Na tarde de sábado, Tom Pidcock perdeu por um segundo.
Mathis Azzaro, 22 anos, nascido em Grenoble, não deu ao britânico espaço nem para o gesto de vitória — cruzou a linha do XCC de Nové Město 0,58 segundos à frente e manteve o único registro negativo de Pidcock neste circuito vivo por mais 24 horas. A perda foi limpa: Pidcock atacou na última subida, Azzaro segurou a roda e ganhou o sprint. Sem drama, sem desculpa.
No domingo, Pidcock correu o XCO. No segundo giro, atacou. E não parou mais.
Cinco starts. Cinco vitórias. A 5ª vitória de Tom Pidcock em Nové Město iguala o recorde histórico de Nino Schurter — e o faz com uma eficiência que o suíço precisou de sete anos para construir.
Em resumo
• XCO de Nové Město (República Tcheca, 24/05/2026): Pidcock vence em 1:18:52
• 2º: Luca Martin (França), +18 segundos | 3º: Filippo Colombo (Suíça)
• Pidcock ataca a partir do 2º giro; no 6º, quebra a resistência de Martin definitivamente
• É a 5ª vitória consecutiva de Pidcock em Nové Město — em 5 starts, sem uma única derrota
• Iguala o recorde histórico de Nino Schurter (5 vitórias: 2012, 2013, 2014, 2017, 2018)
• No dia anterior (XCC), perdeu por 1 segundo para Mathis Azzaro
• Duplo campeão olímpico (Tóquio 2020 + Paris 2024), agora no Q36.5 Pro Cycling; mira o Tour de France 2026
O recorde que o número não explica sozinho
Nino Schurter venceu em Nové Město em 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018 — cinco vitórias distribuídas ao longo de sete temporadas, com derrotas intercaladas e um intervalo de três anos entre a terceira e a quarta. O suíço construiu o recorde como quem ergue uma parede: tijolo a tijolo, com trincas.
Tom Pidcock foi a Nové Město em 2021, 2022, 2023, 2024 e 2026. Venceu todas. Saltou a edição de 2025 — e voltou para vencer de novo.
O dado que separa os dois: Schurter precisou de 8 participações para atingir 5 vitórias. Pidcock atingiu o mesmo número em 5 participações. Aproveitamento de 100%, sem derrota no percurso, sem segunda chance desperdiçada. A pergunta que o recorde compartilhado não responde é a mais reveladora: para Pidcock, Nové Město nunca foi um palco de domínio parcial. Foi, desde a primeira vez, um território sem margem para o adversário.
Como a corrida foi decidida — e o que ela revelou
O XCO de Nové Město tem uma característica que pune os corredores conservadores: a subida central do circuito expõe quem está a mais e quem está no limite. Pidcock conhece esse percurso como poucos.
No segundo giro, ele abriu. Não foi um ataque calculado para o ponto de maior dificuldade — foi uma aceleração que colocou imediatamente distância entre ele e o campo. Luca Martin, o francês de 24 anos que terminou em segundo, tentou segurar o ritmo. Conseguiu por quatro giros.
No sexto giro, Pidcock voltou a apertar. Martin não tinha como responder. A chegada contou a história com precisão: 18 segundos de vantagem sobre o francês, 1:04 sobre o suíço Filippo Colombo em terceiro. Quando a vantagem sobre o segundo colocado é de 18 segundos numa corrida de XCO de alta intensidade, o vencedor não apenas foi mais rápido — foi de outra categoria naquele dia.
O detalhe técnico que separa esta vitória das anteriores: Pidcock veio de um sábado em que perdeu a corrida de curta duração (XCC) para Azzaro por um segundo. Um corredor que usa a derrota de sábado para regular o esforço de domingo — e ainda assim vence com 18 segundos de margem — está controlando a forma, não correndo no limite dela.
A derrota de sábado que faz a vitória de domingo maior
Mathis Azzaro tem 22 anos e um histórico incomum: nunca perdeu um XCC (short track) de Copa do Mundo. No sábado de Nové Město, manteve o registro intacto às custas de Tom Pidcock.
A corrida foi decidida na última reta. Pidcock havia subido da última posição — escolha deliberada, para evitar quedas em grupo — até a liderança nas últimas voltas. Na subida final, atacou. Azzaro segurou. No sprint de chegada, Azzaro chegou 0,58 segundos à frente.
Isso importa não pelo resultado — Azzaro é genuinamente o melhor do mundo no formato curto — mas pelo que diz sobre Pidcock. O britânico perdeu por margem de linha chegada, não por fadiga ou falta de força. E 24 horas depois, venceu o XCO com sobra. O sábado foi um teste de intensidade; o domingo foi a demonstração de que passou.
Quem é Tom Pidcock agora — e por que 2026 é diferente
A trajetória de Pidcock nos últimos 18 meses é mais complicada do que o número de vitórias sugere.
Depois do ouro olímpico de Paris 2024 — seu segundo título olímpico consecutivo no XCO —, Pidcock deixou a Ineos Grenadiers e assinou com o Q36.5 Pro Cycling Team, uma equipa de segundo escalão que não recebeu convite para o Tour de France 2025. O britânico optou por assumir o risco: sem a infraestrutura de uma WorldTour, em troca de autonomia de programa.
Em 2025, construiu silenciosamente uma das melhores temporadas de sua carreira no asfalto: terminou 3º na Vuelta a España, uma das maiores Grandes Voltas do calendário, com uma equipa sem os recursos das grandes organizações do pelotão. Saltou Nové Město por opção de calendário.
Em 2026, a prioridade é o Tour de France. O Q36.5 tem wildcards como possibilidade — e Pidcock está construindo a forma para aproveitar essa janela. Nové Město foi a primeira corrida de MTB do ano, usada como preparação de intensidade, não como fim em si.
O dado que contextualiza a escolha: corridas de XCO de Copa do Mundo exigem o mesmo tipo de esforço anaeróbico máximo que determina diferenças nas escaladas de montanha no Tour. Pidcock não está usando o MTB como hobby de entressafra — está usando Nové Město como simulador das últimas 3 km de um col alpino. A 5ª vitória é resultado e ferramenta ao mesmo tempo.
Luca Martin: o ciclista que ficou mais perto
Na sombra da marca histórica, Luca Martin fez a melhor corrida de XCO de sua carreira. O francês de 24 anos é um nome que o público de mountain bike europeu já conhece, mas que ainda busca o resultado que vai colocá-lo no mapa global.
Em Nové Město, Martin sobreviveu ao ataque de Pidcock no 2º giro e manteu distância administrável por quatro voltas — antes de ser descartado no 6º, quando o britânico aumentou o ritmo pela segunda vez. Terminar a 18 segundos de Pidcock numa corrida em que o campo foi despachado com 1:04 ou mais é uma performance que deve aparecer na análise de temporada do francês.
Filippo Colombo, o suíço de terceiro, completou um pódio sem nomes do circuito americano ou colombiano — sinal de que a nova geração europeia do XCO está ganhando densidade.
O que vem a seguir
Nové Město foi a segunda etapa do UCI MTB World Series 2026. Pidcock tem pelo menos mais dois XCOs programados antes do verão europeu — mas o horizonte real é o Tour de France.
Se o Q36.5 receber o wildcard para a Grande Boucle, Pidcock vai à prova como um dos nomes mais difíceis de enquadrar taticamente do pelotão: forte no contrarrelógio, devastador nas chegadas em altitude, com experiência de Grandes Voltas e sem as obrigações de uma equipa de trade. Para os favoritos ao Tour, um Pidcock sem hierarquia interna a cumprir é uma variável que não tem rota definida.
A 5ª vitória em Nové Město não é a preparação para o Tour. É o aviso de que a preparação está correndo bem.
| Posição | Ciclista | Equipa | Tempo |
|---|---|---|---|
| 1º | Tom Pidcock | Q36.5 Pro Cycling | 1:18:52 |
| 2º | Luca Martin | França | +0:18 |
| 3º | Filippo Colombo | Suíça | +1:04 |
Perguntas Frequentes sobre Pidcock e o XCO de Nové Město 2026
Quantas vezes Tom Pidcock venceu em Nové Město?
Tom Pidcock venceu o XCO de Nové Město em 2021, 2022, 2023, 2024 e 2026 — cinco vitórias em cinco participações, sem uma única derrota no circuito. A edição de 2025 foi saltada por opção de calendário.
Quem detinha o recorde de vitórias em Nové Město antes de Pidcock?
Nino Schurter (Suíça) detinha o recorde com 5 vitórias: 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018, distribuídas ao longo de sete temporadas. Pidcock igualou o número em 2026 com aproveitamento de 100% em suas participações.
Por que Pidcock compete pelo Q36.5 e não por uma equipa WorldTour?
Após o ouro olímpico em Paris 2024, Pidcock deixou a Ineos Grenadiers e assinou com o Q36.5 Pro Cycling Team, uma equipa de segundo nível que lhe ofereceu maior liberdade de calendário. Em 2025, terminou 3º na Vuelta a España com a nova equipa. Em 2026, o objetivo principal é o Tour de France.
Pidcock vai correr o Tour de France 2026?
É o objetivo declarado do britânico para a temporada. O Q36.5 precisa de wildcard para disputar a Grande Boucle — convite que não recebeu em 2025. Pidcock usa o MTB como preparação de intensidade e aguarda a confirmação do convite para o Tour de France 2026.
Quem é Mathis Azzaro, que derrotou Pidcock no XCC de Nové Město?
Mathis Azzaro é um francês de 22 anos especialista no formato short track (XCC) — e permanece invicto nessa modalidade no circuito da Copa do Mundo. Em Nové Město, derrotou Pidcock por 0,58 segundos no sprint. No dia seguinte, Pidcock venceu o XCO com 18 segundos de vantagem.




