Dezembro de 2024. Hombeek, vilarejo cravado entre Antuérpia e Bruxelas, numa manhã que começa seca e quebra em garoa meia hora depois. Um senhor de 79 anos sai para pedalar sozinho. Bike leve, estrada conhecida, o mesmo traçado que ele faz desde que largou o pelotão em 1978. Ele cruza uma passagem de nível — trilhos molhados, asfalto respondendo diferente — e a roda traseira escapa. O corpo cai em cima da coxa direita. Ele sabe antes de se levantar o que acabou de acontecer.
O nome do senhor era Eddy Merckx.
Dezesseis meses depois, nesta semana, Merckx foi operado pela sexta vez desde aquela manhã. Seis cirurgias em pouco mais de seis meses. Quatro próteses diferentes implantadas no mesmo quadril. Uma infecção bacteriana que os antibióticos iniciais não dão conta. E um dado que ninguém que cobriu a notícia ainda escreveu com todas as letras: o Canibal perdeu 1.283 corridas ao longo de 18 anos de carreira profissional. Nenhuma doeu como essa queda em Hombeek.
O que aconteceu no hospital em Antuérpia
A sexta operação aconteceu num hospital belga e, pela primeira vez em meses, a família tratou o episódio como quase otimista. Axel Merckx, filho do belga, ex-profissional da Motorola nos anos 1990 e hoje diretor de equipe, falou ao jornal Het Laatste Nieuws. A declaração foi comedida, quase cautelosa demais, com o peso de quem aprendeu a segurar a mão antes de comemorar.
“Everything went well. He’s out of intensive care and in a normal room, and bearing in mind the circumstances, all’s going well. Now we have to see if the treatment works fully. But whatever happens, it’ll take some time for him to recover.”
Axel Merckx ao Het Laatste Nieuws
O procedimento desta vez não foi troca de prótese. Foi uma lavagem cirúrgica — debridement, no jargão médico. Sob anestesia geral, o cirurgião abriu o quadril para remover pus e tecido infectado por uma bactéria que os antibióticos iniciais não conseguiram neutralizar. É o tipo de intervenção que em pacientes mais jovens resolve o quadro numa única tacada. Aos 80 anos, com quatro próteses implantadas nos últimos meses e nenhuma delas totalmente integrada ao osso, a conta é outra.
A cronologia é brutal quando alinhada em papel. Em dezembro de 2024, logo depois da queda, Merckx recebeu a primeira prótese, de titânio. Meses depois, ele descobriu o que o cirurgião temia — a peça não havia aderido ao osso. “Estava sempre me exercitando, mas nada melhorava”, ele contou em entrevista ao Het Nieuwsblad sobre aquele período. “O médico me disse que isso só acontece 4 vezes em 10 mil casos.” Segunda cirurgia. Dessa vez, prótese cimentada. “A operação durou quatro horas. No domingo já dava pra sentir diferença. Levantei e tudo já parecia outra coisa.” Foi a última vez que a palavra “melhora” apareceu no vocabulário dele por um tempo.
Entre a segunda e a sexta intervenção, o que veio foi uma rotina de reinfecções, antibióticos mais agressivos, complicações cirúrgicas em cadeia e mais duas próteses. No total, quatro implantes diferentes desde a queda original — um recorde pessoal que ninguém em Bruxelas quer comemorar. O Canibal, que nos 18 anos de carreira quebrou clavícula, costelas, desmaiou em subida pirenaica, levou moto na barriga no atentado de Blois em 1969, nunca passou por nada parecido. Fraturas antigas eram lineares: cai, engessa, volta. Essa é outra coisa.
A matemática cruel de um palmarés que encontrou um osso de 80 anos
Para entender por que a sexta cirurgia é o luto silencioso do ciclismo mundial de 2026, vale parar um minuto e encarar os números. Merckx correu 1.808 corridas profissionais ao longo de 18 anos. Venceu 525 delas. Dessas vitórias, 11 Grandes Voltas — cinco Tours de France (1969, 1970, 1971, 1972 e 1974), cinco Giros d’Italia (1968, 1970, 1972, 1973 e 1974) e uma Vuelta a España em 1973. Dezenove Monumentos. Três Campeonatos Mundiais. Recorde da hora em Cidade do México em 1972 — 49,431 km — que durou 12 anos até Francesco Moser quebrar. Taxa de vitória de 29% contra a elite do esporte. Pra comparar: Tadej Pogačar, a maior máquina ofensiva da era moderna, roda em torno de 23% no acumulado até 2026.
Desses 1.808 dias de corrida, portanto, Merckx perdeu 1.283. Caiu muitas vezes. O atentado de Blois em 1969 — um espectador no infield do velódromo, Merckx bate na fila seguinte, gregário morre, ele fica de luto e hospitalizado durante o Tour de l’Aude — é só o capítulo mais lembrado. Veio doping político em 1969 (absolvido depois), desmaio no Col du Galibier, brigas com a UCI, rivalidades com Ocaña que só não viraram tapa por protocolo. A carreira dele é um catálogo de durezas que nunca viraram manchete permanente, porque o ciclo vencia o ciclo. Na semana seguinte Merckx ganhava de novo. E assim por dezoito anos.
O contraste é o que dói. O corpo que absorveu tudo isso entre 1965 e 1978 está agora sendo castigado por uma combinação de bactéria hospitalar, implante defeituoso e idade — e é justamente a idade que retira de Merckx a margem que ele sempre teve em qualquer disputa. Aos 24 anos, o corpo perdoa queda em trilho molhado. Aos 80, a mesma queda abre uma porta que não fecha mais.
Existe uma estatística que o próprio Merckx relatou com incredulidade: a prótese de titânio que não adere ao osso falha em 4 casos a cada 10 mil — probabilidade abaixo de 0,05%. Uma das cirurgia de quadril que a medicina mundial considera rotineira virou, no caso dele, o inferno de seis meses. A literatura especializada em infecção periprotética estima taxa de mortalidade em um ano entre 8% e 25,9% para pacientes idosos com complicações dessa natureza. É uma janela estatística grande, e Merckx está dentro dela, com 80 anos e quatro próteses sobrepostas no mesmo quadril.
Por que o Canibal importa para o brasileiro que nunca pisou na Bélgica
Merckx nunca pedalou no Brasil. Nunca correu uma Volta do Rio Grande, nunca subiu a Serra das Araras, nunca foi fotografado comendo feijoada na Barra da Tijuca. E ainda assim é o nome que qualquer ciclista amador em Curitiba, Belo Horizonte ou Fortaleza já ouviu — e usa. Quando um colega dispara e crava vantagem numa saída de domingo, alguém na panelinha vai dizer “saiu uma merckxada”. Quando um juvenil vence três provas seguidas no Sulista, o técnico cochicha “é o próximo Canibal”. O apelido — dado pela filha de Christian Raymond, gregário francês que reclamou ao jantar em 1969 que Merckx “não deixava ninguém comer mais nada” — atravessou o Atlântico sem passaporte e sem tradução.
Para quem quer revisitar o ciclista e o homem, há duas entradas recentes fáceis. O documentário Merckx: El Caníbal del Ciclismo (Movistar Plus+, 2024), disponível em espanhol com legendas em algumas plataformas parceiras, e o acervo do ProCyclingStats que cataloga todas as 525 vitórias com tempo, distância e companheiros de fuga. Para ciclistas urbanos com veia de peregrino, Anderlecht (subúrbio de Bruxelas) abriga o Eddy Merckx Museum — bicicletas originais, camisas arco-íris dos Mundiais, fotos da infância em Meensel-Kiezegem, o troféu do Giro de 1968, primeiro da série.
O lado amargo para o público brasileiro é o atraso informacional. O acidente em Hombeek aconteceu em dezembro de 2024. A cobertura dos sites europeus foi imediata. Na imprensa esportiva daqui, o fato chegou quase um mês depois, traduzido, sem contexto médico, sem o detalhe da garoa no trilho molhado, sem o tom familiar das declarações ao Het Nieuwsblad. As cirurgias intermediárias escorreram quase mudas pela mídia nacional. É assim com notícia que exige rodapé histórico — se o leitor não sabe quem é Merckx, a sexta cirurgia vira uma nota de 200 palavras no final da página.
Vale então fixar o ponto para o ciclista brasileiro que ainda não conhece Merckx a fundo: se você leva a bike a sério, ele é a referência pela qual todos os outros nomes — Hinault, Armstrong, Indurain, Pogačar — são medidos. Lance Armstrong, em dezembro de 2025, declarou em podcast que Pogačar é o maior de todos os tempos. A frase pegou fogo no mundo do ciclismo porque, no fundo, significava uma coisa só: superou Merckx. Ninguém tira Merckx do topo da conversa sem declarar outro rei. É a baliza não escrita do esporte.
O lobo morre velho numa armadilha de gatinho
A parte cruel é a coreografia da ironia. Merckx passou 18 anos escapando de quedas coletivas, passando no pelotão estatístico onde dez caem e um sai ileso. Aprendeu a ler chuva, trilho de trem, óleo diesel e pavé como se fossem partituras. Em 1975, no Dauphiné, uma moto cortou a frente dele num descenso de Isère e Merckx salvou a bike com manobra de ciclista de pista. Em 1972, no Giro, caiu numa curva nas Dolomitas, levantou, cruzou a meta vencedor do dia. No pelotão ele foi o Canibal porque também foi um gato.
E aí você lê a declaração que a família deu em dezembro de 2024: “Foi um acidente estúpido. Não havia ninguém em volta. Eddy simplesmente deslizou.” Cinco décadas de astúcia no trânsito europeu, um milhão de curvas perigosas lidas no olho, centenas de quedas evitadas por reflexo — e um acidente banal, sozinho, numa saída de domingo perto de casa, abre o capítulo mais difícil da vida dele. Foi uma garoa. Foi uma passagem de nível que ele conhece desde menino. Foi uma derrapagem de quem chegou em Mechelen com a ilusão de que o corpo ainda obedece como em 1969.
Há um provérbio belga que diz, mais ou menos, que o lobo morre velho numa armadilha de gatinho. Não precisa ser belga para entender. Todo ciclista que já caiu por bobagem — gavião de asfalto molhado, pedal preso numa volta de fim de semana, cliper mal encaixado no semáforo — entende o que aconteceu com Merckx naquela manhã. Só que a conta, para ele, veio numa moeda que não existia no cálculo do Canibal profissional: corpo de 79 anos, imunidade velha, prótese cirúrgica implantada num osso que perdeu densidade.
A frase que resume é incômoda, mas precisa ser dita. Merckx escapou de tudo na carreira. Não escapou de uma garoa em Hombeek. Ele venceu rivais, doping político, lesão, rivalidades de equipe, o tempo competitivo, a chegada inevitável da geração seguinte. Agora está tentando vencer uma bactéria que provavelmente pegou carona num cateter hospitalar. O maior corredor da história contra um organismo invisível, dois micrômetros de tamanho. É tanta desproporção que o ciclismo profissional inteiro devia organizar um minuto de silêncio na largada de Liège–Bastogne–Liège, no próximo domingo. Não vai organizar. O calendário não pára por um hospital.
Há uma coisa, no entanto, a que vale a pena prestar atenção. A mídia especializada europeia tem coberto o caso com discrição — boletins curtos, atualizações factuais, ausência de dramatização. É a postura correta enquanto Merckx está vivo, lúcido, cercado de família e com prognóstico aberto. O que o ciclismo devia a ele e não está entregando é memória ativa. Reprises curadas de etapas nos canais de direito. Homenagens ao vivo em provas clássicas. Um segmento de cinco minutos no encerramento da transmissão da Flandres. Porque, quando o Canibal for — e vai ser, um dia, como todos nós — haverá choro no jornal e silêncio no resto do ano. Vale menos que a lembrança enquanto ele ainda está aqui.
O quarto comum em Antuérpia
A imagem que circulou ontem mostra um corredor velho num quarto de hospital belga, sem o capacete, sem a máquina, sem a numeração cosida no peito. É a foto mais distante possível de 1969, ano em que ele venceu Tour, Giro, Sanremo e Liège no mesmo calendário — a temporada mais monstruosa já registrada no esporte, uma lista que você pode cruzar nos perfis dos gigantes que mudaram o ciclismo. É também, estranhamente, a foto mais próxima do que qualquer ciclista amador eventualmente se torna. A bike, com sorte, dura trinta anos. O corpo, se der muita sorte, dura oitenta. Merckx chegou à margem dos dois, que é o lugar desconfortável onde ninguém quer pensar em domingo de pedal, mas aonde todo mundo chega.
Tomara que a bactéria desta vez perca. Tomara que a prótese agora integre ao osso. Tomara que Merckx saia do hospital antes do fim do mês, volte para Bruxelas e que em algum momento deste outono europeu ele consiga colocar os dois pés no chão, pegar uma bike leve e dar uma volta de dez minutos no jardim. Se der, a imagem vale por mil homenagens — a do cara que venceu 525 vezes respirando fundo na vitória silenciosa número 526. A hipótese oposta a literatura médica deixa no papel, e não cabe aqui antecipar.
Por enquanto, ele está num quarto comum num hospital de Antuérpia. Dizem que a comida está horrível. Que Axel passou a manhã ao lado dele. Que amanhã começa fisioterapia suave de novo. Pouca coisa. Tudo.
Perguntas rápidas sobre o quadro de Merckx
Quantas cirurgias de quadril Merckx fez desde a queda em Hombeek?
Seis cirurgias no total, com quatro próteses diferentes implantadas. A mais recente, nesta semana, foi uma lavagem cirúrgica (debridement) sob anestesia geral para remover tecido infectado por bactéria — não uma troca completa de prótese. Segundo Axel Merckx em entrevista ao Het Laatste Nieuws, o pai está fora da UTI, em quarto comum, com evolução “dentro das circunstâncias”.
Merckx corre risco de vida depois da sexta cirurgia?
Não há comunicado oficial falando em risco iminente. A literatura médica, porém, aponta taxa de mortalidade em um ano entre 8% e 25,9% para pacientes idosos com infecção periprotética de quadril — janela estatística à tempo dentro da qual Merckx, 80 anos, se encontra. O cenário é sério, mas administrável com tratamento agressivo de antibióticos e, se necessário, revisão cirúrgica adicional. O próximo marco é descobrir se a lavagem desta semana controlou a infecção.
Onde o ciclista brasileiro pode aprofundar a história de Merckx?
Três portas de entrada rápidas. O documentário Merckx: El Caníbal del Ciclismo (Movistar Plus+, 2024, em espanhol, legendas em algumas plataformas). O acervo completo no ProCyclingStats, com as 525 vitórias catalogadas. E a leitura cruzada dos vencedores do Giro d’Italia desde 1909 e dos maiores vencedores da Paris–Roubaix de todos os tempos — Merckx aparece em ambas as listas, sempre no topo ou perto dele. Em inglês, a biografia mais completa é “The Cannibal”, de William Fotheringham (2012).
Por que a queda de 2024 virou uma saga médica de seis cirurgias?
A primeira prótese de titânio, implantada logo após a fratura em Hombeek, não aderiu ao osso — complicação que, segundo o próprio Merckx, acontece em 4 casos a cada 10 mil. A segunda prótese, cimentada, aparentemente resolveu o problema mecânico. Mas infecções bacterianas apareceram nas semanas seguintes, forçando revisões sucessivas e a troca por mais duas próteses ao longo dos últimos meses. A sexta operação é a tentativa de controlar a infecção sem trocar a prótese atual — estratégia mais conservadora, recomendada quando o paciente já passou por múltiplas intervenções e o implante presente ainda tem condição de funcionar.
Merckx vai voltar a pedalar?
Não há prognóstico oficial. O cenário mais realista é de caminhada assistida após semanas de fisioterapia, com possibilidade de pedalar em rolo ou em bike leve em terreno plano se a recuperação cooperar e a infecção for debelada. Voltar à estrada é a meta simbólica que a família até hoje não descartou publicamente — e que o Canibal, pelo histórico, provavelmente já tem marcada na cabeça como prazo, não como sonho. Pedalar dez minutos no jardim de casa vale, na semana em que a sexta cirurgia de quadril encerra o ciclo mais duro dessa saga, tanto quanto um Monumento na agenda de Pogačar.




