Imagine chegar 15 minutos atrasado pro trabalho quase todo dia. Não por causa de trânsito de carro — por causa de ciclistas. Pelotões enormes de turistas em bikes de carbono ocupando a estrada inteira, sem pressa nenhuma, curtindo a paisagem enquanto você tenta chegar a tempo no escritório.
Pra quem mora em Mallorca, essa é a realidade de março a outubro. E a paciência está acabando.
O paraíso do cicloturismo virou inferno pra quem mora lá
Mallorca é, disparado, o destino mais popular do mundo pra ciclismo de estrada. Clima perfeito, estradas bem pavimentadas, montanhas deslumbrantes — Serra de Tramuntana, alô — e uma infraestrutura hoteleira que há décadas se especializou em receber ciclistas. São 150 mil cicloturistas por ano desembarcando na ilha. Cento e cinquenta mil.
Mas quem mora lá conta uma história diferente. As estradas — projetadas pra uma população local relativamente pequena — não dão conta do volume. Moradores relatam congestionamentos diários em rotas populares, dificuldade pra ultrapassar grupos grandes e, talvez o mais irritante, lixo. Embalagens de gel energético, wrappers de barra de cereal, garrafas plásticas — jogadas na beira da estrada como se a ilha fosse uma zona de alimentação gigante.
Um morador resumiu: as estradas “não estão preparadas pra essa saturação”. E olha, difícil argumentar contra quando você vê as imagens.
O ciclista local que perdeu a paciência
Denis Fioranelli é ciclista. Mora em Mallorca. Pedala nas mesmas estradas que os turistas. E está furioso — não com o ciclismo, mas com o comportamento. “Vocês não têm vergonha de largar o próprio lixo na estrada?”, questionou publicamente, usando palavras um pouco mais fortes que essas.
O ponto de Fioranelli é certeiro: o problema não é o ciclismo. É o tipo de turista que trata o destino como descartável. Vem, pedala, fotografa, joga o gel no chão e vai embora. Os 110 clubes de ciclismo locais das Ilhas Baleares? Esses recolhem o próprio lixo. Conhecem as estradas. Respeitam os motoristas.
A bronca é com quem vem de fora e age como se as regras não existissem.
“Oportunidade, não problema” — a visão do governo
Jaume Bauzá, ministro do turismo das Ilhas Baleares, tem uma leitura diferente. Pra ele, o cicloturismo é “uma oportunidade” que beneficia vilas do interior que normalmente ficariam fora do circuito turístico. Hotéis em cidades pequenas lotam na temporada de ciclismo. Restaurantes faturam. Mecânicos de bike prosperam.
Bauzá foi mais direto: disse que quem reclama “tem um problema com turistas, não com ciclistas”. Bom, pode até ser. Mas quando o turista em questão está bloqueando a estrada e jogando plástico no chão, a distinção fica um pouco acadêmica, não?
A Mallorca 312 — granfondo que atrai milhares de ciclistas amadores todo ano — é o exemplo perfeito dessa tensão. Pro turismo, é um evento de prestígio internacional. Pros moradores, são dias inteiros de estradas fechadas e trânsito desviado. Mesma moeda, dois lados bem diferentes.
O que isso tem a ver com o ciclismo brasileiro
Bom, qualquer ciclista brasileiro que já planejou uma viagem de bike pro exterior sabe: Mallorca está no topo da lista. É quase um rito de passagem. A ilha aparece em todo vídeo do YouTube, todo post de Instagram, toda lista de “melhores destinos pra pedalar no mundo”.
A questão que fica é: até quando? Se Mallorca resolver regular o turismo de ciclismo — limitar grupos, exigir guias credenciados, multar quem joga lixo —, o destino muda. Não necessariamente pra pior, mas muda. E talvez force outros destinos (Girona, Tenerife, até o sul de Portugal) a absorver a demanda.
Pra quem pedala: levar o próprio lixo de volta não custa nada. Respeitar o trânsito local também não. Se quisermos que destinos como Mallorca continuem recebendo ciclistas de braços abertos, a responsa é nossa também.
FAQ — Ciclismo em Mallorca
Quantos cicloturistas Mallorca recebe por ano?
Mallorca recebe aproximadamente 150 mil cicloturistas por ano, com a temporada principal indo de março a outubro. A ilha tem 110 clubes de ciclismo locais ativos.
Por que moradores de Mallorca estão reclamando de ciclistas?
As reclamações incluem congestionamento nas estradas, atrasos no trânsito causados por grupos grandes, lixo descartado (embalagens de gel e barras energéticas) e fechamento de estradas durante eventos como a Mallorca 312.
Mallorca vai proibir ciclistas?
Não há planos de proibição. O ministro do turismo Jaume Bauzá defende o cicloturismo como “oportunidade”, mas a pressão dos moradores por regulação — limites de grupo, exigência de guias, multas por lixo — está aumentando.





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