Muitos ciclistas acreditam que a única maneira de melhorar o FTP (Functional Threshold Power) é através de repetições intermináveis de intervalos de 2×20 ou 3×15 minutos. Embora esses treinos clássicos sejam eficazes, existe um universo de metodologias alternativas que podem não apenas quebrar a monotonia, mas também estimular adaptações fisiológicas surpreendentes.
O FTP representa sua máxima capacidade aeróbica sustentável e está diretamente relacionado à densidade das fibras musculares tipo 1, à quantidade de mitocôndrias e à rede de capilares que irrigam seus músculos. Estudos científicos demonstram que o Poder Crítico, um valor ligeiramente superior ao FTP, correlaciona-se fortemente com essas características fisiológicas que definem os grandes campeões de resistência.
A verdade é que seu organismo não opera em compartimentos isolados. Independentemente da intensidade que você priorize, adaptações ocorrem de forma sistêmica. Algumas estruturas fisiológicas serão mais ou menos estimuladas conforme a zona de intensidade, mas o importante é compreender que existem múltiplos caminhos para o mesmo destino.
Neste artigo, vamos explorar 4 sessões de treino não convencionais que podem revolucionar sua abordagem para ganhos de FTP, cada uma trabalhando aspectos específicos do seu metabolismo energético.
1. Fartlek: A Brincadeira de Velocidade Escandinava
O termo Fartlek vem do sueco e significa literalmente “brincadeira de velocidade”. Embora seja mais comum no universo da corrida, esta metodologia adaptada ao ciclismo oferece estímulos intensos sem a rigidez mental dos treinos estruturados tradicionais.
A essência do Fartlek está na alternância entre esforços de alta intensidade e recuperação ativa, de forma fluida e quase intuitiva. Para ciclistas, a versão mais eficaz consiste em alternar 1 minuto próximo ao limiar com 1 minuto em ritmo regenerativo.
Como Funciona o Treino Fartlek no Ciclismo
Após um aquecimento progressivo de 10-20 minutos, você inicia a fase de trabalho seguindo um padrão simples:
- 1 minuto a 95-105% do FTP (intensidade de limiar)
- 1 minuto a 50-60% do FTP (recuperação ativa na zona 2)
O grande diferencial é que você não precisa ficar apertando botões no Strava ou no seu ciclocomputador. Basta iniciar o cronômetro uma vez e manter o ritmo até completar o tempo total desejado.
Progressão recomendada:
- Iniciante: 20 repetições (40 minutos totais)
- Intermediário: 25 repetições (50 minutos totais)
- Avançado: 30 repetições (60 minutos totais)
Um aspecto fascinante deste treino é a percepção de esforço relativamente baixa em comparação com a potência média alcançada. Pesquisas indicam que você não consegue atingir o VO2máx em apenas 1 minuto, o que significa que não está criando fadiga metabólica excessiva, mas sim um estímulo aeróbico otimizado.
Dica importante: Evite a tentação de ultrapassar 105% do FTP nos intervalos intensos. O objetivo não é esgotamento, mas sim acúmulo de tempo de qualidade no limiar com menor desgaste muscular.
Este treino funciona excepcionalmente bem tanto ao ar livre quanto em plataformas virtuais como Zwift, onde você pode programar a sessão e seguir sem preocupações.
2. Múltiplos Intervalos Curtos: A Sabedoria Queniana Adaptada
Os corredores de longa distância do Quênia são conhecidos por sua abordagem única ao treinamento de limiar. Em vez de realizar longas sessões contínuas, eles preferem fragmentar o trabalho em múltiplos esforços curtos com pausas breves entre eles.
A lógica é simples e brilhante: intervalos mais curtos com recuperações incompletas permitem acumular um grande volume de trabalho no limiar sem o estresse mecânico e metabólico de esforços prolongados.
Estrutura dos Intervalos Curtos
Imagine realizar 10×3 minutos no limiar em vez de um esforço contínuo de 30 minutos. Embora o tempo total de trabalho seja o mesmo, o estresse percebido e a qualidade da execução são significativamente diferentes.
Especialistas em treinamento norueguês, reconhecidos mundialmente pela produção de atletas de resistência de elite, defendem que esta metodologia reduz o dano muscular enquanto maximiza as adaptações cardiovasculares.
Protocolos sugeridos:
- Iniciante: 8×3 minutos a 95-100% do FTP, com 1 minuto de recuperação a 40-50% do FTP
- Intermediário: 8×4 minutos a 95-100% do FTP, com 1-2 minutos de recuperação
- Avançado: 8×6 minutos a 95-100% do FTP, com 1-2 minutos de recuperação
Esta sessão é ideal para treinos em subidas médias onde você pode descer rapidamente para a recuperação, ou em estradas planas onde pode fazer meia-volta facilmente. Para quem treina indoor, plataformas como Zwift tornam a execução ainda mais prática com circuitos pré-programados.
A chave está em manter a consistência da potência em cada intervalo. Pesquisas demonstram que a duração total do trabalho é mais importante para melhorias no FTP do que realizar intervalos longos e irregulares.
3. Treinamento Lactate-Shuttle: Otimizando o Metabolismo do Lactato
Durante décadas, o lactato foi mal compreendido e injustamente culpado pela fadiga muscular. A ciência moderna revelou que o lactato não é um vilão, mas sim uma fonte de energia valiosa que seu corpo aprende a utilizar de forma cada vez mais eficiente.
Compreendendo a Teoria do Transporte de Lactato
O lactato é produzido principalmente nas fibras musculares de contração rápida (tipo 2) durante a glicólise anaeróbica. O fascinante é que órgãos como coração, cérebro e as próprias fibras tipo 1 adoram usar lactato como combustível.
Duas proteínas transportadoras são essenciais neste processo:
- MCT-4: Exporta o lactato para fora das fibras rápidas produtoras
- MCT-1: Importa o lactato para dentro das fibras tipo 1, onde as mitocôndrias o metabolizam
O objetivo do treinamento é aumentar a densidade desses transportadores, tornando seu corpo uma máquina eficiente de reciclagem de lactato.
Intervalos Over-Under: O Protocolo Definitivo
Os treinos over-under alternam períodos acima e abaixo do limiar de lactato, forçando seu sistema a primeiro produzir e depois eliminar lactato em intensidade elevada.
Estrutura da sessão:
- Iniciante: 2×12 minutos – 30 segundos a 125-140% do FTP, seguidos de 2:30 minutos a 80-85% do FTP. Recuperação de 6 minutos entre blocos.
- Intermediário: 3×12 minutos com a mesma prescrição de potência
- Avançado: 3×15 minutos com a mesma prescrição de potência
Se executado corretamente, você observará um padrão característico: a frequência cardíaca sobe durante o esforço intenso e depois diminui gradualmente durante o período “under”, mesmo mantendo uma potência moderadamente alta. Este é o sinal de que seu corpo está aprendendo a processar o lactato de forma mais eficiente.
Esta metodologia ganhou destaque nos últimos anos após estudos demonstrarem seu impacto positivo na capacidade de manter potências elevadas por períodos prolongados – exatamente o que define um FTP alto e sustentável.
4. Esforços de Tempo (Zona 3): O Poder da Intensidade Moderada
Nem toda melhoria de FTP precisa vir de treinos no limite da exaustão. Os esforços de tempo na zona 3 (80-85% do FTP) representam uma abordagem subestimada, mas extremamente eficaz para construir uma base aeróbica sólida.
Por Que a Zona 3 É Especial
Nesta intensidade específica, você cruza o primeiro limiar de lactato (LT1), recrutando as fibras tipo 2a – aquelas que possuem potencial de conversão para fibras mais resistentes à fadiga.
O conceito é fascinante: ao estressar repetidamente essas fibras intermediárias por períodos prolongados, você estimula uma transformação metabólica. Elas se tornam mais eficientes aerobicamente, desenvolvem mais mitocôndrias e, gradualmente, assumem características das fibras tipo 1.
Pesquisas revelam que a fadiga em 80-90% do Poder Crítico ocorre 4 a 5 vezes mais lentamente do que acima desse nível. Isso torna o Tempo uma intensidade notavelmente sustentável, permitindo acumular grandes volumes de trabalho de qualidade.
Protocolos de Treino de Tempo
Você pode optar por intervalos estruturados ou esforços contínuos, dependendo do seu nível e objetivos:
Formato Intervalado:
- Iniciante: 4×10 minutos a 80-85% do FTP, recuperação de 3-5 minutos
- Intermediário: 4×15 minutos a 80-85% do FTP, recuperação de 5-6 minutos
- Avançado: 20 minutos + 6×10 minutos a 80-85% do FTP, recuperação de 2-3 minutos
Formato Contínuo:
- Iniciante: 40 minutos contínuos a 80-85% do FTP
- Intermediário: 50-60 minutos contínuos a 80-85% do FTP
- Avançado: 70-90 minutos contínuos a 80-85% do FTP
Esta metodologia é particularmente valiosa para ciclistas com perfil anaeróbico (puncheurs, sprinters) que precisam desenvolver resistência aeróbica. Como a eliminação de lactato supera a produção nesta intensidade, você consegue manter esforços prolongados sem acumular fadiga excessiva.
Os benefícios incluem aumento da densidade de capilares musculares, proliferação mitocondrial e melhoria na eficiência das fibras tipo 1 e 2a – todos fatores que contribuem diretamente para um FTP mais elevado.
Implementação Estratégica: Como Integrar Estes Treinos
Não existe uma fórmula mágica para aumentar o FTP da noite para o dia. Melhorar de 200 para 300 watts pode levar meses ou até anos, dependendo do seu ponto de partida e potencial genético.
Frequência e Periodização
A recomendação é realizar 2 a 3 sessões específicas por semana, alternando entre as diferentes metodologias apresentadas. Esta variedade não apenas mantém o treinamento interessante, mas também estimula diferentes aspectos do seu sistema energético.
Exemplo de microciclo semanal:
- Segunda: Recuperação ativa ou descanso
- Terça: Fartlek (40-50 minutos)
- Quarta: Endurance base (zona 2)
- Quinta: Intervalos Over-Under
- Sexta: Recuperação ativa
- Sábado: Esforço de Tempo longo (60-90 minutos)
- Domingo: Pedal longo regenerativo ou descanso
Nutrição e Recuperação: Os Pilares Esquecidos
O treinamento é apenas uma parte da equação. Para materializar as adaptações fisiológicas que levam ao aumento do FTP, você precisa fornecer os blocos de construção necessários através da nutrição adequada.
Carboidratos são essenciais para reabastecer os estoques de glicogênio muscular e permitir que você treine com qualidade nas sessões subsequentes. Não negligencie a ingestão adequada de carboidratos, especialmente ao redor dos treinos intensos.
Além disso, inclua semanas de recuperação a cada 3-4 semanas de treino progressivo. Durante essas semanas, reduza o volume e a intensidade em cerca de 40-50%, permitindo que seu corpo consolide as adaptações e se prepare para o próximo bloco de trabalho.
Monitoramento e Ajustes
Utilize um medidor de potência para executar estes treinos com precisão. A consistência dos números é fundamental para garantir que você está aplicando o estímulo correto.
Realize testes de FTP a cada 6-8 semanas para recalibrar suas zonas de treino. À medida que você melhora, os valores absolutos de potência para cada zona aumentarão, e é importante ajustar seus treinos de acordo.
Lembre-se: seu corpo é uma máquina complexa, mas altamente adaptável. A chave está em aplicar diferentes tipos de estresse de forma consistente e progressiva, sempre respeitando os princípios de recuperação adequada.
Conclusão: O Jogo é de Longo Prazo
Melhorar o FTP é uma jornada, não um destino. As quatro metodologias apresentadas – Fartlek, Múltiplos Intervalos Curtos, Lactate-Shuttle e Esforços de Tempo – oferecem caminhos diferentes para o mesmo objetivo: tornar você mais rápido e resistente.
Cada sessão trabalha aspectos específicos do seu metabolismo energético:
- O Fartlek desenvolve tolerância ao limiar com baixo estresse psicológico
- Os Intervalos Curtos acumulam volume de qualidade minimizando dano muscular
- O Lactate-Shuttle otimiza seu sistema de reciclagem de lactato
- O Tempo promove transformação das fibras musculares e proliferação mitocondrial
A variedade não é apenas o tempero do treinamento – é um requisito fisiológico para estimular adaptações abrangentes. Ao combinar essas metodologias de forma inteligente, você estimula seu corpo de múltiplas maneiras, acelerando o processo de evolução.
Mantenha a consistência, respeite a recuperação, alimente-se adequadamente e, acima de tudo, tenha paciência. Os ganhos virão, um giro de pedal por vez.
Para mais informações sobre como fazer treino intervalado de forma eficiente, explore nossos outros artigos sobre metodologias de treinamento no ciclismo.





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