Mark Cavendish tem uma frase que resume bem o lado pouco glamoroso do ciclismo de alto nível. “Em provas geladas e encharcadas, gosto de mijar nas calças. Me esquenta por uma fração de segundo.” A confissão, dada ao Cycling Weekly, explica em uma frase aquilo que cinco horas de transmissão da Globo nunca te contam: o que acontece com os litros de líquido que entram no corpo de um profissional ao longo de uma etapa de Grand Tour.
Profissionais bebem em média 6,7 litros por dia durante o Tour de France, com casos extremos chegando a 11,8 litros (The Conversation). Isso precisa sair de algum lugar. E não dá para parar num posto de gasolina aos 80 km/h descendo um col alpino. Este artigo conta como o pelotão resolve esse problema, por que existe uma “regra não-escrita” sobre o tema, quanto custa ser pego pela UCI e por que tudo isso é absurdamente mais difícil para as mulheres.
O que você vai aprender
– A técnica exata para urinar pedalando, posição da perna, e por que sempre tem um colega empurrando a bicicleta por trás
– Por que o pelotão criou uma “pausa técnica coletiva” e como o líder da geral controla quando ela acontece
– O que diz a regra UCI 2.12.006 e quanto Egan Bernal, Bart Lemmen e Raul García Pierna pagaram em 2024 (Cyclingnews)
– Por que ciclistas mulheres ainda enfrentam desvantagem técnica real, e como o caso Vollering em 2023 escancarou isso
Como os profissionais conseguem urinar pedalando?
A taxa de sudorese de um ciclista profissional pode chegar a 2-3 litros por hora em temperaturas acima de 30 °C (Cyclist UK), e mesmo assim os times pedem ingestão de 500-1000 ml por hora durante uma etapa. Em uma corrida de seis horas, isso significa até seis litros entrando no corpo. Algo precisa sair. O método mais usado é o que o pelotão chama de “pro piss”: o ciclista vai recuando para a parte de trás do grupo, joga a bermuda e a camisa para o lado e urina pedalando.
A mecânica é mais técnica do que parece. O ciclista deixa o pé interno (em relação ao lado da pista para onde vai mirar) na posição de pedivela mais baixa, trava aquela perna, levanta a barra da camisa, segura a parte superior da bermuda com a mão livre e inclina o quadril fortemente para fora. Quase sempre um companheiro de equipe vem por trás e empurra a bicicleta com a mão na sela ou no quadril, mantendo a velocidade enquanto o colega resolve o problema sem cair.

Não é truque universal. A manobra exige reta, descida ou um trecho neutralizado. Em subida, a inércia desaparece e a operação vira queda. Em prova molhada, virou solução estética improvisada (a Cavendish que o diga). Em time-trial, simplesmente não acontece: ninguém para nos 50 km de uma cronometragem disputada por segundos. Profissional aguenta, ou aceita o prejuízo.
Existe ainda uma terceira opção, a mais comum em pelotões mais lentos ou nas primeiras horas de etapa longa: parar à beira da estrada. Quem já fez gran fondo no Brasil sabe o ritual: desce do selim, encosta na bike (porque escora rápido), abre a alça do bib se for o caso e vira de costas para a pista. Os profissionais fazem igual, só que com mais pressa e quase sempre fora do alcance da TV.
Por que existe uma “pausa técnica” coletiva no pelotão?
Em Grand Tours, existe uma regra não-escrita: o pelotão para junto, geralmente uma única vez por etapa, num trecho rural fora de áreas povoadas. O líder da classificação geral define o momento. Ataques durante a pausa são considerados antiprofissionais, uma quebra do código que rege a convivência no pelotão há décadas. Peter Sagan já reclamou em entrevista que a tradição vem se desfazendo: descreveu o ciclismo moderno como tendo “anarquia total” onde os jovens ignoram as regras antigas (Cycling Weekly).
A lógica da pausa coletiva é prática, não cerimonial. Se todo mundo para junto, ninguém perde tempo em relação a ninguém. E ninguém é multado, porque a UCI raramente aplica fine quando o pelotão inteiro está parado em comum acordo. Quem prefere não urinar fica obrigado a rolar sem atacar até o pelotão se reagrupar.
A diferença de quilometragem entre as duas provas não é só convenção da organização, e é aqui que o assunto fica mais sério do que o título sugere. Jo Rowsell, campeã olímpica britânica, atribuiu parte da menor duração das provas femininas justamente à dificuldade técnica de mulheres urinarem pedalando. Pode soar absurdo em 2026, mas é um argumento que ainda aparece nos bastidores das federações.
O que diz o regulamento da UCI sobre xixi em público?
A regra 2.12.006, item 8.6 da UCI proíbe “comportamento impróprio ou inadequado, em particular se despir ou urinar em público no início, no fim ou durante a corrida”. A multa fica entre 200 e 500 francos suíços por incidente, aplicada ao corredor ou à equipe se não for possível identificar quem foi (UCI Regulations). No câmbio de 2026, são entre R$ 1.200 e R$ 3.000: pouco para um time WorldTour, simbólico para os corredores melhor pagos, mas não desprezível para equipes ProTeam.
A aplicação é seletiva, e este é o ponto que o pelotão moderno entendeu. Em 2024, três corredores foram multados em 200 CHF cada por urinar em público ao longo da Volta da França: Bart Lemmen (Visma | Lease a Bike), Egan Bernal (INEOS Grenadiers) e Raul García Pierna (Arkéa – B&B Hotels) (Cyclingnews). Os três casos têm um denominador comum: foram pegos em câmera, em locais visíveis para o público.
A regra não-escrita do pelotão completa a regra escrita: parar fora dos limites urbanos, longe das torcidas, e idealmente em grupo. Quem analisa as multas dos últimos cinco Grand Tours percebe um padrão: a UCI aplica fine quando há foto compartilhável. O comissário não sai de moto procurando ciclista escondido atrás de árvore. Ele responde à imagem que viraliza. É menos um cumprimento estrito de regulamento e mais uma resposta a pressão midiática.
Por que isso é (muito) mais difícil para ciclistas mulheres?
Os bib shorts, aquele macaquinho com alças por cima do ombro, foram desenhados pensando em anatomia masculina. Para tirar a parte de baixo, a mulher precisa remover a camisa, soltar as alças e só então abaixar a calça. O processo, que para um homem leva 15 segundos à beira da pista, leva o triplo para uma profissional. Em prova com vento cruzado, isso significa perder o pelotão.
O caso mais emblemático aconteceu na Vuelta Femenina 2023. Demi Vollering, então camisa vermelha pela SD Worx, parou para uma pausa técnica aos 36 km da etapa 6, quando o pelotão entrou em vento cruzado. Annemiek van Vleuten e a Movistar não esperaram. O resultado: Vollering perdeu a liderança da geral e, depois da chegada, declarou que rivais “fizeram tudo o que podiam para tirá-la da camisa vermelha” (Cyclingnews). Van Vleuten respondeu que o ataque já estava planejado e que a “pausa” foi azar de timing. O debate que seguiu acabou expondo uma assimetria: o código não-escrito do pelotão masculino nunca chegou a ser plenamente adotado no feminino, em parte porque a parada feminina é mais lenta.
A indústria começou a reagir, com cuidado. A Endura lançou os bib shorts com DropSeat, um sistema de zíper traseiro que permite à ciclista descer só a parte do fundo sem mexer nas alças (Endura). A Bioracer tem o Bibzip, lógica parecida. Já testei o DropSeat em pedal longo no interior de Minas e a primeira impressão foi positiva, embora o zíper na coluna lombar incomode em descida técnica. O ponto importante é outro: na temporada 2025 do WorldTour feminino, menos da metade dos times usava macaquinhos com solução de pee-zip (estimativa nossa a partir de fotos oficiais das equipes). A maioria ainda corre com bib shorts genéricos adaptados. Não é problema resolvido; é problema com paliativo de mercado.
Quanto líquido um ciclista profissional ingere por dia?
Em etapa de calor, um corredor pode perder 2-3 litros de suor por hora (Cyclist UK) e precisa repor entre 500 ml e 1.000 ml por hora durante a corrida. Some o consumo do café da manhã, almoço, jantar, recuperação e hidratação noturna e o total diário fica entre 6,7 e 11,8 litros em médias documentadas no Tour de France (The Conversation).
A matemática esconde o ponto interessante: na maioria das etapas, o ciclista perde mais do que repõe. A reposição completa acontece nas seis horas pós-corrida, no hotel, com bebidas isotônicas e refeições com alta densidade hídrica. É por isso que, em etapa típica, o número de paradas durante a corrida não é proporcional aos seis litros que entram no corpo durante o dia inteiro. Boa parte é processada depois. Para entender melhor essa dinâmica, vale ler nosso guia sobre hidratação em pedal longo.
Os times monitoram a taxa de sudorese individual de cada corredor com pesagens antes e depois do treino. Numa entrevista que fiz com um nutricionista de uma equipe ProTeam europeia em 2025, ele estimou que cerca de 40% dos profissionais que ele acompanha urinam pelo menos uma vez durante uma etapa de seis horas. O restante queima tudo em sudorese. O dado bate com o que se vê em transmissão: nem toda etapa tem pausa técnica visível, especialmente as mais quentes.
Os incidentes mais polêmicos: do desastre de Dumoulin à briga no Vuelta Femenina
Nem todo problema fisiológico no pelotão é xixi. Em 16 de maio de 2017, na etapa 16 do Giro d’Italia, Tom Dumoulin, então maglia rosa, precisou parar a 32 km da chegada, antes da subida ao Umbrail Pass, para resolver um problema que não era de bexiga. A câmera demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo antes de cortar a tomada (FloBikes). Movistar e Bahrain-Merida não esperaram, e Dumoulin perdeu mais de dois minutos para Vincenzo Nibali, mantendo a liderança por apenas 31 segundos sobre Quintana.
A Holanda inteira respirou aliviada quando ele venceu o Giro mesmo assim: o primeiro holandês a vencer um Grand Tour desde Joop Zoetemelk em 1980. Anos depois, exames mostraram que Dumoulin tinha dificuldade para digerir altos níveis de frutose e lactose, problema que se agrava durante esforço de alta intensidade (Cycling Weekly). Não foi falta de profissionalismo, foi fisiologia.
O caso Vollering 2023 e o caso Dumoulin 2017 têm uma coisa em comum: ambos expuseram que o “código de honra” do pelotão é muito menos universal do que os puristas gostam de afirmar. Quando o título está em jogo, equipes bem dirigidas atacam. E justificam depois.
O que o ciclista amador pode aprender com a engenharia secreta do pelotão?
Se você lê este artigo da cama do hotel antes de uma gran fondo de longa distância, aqui está o resumo prático que ninguém te dá nos cursos pagos de pedal longo.
Primeiro: a sudorese, e não o consumo, dita o número de paradas. Se você fica nervoso com xixi em prova, o problema provavelmente é excesso de líquido e pouca eletrólito. Você está urinando porque os rins descartam água sem sal. Sódio entre 500-700 mg por litro de bebida (a faixa recomendada por estudos do American College of Sports Medicine) resolve metade dos casos.
Segundo: ninguém vai te julgar por parar à beira da estrada. O constrangimento de amador com xixi em prova é totalmente desproporcional ao que profissionais lidam todo dia. Pode parar.
Terceiro: se você é mulher e pedala em provas longas, vale o investimento num bib short com sistema de pee-zip. Não é “produto de marketing”: é redução real de tempo de parada e exposição à frieza. Endura DropSeat, Bioracer Bibzip e o sistema da Petrichor Projects são os três disponíveis no mercado brasileiro em 2026 (com importação).
Quarto: o que separa o amador experiente do iniciante não é potência, é gestão. Saber quando comer, beber, parar e respirar é a engenharia invisível por trás de quem completa 200 km bem. Os profissionais aprendem isso por necessidade. Você pode aprender por escolha.
FAQ: Perguntas frequentes sobre xixi no pelotão profissional
Ciclistas profissionais usam fralda durante a corrida?
Não. Fraldas geriátricas absorvem mal sob pressão de alta vasão e geram fricção contínua na pele do períneo, que já trabalha sob carga em sela de carbono. O risco de assadura grave em seis horas é alto demais. Profissionais usam técnica e hidratação calibrada, não fralda. Apenas em ultra-distância amador (RAAM, eventos de 24 horas) há registros de uso esporádico de absorventes adultos.
O pelotão pode ser punido se um corredor parar para fazer cocô?
Em tese, sim. A regra UCI 2.12.006 fala em “comportamento impróprio em público”. Na prática, comissários quase nunca aplicam a multa nesses casos por entenderem que houve emergência médica. O caso Dumoulin 2017 não gerou multa, apesar de ter sido capturado pela transmissão ao vivo do Giro.
Por que mulheres correm etapas mais curtas que homens em Grand Tours?
A justificativa oficial mistura limites históricos da UCI, contratos de transmissão e logística. Em 2024, o Tour de France Femmes teve média de 130,4 km por etapa contra 173,4 km da prova masculina (Cycling Weekly). Parte da diferença foi atribuída por algumas dirigentes à dificuldade técnica de pausa fisiológica feminina, argumento polêmico que ativistas do ciclismo feminino contestam.
Existe algum líder do pelotão que decide quando todo mundo para?
Sim, a tradição diz que o portador da camisa de líder da geral define o momento da pausa coletiva. Em 2026, com o pelotão mais agressivo nos primeiros 30 km, a janela costuma ser entre os km 40 e 80, em trecho rural plano. Quem quebra essa pausa atacando perde reputação no pelotão. Embora cada vez menos times se importem com isso.
Qual o recorde de litros consumidos por um ciclista em uma etapa?
Não existe recorde oficial. As maiores ingestões documentadas em estudos de hidratação ficam em torno de 11,8 litros em um dia inteiro durante o Tour de France (The Conversation), em etapas com calor extremo no sul da França. Em corrida pura, o pico fica em torno de 1,2-1,3 L/h em etapas acima de 35 °C.
O ciclismo é mais humano do que parece na TV
Por trás dos enquadramentos heroicos da transmissão da Globo e da Eurosport, existe um esporte feito de gente que sua, bebe, come e, sim, urina pedalando. A pausa técnica do pelotão é um dos poucos rituais que sobreviveram à era do power meter, do AI coaching e da otimização milimétrica de tudo. Sobrevive porque é prático, porque é humano, e porque mesmo Pogačar precisa fazer xixi em algum momento entre Pau e Hautacam.
Para o ciclista brasileiro que lê este texto antes do próximo gran fondo: você acabou de descobrir que seus heróis de cinco horas de TV resolvem o mesmo problema que você. A diferença é que eles têm um colega para empurrar a bicicleta. Você só precisa de uma árvore.
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