Quem acompanha o ciclismo profissional há mais tempo sabe que algumas corridas carregam um peso especial na memória coletiva dos fãs. O Critérium du Dauphiné é uma delas. Disputada todos os anos nas semanas que antecedem o Tour de France, essa prova de oito dias sempre funcionou como uma espécie de termômetro: quem vai bem no Dauphiné, quase sempre chega ao grande evento francês em condição de brigar pela vitória. Pois bem, em 2026 esse termômetro ganhou uma nova etiqueta. A corrida agora se chama Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026 — e sim, vale a pena entender por que essa mudança importa mais do que parece.
Um adeus cheio de história, um novo nome cheio de futuro
A corrida nasceu em 1947, criada pelo jornal regional Dauphiné Libéré como uma forma de promover a região e, claro, vender mais exemplares — prática comum na época, a mesma que originou o próprio Tour de France décadas antes. Durante décadas ela respondeu pelo nome de Critérium du Dauphiné Libéré, até a ASO (Amaury Sport Organisation) assumir a organização em 2010 e simplificar para apenas Critérium du Dauphiné.
A decisão de rebatizar a prova como Tour Auvergne-Rhône-Alpes foi anunciada pela ASO em junho de 2025, logo após Tadej Pogačar conquistar a edição daquele ano. Pogačar, portanto, entra para a história como o último vencedor com o nome tradicional. A mudança, segundo a organização, reflete a expansão geográfica da corrida — que nos últimos anos passou a explorar também o interior profundo da França, no Maciço Central, além dos tradicionais Alpes. O suporte financeiro e logístico da região administrativa Auvergne-Rhône-Alpes foi determinante para garantir a viabilidade da prova no longo prazo.
A região em si, criada em 2016 pela fusão de Auvergne e Rhône-Alpes, é uma das mais ricas e diversificadas da França: 8 milhões de habitantes, Lyon como capital, fronteiras com a Suíça e a Itália, e uma geografia que vai das planícies do Vale do Ródano até os 4.808 metros do Mont Blanc. Para o ciclismo, é território sagrado.
Por que o Critérium du Dauphiné — Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026 importa tanto
Para entender o peso dessa corrida, basta olhar para o calendário. O Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026 acontece entre os dias 6 e 13 de junho, cerca de três semanas antes da grande partida do Tour de France. Esse timing não é coincidência — é estratégia. Os diretores esportivos das principais equipes usam a prova para calibrar a forma dos seus líderes, testar táticas em alta altitude e, claro, avaliar a concorrência de perto.
Historicamente, apenas 11 ciclistas conseguiram vencer tanto o Dauphiné quanto o Tour de France no mesmo ano. Bernard Hinault foi o pioneiro, em 1979 e novamente em 1981. Chris Froome repetiu o feito em 2013, 2015 e 2016. Mais recentemente, Geraint Thomas (2018) e Jonas Vingegaard (2023) completaram esse seleto grupo de duplistas no mesmo calendário. É uma estatística que diz muito sobre o valor preditivo da corrida.
Em 2025, quem venceu foi Tadej Pogačar, com 59 segundos de vantagem sobre Vingegaard e 2 minutos e 38 segundos sobre Florian Lipowitz. Três semanas depois, o esloveno voou pelo Tour. A correlação é quase tediosa de tão consistente.
O percurso do Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026: etapa por etapa

A 78ª edição da corrida cobre 1.204,3 km distribuídos em oito etapas, com largada em Vizille e chegada final no Plateau de Solaison. Há espaço para velocistas, fugitivos e escaladores — mas quem vai decidir a corrida serão os homens das montanhas, especialmente nas três etapas finais.
| Etapa | Largada | Chegada | Distância |
|---|---|---|---|
| 1 — 6 jun | Vizille | Saint-Ismier | 140,1 km |
| 2 — 7 jun | Saint-Martin-Le-Vinoux | Le Puy-en-Velay | 237,3 km |
| 3 — 8 jun | Perreux | Perreux (TTT) | 28,4 km |
| 4 — 9 jun | Le Puy-en-Velay | Montrond-Les-Bains | 165,8 km |
| 5 — 10 jun | Saint-Chamond | Villars-Les-Dombes | 198 km |
| 6 — 11 jun | Saint-Vulbas | Crest-Voland | 181,4 km |
| 7 — 12 jun | La Bridoire | Grand Colombier | 133,3 km |
| 8 — 13 jun | Beaufort | Plateau de Solaison | 120 km |
Etapa 1: Vizille → Saint-Ismier (140,1 km)

Nada de entrada suave. A etapa inaugural já coloca os ciclistas na dureza logo aos 6 km, com uma subida não categorizada que serve de aviso. O ponto alto do dia é a Côte de Saint-Jean-le-Vieux (categoria 1, 5,6 km a 8,7% de média), a apenas 18 km do final — o suficiente para fazer seleção e possivelmente coroar o primeiro líder entre os homens do GC. Velocistas sem escalada têm poucas chances aqui.
Etapa 2: Saint-Martin-Le-Vinoux → Le Puy-en-Velay (237,3 km)

A etapa mais longa da corrida, com 237,3 km percorrendo quatro subidas categorizadas. O Col Robert Marchand — batizado em homenagem ao lendário ciclista centenário francês — aparece aos 128 km com 10,9 km a 4,4%. Nos últimos 30 km, o terreno fica mais traiçoeiro, com rampas curtas e íngremes antes da descida final para Le Puy-en-Velay. Uma etapa que convida à fuga, mas onde o timing do sprint final pode surpreender.
Etapa 3: Perreux → Perreux — Contrarrelógio por Equipes (28,4 km)

Aqui está um dos pontos mais interessantes do Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026: um contrarrelógio por equipes de 28,4 km, cerca de 10 km mais longo que o TTT que abrirá o Tour de France em Barcelona. Com mais subidas e maior exigência aeróbica, essa etapa em Perreux serve de laboratório real para os diretores esportivos ajustarem suas formações e estratégias de pacing. Em um ano em que apenas Paris-Nice e o Trofeo Ses Salines tiveram TTTs no calendário, essa prova ganha importância especial como oportunidade de rodagem coletiva.
Etapas 4 e 5: para fugitivos e velocistas

A quarta etapa (Le Puy-en-Velay → Montrond-Les-Bains, 165,8 km) acumula cinco subidas nos primeiros 110 km antes de abrir espaço para uma perseguição frenética ou uma chegada em grupo. Já a quinta etapa (Saint-Chamond → Villars-Les-Dombes, 198 km) é quase plana — a última subida chega ainda com 80 km de corrida sobrando. Os velocistas que sobreviveram ao início vão querer aproveitar a chance.

Etapa 6: Saint-Vulbas → Crest-Voland (181,4 km) — A corrida começa de verdade

Com o primeiro final em altitude do Critérium du Dauphiné 2026, a etapa 6 apresenta uma chegada dupla: primeiro a Côte d’Héry-sur-Ugine (11,3 km a 5,1%), seguida de um breve alívio e então os decisivos 5,9 km finais da Côte de Crest-Voland, a impressionantes 7,7% de média. Depois de 181 km nas pernas, essas rampas vão separar os homens do GC com precisão cirúrgica.
Etapa 7: La Bridoire → Grand Colombier (133,3 km) — A penúltima batalha

O Grand Colombier é uma das subidas mais temidas dos Alpes franceses. Na etapa 7, os ciclistas chegam ao cume por sua face mais difícil: 8,4 km a 10,2% de média, com trechos que passam dos 14%. Antes do derradeiro esforço, ainda precisam cruzar os Lacets du Grand Colombier (7 km a 8,4%) e o Col de Richemond (7,7 km a 6%). Quem ainda tiver pernas para atacar aqui vai fazer história.
O Grand Colombier tem memórias vívidas no Tour de France: foi palco do segundo triunfo de etapa de Tadej Pogačar em 2020, quando ele superou Primož Roglič em sprint. Em 2023, Michał Kwiatkowski venceu no mesmo cume enquanto Pogačar arrancava alguns segundos de Vingegaard. Garantido que em 2026 essa montanha voltará a protagonizar momentos inesquecíveis.
Etapa 8: Beaufort → Plateau de Solaison (120 km) — Julgamento final

A etapa rainha do Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026 é curta em quilômetros, mas longa em sofrimento. Começa imediatamente com o brutal Col du Pré (6,9 km a 10,1% de média), um soco no estômago logo nos primeiros 10 km. Em seguida, a Montée de Bisanne (11,4 km a 7,7%), seguida pelo Col des Aravis e uma descida de mais de 30 km que vai testar a capacidade dos ciclistas de manter o corpo aquecido. A cereja do bolo — ou melhor, a rampa final — é o Plateau de Solaison: 11,3 km a 9,1%. Jonas Vingegaard venceu nesse mesmo cume em 2022, ajudando Roglič ao título geral. Quem vencer lá em junho de 2026 saberá que está pronto para o Tour.
Equipes confirmadas no Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026
São 22 equipes confirmadas para a edição de 2026, com representantes de todas as principais formações WorldTour:
- UAE Team Emirates XRG
- Visma-Lease a Bike
- Red Bull-Bora-Hansgrohe
- Ineos Grenadiers
- Lidl-Trek
- Soudal-QuickStep
- Alpecin-Premier Tech
- Bahrain Victorious
- Decathlon CMA CGM
- EF Education-EasyPost
- Groupama-FDJ United
- Jayco-AlUla
- Lotto-Intermarché
- Movistar
- NSN
- Picnic PostNL
- Uno-X Mobility
- XDS Astana
- Cofidis
- Tudor
- Caja Rural-Seguros RGA
- TotalEnergies
A presença de UAE Team Emirates XRG (provável Pogačar) e Visma-Lease a Bike (Vingegaard) já garante que o Critérium du Dauphiné 2026 será um aquecimento de gala para o duelo que o mundo do ciclismo mais aguarda.
O contexto histórico: recordes e curiosidades que você precisa conhecer
Poucos sabem, mas o recorde de vitórias na corrida pertence a quatro ciclistas empatados com três títulos cada: Luis Ocaña (1970, 1972 e 1973), Bernard Hinault (1977, 1979 e 1981), Charly Mottet (1987, 1989 e 1992) e Chris Froome (2013, 2015 e 2016). Se Pogačar ou Vingegaard mantiverem o domínio nos próximos anos, esse recorde pode ser ameaçado.
Outro dado interessante: a corrida tem sido palco de reviravoltas dramáticas. Em 2025, o então campeão Primož Roglič abandonou o Tour de France na etapa 13 após diversas quedas, mostrando que nem sempre uma boa campanha no Dauphiné garante uma conclusão feliz na corrida maior. O ciclismo, afinal, é esporte de incerteza.
Para os entusiastas que querem se aprofundar nos aspectos fisiológicos do esforço em altitude — tão presentes nas etapas finais dessa corrida —, a literatura científica oferece estudos fascinantes. Uma pesquisa publicada no Journal of Applied Physiology demonstra como o VO₂ máximo e a capacidade de produção de potência em subidas longas são os principais determinantes de sucesso em corridas de estágio com chegadas em altitude. Não por acaso, os cinco melhores escaladores do mundo estão todos confirmados para junho.
O que a mudança de nome revela sobre o futuro das corridas clássicas
Há uma tendência crescente no ciclismo profissional de aproximar as corridas das regiões que as financiam e habitam. A ASO entendeu que o modelo antigo — batizar corridas em homenagem a jornais que já não têm o mesmo peso comercial — precisava evoluir. O nome Tour Auvergne-Rhône-Alpes não é apenas um rebranding; é um contrato de longo prazo entre a prova e um território que a abraça e a financia.
Vale lembrar que esse movimento não é inédito. A Paris-Nice passou por ajustes de naming ao longo dos anos, assim como a Volta a Burgos e outras provas menores. O que diferencia o caso do Dauphiné é a escala: estamos falando de uma das dez corridas mais importantes do calendário WorldTour da UCI, com 78 edições nas costas e um palmarès que lê como um Who’s Who do ciclismo de todos os tempos.
Christian Prudhomme, diretor de ciclismo da ASO, foi preciso ao comentar a mudança: “Nascida em 1947 da paixão de um jornal regional pelo ciclismo, a corrida cresceu junto com as estradas e a paisagem que a moldaram. Com o apoio leal da região, ela se torna agora o Tour Auvergne-Rhône-Alpes, um novo nome que reflete plenamente suas raízes territoriais.”
Como acompanhar o Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026
As transmissões serão definidas conforme o calendário de direitos de TV se aproximar do evento, mas historicamente a corrida tem cobertura ao vivo pela Eurosport e plataformas digitais parceiras da ASO, incluindo o GCN+. Para os fãs brasileiros, o Cyclingpass e o YouTube oficial da ASO costumam oferecer highlights gratuitos diários.
Aqui no Ciclismo pelo Mundo, faremos cobertura completa da corrida, com análises de etapa, classificações atualizadas e todo o contexto que você precisa para acompanhar o Critérium du Dauphiné — Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026 com o mesmo entusiasmo de quem está beira da estrada nos Alpes.
FAQ — Perguntas frequentes sobre o Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026
1. Por que o Critérium du Dauphiné mudou de nome para Tour Auvergne-Rhône-Alpes?
A organização ASO decidiu rebatizar a corrida para refletir melhor a expansão geográfica do percurso — que hoje percorre tanto o Maciço Central quanto os Alpes — e reconhecer o apoio financeiro e institucional da região Auvergne-Rhône-Alpes. A mudança também moderniza a identidade da prova, desvinculando-a do jornal Dauphiné Libéré, que a originou em 1947.
2. Quando acontece o Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026?
A corrida está programada para os dias 6 a 13 de junho de 2026, com oito etapas cobrindo um total de 1.204,3 km entre Vizille (largada da etapa 1) e o Plateau de Solaison (chegada da etapa final).
3. Quais são as etapas mais importantes para o GC no Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026?
As etapas definitivas para a classificação geral são as três últimas: a etapa 6 com chegada em Crest-Voland (7,7% nos últimos 5,9 km), a etapa 7 com o Grand Colombier hors-catégorie (8,4 km a 10,2%) e a etapa 8 com chegada no Plateau de Solaison (11,3 km a 9,1%), precedida pelo brutal Col du Pré logo no início do dia.
4. O Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026 tem contrarrelógio por equipes?
Sim. A etapa 3 é um contrarrelógio por equipes de 28,4 km em Perreux, mais longo e acidentado do que o TTT previsto para a abertura do Tour de France em Barcelona. É considerado um dos ensaios mais importantes do ano para as equipes que visam a classificação coletiva no Tour.
5. Quais ciclistas venceram o Critérium du Dauphiné e o Tour de France no mesmo ano?
Ao longo da história, apenas 11 ciclistas conseguiram o dobrete no mesmo ano. Os mais recentes são Geraint Thomas (2018) e Jonas Vingegaard (2023). Antes deles, Chris Froome o fez três vezes (2013, 2015 e 2016). Bernard Hinault foi o pioneiro, em 1979. A lista completa é um resumo dos maiores escaladores que o ciclismo já produziu.





Deixe um Comentário