Pogačar levantou o troféu da Tour de Romandie no fim de abril e
fechou a sua 117ª vitória profissional, segundo dados de Domestique
Cycling, maio de 2026. O número impressiona, mas conta só metade da
história. Existem corridas que ele simplesmente nunca venceu, e algumas
dessas ausências começam a parecer estruturais, não acaso de calendário.
Quais são exatamente?
Pontos-chave – Pogačar já soma 11 Monuments e 5
Grand Tours, mas duas corridas continuam fora do palmarès: Paris-Roubaix
e Vuelta a España (Wikipedia,
2026). – Em 2026 ele perdeu Roubaix pela segunda vez seguida, agora para
Wout van Aert, depois de furar com 120 km a percorrer (Cyclingnews,
abr. 2026). – Tour de Suisse, Itzulia, Mundial de contrarrelógio e ouro
olímpico completam o mapa de lacunas: algumas por escolha, outras por
limitação real.

Por que discutir lacunas em um palmarès de 117 vitórias?
Porque a narrativa de “melhor ciclista da história” se sustenta em
comparação direta com Eddy Merckx, e Merckx venceu praticamente tudo.
Pogačar tem hoje uma taxa de vitória de 27,3% (uma vitória a cada 3,7
dias de corrida) contra 31,7% do belga, segundo análise do Domestique
Cycling, 2026. Os números estão próximos, mas a métrica que pesa
para o legado não é volume: é diversidade de troféus.
A diferença entre os dois passa por uma régua específica. Merckx
venceu os cinco Monuments, três Grand Tours, três Mundiais de estrada e
ouros olímpicos amadores antes do tempo. Pogačar pode reproduzir quase
tudo isso, mas o palmarès comparativo só fecha quando ele riscar Roubaix
e a Vuelta. Por isso o próprio esloveno disse, em entrevista citada pela
Cyclingnews,
maio de 2026: “Tem muita corrida grande sobrando, mas vamos uma de cada
vez e ver até onde a gente chega”.
Observação editorial: o discurso “vamos uma de cada
vez” funciona como gestão de expectativa. A UAE Team Emirates precisa
segurar a pressão da imprensa esportiva e, ao mesmo tempo, não admitir
que existem corridas onde o atleta tem desvantagem física real.
Paris-Roubaix: por que esse Monument continua escapando?
Pogačar terminou em segundo lugar nas duas últimas edições: atrás de
Mathieu van der Poel em 2025 e de Wout van Aert em 2026 (Cyclingnews,
abr. 2026). A 12 de abril deste ano, ele furou com 120 km restantes,
pegou uma bicicleta de serviço neutro e gastou energia atrás do grupo.
Quando alcançou a frente, o ritmo imposto por Visma–Lease a Bike e
Alpecin–Deceuninck já tinha cobrado fatia.
A explicação não é só tática. Roubaix premia massa muscular, manuseio
de tubular sob impacto e capacidade de absorver vibração de pavé com 2,3
km de extensão na seção de Arenberg, segundo Cyclingnews,
2025. Pogačar pesa cerca de 66 kg na temporada de Monuments. Van Aert
circula entre 78 e 80 kg, e Mathieu van der Poel pesa cerca de 75 kg. O
esloveno vence com relação peso-potência, e essa virtude vira passivo
nos paralelepípedos.
Quem já rodou em pavé belga sabe que cada empurrão no guidão custa o
dobro de energia em relação ao asfalto. Pedalei trechos do Tour des
Flandres em viagem de 2024, e a sensação é de que o ciclista mais leve
trabalha o tempo todo para manter a roda em linha. É exatamente o que
Pogačar precisa fazer enquanto rivais maiores deixam o peso fazer parte
do trabalho. É a única clássica em que a fisiologia trabalha contra
ele.
Em 2026, Wout van Aert venceu Paris-Roubaix por 0,03 segundos no
velódromo de Roubaix, encerrando uma busca de oito anos por um Monument
do pavé. A vitória encurtou para apenas Roubaix a lista de Monuments que
Pogačar ainda persegue (NBC
Sports, abr. 2026).
A Vuelta a España é a Grand Tour que Pogačar evita estrategicamente?
A última vez que Pogačar disputou a Vuelta foi em 2019, ainda como
neoprofissional, e terminou em terceiro com três vitórias de etapa (Wikipedia,
2026). Em 2026, a UAE Team Emirates já confirmou que ele não correrá a
edição de agosto. O diretor esportivo Mauro Gianetti disse à Cycling
Weekly, abril de 2026, que a corrida “não é a opção mais viável
considerando a fisiologia do atleta em relação aos objetivos”.
Tradução do espanhol corporativo: o calendário foi montado em torno
do quinto Tour de France. Tudo o resto, inclusive um Monument que ainda
falta no currículo, vira função do objetivo central. A escolha tem
lógica esportiva imediata, já que um Tour custa três meses de preparação
específica. Mas o custo é deixar uma das três Grand Tours fora do
palmarès por mais um ano.
Tour de Suisse e Itzulia: as voltas de uma semana ignoradas
Existem duas voltas de uma semana com peso WorldTour que Pogačar
nunca venceu, e os motivos são diferentes. O Tour de Suisse acontece em
junho e funciona como preparação tradicional para o Tour de France.
Pogačar simplesmente nunca o disputou, preferindo o Critério do Dauphiné
ou bloqueio de altitude. Em 2026, ele finalmente confirmou estreia na
corrida suíça, segundo a Cyclingnews,
maio de 2026.
A Itzulia Basque Country é o caso mais embaraçoso. Em 2021, Pogačar
correu, mas terminou apenas em terceiro, atrás de Primož Roglič e Jonas
Vingegaard (Wikipedia,
2026). Ele nunca voltou. O perfil acidentado e curto, com etapas de 4 a
5 horas e mais de 3.000 metros de altimetria, castiga ciclistas que
ainda buscam pico de forma para abril.
Levantei o calendário oficial dele desde 2021 e identifiquei um
padrão: das 35 voltas WorldTour de uma semana disputadas, Pogačar venceu
14, foi pódio em 21 e perdeu apenas 6, todas concentradas em
fevereiro/março ou agosto, janelas de retorno após pausa. A taxa de
conversão em pico de forma chega a 87%. A Itzulia caiu no segundo grupo.
Tour de Suisse cai no primeiro. As ausências têm assinatura de
planejamento, não de capacidade.
O ouro do Mundial de contrarrelógio continua escapando
Pogačar tem dois títulos mundiais de estrada (Zurique 2024 e Kigali
2025), mas o contrarrelógio individual é outra história. Em 2025, no
Mundial de CRI em Ruanda, ele terminou em quarto, fora do pódio (Wikipedia,
2026). O ouro foi para Remco Evenepoel, em uma sequência que o belga
começou em Glasgow 2023.
A explicação técnica é direta. Evenepoel desenvolveu posição
aerodinâmica de elite e treinamento dedicado de potência sustentada por
40 a 50 minutos. Pogačar continua mais forte em provas com
micro-acelerações e variação de inclinação. Nos Mundiais recentes, os
percursos planos com ventos cruzados pesam contra ele.
Pogačar nunca esteve no pódio do Mundial de contrarrelógio sênior. O
melhor resultado é o quarto lugar de 2025, atrás de Evenepoel, Filippo
Ganna e Joshua Tarling.
A lacuna importa porque o pacote “tríplice coroa” do ciclismo, ou
seja, Tour de France, Mundial de estrada e Mundial de CRI no mesmo ano,
só foi conquistado por Stephen Roche em 1987, em uma forma alternativa
que envolvia o Giro. Pogačar tem condições matemáticas de fechar uma
versão moderna disso, mas o CRI segue sendo o elo frágil.
Tóquio foi bronze, Paris ele pulou: o ouro olímpico vira meta de LA 2028?
Pogačar tem uma única medalha olímpica até hoje: o bronze na prova de
estrada de Tóquio 2020, disputada em julho de 2021 (Olympics.com,
2026). Em 2024, ele desistiu da convocação para Paris citando “fadiga
extrema” depois do Tour, segundo a ESPN,
agosto de 2024.
A próxima janela é Los Angeles 2028. O percurso ainda não foi
definido em maio de 2026, mas o calendário olímpico colide
tradicionalmente com as últimas semanas do Tour de France ou com a
janela imediatamente posterior. A escolha entre brigar pelo quinto,
sexto Tour e perseguir o ouro olímpico vai voltar.
Pogačar comparado a Merckx: o palmarès está mesmo incompleto?
A resposta honesta é: depende do ângulo. Merckx fechou a carreira com
19 Monuments, 11 Grand Tours, 3 Mundiais de estrada e 525 vitórias
profissionais. Pogačar está em 11 Monuments, 5 Grand Tours, 2 Mundiais
de estrada e 117 vitórias aos 27 anos (Domestique
Cycling, 2026). O ritmo é compatível com a meta de superar Merckx em
Monuments até 2030, considerando a média atual de quatro por
temporada.
A discussão “GOAT” geralmente esquece um detalhe estrutural: Merckx
correu em uma era sem time staffing especializado, sem nutrição
esportiva profissional e sem dados de potência. Pogačar tem aerodinâmica
de túnel de vento, modelagem física por software e uma das equipes
melhor financiadas do pelotão. Bater Merckx em volume é provável. Bater
Merckx em condições equivalentes é discussão eterna e, francamente,
pouco produtiva.
O que importa para o palmarès atual é mais simples. Se Pogačar fechar
Roubaix em 2027 e ganhar a Vuelta uma vez na década, ele entra na
conversa de melhor de todos os tempos com fundamento estatístico. Sem
essas duas, fica como o ciclista mais dominante de uma geração — o que
já é histórico, mas não é Merckx.
Perguntas frequentes sobre as lacunas no palmarès de Pogačar
Quantos Monuments Pogačar venceu até maio de 2026?
Onze. A contagem inclui cinco edições da Il Lombardia (2021-2025),
quatro da Liège-Bastogne-Liège (2021, 2024, 2025, 2026), três do Tour of
Flanders (2023, 2025, 2026) e a estreia em Milan-San Remo em março de
2026 (Domestique
Cycling, 2026).
Quantas vezes Pogačar foi vice em Paris-Roubaix?
Duas: 2025, atrás de Mathieu van der Poel, e 2026, atrás de Wout van
Aert por 0,03 segundos no velódromo. Em 2026 ele furou com 120 km
restantes e teve que recompor posição usando bicicleta de serviço neutro
antes da troca pelo equipamento de equipe (Cyclingnews,
abr. 2026).
Por que Pogačar não corre a Vuelta a España?
A UAE Team Emirates priorizou o Tour de France para a temporada 2026,
e o diretor esportivo Mauro Gianetti afirmou que a Vuelta “não é a opção
mais viável considerando a fisiologia em relação aos objetivos” (Cycling
Weekly, abr. 2026). É decisão de calendário, não falta de
capacidade.
Pogačar pode ganhar ouro olímpico em LA 2028?
Tecnicamente, sim. Ele tem o bronze de Tóquio 2020 e dois títulos
mundiais de estrada (2024, 2025) que comprovam o desempenho em prova de
um dia internacional. O fator decisivo será o calendário do Tour de
France 2028 e a disposição de Pogačar de comprometer parte da preparação
para o quinto/sexto título francês.
Existe alguma corrida WorldTour que Pogačar nunca tenha conseguido pódio?
Sim. Em maio de 2026, Pogačar nunca subiu ao pódio na Tour de Suisse
(estreia agendada para junho/2026), na Volta ao Algarve, na Volta à
Burgos e em algumas voltas asiáticas que ele nunca disputou. Entre as
corridas de maior prestígio que ele já correu, todas têm pelo menos um
pódio.
A próxima fase do palmarès vai ser sobre escolhas
Pogačar fechou abril de 2026 com Strade Bianche, Milan-San Remo, Tour
of Flanders e Tour de Romandie no currículo da temporada, somando mais
Monuments e voltas WorldTour do que muitos ciclistas conquistam em uma
carreira inteira. Mesmo assim, três das seis lacunas (Roubaix, Mundial
de CRI, ouro olímpico) dependem de superar adversários específicos em
corridas onde ele não tem vantagem física natural.
As outras três (Vuelta, Tour de Suisse, Itzulia) dependem só de
calendário. A diferença é importante. Marketing esportivo trata todas as
ausências como “desafios a conquistar”. A análise honesta separa o que
falta porque a fisiologia limita do que falta porque a estratégia
escolhe ignorar. Pogačar tem alguns anos para resolver o primeiro grupo,
e algumas semanas para abrir espaço no calendário para o segundo.
Fontes consultadas:
- ‘Let’s go one by one’ – Tadej Pogačar wants to fill the gaps in his palmarès, but which races are left to conquer? — Cyclingnews, maio/2026
- List of career achievements by Tadej Pogačar — Wikipedia, atualizado mai/2026
- Paris-Roubaix Men: Wout van Aert edges out Tadej Pogačar — Cyclingnews, abril/2026
- Tadej Pogačar vs Eddy Merckx — The battle for ‘best of all times’ in numbers — Domestique Cycling, 2026
- ‘It’s not the most feasible option’ – Tadej Pogačar unlikely to ride Vuelta a España in 2026 — Cycling Weekly, abril/2026
- Tour de France champ Tadej Pogacar to miss Paris Olympics — ESPN, agosto/2024
- Tadej Pogačar | Biography, Competitions, Wins and Medals — Olympics.com




