Eddy Merckx venceu 525 corridas profissionais em 18 temporadas (Wikipedia, 2025). Tadej Pogačar chegou a 108 vitórias aos 27 anos, em seis temporadas (BikeRadar, 2025). Os dois números dizem coisas diferentes. Qualquer ranking honesto dos maiores ciclistas da história precisa admitir isso antes de começar.
Este Top 10 não é o ranking das vitórias brutas, nem o ranking de quem dominou mais sua geração. É o equilíbrio desonesto entre três critérios que não combinam perfeitamente: volume de conquistas, domínio relativo na era competitiva, e impacto cultural duradouro.
– Eddy Merckx lidera com 525 vitórias, 11 Grand Tours e 19 Monumentos, o único ciclista a conquistar todos os cinco Monumentos ao menos duas vezes (Cyclingnews, 2025).
– Tadej Pogačar já aparece em #3 neste ranking com 5 Grand Tours e 12 Monumentos, à frente de pentacampeões como Anquetil e Indurain.
– Lance Armstrong está ausente: a UCI retirou oficialmente seus 7 títulos do Tour em 2012 por doping sistemático (UCI via ESPN, 2012).
– Nenhum brasileiro integra o Top 10 mundial, um recorte honesto que discutimos no fim do artigo.
Como Medir Grandeza no Ciclismo? Os Três Critérios Que Este Ranking Usa
Rankings que somam apenas vitórias coroam Merckx e encerram o debate. O problema é que esse atalho trata a era de 1970 e a era de 2025 como se fossem o mesmo esporte. Não são.
Critério 1: volume de conquistas. Grand Tours, Monumentos, Mundiais, etapas. Métrica objetiva, mas distorce épocas com calendários mais curtos e menos profissionalismo.
Critério 2: domínio relativo na era. Quantos por cento das corridas importantes daquela geração o ciclista venceu? Merckx em 1971 correu 120 vezes e venceu 54 delas, 45% de aproveitamento (Wikipedia, 2025).
Critério 3: impacto cultural. Coppi reconstruiu a identidade italiana no pós-guerra. LeMond abriu o esporte para fora da Europa. Bartali salvou judeus na Resistência. Essas coisas pesam. Ou não deveriam?
Nossa posição editorial: ordenar ciclistas pelos três critérios produz três listas diferentes. Um Top 10 honesto equilibra os três em vez de fingir que um só basta.
1. Por Que Eddy Merckx é o Maior Ciclista da História?

Eddy Merckx venceu 525 das 1.800 corridas que disputou, taxa de 29% de vitórias ao longo de 18 temporadas profissionais (Wikipedia, 2025). Nenhum outro ciclista na história se aproxima desse volume, e quase nenhuma discussão séria sobre os maiores ciclistas da história começa em outro nome.
Os números são abusivos mesmo para quem só olha as categorias principais: 11 Grand Tours (5 Tours, 5 Giros, 1 Vuelta), 19 Monumentos, 3 Campeonatos Mundiais de estrada. Merckx é o único ciclista a vencer todos os cinco Monumentos, e venceu cada um deles ao menos duas vezes (Cyclingnews, 2025).
A objeção de praxe é que a era Merckx tinha menos rivais de elite. O contrário parece mais verdadeiro: o calendário dos anos 1970 exigia participação em quase tudo, sem as temporadas hiperespecializadas de hoje. Merckx venceu 54 corridas em 1971, um número que Pogačar nunca replicou em nenhuma temporada, incluindo 2025.
Segundo o Cyclingnews, Merckx raramente deixava uma corrida ir sem disputa, e foi esse apetite por vencer, não a fisiologia, que produziu o apelido “Canibal” (Cyclingnews, 2025).
2. Bernard Hinault, o Último Francês Completo

Bernard Hinault venceu 10 Grand Tours: 5 Tours, 3 Giros e 2 Vueltas (Wikipedia, 2025). É o ciclista mais completo da história depois de Merckx, o único além dele a vencer as três Grandes Voltas múltiplas vezes cada uma.
O apelido “Texugo” descrevia o estilo: agressivo até quando não precisava ser. Hinault acumulou 79 dias com camisa amarela no Tour e 28 vitórias de etapa na prova francesa. Também venceu Liège-Bastogne-Liège em 1977 e 1980 e a Paris-Roubaix de 1981, resolvendo o ponto fraco clássico dos franceses em provas nortistas.
Continua sendo o último francês a vencer o Tour de France. Já são quase quatro décadas de jejum desde 1985.
Análise relacionada: por que a França não vence o Tour de France há 40 anos.
3. Por Que Pogačar Já é o Terceiro Maior Ciclista da História?
Tadej Pogačar terminou a temporada 2025 com 108 vitórias profissionais, 5 Grand Tours (4 Tours, 1 Giro), 12 Monumentos e dois Mundiais consecutivos em 2024 e 2025, o primeiro a ganhar Tour e Mundial em anos seguidos (Olympics.com, 2025).
Colocá-lo em #3 divide leitores. A defesa editorial do Ciclismo pelo Mundo é direta: pelos critérios 2 (domínio) e 3 (impacto cultural), ele já passou Anquetil e Indurain. Em 2025 foi o primeiro ciclista da história a subir ao pódio dos cinco Monumentos na mesma temporada (Domestique Cycling, 2025).
Segundo dados compilados pela BikeRadar, Pogačar obteve 20 vitórias em apenas 50 dias de corrida em 2025, aproveitamento de 40%, comparável apenas aos picos de Merckx nos anos 1970 (BikeRadar, 2025). Em critério de domínio relativo, nenhum ciclista desde 1974 se aproxima desse número.
O ranking histórico do King of the Echelon já coloca Pogačar em #3 na lista absoluta, atrás apenas de Merckx e Hinault (King of the Echelon, 2026). Não é consenso, mas também não é exagero.
Na cobertura do Ciclismo pelo Mundo desde 2019, o que distingue Pogačar para nós não é o volume de troféus. É o padrão: ataca em terreno onde a convenção moderna manda poupar pernas, e vence quase sempre. Esse gesto sem cálculo é a assinatura que sobreviveu de Merckx e desapareceu nos vencedores dos anos 1990 e 2000.
4. Fausto Coppi, o Campionissimo e o Primeiro Mito Global
Fausto Coppi venceu 2 Tours e 5 Giros, foi o primeiro ciclista da história a vencer Tour e Giro no mesmo ano (1949, repetido em 1952) e quebrou o recorde da hora em 1942 (Cycling Today, 2024).
Pelo critério 1, fica atrás de Hinault. Pelo critério 3, ninguém no Top 10 se aproxima. Coppi correu na reconstrução italiana do pós-guerra e virou figura de disputa política entre PCI e Democracia Cristã. A rivalidade com Gino Bartali dividia mesas de jantar no país inteiro.
O Monte Pordoi, onde venceu etapas em sucessivas edições do Giro, recebeu o nome de “Cima Coppi” em 1965: o único ciclista a emprestar o nome a um prêmio perene do Giro d’Italia.
5. Anquetil Merece Estar Entre os Cinco Maiores?
Jacques Anquetil foi o primeiro ciclista a vencer o Tour de France cinco vezes (1957 e 1961-1964) e acumulou 8 Grand Tours no total (Wikipedia, 2025). O apelido “Monsieur Chrono” veio da superioridade brutal em contrarrelógios individuais.
Pelo critério 1, fica à frente de Pogačar em Grand Tours. Pelo critério 2, perde: Anquetil dependia quase exclusivamente dos CRIs e admitia abertamente não se empenhar em etapas comuns. Pelo critério 3, zero Monumentos e zero Mundiais de estrada pesam muito.
É o caso mais claro de ciclista que o critério de volume superestima.
6. Como Miguel Indurain Venceu Cinco Tours Consecutivos?
Miguel Indurain venceu cinco Tours de France seguidos entre 1991 e 1995, o único pentacampeão a fazê-lo consecutivamente (Wikipedia, 2025). Somou 2 Giros em 1992 e 1993, totalizando 7 Grand Tours.
Durante os cinco Tours que venceu, Indurain nunca ganhou uma etapa que não fosse contrarrelógio, estatística rara e reveladora. Seu estilo era o oposto do carrossel Merckx: controlar os rivais nas montanhas, destruí-los nos CRIs, fazer o mínimo necessário.
A fisiologia era outlier: frequência cardíaca de repouso em torno de 28 bpm, VO2máx estimado em 88 ml/kg/min. Em critério de domínio, é um dos mais convincentes do ranking.
7. Por Que De Vlaeminck Entra no Top 10 Sem Nenhum Grand Tour?
Roger De Vlaeminck venceu 11 Monumentos, só Merckx tem mais (Cyclingnews, 2024). Quatro Paris-Roubaix, três Milão-Sanremos, dois Giro di Lombardia, um Tour de Flanders e uma Liège-Bastogne-Liège.
Zero Grand Tours. Zero Mundiais. A razão para entrar no Top 10 é metodológica: se o ranking desconsidera especialistas em Clássicas, exclui parte real da história do ciclismo. Roubaix, Flanders e Sanremo têm peso cultural que nenhuma Vuelta tem.
Contexto adicional: o guia definitivo dos cinco Monumentos do ciclismo.
8. Como Alfredo Binda Foi Pago Para Não Correr o Giro?
Alfredo Binda venceu 5 Giros d’Italia e 3 Campeonatos Mundiais de estrada entre 1925 e 1932 (Wikipedia, 2025). A organização do Giro em 1930 lhe pagou 22.500 liras, prêmio equivalente ao do campeão, para que ele não disputasse a prova. O domínio era tão completo que retirava interesse do público.
Venceu 6 Monumentos (2 Milão-Sanremo, 4 Giri di Lombardia) e inventou boa parte do que hoje se chama “estratégia em equipe”.
9. Por Que Gino Bartali é Mais do Que um Campeão?
Gino Bartali venceu 2 Tours (1938, 1948) e 3 Giros, somando 5 Grand Tours e 7 Monumentos (Wikipedia, 2025). A guerra interrompeu seus anos de pico: os 10 anos entre o Tour de 1938 e o de 1948 representaram a maior lacuna entre vitórias de um mesmo ciclista na prova francesa.
O que coloca Bartali em #9 pelo critério de impacto cultural: durante a ocupação nazista da Itália, ele pedalava entre Florença e Assis carregando documentos falsos escondidos no quadro da bicicleta, operação que salvou cerca de 800 judeus (Yad Vashem, 2013). Foi reconhecido como Justo entre as Nações em 2013.
É o único ciclista do Top 10 onde o legado fora da bicicleta rivaliza com o legado dentro dela.
10. Qual o Legado Real de Greg LeMond no Ciclismo Mundial?
Greg LeMond venceu 3 Tours de France (1986, 1989, 1990) e 2 Campeonatos Mundiais de estrada (1983, 1989) (Britannica, 2024). É o único do Top 10 com menos de 5 vitórias em Grand Tour, e sua presença na lista é critério 3 puro.
Foi o primeiro não-europeu a vencer o Tour de France, em 1986. Em 1987 levou um tiro acidental de espingarda que quase o matou. Dois anos depois, voltou para vencer o Tour por 8 segundos sobre Laurent Fignon, a menor margem da história da prova.
LeMond sustentou publicamente desde os anos 1990 que o ciclismo profissional estava contaminado pelo EPO e pagou pela posição com ostracismo profissional. A posterior validação de suas acusações, com a confissão de Armstrong em 2013, deu-lhe autoridade moral rara no esporte.
Sem LeMond, o Tour provavelmente continuaria sendo uma disputa regional europeia. Foi ele quem trouxe a mídia americana, os patrocinadores globais e os ciclistas australianos, colombianos e eventualmente eslovenos que hoje dominam a prova.
E Lance Armstrong? Por Que Não Entra no Top 10
A UCI retirou oficialmente os 7 Tours de France de Lance Armstrong (1999-2005) em outubro de 2012 após investigação da USADA descrever o caso como “o mais sofisticado e profissionalizado programa de doping da história do esporte” (ESPN, 2012). Armstrong recebeu banimento vitalício e confessou o doping em entrevista à Oprah Winfrey em janeiro de 2013.
A posição editorial do Ciclismo pelo Mundo é a mesma da UCI: o livro de recordes não registra vencedor do Tour entre 1999 e 2005. Incluir Armstrong num Top 10 legítimo é equivalente a ignorar a decisão do órgão regulador do esporte.
Separadamente, o impacto cultural de Armstrong foi real: elevou o ciclismo no mercado americano e financiou pesquisa sobre câncer. Nada disso anula o argumento esportivo.
Onde o Brasil Aparece Entre os Maiores Ciclistas da História?
Nenhum brasileiro integra o Top 10 mundial, e não há nem margem de debate honesto para incluir. Em recorte nacional, os nomes que aparecem são Henrique Avancini (campeão mundial de Mountain Bike Marathon em 2018), Murilo Fischer (único brasileiro a disputar os três Grand Tours), e Flávia Oliveira, vice-campeã pan-americana em 2010.
O contexto é estrutural: reportagens com transeuntes no Brasil ainda identificam “Lance Armstrong” como o ciclista mais reconhecido, mesmo após o banimento (Digital Cycling, 2023). Falta base competitiva, falta cobertura midiática, falta formação de base.
Ranking nacional complementar: os maiores ciclistas brasileiros de todos os tempos.
Perguntas Frequentes Sobre os Maiores Ciclistas da História
Pogačar já superou Merckx?
Ainda não. Pogačar tem 5 Grand Tours e 12 Monumentos aos 27 anos, enquanto Merckx chegou aos 27 com 7 Grand Tours e 14 Monumentos. A trajetória é comparável, mas Merckx completou 11 Grand Tours e 19 Monumentos na carreira inteira. Pogačar precisa de mais 4 a 5 temporadas no nível de 2024 e 2025 para realmente ameaçar o #1.
Por que Lance Armstrong foi excluído?
Porque a UCI retirou oficialmente seus 7 Tours de France em 2012 por doping sistemático (UCI via ESPN, 2012). O livro de recordes não registra campeão entre 1999 e 2005. Incluí-lo seria desconsiderar a decisão do regulador e dos anos subsequentes de confissão e evidência.
Qual foi a maior dominância em uma única temporada?
A temporada 1971 de Eddy Merckx: 54 vitórias em 120 corridas disputadas, ou 45% de aproveitamento (Wikipedia, 2025). A temporada 2025 de Pogačar, com 20 vitórias em 50 corridas (40%), é o registro moderno mais próximo.
Quem tem mais Monumentos na história?
Eddy Merckx, com 19 vitórias em Monumentos, é o recordista absoluto. Em segundo lugar vem Tadej Pogačar (12), seguido por Roger De Vlaeminck (11). Merckx é também o único ciclista a vencer cada um dos cinco Monumentos ao menos duas vezes (Cyclingnews, 2024).
Conclusão
Rankings dos maiores ciclistas da história não precisam ser consensuais, precisam ser honestos sobre os critérios que usam. Pelo volume bruto, Merckx está sozinho no topo. Pelo domínio relativo na era, Pogačar já desafia Merckx e deve decidir essa disputa nos próximos três a quatro anos. Pelo impacto cultural, Coppi, Bartali e LeMond aparecem em posições que o volume não justificaria.
Se Pogačar continuar no ritmo atual e chegar a 8 Grand Tours e 18 Monumentos antes dos 31, este ranking muda. Até lá, Merckx segue sozinho no pódio.




