoluto de alguns poucos, competitividade zero.
Mesma merda, embalagem diferente.
A diferença é que quando rolou a limpeza do doping, tinha um vilão claro pra combater. Você testa os caras, pega quem está dopado, pune, e pronto. Como você combate dinheiro?
Dinheiro não é ilegal. Dinheiro não é antiético. Dinheiro é… dinheiro. É legal, é legítimo, e as equipes ricas têm todo o direito de investir quanto quiserem (dentro das regras atuais).
Então o problema não é moral — é estrutural. E problemas estruturais são muito mais difíceis de resolver.
E Agora, José?
Olha, eu não vou fingir que tenho a solução mágica para isso. Ninguém tem. Se tivesse, alguém já teria implementado.
O que eu sei é que a UCI precisa tomar uma atitude. E precisa ser logo. Porque quanto mais tempo passa, mais entrincheiradas ficam essas desigualdades. Quanto mais as super-equipes dominam, mais difícil fica quebrar esse domínio.
E tem outro fator importante: os fãs. A gente, que assiste às corridas, que compra produtos dos patrocinadores, que move essa indústria toda. Se o esporte ficar chato demais, se virar só parade das mesmas equipes vencendo sempre, a audiência vai cair. E aí todo mundo perde — inclusive as super-equipes.
Porque o que faz o ciclismo emocionante não é ver o favorito ganhar sempre. É a imprevisibilidade. É o cara da equipe menor que dá o golpe do século. É a zebra acontecendo. É o underdog triunfando contra todas as probabilidades.
Se isso desaparecer completamente, o ciclismo perde sua alma.
O Recado de Bakelants
Acho importante frisar que Bakelants não está fazendo birra de ex-corredor frustrado. O cara venceu etapa do Tour, teve uma carreira respeitável, aposentou-se bem. Ele não tem nada a ganhar falando isso.
Ele está falando porque se importa com o esporte. Porque vê o que está acontecendo e está preocupado. E deveria estar mesmo.
O belga não está pedindo para voltarmos à era pré-profissional do ciclismo, onde todo mundo ganhava uma miséria e vivia de favores. Ele está pedindo por equilíbrio. Por um sistema onde equipes menores tenham pelo menos uma chance de competir. Onde desenvolver talentos faça sentido. Onde o esporte seja decidido pelo mérito esportivo, não apenas pelo tamanho da carteira.
É pedir muito? Não deveria ser.
A Bola Está Com a UCI
O “doping financeiro” é real. Está acontecendo agora. E está destruindo a competitividade do ciclismo profissional pouco a pouco.
A UCI tem em mãos uma decisão crucial: agir agora, enquanto ainda é possível corrigir o rumo, ou assistir passivamente enquanto o esporte que administra vira um oligopólio de meia dúzia de super-equipes.
Não vai ser fácil. Vai ter resistência. Vai ter lobby. Vai ter gente poderosa querendo manter o status quo. Mas alguém precisa ter coragem de fazer o que é certo para o ciclismo, não para as carteiras mais gordas.
Jan Bakelants fez sua parte: soou o alarme. Agora resta saber se alguém vai escutar antes que seja tarde demais.
Porque se a história nos ensina algo, é que quando você ignora problemas estruturais por tempo demais, a conta sempre vem. E quando vem, geralmente vem muito mais cara do que o custo de ter resolvido na hora certa.
O ciclismo está em uma encruzilhada. Vamos escolher o caminho da competitividade saudável e equilibrada, ou vamos deixar o dinheiro destruir a essência do esporte?
O relógio está correndo.
Perguntas Frequentes Sobre o “Doping Financeiro” no Ciclismo
O que exatamente é “doping financeiro” no ciclismo?
O termo “doping financeiro” foi usado por Jan Bakelants para descrever a situação atual onde equipes com orçamentos muito maiores conseguem dominar o esporte simplesmente comprando os melhores talentos, independentemente do trabalho de desenvolvimento feito pelas equipes menores. Assim como o doping tradicional criava um pelotão de “duas velocidades” (dopados vs limpos), o doping financeiro está criando a mesma divisão, só que agora entre super-ricos e o resto.
Qual é a diferença entre investimento legítimo e “doping financeiro”?
A diferença está na desproporcionalidade e no impacto sistêmico. Investimento legítimo seria uma equipe bem financiada que desenvolve estrutura, contrata bem e cresce organicamente. Doping financeiro é quando você usa poder econômico desproporcional para simplesmente desmantelar projetos de outras equipes, comprando talentos prontos sem nenhuma contrapartida ou limitação. É tipo a diferença entre construir um time campeão e simplesmente comprar o time campeão do adversário.
Por que Bakelants citou especificamente a Alpecin e Mathieu van der Poel?
Porque a história da Alpecin com Van der Poel é a exceção que prova a regra. A Alpecin conseguiu crescer organicamente ao redor do holandês porque isso aconteceu antes do mercado de transferências virar o que é hoje. Bakelants argumenta que se Van der Poel estivesse começando agora, alguma super-equipe já teria levado ele com uma oferta astronômica que a Alpecin jamais conseguiria igualar. Basicamente, histórias inspiradoras como essa estão se tornando impossíveis de se repetir.
A UCI pode realmente fazer algo sobre isso ou é uma situação sem solução?
Existem soluções possíveis, mas todas com dificuldades. A UCI poderia implementar tetos salariais, limitações de orçamento, taxação de transferências ou sistemas de proteção para jovens talentos. O problema é que cada solução enfrentaria resistência massiva de equipes grandes, patrocinadores e até atletas. Além disso, como o ciclismo é um esporte global com patrocínio privado de diferentes países, criar e fiscalizar essas regras seria extremamente complicado. Mas não impossível — se houver vontade política.
Como isso afeta o espectador comum que assiste às corridas?
Para quem assiste, o efeito é que as corridas ficam cada vez mais previsíveis. Quando apenas 5 ou 6 equipes têm chances reais de vencer qualquer prova importante, o esporte perde emoção e imprevisibilidade. Aqueles momentos mágicos de um corredor “azarão” surpreendendo todo mundo? Ficam cada vez mais raros. É como assistir uma liga de futebol onde só 3 times podem ser campeões — tecnicamente ainda é competição, mas o resultado provável você já sabe antes de começar.

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