No domingo de outubro de 2021, Sonny Colbrelli cruzou a linha de chegada no velódromo de Roubaix coberto de lama — do capacete até o pedivela — depois de mais de seis horas de agonia sobre o pavé encharcado do norte da França. Três anos depois, Mathieu van der Poel percorreu essencialmente o mesmo traçado em 5h 25min 58s, a uma média de 47,85 km/h, com o asfalto branco de poeira seca. Mesmo percurso, condições radicalmente diferentes — e uma lacuna de ritmo que explica, melhor do que qualquer argumento, por que os maiores vencedores da Paris-Roubaix não são apenas campeões: são uma categoria à parte.
Desde 1896, quando o alemão Josef Fischer venceu a primeira edição chegando ao velódromo 15 minutos à frente do segundo colocado — em estradas que eram simplesmente como eram, paralelepípedos de terra e poeira — a corrida nunca foi gentil com ninguém. A guerra que logo transformaria aquelas estradas em crateras e lama fez surgir o apelido que dura até hoje: L’Enfer du Nord. O inferno do norte.
Ao longo de 125 edições, apenas dois homens venceram quatro vezes. Apenas três venceram três anos seguidos. E em 2026, um deles vai tentar algo que ninguém fez na história da Paris-Roubaix: quatro títulos consecutivos, quebrando o recorde absoluto e reescrevendo uma história já densa demais para caber em um artigo só. Impossível parar de ler antes de saber o final.
Os Donos do Pavê — O Clube das Quatro Vitórias
Quatro vitórias. Dois nomes. Em 125 edições.
Roger de Vlaeminck venceu em 1972, 1974, 1975 e 1977. Tom Boonen, em 2005, 2008, 2009 e 2012. O fato de que ninguém mais chegou a esse número em mais de um século de corrida já é o argumento mais sólido sobre a dificuldade da Paris-Roubaix — mais eloquente do que qualquer descrição do Carrefour de l’Arbre.

De Vlaeminck foi o ciclista mais completo de uma era feroz. Venceu todos os cinco Monumentos — incluindo três vezes a Milão-Sanremo e duas o Giro di Lombardia — e ainda disputou a Paris-Roubaix 14 vezes, vencendo quatro e terminando no pódio em dez. Uma frequência absurda numa corrida onde o acaso atropela o talento com regularidade. No pavé, ele não brigava com a bicicleta. Conversava.

Boonen chegou 30 anos depois com perfil diferente: potência de sprinter, presença física, domínio dos setores de paralelepípedo de forma igualmente devastadora. Em 2005 fez o doblete Flandres-Roubaix e ainda ganhou o Campeonato Mundial no mesmo ano — algo que nem Merckx conseguiu. As outras três vitórias vieram em intervalos irregulares, e é aí que a marca ganha peso real: não foi uma janela de forma perfeita, foi persistência numa corrida que testou Boonen com quedas, desclassificações e adversários cada vez mais perigosos.
Nenhum dos dois é acidente estatístico. São a prova de que dominar a Paris-Roubaix exige um conjunto de atributos tão específico que apenas dois ciclistas em 130 anos os reuniram no grau exato. Que nível é esse? O próximo bloco responde.
História em 3 Atos
Ato I — O começo do inferno (1896–anos 1970)
Josef Fischer pedala sozinho pelos campos do norte da França em abril de 1896 e chega a Roubaix 15 minutos antes de qualquer outro ser humano vivo. Ao redor, os espectadores não sabem bem o que acabaram de ver. Poucos anos depois, após a Primeira Guerra transformar aquelas mesmas estradas em crateras e trincheiras, os organizadores fizeram um reconhecimento de percurso e encontraram o cheiro de esgoto, gado podre e terra revolvida pela artilharia. Alguém escreveu nos jornais: “le vrai enfer du nord.” O nome nunca mais saiu.

Foto: Wikipédia
Octave Lapize correu naquele inferno antes que ele tivesse nome oficial. Venceu em 1909, 1910 e 1911 — três anos seguidos — e ainda conquistou o Tour de France em 1910. Em julho de 1917, um avião alemão o abateu durante a guerra. Tinha 29 anos. A Paris-Roubaix perdeu um de seus reis mais jovens antes que ele pudesse saber o quanto o tornou eterno. Esse é o detalhe que separa a leitura de um palmarès de entender o que a corrida carrega.
Ato II — A era dos especialistas belgas e italianos (anos 1978–2010)
Do drone imaginário sobre o Carrefour de l’Arbre nos anos 1970, zooma-se para os joelhos de Francesco Moser no velódromo de Roubaix — três vezes no mesmo velódromo, em três anos seguidos. 1978, 1979, 1980. O italiano elegante que ganhou o campeonato mundial em 1977 e o Giro d’Italia em 1984 encontrou no norte da França um domicílio improvável. Quase 70 anos sem que ninguém repetisse o hat-trick de Lapize — e Moser fez como se fosse simples.
Eddy Merckx também deixou marca irreversível: três vitórias e a maior margem de vitória no pós-guerra — 5 minutos e 21 segundos sobre o próprio De Vlaeminck em 1973. Um número que soa como erro de digitação. Johan Museeuw (1996, 2000, 2002) e Fabian Cancellara (2006, 2010, 2013) chegaram depois, cada um com três títulos, cada um com uma assinatura diferente sobre o pavé. Tom Boonen fechou seu quarto título em 2012 e o pelotão passou os anos seguintes aguardando o próximo rei.

Ato III — A nova gramática do pavé (2010–hoje)
Olha — Van der Poel não chegou ao reinado devagar. Em 2023 venceu pela primeira vez. Em 2024 correu a edição mais rápida de toda a história, a 47,85 km/h de média. Em 2025, atacou com mais de 60 km de antecedência, foi atingido por uma garrafa lançada por um espectador no rosto, furou com 20 km para o fim — e ainda assim chegou ao velódromo em solitário, enquanto Tadej Pogačar caía na curva dos 38 km. Três edições. As três mais rápidas de todos os tempos. Todas acima de 46 km/h. O Roubaix de Van der Poel é uma categoria à parte dentro de uma corrida que já é uma categoria à parte.
O Clube do Hat-Trick
Oito corredores venceram três vezes. Dos oito, apenas Lapize, Moser e Van der Poel fizeram os títulos em anos consecutivos. Por que a consistência em Roubaix é mais difícil do que em qualquer outro Monumento? Porque a corrida não é repetível: o clima muda, as pedras se movem, um pneu fura por uma razão impossível de prever. Um atleta pode chegar na melhor forma de sua vida e sair 20 minutos depois de uma queda no primeiro setor de cinco estrelas.
Rapaz, o que une um francês de 1910, um italiano de 1980 e um holandês de 2025? Potência, claro. Mas não é só isso — e esse “não é só isso” é onde a análise começa a ser interessante. Os três têm em comum a capacidade de ler o pavé enquanto estão sobre ele. Não apenas aguentar os paralelepípedos: encontrar a linha ideal a 47 km/h, o ângulo correto na curva, o ritmo exato antes de um setor de cinco estrelas. É a diferença entre sobreviver a Roubaix e dominá-la.
Vencer três vezes seguidas exige controle sobre o que é controlável — e capacidade de aceitar o resto como parte do jogo. Não é diferente do que os melhores jogadores de futebol fazem num Maracanã cheio: chegam preparados para o imprevisível, mas nunca tentam eliminar o imprevisível. Os que tentam não voltam para o pódio.
Os Modernos — Quem Domina Hoje
Mathieu van der Poel tem 29 anos, oito títulos mundiais de ciclocross e a Paris-Roubaix mais rápida da história no currículo. Em 2026, entra buscando algo que ninguém fez: quatro vitórias consecutivas, o que quebraria o recorde absoluto ao mesmo tempo em que igualaria De Vlaeminck e Boonen no número total. Favorito? A resposta mais honesta é sim — nenhum corredor da história moderna foi tão dominante nos setores de pavé, com adversários desse calibre, durante tantos anos seguidos.
Tadej Pogačar aprendeu a lição mais cara de 2025 da forma mais direta possível. Quando perguntado o que tirou daquela edição, respondeu com precisão de engenheiro: “Tem uma curva à direita aos 38 km.” Exatamente nessa curva ele caiu, perdeu Van der Poel e a corrida. Paris-Roubaix é o único dos cinco Monumentos que falta no seu currículo, e com Milão-Sanremo conquistada, ele chega em 2026 com motivação de legado. Um Pogačar que conhece a curva dos 38 km é o único adversário capaz de mudar a equação.
Mads Pedersen terminou em terceiro nas duas últimas edições. Furou em 2025 quando estava entre os mais fortes fora de Van der Poel — e, no ciclismo, não há nada mais cruel do que a pedra certa no momento errado. Sprinter de classe mundial com habilidade real nos setores de paralelepípedo: se chegar ao velódromo, é perigoso para qualquer um.
Wout van Aert é a incógnita. Múltiplo campeão mundial de ciclocross, maneja o pavé com naturalidade. Mas 2025 foi um ano abaixo do seu padrão histórico. A Paris-Roubaix não espera recuperações graduais — ela exige a versão máxima de cada atleta no único domingo em que isso importa.
No feminino, Pauline Ferrand-Prévot ganhou a edição de 2025 de forma solo, com 25 km de antecedência, doente e depois de uma queda. No mesmo ano, ganhou o Tour de France Femmes — tornando-se a primeira francesa a vencer o Tour desde Bernard Hinault em 1985. Seu currículo inclui títulos mundiais em mountain bike, gravel, ciclocross e estrada. Candidata a repetir em 2026, com a vantagem de conhecer o percurso e a desvantagem de chegar como a caçada.
E Lizzie Deignan merece um parágrafo mesmo sem correr em 2026. Em outubro de 2021, com lama até os cotovelos, atacou no primeiro setor de pavé da corrida — com 80 km ainda para percorrer — e chegou ao velódromo com mais de um minuto de vantagem sobre Marianne Vos. Considerada, por muitos analistas do ciclismo, uma das maiores exibições individuais da história da Paris-Roubaix — masculina ou feminina. Parâmetro de referência para tudo que vier depois.
Guia Brasileiro — Paris-Roubaix 2026
A corrida masculina e feminina acontecem no mesmo dia: domingo, 12 de abril de 2026. Largada em Compiègne, chegada no velódromo André-Petrieux, em Roubaix. Distância masculina: 258,3 km, com 30 setores de pavé. Distância feminina: 148,5 km.
Horários em Brasília (GMT-3): a transmissão começa entre 9h e 9h30. Chegada masculina prevista para 15h30–16h. A prova feminina deve terminar por volta de 13h20. Acerte o alarme — os setores decisivos começam na segunda hora de prova, e quem perde a entrada na Trouée d’Arenberg perde um dos momentos mais tensos do esporte.
Onde assistir: ESPN 3 e Disney+ são os canais históricos do ciclismo profissional no Brasil. O bloco Max/Eurosport tem cobertura confirmada para assinantes. O GCN+ é alternativa especializada, com comentários de ex-profissionais. Para um guia completo com todos os apps, opções de streaming e dicas práticas, confira o guia de onde assistir ao Paris-Roubaix 2026 no Brasil.
O Pavê Não Escolhe — Ele Revela
Nenhuma outra corrida do calendário exige tanto e explica tão pouco antes de começar. A Paris-Roubaix pode destruir o melhor ciclista do mundo numa pedra fora do lugar e elevar um desconhecido ao velódromo em glória. Isso que ela tem de diferente das outras: não é uma prova de velocidade pura nem de resistência pura. É uma prova de como um atleta se comporta quando o plano desaparece a 47 km/h sobre paralelepípedos centenários, e a única resposta possível é continuar pedalando.
Os maiores vencedores da Paris-Roubaix — De Vlaeminck, Boonen, Merckx, Lapize, Van der Poel — não chegaram ao palmarès porque evitaram o caos do pavé. Chegaram porque encontraram ordem dentro dele, vezes suficientes para que a história os reconhecesse. Quem escolhe correr Roubaix não escolhe uma corrida. Escolhe um teste de caráter com 258 quilômetros de extensão — e a glória de chegar ao velódromo com o peso de cada setor nos joelhos.
FAQ — Perguntas Frequentes sobre a Paris-Roubaix
Quem mais venceu a Paris-Roubaix na história?
Roger de Vlaeminck e Tom Boonen dividem o recorde com quatro vitórias cada. De Vlaeminck venceu em 1972, 1974, 1975 e 1977; Boonen em 2005, 2008, 2009 e 2012. Em 125 edições da corrida, ninguém mais chegou a esse número — o que torna a marca uma das mais difíceis de alcançar em qualquer esporte de resistência de alto nível. Mathieu van der Poel, com três títulos consecutivos, é o único nome que pode alcançá-los em 2026.
Por que a Paris-Roubaix é chamada de Rainha das Clássicas?
O título de Rainha das Clássicas reflete o prestígio acumulado em 125 edições e a dificuldade técnica única da prova. A história da Paris-Roubaix começa em 1896 e inclui mais de 50 km de setores de pavé histórico — paralelepípedos centenários classificados de 1 a 5 estrelas por dificuldade, muitos sem manutenção desde o século XIX. Para os especialistas, é o teste mais honesto do ciclismo: potência, habilidade técnica, resistência física e tolerância ao acaso, tudo ao mesmo tempo, numa única tarde de domingo de abril. Saiba mais sobre os outros Monumentos em nosso guia da Liège–Bastogne–Liège 2026.
Quando é a Paris-Roubaix 2026?
A Paris-Roubaix 2026 acontece no domingo, 12 de abril de 2026. A largada é em Compiègne e a chegada no velódromo André-Petrieux, em Roubaix. Corrida masculina e feminina no mesmo dia. A transmissão começa entre 9h e 9h30 no horário de Brasília, com a chegada masculina prevista para o início da tarde. Os dados históricos da corrida estão documentados pelo BikeRadar e pela cobertura do CyclingNews.
Onde assistir à Paris-Roubaix 2026 no Brasil?
As plataformas confirmadas para o Brasil são ESPN 3, Disney+ e Max (via bloco Eurosport). O GCN+ é a alternativa para quem prefere cobertura especializada em ciclismo. Não há transmissão gratuita direta em território brasileiro. Confira o guia completo de onde assistir ao Paris-Roubaix 2026 no Brasil — com horários exatos, todos os apps disponíveis e dicas para quem não tem TV a cabo.
Van der Poel pode bater o recorde de vitórias na Paris-Roubaix?
Com três títulos consecutivos — 2023, 2024 e 2025, as três edições mais rápidas da história da corrida, todas acima de 46 km/h — Van der Poel está a uma vitória do recorde absoluto. Uma quarta conquista em 2026 igualaria De Vlaeminck e Boonen no número total, com a diferença de que ele teria feito quatro em quatro anos seguidos. Os Paris-Roubaix 2026 favoritos colocam Van der Poel na frente, mas Pogačar — que disse em público que aprendeu a curva dos 38 km — é o único nome capaz de mudar esse cálculo. Roubaix, no entanto, raramente confirma favoritos com antecedência.





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