Tem momentos no esporte que a gente assiste, sorri, balança a cabeça e fica em silêncio por alguns segundos. Não por tristeza — pelo contrário. É aquele silêncio de quem está diante de algo difícil de processar. Quem acompanhou a chegada da Milan-San Remo 2026, no último sábado (21/03), sabe exatamente do que estou falando.
Tadej Pogačar cruzou a linha de chegada com meio guidão de vantagem sobre Tom Pidcock, depois de quase seis horas e meia sobre a bicicleta, percorrendo 298 quilômetros entre Milão e San Remo. Parece simples assim descrito. Não é. Longe disso.
Cobrindo ciclismo há mais de três décadas, aprendi a desconfiar dos superlativos fáceis. Já vi gerações inteiras serem chamadas de “as melhores de todos os tempos” e depois desaparecerem na mediocridade. Mas o que Tadej Pogačar está fazendo nesta temporada 2026 é diferente. É matematicamente absurdo. É fisiologicamente improvável. É, para usar um termo que odeio mas que aqui cabe perfeitamente, histórico.
Para entender o tamanho do que aconteceu na Itália, não basta falar em vitória. É preciso olhar para os números por trás do desempenho. Sete deles, especificamente. Cada um conta uma parte da história. Juntos, eles formam um retrato de um atleta operando em outra categoria — uma que, sinceramente, ainda estamos tentando nomear.
1. 45,5 km/h — A Velocidade Média de Quase Seis Horas e Meia
A Milan-San Remo não é uma corrida qualquer. Com 298 quilômetros de distância, ela é a mais longa das clássicas de um dia no calendário do World Tour — e carrega a alcunha de La Classicissima com toda a arrogância que o nome merece. O percurso acumula mais de dois mil metros de altitude, passando pelo histórico Passo del Turchino e por cinco subidas no trecho final dos últimos 50 quilômetros, incluindo a Cipressa e o famoso Poggio.
Pois bem: Tadej Pogačar completou tudo isso a uma velocidade média de 45,5 km/h, terminando a prova em 6 horas, 35 minutos e 49 segundos. Para ter uma referência, isso é ligeiramente mais lento do que Mathieu van der Poel na Paris-Roubaix 2024, quando o holandês marcou uma média de 47,70 km/h — mas a Paris-Roubaix não tem os mesmos desafios altimétricos que a San Remo.
Manter quase 46 km/h por mais de seis horas, com subidas, descidas perigosas, buracos, chuva ocasional e o risco permanente de queda, é algo que pouquíssimas pessoas no planeta conseguem fazer. E Tadej Pogačar ainda ganhou no sprint final depois de tudo isso.
Pesquisas sobre fisiologia do ciclismo de resistência publicadas no Journal of Sports Sciences mostram que manter velocidades médias dessa magnitude em percursos com esse perfil altimétrico exige uma combinação raramente vista: VO₂max excepcional, eficiência mecânica de pedalada acima da média e capacidade de gerenciamento de esforço em nível de elite mundial. Pogačar tem tudo isso — e ainda sobra.
2. 79,9 km/h — Quando a Bicicleta Vira um Míssil
Tem gente que tem medo de descer de bicicleta a 50 km/h. Faz sentido — é rápido, o contato com o asfalto é mínimo, e qualquer imprevisto pode ser fatal. Agora imagine descer a 79,9 km/h. Não numa descida preparada, cronometrada, com capacete de aero. Numa corrida. Com outros ciclistas ao redor. Depois de horas pedalando.
Esse foi o pico de velocidade registrado pelo Strava de Tadej Pogačar durante a Milan-San Remo 2026, atingido na descida em direção à base da subida da Cipressa. No mesmo trecho, o esloveno também registrou uma cadência máxima de 129 rpm — o que, para quem entende de biomecânica, é impressionante em qualquer velocidade, quanto mais a quase 80 por hora.
A combinação de velocidade de descida e controle técnico de Pogačar é algo que poucos corredores da história moderna conseguiram igualar. Ele desce rápido porque confia na bicicleta, no asfalto e — sobretudo — em si mesmo. Isso não é só talento. É anos de treinamento específico e uma frieza que beira o sobre-humano.
3. 8 minutos e 49 segundos — O Recorde na Cipressa que Ninguém Esperava
A Cipressa é a penúltima subida antes da chegada em San Remo. Com 6,84 quilômetros de extensão, ela não é a mais dura do percurso, mas é onde as corridas costumam se decidir — ou pelo menos onde os egos começam a rachar. Quem sobra na Cipressa, sobrevive até o Poggio. Quem não sobra… bom, vai assistir o sprint de longe.
Tadej Pogačar escalou a Cipressa em 8 minutos e 49 segundos. Isso é alguns segundos mais rápido do que o tempo que ele mesmo havia feito no ano anterior — 8 minutos e 57 segundos — quando terminou em terceiro lugar atrás de van der Poel e Filippo Ganna. O detalhe que transforma esse número de “impressionante” em “absurdo”: Pogačar havia caído momentos antes, junto com outros corredores, quando a pelotão se aproximava da base da subida.
Ele levantou, voltou para a bicicleta e subiu a Cipressa mais rápido do que no ano anterior. Caiu, levantou, e ainda assim bateu o próprio recorde. Deixa isso passar pela sua cabeça por um segundo.
Segundo dados do Strava, Pogačar também registrou o terceiro melhor tempo de todos os tempos na subida e descida completa do Poggio — a última rampa antes da linha de chegada, onde historicamente as corridas se definem. Apenas Matej Mohorič em 2024 foi mais rápido nesse segmento específico.
4. A Quinta Tentativa que Finalmente Virou Vitória
Há uma narrativa bonita por trás dessa vitória que vai além dos watts e dos quilômetros por hora. Tadej Pogačar disputou a Milan-San Remo cinco vezes. Cinco. E as primeiras quatro foram de deixar qualquer outro ciclista no mundo satisfeito — mas não a ele.
Em 2022, foi sua estreia na corrida. Terminou em quinto lugar, derrotado por Matej Mohorič em uma descida relâmpago com selim rebaixável — uma jogada tática que deixou todo mundo boquiaberto. Em 2023, chegou em quarto, numa corrida vencida por van der Poel. Em 2024, foi terceiro atrás de Jasper Philipsen e Michael Matthews. Em 2025, terceiro novamente. Chegando sempre perto, nunca chegando primeiro.
O ciclismo tem essa característica fascinante: algumas corridas simplesmente não encaixam no perfil de determinados corredores, por mais completos que sejam. A Milan-San Remo exige uma combinação muito específica de resistência, velocidade de sprint, técnica de descida e leitura de corrida. Pogačar foi aprendendo a corrida a cada tentativa, como um chess player que volta para o tabuleiro com mais paciência a cada derrota.
Na quinta tentativa, tudo encaixou. E quando encaixou, encaixou com meio guidão de vantagem sobre Tom Pidcock — e quatro segundos de folga sobre o pelotão que chegava atrás, com Wout van Aert na ponta. Uma vitória que confirma o que o próprio Pogačar havia declarado antes da temporada: 2026 seria um ano diferente.
5. 35 centímetros — A Margem Que Separa a Lenda do Azarão
Seis horas e meia de corrida. Quase 300 quilômetros. Mais de dois mil metros de altitude acumulada. Queda, recuperação, recorde na Cipressa, descida em velocidade próxima de 80 km/h. E a corrida foi decidida por… 35 centímetros.
Essa é a margem com a qual Tadej Pogačar venceu Tom Pidcock no sprint a dois em San Remo. Meio guidão. Trinta e cinco centímetros que valem um Monumento — o quarto da carreira do esloveno, para ser exato.
Tom Pidcock, por sua vez, merece um parágrafo à parte. O britânico, que já havia mostrado muito no ciclismo de montanha e nas clássicas menores, chegou a San Remo como favorito secundário e quase conseguiu a zebra do ano. Ele já havia vencido a Strade Bianche 2023 — considerada por muitos o sexto Monumento não oficial — e uma vitória aqui seria um passo enorme na construção de um legado nas clássicas. Ficou para a próxima.
O que esse número de 35 centímetros revela, acima de tudo, é que Pogačar não é só um ciclista de montanha que foi aprender a correr em clássicas. Ele tem sprint. Ele tem inteligência tática. Ele sabe quando atacar, quando guardar, quando lançar. Aos 27 anos, esse jovem esloveno da UAE Team Emirates-XRG já parece um veterano de quarenta.
6. 415 watts — O Motor Que Move um Fenômeno
Falar de FTP (Limiar de Potência Funcional) para quem não é do mundo do ciclismo pode parecer abstrato demais. Mas vale a pena tentar explicar, porque os números de Tadej Pogačar são simplesmente impossíveis de ignorar.
O FTP estimado de Pogačar gira em torno de 415 watts. Esse valor não foi oficialmente divulgado — a UAE Team Emirates-XRG guarda essas informações como segredo de estado — mas é o número que circula entre analistas e fisiologistas baseado em dados de atividade compartilhados ao longo dos últimos anos. Traduzindo para algo mais concreto: isso equivale a uma relação potência/peso de aproximadamente 7 watts por quilograma. Para comparar: um ciclista amateur bem treinado costuma ter entre 3 e 4 W/kg. Um profissional mediano, entre 5 e 5,5 W/kg. Os melhores do mundo raramente passam de 6,5 W/kg de forma sustentada.
Mais impressionante ainda: segundo dados que vazaram, Pogačar consegue manter 340 watts em treinos de zona 2 de cinco horas de duração. Zona 2 é o ritmo de “recuperação ativa” — a intensidade que a maioria dos ciclistas profissionais usa para descansar entre treinos duros. Para ele, é um ritmo de regeneração produzir mais de 300 watts. Isso é simplesmente outro mundo.
Para completar o quadro: sua frequência cardíaca de repouso, segundo relatos, fica em torno de 37 batimentos por minuto. Para ter referência, a de um adulto saudável normal fica entre 60 e 100. Esse coração grande, literalmente, é um dos pilares do seu desempenho. Estudos sobre adaptações cardíacas em atletas de endurance de elite mostram que corações assim, com câmaras maiores e paredes mais espessas, conseguem bombear mais sangue por batimento — o que significa mais oxigênio entregue aos músculos a cada ciclo.
7. 3.898 calorias — Quanto Custa Ganhar La Classicissima
O último número é talvez o mais humano de todos — e o que mais conecta o que Tadej Pogačar faz ao que a gente entende como esforço físico real.
O Strava estimou que ele queimou 3.898 calorias durante a corrida. São quase 4.000 calorias — o equivalente ao gasto energético diário de dois adultos ativos. Em menos de seis horas e meia. Pedalando em competição com os melhores do mundo.
Para repor esse gasto, Pogačar precisa comer de forma estratégica durante e após a corrida. Equipes de nutrição de elite calculam a ingestão de carboidratos por hora (geralmente entre 90g e 120g em corridas de alta intensidade), o timing de recuperação proteica nas horas seguintes e a reidratação com eletrólitos. Não é por acaso que o ciclismo profissional moderno tem nutricionistas tão importantes quanto os próprios treinadores de pedalada.
E já que estamos falando de calorias: o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, afirmou em 2023 que igualava esse número de calorias queimadas por dia em suas sessões de exercício. Talvez ele devesse tentar a Milan-San Remo no próximo ano. Seria interessante ver o resultado.
E Agora? O Que Está em Jogo na Paris-Roubaix
Com a vitória na Milan-San Remo, Tadej Pogačar agora possui quatro dos cinco Monumentos do ciclismo: a Strade Bianche (que muitos já consideram o sexto Monumento), o Tour das Flandres, o Il Lombardia e agora a San Remo. Falta apenas um: a Paris-Roubaix.
Vale lembrar que ele também venceu a Strade Bianche 2026 algumas semanas antes, confirmando que está em forma absurda desde o início da temporada.
Se ele vencer a Paris-Roubaix nesta edição 2026, se tornará apenas o quarto ciclista da história a completar a coleção dos cinco Monumentos — e o primeiro a conseguir os cinco na mesma temporada. Os outros três que têm essa coleção completa são Eddy Merckx, Roger De Vlaeminck e Rik Van Looy — todos belgas, todos vencedores entre 1958 e 1979. São nomes que qualquer amante do ciclismo conhece como deuses do esporte.
Já existe até especulação de que Pogačar poderia se tornar o primeiro a vencer os cinco Monumentos numa única temporada. É uma conversa que, há dois anos, pareceria ficção científica. Hoje parece apenas uma questão de o calendário cooperar e a bicicleta não quebrar.
Trinta anos cobrindo ciclismo me ensinaram que nada é garantido nesse esporte. Quedas, doenças, azar — tudo pode acontecer. Mas também me ensinaram a reconhecer quando estou diante de algo especial. E Tadej Pogačar, neste momento, é muito especial.
Perguntas Frequentes sobre Tadej Pogačar e a Milan-San Remo 2026
Quantas vezes Tadej Pogačar disputou a Milan-San Remo antes de vencer?
Tadej Pogačar disputou a Milan-San Remo cinco vezes ao total. Sua estreia foi em 2022 (5º lugar), seguida do 4º lugar em 2023, 3º lugar em 2024, 3º lugar em 2025 e, finalmente, a vitória na 5ª tentativa, em 2026. A trajetória de chegadas consistentemente no top 5, mas sem vencer, tornou a vitória de 2026 ainda mais significativa no contexto da sua carreira nas clássicas de um dia.
Quais são os cinco Monumentos do ciclismo e quantos Pogačar já venceu?
Os cinco Monumentos são: Milan-San Remo, Tour das Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Il Lombardia. Até a Milan-San Remo 2026, Tadej Pogačar conquistou quatro deles — Tour das Flandres, Il Lombardia, Liège-Bastogne-Liège e agora a Milan-San Remo. Falta apenas a Paris-Roubaix para completar a coleção histórica.
Qual é o FTP estimado de Tadej Pogačar e o que isso significa?
O FTP (Limiar de Potência Funcional) estimado de Tadej Pogačar é de aproximadamente 415 watts, o que representa cerca de 7 watts por quilograma de peso corporal. Esse valor representa a potência máxima sustentável por cerca de uma hora. Para comparação, ciclistas amadores bem treinados costumam ter entre 3 e 4 W/kg, enquanto profissionais de nível médio ficam entre 5 e 5,5 W/kg. A relação de 7 W/kg de Pogačar está entre as mais altas já estimadas no pelotão profissional moderno.
Por que a Milan-San Remo é considerada uma das corridas mais difíceis do calendário?
A Milan-San Remo, apelidada de La Classicissima, é a corrida de um dia mais longa do calendário WorldTour, com 298 quilômetros de extensão. O percurso acumula mais de 2.000 metros de altitude, com passagens por subidas históricas como o Passo del Turchino e, na parte final, a Cipressa e o Poggio. A combinação de distância, perfil técnico e sprint final exige dos corredores uma combinação rara de resistência, técnica de descida e capacidade de sprint, tornando-a uma das mais táticas e imprevisíveis do calendário.
Algum ciclista já venceu os cinco Monumentos na mesma temporada?
Não. Nenhum ciclista na história do ciclismo profissional venceu os cinco Monumentos numa única temporada. Completar a coleção dos cinco ao longo de uma carreira já é feito de apenas três ciclistas: Eddy Merckx, Roger De Vlaeminck e Rik Van Looy — todos belgas, com vitórias entre as décadas de 1950 e 1970. Tadej Pogačar, com a vitória na Milan-San Remo 2026, tornou-se o atleta mais próximo de fazer os cinco numa única temporada, precisando apenas da Paris-Roubaix para completar o feito inédito.





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