Meio segundo. Talvez menos. Foi o que separou Tadej Pogačar da imortalidade esportiva dentro do velódromo de Roubaix no último domingo. O esloveno, dono de quatro dos cinco Monumentos do ciclismo, cruzou a linha em segundo lugar na Paris-Roubaix 2026 — derrotado no sprint por Wout van Aert — e resumiu a experiência com uma frase que já virou emblema: “Quando comecei o sprint, minhas pernas estavam como espaguete.”
Espaguete. O maior ciclista do planeta, o homem que coleciona vitórias como quem junta figurinhas, reduzido a uma metáfora gastronômica italiana pelo pavé do norte da França. Exagero? Quem viu a cara dele ao cruzar a linha sabe que não.
A Missão Impossível Que Quase Deu Certo
Pogačar não escondeu: sabia que o sprint era território inimigo. Nos últimos 50 km da corrida, quando só restavam ele e Van Aert na frente, o campeão mundial tentou de tudo para se livrar do belga antes do velódromo. Atacou nos setores de paralelepípedos. Forçou o ritmo nas retas. Testou a resistência do adversário em cada curva traiçoeira do percurso.
Nada funcionou.
Largar o Van Aert nos paralelepípedos era missão impossível. Ele é forte demais nesse terreno. — Tadej Pogačar
A declaração carrega honestidade rara no esporte profissional. Pogačar — que normalmente destrói rivais em qualquer terreno — admitiu publicamente que enfrentou alguém superior naquele contexto específico. Com 1,76m e 65 kg, o esloveno dá quase 15 cm e 10 kg de desvantagem para Van Aert nos setores que definem a Paris-Roubaix. Ciclismo é física. E a física, no pavé, cobra seu preço.
Quatro de Cinco — O Monumento Que Resiste
A lista do que Pogačar já conquistou nos Monumentos impressiona qualquer fã de ciclismo — e deveria impressionar até quem nunca subiu numa bicicleta. Milano-Sanremo. Tour de Flanders (três vezes, igualando recorde). Liège-Bastogne-Liège. Il Lombardia. Quatro dos cinco Monumentos, as corridas de um dia mais prestigiadas do calendário, vencidos por um único ciclista que ainda não fez 28 anos.
Bom, falta uma. E é justamente a mais bruta.
A Paris-Roubaix não é só uma corrida de bicicleta. É um teste de sobrevivência. Enquanto Milano-Sanremo premia o oportunista e Liège recompensa o escalador, Roubaix devora quem não nasceu para sofrer sobre pedras. Pogačar sofreu. E perdeu. Pela segunda vez consecutiva.
Nenhum ciclista na história venceu os cinco Monumentos. Eddy Merckx — o Canibal, o maior de todos — venceu cada um deles ao longo da carreira, mas numa era completamente diferente. O que Pogačar tenta fazer não tem precedente no ciclismo moderno. Vencer os cinco num mundo de especialização extrema, com equipes inteiras montadas para impedir exatamente isso — e numa época em que cada corrida exige preparação física específica de meses.
O Que Aconteceu nos Últimos Quilômetros
Quem assistiu — e no Brasil eram 7h da manhã, café na mão, stream aberto no celular — viu o drama se construir em tempo real. Pogačar puxou o sprint no velódromo de Roubaix, tentando surpreender Van Aert com uma arrancada longa. Estratégia arriscada. Corajosa. E, no fim, insuficiente.
Van Aert esperou, esperou, esperou — e nos últimos 200 metros detonou. Passou pelo esloveno com uma diferença de vários comprimentos de bicicleta. A câmera do helicóptero capturou o momento exato em que as costas de Pogačar se curvaram sobre o guidão. Derrota. Mas derrota honrosa, naquele pavé escorregadio que não perdoa.
Rapaz, o silêncio do Pogačar cruzando a linha disse mais que qualquer entrevista.
“Eu Volto” — Mas Quando?
Perguntado se retornaria à Paris-Roubaix em 2027, Pogačar foi evasivo com precisão cirúrgica: “Não posso dizer não. É só minha segunda participação, então vamos dar tempo ao tempo.” Quem conhece o esloveno sabe decodificar: ele vai voltar. A questão é quando — e se o calendário permitirá.
A Paris-Roubaix cai em abril. O Tour de France, em julho. Para um ciclista que planeja vencer ambos no mesmo ano — e Pogačar já provou que consegue manter forma entre primavera e verão —, a Roubaix representa um risco calculado. Cada furo, cada queda nos paralelepípedos pode comprometer meses de preparação para o Tour. A equipe UAE Team Emirates-XRG precisa equilibrar ambição histórica com planejamento de temporada.
Sabe quando o Neymar dizia que ia voltar mais forte? Pois é. Pogačar é o tipo que cumpre.
O Que a Derrota de Pogačar Ensina Sobre o Ciclismo
Num esporte dominado por números — watts por quilo, limiar anaeróbio, VO₂ máximo —, a Paris-Roubaix é o lembrete anual de que ciclismo não se resolve numa planilha de treino. Acidentes, furos, mecânicas, vento, posicionamento no pelotão, sorte pura: variáveis que nenhum computador controla.
Pogačar é o melhor ciclista da sua geração. Talvez o melhor desde Merckx. E a Paris-Roubaix o derrotou duas vezes. Não porque faltou talento ou preparação — mas porque essa corrida específica exige um tipo de resiliência física que favorece corpos maiores, ciclistas mais pesados, pilotos que absorvem impacto como amortecedores humanos.
Van Aert é esse tipo de ciclista. Pogačar não é. E a beleza do esporte está exatamente aí: nem o maior gênio do mundo domina todas as disciplinas. A especialização vive. Os Monumentos sobrevivem porque são diferentes o suficiente para impedir que um único atleta os colecione como troféus.
Quase. Pogačar quase provou o contrário. E “quase” — no ciclismo e na vida — é a palavra que mais machuca.
Perguntas Frequentes
Quantos Monumentos Pogačar já venceu?
Tadej Pogačar venceu quatro dos cinco Monumentos do ciclismo: Milano-Sanremo, Tour de Flanders, Liège-Bastogne-Liège e Il Lombardia. A Paris-Roubaix é o único que falta, com dois segundos lugares consecutivos (2025 e 2026).
O que Pogačar disse após a Paris-Roubaix 2026?
Pogačar declarou que suas pernas estavam como espaguete no sprint final e reconheceu que largar Van Aert nos paralelepípedos era missão impossível. Sobre voltar à corrida, disse que não descarta, mas sem compromisso com data específica.
Algum ciclista já venceu todos os 5 Monumentos?
Apenas três ciclistas na história venceram todos os cinco Monumentos ao longo da carreira: Eddy Merckx, Roger De Vlaeminck e Rik Van Looy. Pogačar seria o quarto — e o primeiro da era moderna — caso conquiste a Paris-Roubaix.
Por que a Paris-Roubaix é tão difícil para Pogačar?
Com 1,76m e 65 kg, Pogačar tem um físico mais adequado para escaladas do que para os paralelepípedos da Paris-Roubaix. Ciclistas maiores e mais pesados como Van Aert (1,90m, 75 kg) absorvem melhor o impacto do pavé e mantêm velocidade mais alta nos setores decisivos.
Pogačar vai tentar novamente a Paris-Roubaix?
Pogačar indicou que pretende retornar, dizendo que não pode dizer não, mas sem confirmar participação em 2027. A decisão dependerá do planejamento de temporada da UAE Team Emirates-XRG e da priorização entre clássicas de primavera e o Tour de France.





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