144 quilômetros de La Voulte-sur-Rhône até o topo do Mont Ventoux. Sexta-feira, 7 de agosto. Pela primeira vez em oito dias de Tour de France Femmes, o pelotão largou sem estar a fundo desde o quilômetro zero.
Uma ciclista resumiu o alívio à Cycling Weekly: “foi a primeira etapa em que a gente conseguiu fazer isso. Finalmente não foi full gas desde o zero.” Isso: parar. Descer da bicicleta. Fazer xixi.
No comunicado dos comissários publicado à noite, três nomes da FDJ United-SUEZ apareciam lado a lado: Demi Vollering, Juliette Berthet e Célia Gery. Motivo: “comportamento inapropriado (urinar em público durante a corrida)”. Cem francos suíços cada.
Cem francos é o piso da tabela. É a multa mais barata aplicada naquele dia, menor que os 200 francos cobrados de cinco diretores esportivos por sticky bottle na mesma etapa. E é, de longe, a mais cara que uma ciclista pode receber.
O que exatamente foi punido
O enquadramento é o artigo 2.12.007 do regulamento da UCI, item 8.6: comportamento indecoroso ou inadequado, “em particular despir-se ou urinar em público”. A justificativa formal é a imagem do esporte. Nas provas WorldTour femininas, a faixa vai de 100 a 200 francos suíços. Os comissários aplicaram o mínimo.
A etapa 7 foi, aliás, um festival de canetadas. Além das três multas por xixi, saíram no dia da primeira chegada feminina no Ventoux cinco multas de 100 francos para ciclistas e cinco de 200 para diretores por alimentação irregular, mais 200 francos para Rosa Klöser por assistência irregular e outros 200 para a diretora Marie Nicolas, da própria FDJ, por descumprir instruções dos comissários.
Some tudo e a FDJ United-SUEZ saiu do Ventoux devendo 500 francos suíços. Trezentos deles porque três ciclistas beberam demais e o corpo cobrou.
O detalhe que inverte a conta
A leitura fácil aqui é a indignada: a UCI multa mulheres por uma necessidade fisiológica. Ela tem um problema: os números não a sustentam.
No Tour de France masculino de 2026, encerrado há três semanas, houve exatamente uma multa por urinar em público. Hugo Page, da Cofidis, na etapa 18. Valor: 500 francos suíços.
Cinco vezes mais caro do que Vollering pagou. E ninguém escreveu uma linha sobre isso.
Não escreveu porque, no caso de Page, a multa era o custo integral do episódio. Ele pagou, seguiu no pelotão e terminou a etapa onde teria terminado de qualquer jeito. A punição da UCI foi o preço total da parada dele. Para uma mulher, é a menor parcela.
Por que a mesma regra cobra preços diferentes
A assimetria não está no regulamento. Está na mecânica.
Um ciclista homem consegue urinar em movimento: uma mão no guidão, uma perna apoiada no top tube, de preferência numa leve descida, sem sair do grupo. Mark Cavendish já descreveu a rotina: “alguns fazem duas, três, quatro vezes durante a corrida. Eu vou logo no começo”. Quando para, para por segundos, e o pelotão masculino tem o costume consolidado de neutralizar informalmente esses momentos.
Uma ciclista mulher não tem essa opção. Precisa parar, descer, abrir o macaquinho. Com o skinsuit de peça única virando padrão no pelotão feminino, isso significa tirar metade do uniforme. A sul-africana Ashleigh Moolman Pasio descreveu o protocolo: “normalmente começa com alguém dizendo ‘preciso fazer xixi, você precisa?’. Aí você tenta juntar gente de equipes diferentes para todo mundo parar junto”.
Repare no que essa frase carrega. A parada não é individual: é uma negociação diplomática em movimento, feita a 40 km/h, entre rivais que estão disputando a mesma corrida. Ela só funciona se o pelotão inteiro concordar em não atacar. E o pelotão nem sempre concorda.
Nove segundos
Maio de 2023, Vuelta Femenina. Vollering liderava a prova. Parou para uma pausa fisiológica. A Movistar acelerou na frente enquanto ela estava fora da bicicleta.
Ela perdeu a corrida no dia seguinte por nove segundos.
Não existe multa de 100 francos que chegue perto disso. Um Grand Tour inteiro, com três anos de planejamento atrás, resolvido pela diferença entre parar e não parar. Daí a comparação com Hugo Page: a UCI cobra o mesmo tipo de infração de dois esportes em que o custo real do ato é incomparável, e cobra menos justamente de quem já paga mais caro em outra moeda.
A regra é formalmente idêntica para todos, e é exatamente por isso que ela é desigual.
A regra que quase ninguém aplicava
A multa por xixi, aliás, estava praticamente extinta.
Em 2019, quinze ciclistas foram multados em 200 francos cada no Tour de France por esse motivo. Em 2021, Wout van Aert e Luke Rowe pagaram 200 francos cada pelo mesmo enquadramento. Johan Vansummeren coleciona três multas em 2010. E em 2025, o Tour masculino inteiro produziu uma única sanção do tipo, aplicada a Arnaud De Lie.
De quinze para um em seis anos. A regra continua no papel, intacta; o que mudou foi a disposição dos comissários de aplicá-la. Virou letra morta por acordo tácito: os jurados passaram a tratar necessidade fisiológica como aquilo que ela é.
Só que a letra morta ressuscitou. E ressuscitou na prova feminina, numa edição em que o júri já vinha aplicando sanções em ritmo industrial: 500 francos e cartão amarelo para quatro pessoas logo na etapa 1, incluindo um motorista de veículo de imprensa; penalidade de um minuto para Dina Boels na etapa 2; 250 francos e 15 pontos UCI descontados de Pauline Ferrand-Prévot na etapa 5; a campeã mundial Lotte Kopecky multada por sticky bottle na etapa 6.
É o mesmo rigor microscópico que desclassificou Lorena Wiebes por 20 gramas no Giro Women, e o mesmo impulso regulatório que produziu a regra dos 200 metros para os sprints. A UCI está numa fase de escrever tudo, e o pelotão feminino é onde a caneta encosta primeiro.
O outro lado, com a mesma honestidade
Vale expor a defesa do júri, porque ela não é frágil.
Primeiro: a regra existe para todos e foi aplicada no valor mínimo. Cem francos, e não duzentos, é um recado explícito de que os comissários entenderam a natureza do caso. Um júri hostil teria dobrado.
Segundo: a etapa 7 foi transmitida ao vivo, com helicóptero e motos de TV cobrindo cada metro do Ventoux, uma montanha com trechos fechados ao público justamente por exposição, sem árvore, sem muro, sem nada. O terreno não oferecia privacidade a ninguém. Se a imagem do esporte é o bem jurídico protegido, o Ventoux é o pior lugar possível para relaxar a fiscalização.
Terceiro, e mais incômodo para quem se indigna rápido: aplicar a regra igualmente é o oposto de ignorá-la só na prova feminina. Um júri que multasse homens e poupasse mulheres estaria tratando o Tour de France Femmes como um evento de segunda categoria, ao qual se aplica um regulamento mais frouxo. Vollering pagou 100 francos porque corre uma prova que a UCI leva a sério.
O problema não é a multa. É que ela é a única parte do episódio que aparece no comunicado oficial, e a menos relevante das que existem.
Onde isso encosta em quem pedala no Brasil
A distância entre o Mont Ventoux e um pedal de domingo em São Paulo é menor do que parece.
O Perfil do Atleta Brasileiro de 2024, da Ticket Sports, contou 54 mil inscritos em provas de bicicleta no país. As mulheres eram 25%. O Perfil do Ciclista Brasileiro, do Transporte Ativo, mostra que mulheres pedalam 37% menos que homens. E um levantamento da Strava no mesmo ano apontou que ciclistas mulheres são 40% mais propensas a treinar em ambiente fechado, em academia, em vez da rua.
As pesquisas atribuem o padrão principalmente à insegurança. Em São Paulo, 65,7% das ciclistas ouvidas relataram algum tipo de agressão ou importunação pedalando; em Belém, 67,7%. Mas quem organiza prova amadora no Brasil conhece o item que nunca entra em estatística: quantos banheiros havia na largada, quantos deles funcionavam, e a que distância ficava o próximo.
Uma ciclista de 34 anos que larga num granfondo de 100 km numa estrada rural do interior paulista enfrenta a mesma equação de Vollering no Ventoux, sem prêmio e sem multa. Se ela para, perde o grupo. Se perde o grupo, faz os últimos 40 km sozinha no vento. A diferença é que ninguém escreve comunicado sobre isso. E, no caso dela, não existe pelotão para negociar a parada coletiva.
Topo do Mont Ventoux, fim de tarde de 7 de agosto. Kasia Niewiadoma-Phinney chega com a camisa amarela conquistada num ataque histórico. Demi Vollering cruza atrás, lamentando não ter fechado a diferença a tempo. Horas depois, quando as duas já estão no hotel, o júri publica a lista do dia. O nome de Vollering está lá, não pela etapa, não pelo tempo perdido, mas por ter descido da bicicleta numa montanha sem um único lugar onde se esconder. Cem francos suíços. A menor cifra do comunicado inteiro.
Vinte e quatro horas depois
Neste sábado, 8 de agosto, entre Sisteron e Nice, Vollering atacou na última subida a pouco mais de seis quilômetros da chegada, venceu a etapa 8 com 17 segundos de vantagem sobre Niewiadoma-Phinney e retomou a camisa amarela.
A etapa terminou em nova polêmica: a polonesa acusou Célia Gery, uma das três multadas na véspera, de fechá-la contra as grades. “Perdi todo o respeito por eles por isso”, disse. Os comissários analisaram e arquivaram.
Vollering lidera por oito segundos a menos de 24 horas da etapa final, um circuito de 99 km em Nice com quatro passagens pelo Col d’Èze. Oito segundos. Menos do que os nove que ela perdeu na Vuelta de 2023 por ter parado para fazer xixi.
Se o Tour de France Femmes 2026 se decidir por essa margem no domingo, valerá guardar a conta completa. A ciclista que venceu três Liège-Bastogne-Liège seguidas pode ganhar ou perder o maior Grand Tour do calendário feminino por menos tempo do que custa abrir um macaquinho. E o único documento oficial que registrará qualquer coisa sobre isso vai dizer, em uma linha, que ela deve cem francos suíços.
Dúvidas que sobraram
Por que Demi Vollering foi multada no Tour de France Femmes 2026?
Por urinar em público durante a etapa 7, com chegada no Mont Ventoux, em 7 de agosto de 2026. As companheiras de FDJ United-SUEZ Juliette Berthet e Célia Gery receberam a mesma sanção. Cada uma pagou 100 francos suíços, o valor mínimo previsto para a infração em provas WorldTour femininas.
Qual regra da UCI proíbe ciclistas de urinar durante a corrida?
O artigo 2.12.007, item 8.6, do regulamento da UCI, que trata de comportamento indecoroso ou inadequado e cita expressamente despir-se ou urinar em público. A justificativa formal é a proteção da imagem do esporte. A faixa de multa vai de 100 a 200 francos suíços no WorldTour feminino.
Homens também são multados por isso no Tour de France?
Sim. No Tour de France masculino de 2026 houve uma multa do tipo: Hugo Page, da Cofidis, pagou 500 francos suíços na etapa 18. Em 2021, Wout van Aert e Luke Rowe pagaram 200 francos cada. A aplicação, porém, despencou: em 2019 foram quinze ciclistas multados numa única edição; em 2025, apenas um.
Como as ciclistas profissionais fazem xixi durante uma prova?
Ao contrário dos homens, que conseguem urinar em movimento, as mulheres precisam parar, descer da bicicleta e abrir o uniforme, o que ficou mais complicado com a popularização dos macaquinhos de peça única. Na prática, elas combinam paradas coletivas entre equipes rivais para que ninguém perca posição. Reunimos as técnicas, as regras e os números completos neste guia.
Vollering já perdeu alguma corrida por causa de uma parada dessas?
Sim. Na Vuelta Femenina de 2023 ela parou para uma pausa fisiológica enquanto liderava, a Movistar acelerou no momento em que ela estava fora da bicicleta, e a holandesa acabou perdendo a prova por nove segundos.
Quem lidera o Tour de France Femmes 2026 antes da última etapa?
Demi Vollering, com oito segundos de vantagem sobre Kasia Niewiadoma-Phinney, após vencer a etapa 8 em Nice neste sábado. A etapa 9, no domingo, 9 de agosto, é um circuito de 99 km em Nice com quatro subidas do Col d’Èze e chegada na Promenade des Anglais.
Fontes: Cycling Weekly, Cyclingnews (multas e penalidades), Cyclingnews (Tour masculino), CyclingUpToDate, Escape Collective, road.cc, Aliança Bike.




