Mathieu van der Poel olhou para o potenciômetro. 650 watts. Os pulmões queimavam, as pernas gritavam, os paralelepípedos do Oude Kwaremont vibravam debaixo dos pneus como uma metralhadora de pedra. E a roda de Tadej Pogačar se afastava. Cada pedalada, mais longe. Cada segundo, mais cruel.
Pois é. Seiscentos e cinquenta watts — o equivalente a ligar um micro-ondas no talo com as pernas — e não foi suficiente. O Tour de Flandres 2026 teve muita coisa: um pelotão cortado por um trem, 278 quilômetros de brutalidade flamenga, Remco Evenepoel estreando com cara de quem veio pra ficar. Mas a imagem que vai grudar na memória é essa: o maior especialista em clássicas da sua geração, no melhor dia da sua vida, sendo humilhado por um esloveno de 27 anos que trata os Monumentos como recreio.
“Eu estava pedalando a 650 watts e mesmo assim não consegui acompanhar”, disse Van der Poel na zona mista, com aquela cara de quem acabou de levar um gol no último minuto. “Ciclismo é simples. Tive que me submeter à lei do mais forte.” Rapaz, se isso é simplicidade, eu não quero ver complicação.
Sabe aquela sensação de assistir um jogador do seu time fazer o jogo da vida e mesmo assim perder? O Neymar na final da Copa de 2022, dando tudo contra a Argentina e saindo de mãos vazias? Pois Van der Poel viveu a versão ciclística disso num domingo de abril na Bélgica.
O dia em que o Oude Kwaremont engoliu o orgulho holandês
Vamos reconstruir. O Tour de Flandres 2026 — 110ª edição, a mais longa desde 1988 com seus 278,2 km de Antuérpia a Oudenaarde — começou como toda clássica flamenga: caótico. Uma fuga de 13 corredores se formou nos primeiros 40 km, incluindo nomes como Silvan Dillier, Connor Swift e o mongol Sainbayaryn Jambaljamts. A vantagem chegou a cinco minutos e meio enquanto o pelotão decidia quem ia puxar.
Aí veio o trem. Literalmente. Um cruzamento ferroviário cortou o pelotão ao meio, e metade dos corredores ficou pra trás mastigando poeira e palavrão. Caos puro. Mas a corrida de verdade — a que importa, a que a gente conta pros netos — só começou quando faltavam pouco mais de 100 km.
Foi no Molenberg que a UAE Team Emirates-XRG mostrou a que veio. Pogačar não precisou atacar sozinho — mandou Florian Vermeersch explodir o pelotão como quem joga uma granada numa piscina. De 100 corredores, sobraram 17. Num piscar de olhos, a narrativa mudou: agora era guerra entre poucos, e cada favorito tinha pelo menos um gregário ao lado. Van der Poel com Michael Gogl. Pogačar com Vermeersch. Wout van Aert com Christophe Laporte. Evenepoel com Mick van Dijke e Gianni Vermeersch.
O grupo dos favoritos alcançou a fuga faltando uns 80 km. E aí começou o xadrez.
Na penúltima passagem pelo Oude Kwaremont, com 55 km pra correr, Pogačar deu a primeira estocada. Van der Poel — e aqui está o detalhe que dói — estava mal posicionado, preso atrás de outros corredores, e teve que gastar um esforço brutal só pra voltar à roda do esloveno. Energia que ele não ia recuperar. “Eu estava bem posicionado antes da segunda subida do Kwaremont, mas fui bloqueado por alguns corredores e tive que vir lá de trás”, reconheceu depois.
No Paterberg seguinte, Pogačar e Van der Poel largaram Evenepoel, que foi cuspido a uns 20 segundos. Dali pra frente, os dois revezaram na ponta por quase 40 km. Van der Poel puxava com inteligência — não como louco, mas o suficiente pra manter o belga longe. “Não é que eu puxei como um doido. Fiz minhas puxadas. Às vezes é melhor pra suas pernas também”, explicou.
Cooperação calculada. Dois predadores dividindo a caça, cada um esperando o momento certo pra morder. Só que um deles — a gente já sabe qual — tinha dentes maiores.
O monstro de Liubliana: Pogačar e a arte de destruir gerações
A última subida do Oude Kwaremont. Faltavam 18 km. Pogačar acelerou na parte mais íngreme dos paralelepípedos. Van der Poel olhou o potenciômetro: 650 watts. Pra quem não é do ciclismo, vamos traduzir: a maioria dos ciclistas amadores produz 650 watts num sprint de 5 segundos, com tudo o que tem, no limite absoluto. Van der Poel sustentava essa potência numa subida de paralelepípedos, sentado na bike, e mesmo assim via a roda de Pogačar desaparecer como miragem no deserto.
Se considerarmos os ~75 kg estimados de Van der Poel, estamos falando de 8,67 watts por quilo. Pra colocar em perspectiva: a literatura em fisiologia do exercício aponta que esforços acima de 7 W/kg em subidas curtas já caracterizam atletas de elite absoluta. Van der Poel estava quase 1,7 W/kg acima disso. E perdendo.
Pogačar abriu 6 segundos no topo do Kwaremont. Pouco? No ciclismo de clássicas, 6 segundos é um abismo. Van der Poel tentou colar no trecho plano seguinte, sentiu que chegava perto, achou que talvez, quem sabe… Mas Pogačar tinha mais uma marcha. Sempre tem mais uma marcha. No Paterberg final, o esloveno ampliou pra 34 segundos — e começou a comemorar faltando um quilômetro, o braço direito socando o ar como quem assina um quadro já terminado.
Imagine a cena: topo do Oude Kwaremont, os últimos metros de paralelepípedo desnivelado. O barulho das rodas nos blocos de pedra — tac-tac-tac-tac — misturado com o urro de meio milhão de flamengos encharcados de cerveja e tensão. Van der Poel levanta da sela, boca escancarada sugando ar. Olha o Garmin: 650. Olha pra frente: o arco-íris na camisa de Pogačar encolhe como um ponto no horizonte. Cada pedalada, mais impossível. E o holandês sabe — ali, naquele instante exato — que o recorde de quatro vitórias em Flandres não vai ser dele.
Tadej Pogačar agora tem 3 vitórias no Tour de Flandres (2023, 2025, 2026) e se igualou ao recorde de sete corredores na história — entre eles, o próprio Van der Poel (2020, 2022, 2024). Mas os números do esloveno vão muito além de uma corrida. São 12 vitórias em Monumentos, segundo lugar na lista de todos os tempos atrás apenas de Eddy Merckx e seus 19. Com 27 anos. Cara, isso não é normal.
Já ganhou Milan-San Remo 2026 antes de Flandres. Se vencer a Paris-Roubaix no próximo domingo, entra num clube com só três membros: Merckx, Rik Van Looy e Roger De Vlaeminck — os únicos que conquistaram os cinco Monumentos. Chamaram Pogačar de “o Messi ou Ronaldo do ciclismo”. Olha, vamos combinar que a comparação já está ficando pequena. Messi e Ronaldo não ganharam tudo no mesmo ano.
Paralelepípedos, muros e cerveja: o Maracanã do ciclismo que você precisa conhecer
Paro aqui um segundo pra falar com você que está lendo de Curitiba, de Recife, de Manaus — de qualquer lugar do Brasil onde ciclismo ainda é sinônimo de Tour de France e só. O Tour de Flandres não é só uma corrida. É a final da Copa do Mundo do ciclismo de um dia. É a missa mais sagrada da região de Flandres, na Bélgica, onde ciclismo não é esporte — é religião, identidade, razão de viver.
Os muros — ou hellingen, como os belgas chamam — são rampas curtas e brutais, muitas com paralelepípedos irregulares centenários que chacoalham o ciclista como batedeira. O Koppenberg tem trechos de 22% de inclinação. O Paterberg, 20%. O Oude Kwaremont, 2.200 metros de subida com pedras que parecem ter sido colocadas ali por alguém que odiava bicicletas. Escorregadio quando chove, destruidor quando não chove. Não tem meio-termo.
A corrida existe desde 1913. E se você quer entender o que ela significa pra Bélgica, pense assim: em dia de Ronde van Vlaanderen, os flamengos param tudo. Bares lotam às 9 da manhã. Famílias inteiras se amontoam nos muros com churrasqueira, cerveja trapista e bandeiras do Leão de Flandres. O barulho quando o pelotão passa é coisa de arrepiar — aquele rugido grave de multidão que vem do estômago, não da garganta.
Nos anos 60 e 70, Eddy Merckx e Roger De Vlaeminck transformaram a prova em palco de rivalidade épica. Merckx — o Canibal — ganhou duas vezes e tratava Flandres como aperitivo antes de devorar tudo. De Vlaeminck venceu uma, mas sua rivalidade com Merckx nas clássicas virou folclore. Conta-se que certa vez, num hotel antes da corrida, os dois jantaram na mesma mesa sem trocar uma palavra. Só se olharam. No dia seguinte, se destruíram na estrada.
Depois vieram Johan Museeuw — o Leão de Flandres que quase perdeu a perna num acidente em Roubaix e voltou pra ganhar tudo — e Tom Boonen, que venceu três vezes e transformou cada vitória em festa nacional. Fabian Cancellara, o suíço que parecia ter motor escondido na bike de tão absurda que era sua potência nas clássicas, também ganhou três. Mas nenhum deles, nenhum, acumulou resultados no ritmo que Pogačar impõe agora.
Van der Poel no Tour de Flandres: a maldição do segundo melhor do planeta
Mathieu van der Poel tem 31 anos, três vitórias no Tour de Flandres e sete pódios consecutivos na prova. Sete. Desde 2020, não sai do top 3. Venceu em 2020, 2022 e 2024. Foi segundo atrás de Kasper Asgreen em 2021, segundo atrás de Pogačar em 2023 e 2026, terceiro atrás de Pogačar em 2025. Qualquer outro ciclista da história ficaria em êxtase com esse currículo. Mas Van der Poel não é qualquer outro ciclista. E o problema dele tem nome e sobrenome.
“Eu tenho um problema: existe um fenômeno pedalando por aí”, ele disse depois da corrida, com um sorriso que era meio admiração, meio rendição. E essa é a tragédia silenciosa do holandês: quando Pogačar não está na largada, Van der Poel é o melhor do mundo. Quando Pogačar está — bom, a gente viu o que acontece.
Há algo de dilacerante em ver Van der Poel cruzar a linha em Oudenaarde. Os 34 segundos de atraso pesam como horas. Ele se debruça sobre o guidão, o corpo inteiro gritando de exaustão, e Pogačar vem até ele — toca seu ombro num gesto breve, quase fraterno. Dois rivais que se respeitam como poucos neste esporte. Mas respeito não apaga a dor de saber que você deu absolutamente tudo — tudo — e não bastou. Van der Poel levanta a cabeça, olha pro nada, e aceita. Não há drama exagerado. Só o silêncio pesado de quem entende que a história, desta vez, tem outro protagonista.
“Acho que fiz uma das minhas melhores performances de sempre”, disse Van der Poel. “Se tem um cara mais forte, é assim que é. Não posso fazer mais do que isso.” Olha, eu vou ser honesto: essa frase, dita com essa naturalidade, é a coisa mais bonita e mais devastadora que ouvi de um atleta em muito tempo. Porque ele sabe que é verdade. Ele sabe que deu tudo. E sabe que tudo não é o suficiente quando do outro lado mora um extraterrestre.
Sabe o que me lembra? O Zico nos anos 80, carregando o Flamengo nas costas em jogos impossíveis e às vezes perdendo mesmo assim — não por falta de talento, mas porque o destino decidiu que aquele dia era de outro. Van der Poel é o Zico das clássicas. Brilhante, lendário, mas condenado a dividir sua era com alguém que talvez seja maior.
O que o resultado do Tour de Flandres 2026 diz sobre o resto da temporada
Bom, vamos aos fatos secos antes de eu dar meu palpite. Resultado do Tour de Flandres 2026: Pogačar em 6h20min07s, Van der Poel a 34 segundos, Evenepoel a 1min11s, Van Aert a 2min04s, Mads Pedersen em quinto. Pogačar venceu as três corridas que disputou em 2026 — Milan-San Remo e agora Flandres, duas das cinco mais importantes do calendário. O homem não perde.
Remco Evenepoel, estreando em clássicas de paralelepípedos, ficou em terceiro no seu primeiro Tour de Flandres. Impressionante? Muito. Suficiente pra ameaçar? Ainda não. Mas o belga já avisou que está deixando a porta aberta pra correr Paris-Roubaix. Se ele for, a corrida fica ainda mais imprevisível.
Van Aert ficou em quarto — sólido, consistente, mas sem aquele lampejo que o coloca na briga real. Pedersen, voltando de lesão, mostrou que ainda tem gás, mas faltou aquele algo a mais.
Agora, meu palpite — e aqui eu falo como Marcos Vinelli, não como enciclopédia. Essa rivalidade Pogačar vs. Van der Poel nas clássicas tem um problema: ela virou monólogo. Pogačar é melhor nas subidas, é melhor nos ataques, é melhor na recuperação entre esforços. Van der Poel é superior nos sprints reduzidos e talvez em Roubaix, onde não há muros e a corrida se decide na resistência aos pavés e na sorte de não furar ou cair. Em 2025, Van der Poel venceu Roubaix pela terceira vez consecutiva e Pogačar caiu. Então sim — Paris-Roubaix no próximo domingo é onde o holandês pode equilibrar a balança. Mas se Pogačar chegar inteiro ao velódromo de Roubaix… rapaz, eu não apostaria contra ele nem com dinheiro dos outros.
E pra quem acompanha o ciclismo daqui do Brasil: fiquem de olho. A temporada de clássicas de paralelepípedos 2026 está sendo a mais espetacular em décadas. Se você é daqueles que só liga a TV pro Tour de France em julho, está perdendo o melhor do esporte. As clássicas são o futebol de várzea do ciclismo — barro, suor, imprevisibilidade, paixão pura. O calendário da UCI WorldTour tem muito mais a oferecer do que três semanas na França.
O último quilômetro
Eu cubro ciclismo há mais de 30 anos. Vi Pantani destruir a Galibier. Vi Cancellara parecer sobre-humano em Flandres. Vi Van der Poel e Van Aert inventarem uma rivalidade que parecia impossível de superar. E agora vejo Pogačar tornar tudo isso pequeno.
O que mais me impressiona não são os watts, nem as vitórias, nem os recordes. É a naturalidade. Pogačar pedala como quem respira. Não há sofrimento visível, não há cara de dor quando ele ataca. Ele simplesmente… vai. E quando vai, ninguém segue. 650 watts não seguem. Nada segue.
Domingo que vem tem Paris-Roubaix. O Inferno do Norte. Talvez lá, no barro e na lama dos pavés franceses, Van der Poel encontre seu terreno sagrado de novo. Talvez a sorte, que não existe em Flandres mas manda em Roubaix, dê uma reviravolta. Ou talvez Pogačar faça o que nenhum ciclista na história conseguiu: ganhar os cinco Monumentos no mesmo ano. Se acontecer, lembrem que vocês leram aqui primeiro — e que um holandês de 31 anos deu 650 watts pra tentar impedir, e mesmo assim não conseguiu. Tem horas que a derrota é mais bonita que a vitória. Esse domingo em Flandres foi uma delas. [PLACEHOLDER: link para post relacionado sobre Paris-Roubaix ou Monumentos do ciclismo]
Perguntas Frequentes sobre o Tour de Flandres 2026
Quem ganhou o Tour de Flandres 2026?
Tadej Pogačar venceu o Tour de Flandres 2026 com um ataque decisivo no Oude Kwaremont, chegando sozinho a Oudenaarde após 278,2 km. Mathieu van der Poel ficou em segundo, a 34 segundos, e Remco Evenepoel completou o pódio em terceiro, na sua estreia na prova. Foi a terceira vitória de Pogačar na corrida, igualando o recorde histórico.
O que Mathieu van der Poel disse sobre os 650 watts no Tour de Flandres?
Van der Poel revelou que estava gerando 650 watts de potência quando Pogačar o largou na última subida do Oude Kwaremont no Tour de Flandres 2026. Mesmo com essa potência absurda — equivalente a cerca de 8,67 W/kg — ele não conseguiu acompanhar a roda do esloveno. Van der Poel resumiu a situação dizendo que teve que aceitar a lei do mais forte.
Quantas vezes Pogačar ganhou o Tour de Flandres?
Tadej Pogačar venceu o Tour de Flandres três vezes: em 2023, 2025 e 2026. Com isso, ele se tornou o oitavo ciclista na história a alcançar essa marca, igualando nomes como Mathieu van der Poel (2020, 2022, 2024), Tom Boonen e Fabian Cancellara. Pogačar soma 12 vitórias em Monumentos na carreira, atrás apenas de Eddy Merckx.
O que é o Tour de Flandres no ciclismo?
O Tour de Flandres (Ronde van Vlaanderen) é uma das cinco corridas de um dia mais importantes do ciclismo, conhecidas como Monumentos. Disputada desde 1913 na região de Flandres, na Bélgica, a prova se caracteriza por seus muros — subidas curtas e íngremes com paralelepípedos centenários — que testam a potência, a resistência e a técnica dos ciclistas como nenhuma outra corrida no mundo.
Qual a rivalidade entre Van der Poel e Pogačar nas clássicas?
A rivalidade entre Mathieu van der Poel e Tadej Pogačar é a maior do ciclismo atual nas clássicas de paralelepípedos. Van der Poel dominou o Tour de Flandres entre 2020 e 2024 com três vitórias, mas desde 2023 Pogačar assumiu o protagonismo, vencendo a corrida em três das últimas quatro edições. Em 2026, Van der Poel reconheceu que Pogačar é simplesmente mais forte nas subidas decisivas, embora mantenha vantagem em corridas planas como Paris-Roubaix.
Fonte principal: Cyclingnews — reportagem completa do Tour de Flandres 2026





Deixe um Comentário