A foto que circulou no Instagram em dezembro era inocente — só uma selfie num ginásio de treinamento. Um adolescente de 17 anos posando com o kit azul-celeste e vermelho da UAE Team Emirates-XRG. Não era um reforço. Não era um contrato. Era um estágio de uma semana. Nino Seixas, irmão caçula de Paul Seixas, passou aqueles dias treinando ao lado dos campeões da equipe. A foto foi apagada em seguida. Mas alguns olhos atentos já tinham percebido: ali havia uma história maior.
Hoje, quatro meses depois daquele estágio, a corrida pela assinatura do ciclista de 19 anos que virou sensação do WorldTour é a novela mais quente do ciclismo europeu. De um lado, a Decathlon CMA CGM, equipe francesa que o revelou e que tem contrato até 2027. Do outro, a UAE Team Emirates-XRG, a poderosa estrutura de Tadej Pogačar, que quer formar uma dupla que nenhum time do planeta conseguiria igualar.
O que Paul Seixas fez para virar alvo de todo mundo
Começou numa etapa contrarrelógio no início de abril. O francês de 19 anos pegou a ponta no Itzulia País Basco e abriu 23 segundos de vantagem sobre Kévin Vauquelin, seu compatriota. Ninguém esperava. Um mês antes, Seixas tinha terminado em segundo na Strade Bianche atrás de Pogačar. Já era talento reconhecido. Mas uma vitória assim, contra o cronômetro, num terreno acidentado do norte da Espanha? Isso era chamado de outra coisa.
Dois dias depois, ganhou a segunda etapa em fuga solo. A terceira, de novo. A quinta foi a etapa rainha — e Seixas venceu Florian Lipowitz na última subida, consolidando a liderança geral. Na chegada em Eibar, no domingo 11 de abril, ele levou o título da Itzulia País Basco com 2 minutos e 30 segundos sobre Lipowitz e 2 minutos e 33 sobre o norueguês Tobias Johannessen.
Aos 19 anos, Paul Seixas se tornou o primeiro francês em 19 anos a conquistar uma corrida por etapas do WorldTour. O último tinha sido Jean-Christophe Péraud em 2007. A França inteira respirou diferente. E os olheiros de todo WorldTour começaram a telefonar para o agente do garoto.
Pogačar e Seixas na mesma camisa — o sonho ou a extravagância?
Mauro Gianetti, manager da UAE Team Emirates-XRG, não conseguiu esconder o entusiasmo quando questionado sobre uma possível dupla Pogačar-Seixas. Em entrevista, o italiano declarou: “Paul Seixas e Tadej Pogačar no mesmo time? Seria mais do que um sonho.” A frase circulou em meio mundo no dia seguinte. Não era um reconhecimento casual. Era um aceno de interesse, em diplomacia pública, feito intencionalmente para ser lido pelas outras equipes.
A reação do ciclismo europeu foi imediata e dividida. Patrick Lefevere, veterano ex-chefe da Soudal-Quick Step, atacou: “Contratar Seixas quando você já tem Pogačar é comportamento ostentatório.” A crítica do belga mira um ponto sensível — a UAE já tem o melhor ciclista do mundo, já venceu quase tudo em 2025, e agora quer o maior talento emergente europeu. Para muitos, isso é o retrato do desequilíbrio que transformou o ciclismo numa espécie de novela de dois personagens só.
Cedric Vasseur, manager da Cofidis, e outros dirigentes franceses manifestaram desconforto. A imprensa inglesa publicou colunas com títulos provocativos como “Pogačar não está matando o ciclismo — a UAE Team Emirates-XRG está.” E o Cycling Weekly chegou a pedir, em editorial: “Tomara que eles não contratem Paul Seixas.”
O elo Cosnefroy, o agente Laukka e o estágio de dezembro
A engenharia do negócio já está em movimento. O agente de Paul Seixas é Joona Laukka, empresário finlandês que também representa Benoît Cosnefroy — o ciclista que se transferiu justamente da Decathlon CMA CGM para a UAE no final de 2025. Coincidência? Difícil acreditar. Laukka conhece o caminho de migração entre as duas equipes porque já construiu ele antes, com Cosnefroy, com sucesso.
E tem mais. Como mencionamos no início, o irmão caçula de Paul, Nino Seixas, passou uma semana em estágio de treinamento com a UAE Team Emirates-XRG em dezembro de 2025. Nino tem 17 anos e ainda corre no nível junior, mas a conexão familiar entre os Seixas e a estrutura de Pogačar claramente se estabeleceu antes da temporada 2026 começar. Isso não é acontecimento aleatório. É um sinal de que as negociações vão além do contrato imediato — elas envolvem um projeto de longo prazo, de família, de continuidade.
A própria UAE admitiu essa dimensão. Fontes da equipe confirmaram à imprensa especializada que o estágio de Nino foi parte de uma estratégia de aproximação com o núcleo familiar do francês. Os emirados sabem construir esse tipo de relação. Têm dinheiro, estrutura e paciência. E parecem ter decidido que vale a pena investir os três para garantir o garoto.
A Decathlon CMA CGM contra a corrente
Do lado francês, a equipe de David Lappartient tenta jogar o jogo com ferramentas que tem. O orçamento da Decathlon CMA CGM é menor que o da UAE — não muito menor, mas significativamente menor. E o projeto esportivo, embora respeitado, não oferece a Paul Seixas a garantia de rodar ao lado do melhor ciclista do mundo em Grand Tours.
Carlos Verona, um dos dirigentes da equipe, declarou recentemente: “Se o Paul não quer ficar, é decisão dele. A gente vai lutar pra manter, mas a gente respeita.” Tom honesto. Quase melancólico. É o tom de quem entende a realidade do mercado e não vai fingir que pode oferecer o que a UAE oferece.
A Decathlon tem, porém, um trunfo importante: o contrato vai até final de 2027, o que significa que qualquer saída antecipada envolve multa rescisória pesada, negociada entre as duas equipes. E a equipe francesa recebeu, nas últimas semanas, apoio público do governo francês — o Ministério dos Esportes expressou interesse em manter o talento no país. Não vale dinheiro diretamente, mas vale pressão política e reputacional.
O que Seixas mesmo diz? Quase nada. O agente Laukka pediu à imprensa que as conversas fossem pausadas até o final das Clássicas das Ardenas, no dia 26 de abril. A ideia é proteger a concentração do ciclista antes do Amstel Gold Race, da Flèche Wallonne e da Liège-Bastogne-Liège. “Vamos esperar até o momento em que o Paul sentir que é a hora certa de decidir,” disse o agente.
Por que isso importa para quem acompanha de longe
Oito da manhã em São Paulo. O brasileiro que abre o Twitter e vê as manchetes sobre Seixas-Pogačar-UAE pode achar que é mais uma bobagem de fofoca esportiva. É, sim — mas não só. É também uma história que revela como o ciclismo profissional funciona hoje, para onde está indo, e quais forças determinam o que vai acontecer nos próximos três a cinco anos no esporte.
Se a UAE contratar Seixas, ela monta uma dupla que pode dominar Grand Tours por quase uma década. Pogačar tem 27 anos. Seixas tem 19. Há sobreposição potencial na mais alta performance entre 2026 e 2032 — seis anos em que juntos eles poderiam ganhar seis Tours, seis Giros, dezenas de clássicas. É o tipo de concentração de talento que muda a natureza das corridas.
Se a UAE não contratar, outras equipes poderosas vão correr atrás — Red Bull-BORA, Visma-Lease a Bike, Soudal-Quick Step. E aí teremos, talvez, um ciclismo mais competitivo, com Seixas liderando uma equipe própria contra Pogačar em vez de correr ao lado dele. Para o espectador brasileiro, que se acostumou a ver Pogačar vencer quase tudo, essa segunda possibilidade é bem mais interessante.
A aposta da casa
A UAE provavelmente vence essa. Não porque tenha razão. Mas porque tem os ingredientes todos: dinheiro, estrutura, plataforma de projeção internacional, relação já estabelecida com a família Seixas, agente favorável e histórico recente de fazer esse mesmo tipo de contratação dar certo (Cosnefroy sendo a prova mais próxima).
Mas se a Decathlon CMA CGM conseguir segurar o francês — se o projeto político-esportivo francês funcionar, se a narrativa da nacionalidade ganhar do dinheiro estrangeiro, se Paul Seixas decidir que prefere construir legado em vez de empilhar vitórias —, o ciclismo ganha. Ganha muito. Ganha uma dualidade que vinha faltando na era Pogačar.
A decisão final sai depois das Ardenas. Vinte e seis de abril. Liège-Bastogne-Liège. Até lá, cada corrida que Seixas disputar vai ter dupla narrativa — o resultado esportivo e o impacto político-comercial sobre o mercado de transferências. É assim que virou o ciclismo profissional em 2026. Uma corrida dentro da corrida. E uma aposta que pode mudar o esporte por uma década.
Perguntas frequentes sobre o caso Paul Seixas
Quem é Paul Seixas e por que ele é tão falado em 2026?
Paul Seixas é um ciclista francês de 19 anos que corre pela Decathlon CMA CGM no WorldTour. Em abril de 2026, venceu a Itzulia País Basco depois de conquistar quatro etapas seguidas, tornando-se o primeiro francês em 19 anos a vencer uma corrida por etapas do WorldTour. Antes disso, já havia terminado em segundo na Strade Bianche, atrás de Tadej Pogačar. A combinação de juventude, potência em contrarrelógio e capacidade de escalar o transformou em alvo prioritário das maiores equipes do mundo.
Até quando vai o contrato de Seixas com a Decathlon CMA CGM?
O contrato atual de Paul Seixas com a Decathlon CMA CGM vai até dezembro de 2027. Qualquer saída antecipada envolve negociação com a equipe atual e pagamento de multa rescisória, o que pode dificultar (mas não impedir) uma transferência para outra equipe já em 2026 ou 2027.
Por que o irmão de Paul Seixas esteve na UAE em dezembro?
Nino Seixas, irmão mais novo de Paul, passou uma semana de estágio de treinamento com a UAE Team Emirates-XRG em dezembro de 2025. Aos 17 anos e corredor do nível junior, Nino foi interpretado pela imprensa especializada como parte de uma estratégia de aproximação da equipe emiradense com a família Seixas. A UAE nunca confirmou oficialmente a intenção, mas fontes internas indicaram que o estágio foi estruturado para estreitar relações com o círculo pessoal de Paul.
O que dizem Pogačar e a direção da UAE sobre a possível contratação?
Mauro Gianetti, manager da UAE Team Emirates-XRG, reconheceu publicamente que uma dupla Pogačar-Seixas “seria mais do que um sonho”. Tadej Pogačar mesmo ainda não comentou o caso em entrevistas, mas a direção da equipe tem dito publicamente que considera Seixas “um talento extraordinário”. A UAE se aproximou através de Joona Laukka, agente de Paul e também de Benoît Cosnefroy — ciclista que fez o caminho inverso em 2025, saindo da Decathlon CMA CGM para a UAE.
Quando Paul Seixas vai decidir o futuro?
O agente Joona Laukka pediu publicamente que as negociações fossem pausadas até depois das Clássicas das Ardenas, que terminam com a Liège-Bastogne-Liège no dia 26 de abril de 2026. A ideia é proteger a concentração de Paul durante o Amstel Gold Race, a Flèche Wallonne e a própria Liège. Após essas provas, é esperado que as conversas retomem e uma definição saia até meados de maio.





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