Sexta-feira, 17 de abril. Provinciedomein Huizingen, em Beersel. O pelotão se alinha para a 66ª edição de De Brabantse Pijl com um cenário que há cinco anos ninguém sonharia. Sem Tadej Pogačar. Sem Mathieu van der Poel. Sem Wout van Aert. Sem Remco Evenepoel. Sem Tom Pidcock. A fila dos monstros das clássicas simplesmente não veio. E isso muda tudo.
A corrida que tradicionalmente serve de ponte entre os paralelepípedos do Norte e as rampas das Ardenas ganha, em 2026, um status inesperado — deixa de ser aperitivo para virar prato principal. Pelo menos por um dia. 162,5 quilômetros de Brabante em 21 subidas com uma briga escancarada pela vitória. Quem fica com essa?
A corrida que virou de ponta-cabeça
A Brabantse Pijl sempre teve um problema estrutural. Encaixada entre Paris-Roubaix no domingo anterior e Amstel Gold Race no domingo seguinte, ela quase sempre perde para o calendário. Os grandes nomes chegam cansados do Inferno do Norte e estão poupando para as Ardenas. Resultado: historicamente, a corrida é um campo aberto para especialistas em clássicas curtas e escaladores que gostam de rampas explosivas.
Em 2026, esse padrão virou regra absoluta. A organização cedeu à pressão das equipes e mudou a prova da quarta para a sexta-feira, encurtando também a distância — de 195 para pouco mais de 160 quilômetros. O objetivo? Não torrar os ciclistas antes do Amstel de domingo. Só que a mudança teve um efeito colateral: nenhum dos cinco monstros da temporada resolveu aparecer.
Pogačar, Van der Poel e Van Aert ficaram no Paris-Roubaix da última semana e agora descansam. Evenepoel está guardado para o Amstel. Pidcock foi cortado por lesão — mais uma da sua temporada de 2026 que insiste em não colaborar. Jhonatan Narváez também saiu da lista de inscritos por problema físico. A UAE, que poderia mandar um time forte para Cosnefroy, prefere poupar suas peças principais.
O trio de bandidos que pode roubar a cena
Com os favoritos ausentes, a briga fica entre três figuras que já venceram em Overijse e um punhado de talentos famintos.
Tim Wellens é o nome com mais pedigree na largada. O belga da UAE Team Emirates conhece essas estradas de olhos fechados — já venceu aqui e vive um daqueles momentos de carreira em que cada corrida parece render alguma coisa. A dúvida é a forma física após a queda na Kuurne-Bruxelas-Kuurne em fevereiro. Se estiver inteiro, é favorito.
Benoît Cosnefroy, recém-transferido da Decathlon CMA CGM para a UAE, chega como o segundo ex-campeão em pista. O francês de 30 anos ganhou a Brabantse em 2020 e sempre se dá bem em circuitos com subidas curtas e técnicas. Vale lembrar que ele divide equipe com Wellens — e o problema da UAE é justamente esse: excesso de favoritos, decisão tática complicada.
Romain Grégoire, da Groupama-FDJ, completa o trio de nomes que pode brigar pelo degrau mais alto do pódio. O francês de 22 anos vem numa curva ascendente impressionante — aquele tipo de ciclista que você vê pilotar uma vez e já entende por que os olheiros das grandes equipes andam de olho. Chegou em segundo na etapa rainha do Itzulia contra Paul Seixas, o que não é pouca coisa.
Fora esses três, vale de olho em Florian Vermeersch (ex-piloto de Paris-Roubaix que virou escalador), Tibor Del Grosso (jovem holandês da Alpecin-Premier Tech com forma explosiva), Mauro Schmid (suíço da Jayco-AlUla que tem começo de temporada pegando fogo) e nos dois sobreviventes da Pinarello-Q36.5 depois da baixa de Pidcock: Quinten Hermans e Xandro Meurisse, ambos belgas que conhecem a estrada de cor.
Os 162 quilômetros que decidem no último circuito
A prova começa em Beersel às 13h30 no horário local (8h30 em Brasília) e cruza as duas províncias do Brabante — Flamengo e Valão — até Overijse. Mas aqui está o segredo: os primeiros 100 quilômetros são só aquecimento. A corrida de verdade começa quando o pelotão entra no circuito final, de três voltas, com quatro obstáculos que se repetem como um pesadelo cíclico.
Hertstraat. Moskesstraat. Holstheide. E a S-Bocht Overijse, a curva técnica que decide tudo nos últimos metros. Três passagens em cada uma. Doze encontros com rampas de até 16%. É muito. É brutal. É o tipo de perfil que destrói pelotão e cria vencedores solitários.
A Moskesstraat costuma ser o ponto de ataque definitivo. Não é a subida mais dura — é a mais comprida, com ritmo que mata quem não tem perna. Os vencedores recentes geralmente atacaram ali na última volta e chegaram sozinhos ou em pequeno grupo à S-Bocht.
A chegada em Overijse é traiçoeira. A S-Bocht dá para a Brusselsesteenweg, uma avenida larga mas com vento lateral frequente. Quem chega em pequeno grupo tem que escolher: atacar antes da curva e arriscar o vento, ou esperar pela reta final e disputar no talo? Decisão que vale vitória.
O ritual brasileiro de quem acorda cedo pra ver ciclismo
Oito e pouco da manhã no Brasil. Café passando na cozinha, notebook aberto na mesa, transmissão carregando com aquele delay inicial que sempre aparece. A Brabantse Pijl é uma dessas corridas que o brasileiro que gosta de ciclismo internacional aprende a amar quase por acidente — você liga esperando ver só os três últimos quilômetros e acaba ficando duas horas acompanhando o desfecho.
A transmissão no Brasil acontece via Disney+ (com conteúdo ESPN integrado, para assinantes do plano Premium) e via FloBikes para quem prefere a cobertura especializada em ciclismo. O sinal costuma abrir entre 10h e 11h no horário de Brasília, pegando os últimos 40 quilômetros, que é quando a corrida de fato acontece.
Quem quiser acompanhar a corrida inteira tem que recorrer ao feed direto da Flanders Classics — normalmente disponível a nível de streamings internacionais com VPN, uma prática comum entre os ciclofãs brasileiros que não querem perder nada.
A aposta da casa
Cosnefroy vence. Não porque seja o mais forte da largada — nesse quesito Wellens está empatado —, mas porque a UAE vai jogar a corrida para ele. O recém-chegado precisa entregar. A equipe sabe. Wellens sabe. E a Brabantse, com seu circuito final que favorece ataques cirúrgicos em vez de forçar sprints, é terreno perfeito para o francês repetir a dose de 2020.
Mas aqui vai uma provocação: se Romain Grégoire terminar a corrida inteiro e chegar à última Moskesstraat com perna, a Groupama tem munição para um resultado que vira a narrativa da temporada da equipe. O francês é o talento que ninguém quer falar em voz alta por medo de inflacionar — mas o grupinho que acompanha dados do Itzulia e da Volta ao País Basco já viu o que ele pode fazer quando a corrida pega fogo.
E a zebra? A zebra se chama Tibor Del Grosso. O holandês de 21 anos vem batendo recordes de potência nos treinos segundo a imprensa especializada e já mostrou a nível de performance algo que poucos esperavam em 2026. A Alpecin-Premier Tech, magoada com o quarto lugar de Van der Poel na Roubaix, quer uma vitória ruidosa. Pode vir aqui.
O que fica depois da linha de chegada
A Brabantse Pijl nunca foi a corrida que decide uma temporada. Mas sempre foi uma das corrida que entrega histórias inesperadas — vencedores que ninguém previa, duelos no último quilômetro, narrativas que sobrevivem por anos. Em 2026, com tanto nome grande ausente, as chances dessas surpresas acontecerem só aumentam.
O que fica é uma prova aberta como poucas edições recentes. Um palco para Cosnefroy provar que a transferência para a UAE não foi dinheiro jogado fora. Para Grégoire consolidar o status de próxima grande promessa francesa. Para Wellens relembrar ao mundo que aos 34 anos ainda há muita gasolina no tanque.
Sexta-feira, dia 17. A clássica que serve de ponte entre mundos. Entre o inferno dos paralelepípedos e o purgatório das Ardenas. Entre a temporada que já foi e a que ainda está por vir. Quem vai assinar embaixo?
Perguntas frequentes sobre De Brabantse Pijl 2026
Que horas começa a De Brabantse Pijl 2026 no horário de Brasília?
A prova começa em Beersel às 13h30 no horário local belga, o que corresponde às 8h30 da manhã em Brasília. A chegada está prevista para as 17h09 locais — ou seja, 12h09 BRT. A transmissão ao vivo pela TV e streaming no Brasil geralmente abre entre 10h e 11h, pegando os últimos 40 quilômetros, que é onde a corrida decide.
Onde assistir De Brabantse Pijl 2026 no Brasil?
A prova está disponível no Brasil pelo Disney+ (com conteúdo ESPN integrado, no plano Premium) e pelo FloBikes, serviço de streaming especializado em ciclismo. Para quem quiser cobertura desde o início da corrida, é possível assistir pelo sinal oficial da Flanders Classics com VPN.
Por que Pogačar e Van der Poel não vão correr a Brabantse Pijl 2026?
Nenhum dos dois inscreveu nome para a De Brabantse Pijl 2026. Pogačar e Van der Poel acabam de correr a Paris-Roubaix no domingo anterior e estão poupando para o Amstel Gold Race de 19 de abril. Van Aert e Evenepoel também ficaram de fora pela mesma razão. Tom Pidcock, que poderia ser mais um dos favoritos, foi cortado por lesão.
Qual o percurso da De Brabantse Pijl 2026?
A 66ª edição percorre 162,5 quilômetros entre Beersel e Overijse, nas províncias do Brabante Flamengo e Valão. Inclui 21 subidas no total, com destaque para o circuito final de três voltas — cada uma contendo os quatro obstáculos-chave: Hertstraat, Moskesstraat, Holstheide e a técnica S-Bocht de Overijse. A prova foi reduzida de 195 km para pouco mais de 160 km em 2026, justamente para poupar os ciclistas antes do Amstel Gold Race do domingo.
Quem são os favoritos para vencer a De Brabantse Pijl 2026?
Com os grandes nomes ausentes, os favoritos são Tim Wellens (UAE, ex-campeão), Benoît Cosnefroy (UAE, ex-campeão), Romain Grégoire (Groupama-FDJ), Florian Vermeersch, Tibor Del Grosso (Alpecin-Premier Tech) e Mauro Schmid (Jayco-AlUla). A UAE tem a vantagem numérica com dois ex-campeões na equipe — mas isso também é desvantagem, já que precisa escolher para quem jogar a corrida.





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