Edimburgo, 2 de julho de 2027. O pelotão do Tour de France deixa a capital escocesa e pedala para sul, atravessando a fronteira histórica entre a Escócia e a Inglaterra. A maior corrida de ciclismo do mundo está acontecendo — e está acontecendo longe da França.
Isso nunca tinha acontecido assim. Não exatamente.
O Tour de France visitou outros países antes — Bélgica, Holanda, Espanha, o próprio Reino Unido em 2014. Mas em 124 anos de história, desde a primeira edição em 1903, nunca os dois Grand Départs — o masculino e o feminino — partiram do mesmo país fora da França no mesmo ano. Em 2027, isso muda. E hoje, 27 de maio de 2026, os organizadores abriram as inscrições para os mais de 8.000 voluntários que vão trabalhar nessas seis etapas históricas no Reino Unido.
O que torna 2027 diferente de todos os outros anos
O Grand Départ 2027 não é apenas uma mudança de cenário. É o reconhecimento de que o ciclismo cresceu além das fronteiras francesas — e que o público britânico, forjado por décadas de investimento olímpico e pela explosão popular do esporte, já é grande demais para ser tratado como coadjuvante.
A última vez que o Tour masculino começou no Reino Unido foi em 2014, com etapas em Yorkshire e em Londres. Na época, o evento atraiu mais de 3 milhões de espectadores ao longo das três etapas britânicas — o maior público de rua da história da corrida naquele momento. Treze anos depois, a aposta é ainda maior: pela primeira vez, as mulheres chegam junto.
O Tour de France Femmes avec Zwift existe, no formato atual, desde 2022. Em quatro anos, a corrida cresceu em audiência e prestígio num ritmo que surpreendeu até os organizadores. Trazer o Grand Départ feminino para o mesmo país e o mesmo ano que o masculino não é um gesto simbólico — é uma declaração de que o ciclismo feminino chegou ao mesmo patamar de evento, não de cortesia.
Seis etapas, dois tours — os percursos em detalhe
O Tour masculino abre em 2 de julho com a etapa 1: 184 km de Edimburgo a Carlisle, cruzando as planícies das Fronteiras Escocesas, passando por Galashiels e Hawick — cidades conhecidas dos fãs do Tour of Britain — antes de tocar em Hadrian’s Wall e descer para a Inglaterra. Terreno rápido, favorável a fugas ou sprints reduzidos.
A etapa 2, em 3 de julho, é outra história: Keswick a Liverpool, com 2.800 metros de subida acumulados em cinco cumes catalogados da Floresta de Bowland, em Lancashire. Quem chegar a Keswick pensando que é um dia de sprinter vai rever seus planos nas primeiras rampas. Apenas depois de ultrapassar Liverpool, com o traçado aplainando rumo ao litoral, os velocistas voltam ao jogo.
A etapa 3, em 4 de julho, fecha o bloco britânico no País de Gales: Welshpool a Cardiff. Depois disso, o pelotão embarca para a França — e o capítulo britânico de 2027 fica para a história.
O Tour de France Femmes começa um mês depois, em 30 de julho, com Leeds a Manchester, terminando na Deansgate, onde a primeira maillot jaune feminina de 2027 será disputada. A etapa 2, em 31 de julho, é Manchester a Sheffield: quase 3.000 metros de subida numa rota que os organizadores descrevem, sem eufemismos, como “provavelmente a etapa mais dura já disputada num Grand Départ”. A etapa 3 é inédita em toda a história do Tour Femmes: um contrarrelógio por equipes em torno do centro de Londres, terminando no Mall — o primeiro TTT na história da corrida feminina.
JOY Makers: as inscrições abriram hoje
O programa de voluntários se chama JOY Makers. O Tour de France é, entre todas as corridas de ciclismo do mundo, a que mais depende do público. Não há arquibancada no Alpe d’Huez. Não há ingresso no Col du Tourmalet. O espetáculo existe porque pessoas comuns sobem as montanhas antes do amanhecer, ficam horas na chuva e aplaudem corredores que passam em segundos.
Os JOY Makers são a estrutura que organiza e amplifica isso. Os 8.000 voluntários selecionados vão atuar em operações de rota, suporte a espectadores e engajamento comunitário ao longo das seis etapas britânicas. As inscrições ficam abertas de hoje, 27 de maio, até 1º de setembro de 2026 — 97 dias — no site letourgb.com/volunteer. Não é necessário ter experiência prévia em eventos esportivos; o programa aceita perfis variados, de todas as idades.
Por que um fã de ciclismo no Brasil deveria se importar com isso
O Tour de France é a corrida mais assistida pelo público brasileiro de ciclismo. Cada julho, as redes sociais do esporte no Brasil explodem com análises, apostas e debates — a cobertura completa do Tour de France 2026 que publicamos aqui é reflexo direto dessa mobilização. Mas assistir pelo celular às 5h da manhã e assistir ao vivo à beira da estrada são experiências que não se comparam.
Em 2027, a logística fala a favor de quem mora no Brasil. O Reino Unido tem mais voos diretos e com conexão a partir de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília do que qualquer outra região europeia que recebe etapas do Tour. A barreira do idioma é menor do que na França. E as três etapas masculinas britânicas acontecem num bloco compacto entre 2 e 4 de julho — possível de encaixar em uma viagem de 10 a 12 dias que, com planejamento, também inclui as etapas femininas no fim de julho.
Para quem acompanha o Tour há anos pela tela e nunca esteve lá, 2027 é o argumento que faltava.
O que fazer agora
Se a ideia de ser voluntário faz sentido, o prazo começa hoje: acesse letourgb.com/volunteer e registre seu interesse antes de 1º de setembro de 2026. É gratuito, não compromete com nada ainda, e garante que você está na fila quando as seleções começarem.
Se a ideia é assistir, os próximos meses são o momento ideal para mapear os percursos. A etapa 2 masculina pelos arredores de Lancashire e a etapa 2 feminina de Manchester a Sheffield têm os perfis de montanha mais intensos do bloco britânico — e as subidas mais fotogênicas. O TTT feminino em Londres, por sua vez, entrega espetáculo urbano com o Mall como pano de fundo e a energia de uma final de Grand Départ.
O Tour de France existe desde 1903. Em 124 anos, nunca aconteceu o que vai acontecer em julho de 2027. E as inscrições para estar lá — de alguma forma — abriram hoje.




