Quem imaginava que Paris-Nice, Jonas Vingegaard e uma tarde de chuva e vento na Borgonha francesa dariam ingredientes para tanto drama, estava certo desde o amanhecer desta quarta-feira, 11 de março de 2026. A quarta etapa da Paris-Nice 2026, com partida em Bourges e chegada no alto de Uchon, depois de 195 quilômetros, entregou tudo que um fã de ciclismo pode querer: vento cortante, quedas, abandonos e um dinamarquês gelado como as terras de onde vem.
No final, foi Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) quem chegou sozinho no topo, com 42 segundos de vantagem sobre Dani Martínez (Red Bull-Bora-hansgrohe) e o maillot amarelo nos ombros. Uma vitória que parecia inevitável assim que ele decidiu apertar o botão a um quilômetro da chegada.
Uma etapa que começou a se quebrar desde os primeiros quilômetros
O percurso desta 4ª etapa da Paris-Nice misturava 120 quilômetros praticamente planos com uma sequência de três subidas categorizadas nos 75 finais: a Côte de la Croix des Cerisiers (6,2 km a 4,3%), a Côte de la Croix de la Liberation (4,7 km a 5,3%) e a subida final ao Signal d’Uchon (8 km a 4,5% de média, com os últimos 1,8 km a assustadores 10%). No papel, a etapa parecia relativamente controlada até os últimos quilômetros. Na prática, a corrida explodiu muito antes.
Já nas primeiras dezenas de quilômetros em saída de Bourges, o vento lateral fez o seu trabalho sujo. O pelotão se despedaçou rapidamente em grupos distintos, e nomes importantes ficaram para trás. Kevin Vauquelin, Luke Lamperti — vencedor da etapa inaugural — e Lenny Martínez, entre outros, perderam contato com os favoritos e tiveram que tentar recuperar terreno ao longo de toda a jornada. A chuva, que apareceu logo depois, apenas piorou o quadro.
À frente, Jonas Vingegaard se mantinha em posição privilegiada, escoltado pelo tcheco Mathias Vacek (Lidl-Trek) e pela numerosa delegação da Red Bull-Bora-hansgrohe, que colocou nada menos que cinco homens no grupo de ponta — os irmãos Tim e Mick van Dijke, Callum Thornley, Nico Denz e o colombiano Daniel Felipe Martínez. Uma força de trabalho raramente vista assim concentrada numa só equipe numa mesma fuga.
A queda que mudou tudo: Ayuso fora da corrida
Faltavam 47 quilômetros para a chegada quando tudo desandou de vez. Uma queda envolvendo cinco corredores sacudiu o grupo da cabeça, e entre os que foram ao chão estava Juan Ayuso (Lidl-Trek), o líder da Paris-Nice até aquele momento. O espanhol de 23 anos, que havia chegado à corrida com moral nas alturas depois de vencer a Volta ao Algarve no início da temporada, não conseguiu continuar e foi obrigado a abandonar.
Além de Ayuso, Brandon McNulty e Nils Politt (UAE Team Emirates), Iván Romeo e Raúl García Pierna (Movistar Team) também foram ao asfalto molhado. Mais abandonos foram confirmados depois: Pablo Castrillo, Davide Piganzoli e outros ficaram pelo caminho nesta tarde caótica. O grupo da frente, que antes tinha sete homens, ficou em seis: Vingegaard, os quatro da Red Bull e Vacek — que também cederia mais adiante.
Para Jonas Vingegaard e a Visma-Lease a Bike, a notícia da saída de Ayuso era boa e ruim ao mesmo tempo. Boa porque eliminava o principal rival direto pela liderança da Paris-Nice. Ruim porque Vingegaard ficou praticamente sozinho numa equipe rival com quatro gregários dispostos a trabalhar para Martínez. A desvantagem numérica era evidente, mas o dinamarquês, como sempre, não demonstrou qualquer sinal de nervosismo.
Vingegaard esperou, escolheu a hora certa e foi embora
Na passagem por Autun, antes da subida final, Jonas Vingegaard ainda aproveitou para cravar os seis segundos do sprint intermediário — um detalhe que pode parecer pequeno, mas que qualquer ciclista experiente sabe que faz diferença numa classificação geral que vai se definir por margens mínimas. A Paris-Nice raramente se decide por minutos, e o dinamarquês sabe disso de cor.
Na base do Signal d’Uchon, a situação era de quatro homens: Vingegaard, Daniel Felipe Martínez e os irmãos Van Dijke. Callum Thornley e Nico Denz já tinham sido descartados pelo próprio ritmo imposto pela equipe alemã. Tim van Dijke puxava forte na frente para desgastar o rival dinamarquês, enquanto Dani Martínez aguardava na roda. Jonas Vingegaard rodava na quarta roda, sem mostrar uma gota de sofrimento no rosto.
O ataque veio exatamente onde se esperava: a um quilômetro da linha de chegada, quando a rampa do Signal d’Uchon chegava aos gradientes mais severos. Vingegaard acelerou, e a resposta de Martínez foi nenhuma. Zero. O colombiano ficou parado no lugar enquanto o dinamarquês abria espaço com a naturalidade de quem está pedalando numa tarde tranquila. Jonas Vingegaard cruzou a linha com 42 segundos de margem sobre Martínez, que foi segundo. Tim van Dijke completou o pódio, e seu irmão Mick chegou em quarto — três corredores da Red Bull-Bora-hansgrohe nos quatro primeiros, o que por si só diz muito sobre o dia da equipe alemã.
Um retorno marcado a ferro e fogo
Há um contexto que deixa esta vitória ainda mais saborosa para Jonas Vingegaard e seus fãs. O dinamarquês chegou à Paris-Nice 2026 com uma missão clara: exorcizar os fantasmas do ano passado. Em 2025, ele foi o mais forte até cair e machucar o pulso numa etapa para La Côte-Saint-André, tendo de abandonar enquanto ainda brigava pela vitória geral. Uma cena que ficou na memória de qualquer um que acompanhou a corrida.
Antes disso, em 2023, Vingegaard havia terminado a Paris-Nice em terceiro lugar. A corrida francesa se tornara, de certa forma, a grande lacuna no currículo de um ciclista que ganhou dois Tours de France consecutivos. Chegar agora com a liderança na mão, após uma vitória de etapa impecável, manda um recado claro para o restante do pelotão.
Vale lembrar que a temporada de Vingegaard começou um pouco atrasada — uma queda num treino em Málaga, seguida de uma enfermidade, tirou-o do UAE Tour no início do ano. Chegar na Paris-Nice como primeiro grande compromisso da temporada e já vencer uma etapa e assumir a liderança na quarta jornada não é exatamente o comportamento de alguém sem ritmo de competição.
O que esperar das próximas etapas
A Paris-Nice 2026 ainda tem muito pela frente. As etapas 5, 6 e 7 prometem novos embates nas subidas, com destaque para a chegada em Auron, a 1.614 metros de altitude, na penúltima jornada — uma subida que Jonas Vingegaard já havia preparado detalhadamente como ponto forte do percurso. Com a saída de Ayuso, o principal obstáculo agora deve ser Oscar Onley (Ineos Grenadiers) e o próprio Dani Martínez, que mostrou nesta quarta-feira que não vai se entregar sem lutar.
O grupo de perseguidores chegou com mais de quatro minutos de atraso em Uchon, o que praticamente elimina qualquer esperança de surpresa na classificação geral vindo de nomes como David Gaudu, Marc Soler ou Kévin Vauquelin. A corrida, pelo que se viu nesta etapa, já tem um nome gravado em letras grandes na camisola amarela — e esse nome é Jonas Vingegaard.
Para acompanhar ao vivo as próximas etapas da Paris-Nice, confira os horários e transmissões disponíveis no guia completo da Cycling Weekly.
Resultado da 4ª etapa da Paris-Nice 2026
- Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike)
- Dani Martínez (Red Bull-Bora-hansgrohe) +0:42
- Tim van Dijke (Red Bull-Bora-hansgrohe) +0:42
- Mick van Dijke (Red Bull-Bora-hansgrohe) +0:42 (ap.)
FAQ — Perguntas frequentes sobre a 4ª etapa da Paris-Nice 2026
Quem venceu a 4ª etapa da Paris-Nice 2026?
Jonas Vingegaard (Visma-Lease a Bike) venceu a etapa com chegada no alto do Signal d’Uchon, em Uchon, França. O dinamarquês atacou a um quilômetro da linha e chegou com 42 segundos de vantagem sobre o segundo colocado, Dani Martínez.
O que aconteceu com Juan Ayuso na Paris-Nice?
Juan Ayuso, que liderava a classificação geral da Paris-Nice até então, sofreu uma queda a 47 quilômetros do final da 4ª etapa e não conseguiu continuar. O espanhol da Lidl-Trek foi obrigado a abandonar a corrida, transferindo a liderança para Jonas Vingegaard.
Qual é a classificação geral da Paris-Nice depois da etapa 4?
Após a 4ª etapa, Jonas Vingegaard assumiu a liderança da Paris-Nice 2026 com a maillot amarela. Dani Martínez e Tim van Dijke estão entre os que ficaram mais próximos na etapa, enquanto o grupo de perseguidores chegou com mais de quatro minutos de atraso, praticamente fora da briga pela classificação geral.
Quantos quilômetros tinha a 4ª etapa da Paris-Nice 2026?
A etapa 4 da Paris-Nice 2026 teve 195 quilômetros, com partida em Bourges e chegada na subida do Signal d’Uchon. O percurso incluía 120 km de trecho plano seguidos de três subidas categorizadas nos 75 quilômetros finais.
Quando e onde termina a Paris-Nice 2026?
A Paris-Nice 2026 encerra no dia 15 de março de 2026, em Nice, no Sul da França, tradicional destino da “Corrida ao Sol”. A edição deste ano tem oito etapas, com saída de Achères em 8 de março, e inclui chegadas em altitude como a de Auron (1.614 m) na penúltima jornada.





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