29 de setembro de 2024. Largada da Volta a Langkawi, na Malásia. Um italiano de 29 anos chamado Giovanni Carboni assina a folha de partida como qualquer outro corredor do Asia Tour.
3 de agosto de 2026. O Tribunal Antidopagem da UCI conclui que as amostras de sangue colhidas naquela corrida e nas semanas seguintes foram “muito provavelmente causadas pelo uso de uma substância proibida ou de um método proibido”. Quatro anos de suspensão.
Entre uma data e outra passaram 22 meses. É esse o número da notícia — não o quatro.
O que o tribunal decidiu
A decisão saiu em 3 de agosto e foi divulgada pela ITA, a agência independente que opera o programa antidopagem da UCI. Carboni cometeu uma violação por uso de substância ou método proibido, enquadrada no artigo 2.2 do regulamento — o artigo que dispensa flagrante e se apoia em evidência indireta.
A sanção vai de 11 de setembro de 2025 a 10 de setembro de 2029. Quando terminar, ele terá 34 anos. Todos os resultados obtidos entre a largada de Langkawi e a suspensão provisória foram anulados.
Um painel independente de especialistas concluiu de forma unânime que as anomalias no passaporte biológico do ciclista, durante e depois daquela corrida, não tinham explicação fisiológica. Não houve substância identificada. Não houve frasco. Houve um gráfico de hemoglobina e reticulócitos que não fechava com nenhuma hipótese natural.
O que o passaporte biológico faz, desde 2008, é exatamente isso: em vez de procurar a droga, procura o rastro que ela deixa no sangue ao longo de meses. É a resposta do ciclismo à EPO e às versões dela que o exame direto deixou de enxergar — a ferramenta que nasceu do trauma acumulado desde o escândalo Festina de 1998.
Os onze meses e meio em que ele continuou correndo
Aqui está a parte que os comunicados não juntam.
As anomalias aparecem em setembro e outubro de 2024, enquanto Carboni corria pela JCL Team UKYO, equipe japonesa de terceiro escalão. A suspensão provisória só chega em 11 de setembro de 2025. São onze meses e meio de intervalo.
Nesse período ele não parou. Fechou contrato com a Unibet Tietema Rockets para a temporada 2025 e correu o ano inteiro por ela — até a equipe descobrir o caso pelo comunicado oficial e afastá-lo no mesmo dia. Um ciclista cujo sangue já estava sob análise de um painel de especialistas passou uma temporada inteira disputando resultados contra corredores limpos, e ninguém no pelotão tinha como saber.
Repare no que o regulamento preserva: as vitórias de Carboni na Volta ao Japão de 2024 — geral mais duas etapas — e o segundo lugar na Volta à Bulgária continuam válidos. São anteriores a Langkawi. O passaporte só carimba o que consegue provar, e o que ele conseguiu provar começa numa quarta-feira de setembro na Malásia.
O passaporte biológico não pega ninguém em flagrante. Ele escreve o obituário — e leva dois anos para assinar.
Não é um caso. É uma fila.
Carboni é o terceiro nome recente a cair pelo mesmo mecanismo, e todos os casos anteriores carregam a mesma assinatura temporal.
Franck Bonnamour: as anomalias são de 2022. A decisão do tribunal saiu em 22 de agosto de 2025 — três anos depois — com suspensão retroativa a fevereiro de 2024. O francês foi eleito o mais combativo do Tour de France de 2021 pela B&B Hotels, migrou para a AG2R quando a equipe quebrou, e encerrou a carreira sem jamais ter testado positivo em nenhum exame direto. Sobre continuar se defendendo, resumiu em duas palavras: “caro demais”.
Robert Stannard: anomalias de 2018, quando o australiano ainda subia da base. Ban de quatro anos retroativo, multa de 70% do salário anual. Cumpriu, voltou e hoje corre pela Bahrain Victorious, no WorldTour.
António Carvalho Ferreira: 36 anos, português, punido em dezembro de 2025 por anomalias registradas em 2018, 2023 e 2024. Sete anos entre a primeira leitura suspeita e a assinatura da punição. O caso foi encerrado por aceitação das consequências — o equivalente antidopagem de um acordo.
Quatro ciclistas, quatro suspensões de quatro anos, zero exames positivos. E, em todos os casos, um intervalo entre o desvio e a consequência medido em anos, não em semanas.
O padrão que ninguém nomeia: onde essas pessoas estavam
Olhe de novo para a lista e some as equipes: JCL Team UKYO no Asia Tour, Unibet Rockets, W52/FC Porto e ABTF Betão-Feirense no pelotão continental português, B&B Hotels na segunda divisão francesa. Nenhum WorldTeam de topo. Nenhuma estrela.
A leitura confortável é que o doping migrou para os andares de baixo. A leitura desconfortável é outra: o passaporte biológico chegou aos andares de baixo há pouquíssimo tempo, e a onda de casos é o efeito da cobertura nova, não de um surto novo.
O ciclismo português dá o exemplo mais limpo dessa conta. Em janeiro de 2023, a ADoP e a Federação Portuguesa de Ciclismo assinaram um protocolo que colocou 92 ciclistas das equipas continentais no passaporte biológico, ao custo de 120 mil euros por ano — metade paga pelas equipas, a 500 euros por corredor inscrito. Mil e trezentos euros por ciclista por temporada, três controles fora de competição no mínimo. O presidente da federação chamou de pioneiro no mundo.
Agora repare nas datas das anomalias de Carvalho: 2018, 2023 e 2024. As duas últimas caem exatamente dentro da janela em que Portugal passou a olhar. O sangue de 2018 só virou prova quando ganhou companhia.
Compare com o que acontece no topo. No Tour de France de 2025, a ITA planejou cerca de 600 amostras em competição, mais 350 controles fora de competição só no mês anterior à largada, com mais de 40 funcionários em campo e 13 oficiais especializados em coleta de sangue. Em 2024, a agência dobrou o armazenamento de longo prazo, guardando 1.690 amostras por até dez anos — 76 delas do próprio Tour. E as equipes, os organizadores e os próprios ciclistas do WorldTour aceitaram um aumento de 35% no financiamento do programa.
Um ciclista do Tour recebe, em quatro semanas, mais atenção laboratorial do que um continental asiático recebe em três temporadas. Não é acaso: é o mesmo dinheiro que sustenta a hierarquia do pelotão sustentando a hierarquia da vigilância.
Por que a leitura pessimista pode estar errada
Vale expor o outro lado com a mesma honestidade.
Primeiro: lentidão não é o mesmo que falha. O passaporte biológico foi desenhado para ser lento. Ele precisa de série histórica, de comparação com o próprio atleta, de painel independente e de contraditório. Um sistema que punisse em três semanas com base em duas coletas seria rápido — e condenaria gente inocente por altitude, desidratação ou infecção.
Segundo: os quatro anos que Carboni cumprirá são a punição máxima do código. Nenhum dos quatro casos terminou em advertência.
Terceiro, e mais incômodo: a ausência de estrelas na lista pode significar simplesmente que, onde a vigilância é densa, ela funciona como dissuasão. O rigor que a UCI aplica a 20 gramas a mais numa bicicleta tem paralelo no sangue: quem corre sob 950 amostras num único mês calcula o risco de outro jeito. E há punição no topo — só que por outras vias: Nairo Quintana perdeu o sexto lugar no Tour de 2022 por tramadol, substância proibida pelo regulamento médico da UCI sem configurar violação antidopagem.
Só que essa defesa tem um custo que ninguém contabiliza. Bonnamour encerrou a carreira sem positivo e sem dinheiro para continuar recorrendo. Stannard pagou 70% de um ano de salário e voltou dizendo não haver evidência de irregularidade. Um sistema que demora três anos para decidir transfere o preço da própria lentidão para o acusado — inclusive quando ele tem razão.
Onde isso encosta em quem pedala no Brasil
O ciclista brasileiro que sonha em correr na Europa entra no esporte exatamente pela porta onde esses casos aconteceram: equipes continentais, calendários asiáticos, provas ibéricas. Não pelo Tour.
E o retrato doméstico é duro. Em levantamento da ABCD divulgado em maio de 2024, o Brasil tinha 67 atletas em suspensão definitiva por doping. O ciclismo liderava com 23 — mais de um terço do total, à frente do levantamento de peso e muito à frente do futebol. E aquela lista contava apenas punições nacionais: os casos julgados pela UCI ficam de fora.
O exemplo mais recente não envolve substância nenhuma. Vinicius Rangel, ex-Movistar, pegou 20 meses por três falhas de localização no sistema ADAMS — de 27 de agosto de 2025 a 26 de abril de 2027. Nenhum exame acusou nada. O que o derrubou foi não estar onde disse que estaria, três vezes em doze meses.
É a versão espelhada do caso Carboni. Um foi punido porque o sistema conseguiu vê-lo demais; o outro, porque não conseguiu vê-lo o suficiente. Os dois receberam anos de suspensão sem que um único frasco tivesse acusado positivo.
Setembro de 2025. Um e-mail chega à sede da Unibet Rockets informando que um dos corredores do elenco está provisoriamente suspenso por anomalias no passaporte biológico registradas quase um ano antes, numa corrida na Malásia, por uma equipe japonesa que já nem é a dele. A equipe suspende o ciclista no mesmo dia. Onze meses depois, o tribunal confirma. Entre a coleta de sangue que iniciou tudo e a frase final do processo, Carboni assinou um contrato novo, mudou de país, disputou uma temporada inteira e envelheceu dois anos.
A pergunta que o comunicado da ITA não responde
A pergunta óbvia é “o antidoping está funcionando?”. A resposta é sim, e ela é insuficiente.
A pergunta correta é: de que serve um sistema que identifica a fraude com precisão, mas só a interrompe uma temporada depois?
Cada mês de intervalo é um mês de resultados falsificados que contaram como verdadeiros — pódios, contratos, vagas em equipe, prêmios em dinheiro que foram para o bolso errado e raramente voltam. Os corredores que terminaram atrás de Carboni entre setembro de 2024 e setembro de 2025 recebem agora uma reclassificação em planilha, quase dois anos depois de terem perdido a corrida.
O passaporte biológico é a melhor ferramenta que o ciclismo já teve. Também é a mais lenta — e a que menos gente pode pagar. Enquanto o topo do esporte é auditado com 950 amostras em um mês de julho e a base é auditada com três controles anuais rateados a 500 euros por cabeça, a lista de banidos vai continuar parecendo um mapa do doping quando na verdade é um mapa do orçamento.
Vinte e dois meses. Quatro anos de suspensão. Zero exames positivos. E uma temporada inteira que aconteceu no meio.
Dúvidas que sobraram
O que é o passaporte biológico no ciclismo?
É um registro eletrônico individual que acompanha variáveis do sangue e de esteroides do atleta ao longo do tempo. Em vez de procurar a substância proibida na amostra, o método procura variações que o corpo não explicaria sozinho. Um painel independente de especialistas analisa o histórico, e a conclusão deles pode sustentar uma punição sem que nenhum exame tenha dado positivo.
Por que Giovanni Carboni foi suspenso por quatro anos?
O Tribunal Antidopagem da UCI decidiu, em 3 de agosto de 2026, que as anomalias no passaporte biológico do italiano durante e depois da Volta a Langkawi de 2024 foram muito provavelmente causadas pelo uso de substância ou método proibido. A suspensão vai de 11 de setembro de 2025 a 10 de setembro de 2029, e todos os resultados obtidos entre 29 de setembro de 2024 e 11 de setembro de 2025 foram anulados.
Carboni perdeu a vitória na Volta ao Japão de 2024?
Não. A geral e as duas etapas do Tour of Japan de 2024, assim como o segundo lugar na Volta à Bulgária, são anteriores à Volta a Langkawi e permanecem no palmarès dele. A anulação começa apenas em 29 de setembro de 2024.
Quantos ciclistas já foram punidos pelo passaporte biológico recentemente?
Carboni é o terceiro caso recente na estrada, depois do francês Franck Bonnamour (suspenso até fevereiro de 2028) e do australiano Robert Stannard (quatro anos retroativos por anomalias de 2018, já cumpridos). Em dezembro de 2025, o português António Carvalho Ferreira também pegou quatro anos por anomalias registradas em 2018, 2023 e 2024.
Quantos ciclistas brasileiros estão suspensos por doping?
Em levantamento da ABCD divulgado em maio de 2024, o ciclismo liderava a lista brasileira com 23 atletas em suspensão definitiva, de um total de 67 em todos os esportes. O número considera apenas punições aplicadas no Brasil e não inclui casos julgados pela UCI.
Dá para ser punido no antidoping sem nunca testar positivo?
Sim, e é o que aconteceu em todos os casos citados aqui. As anomalias do passaporte sustentam a violação por uso de substância ou método proibido. Existe ainda uma segunda via: três falhas de localização no sistema ADAMS em doze meses também configuram infração — foi assim que o brasileiro Vinicius Rangel recebeu 20 meses de suspensão em 2025.
Fontes: International Testing Agency, Cyclingnews, Cycling Weekly, ITA (caso Bonnamour), UCI, Goride, Metrópoles.




