A Puente de la Fabriquilla, que dá acesso à subida do Alto de Hazallanas, não sobreviveu ao dia 5 de fevereiro. A borrasca Leonardo desceu sobre Granada nos primeiros dias do mês, a cheia do rio Genil golpeou a via com violência, os taludes escorregaram sobre o asfalto e o caminho estreito que trepa de Güéjar Sierra até a Sierra Nevada virou obra pública. Em 9 de julho, o Governo espanhol aprovou 11,6 milhões de euros para reparar os danos do temporal no município. Do total, 8,9 milhões foram destinados a uma única estrada: o Camino de Hazallanas.
Nesta sexta-feira (7), a Unipublic confirmou o que qualquer morador de Güéjar Sierra já sabia. A Vuelta a España 2026 não vai passar por lá.
A organização anunciou a substituição do Hazallanas pelo inédito Puerto de El Duque na etapa 20, a etapa rainha, marcada para 12 de setembro. E garantiu, no comunicado oficial, que o novo traçado mantém “um nível de dureza e exigência em linha com o percurso apresentado em dezembro”. A imprensa internacional repetiu a frase e classificou a mudança como um novo teste para Tadej Pogačar.
O total de dureza, é verdade, continua ali. Mas a dureza mudou de endereço — e o novo endereço é o pior possível para quem precisa tirar a Vuelta das mãos de Pogačar.
O que saiu e o que entrou
O desenho original de dezembro era brutal em uma direção muito específica. Cinco portos classificados, com dupla passagem pelo Alto de Hazallanas — 5,5 km a 9,8% de média, com rampas de 18% e 19% na parte baixa, segundo os dados de corrida da Cyclingnews. Duas vezes. Outras medições, como a da cyclingstage, dão 7,1 km a 9,5% com trecho máximo de 20%; a diferença está no ponto onde cada base começa a contar a subida. Em qualquer uma delas, é uma parede.
A Vuelta já escalou o Hazallanas três vezes (2013, 2017 e 2024), mas o usou como chegada em alto uma única vez: em 2013, quando Chris Horner venceu ali e seguiu para ganhar a geral com 41 anos. É o precedente mais famoso da montanha, e o motivo pelo qual a dupla passagem de 2026 chamava tanta atenção.
O novo traçado troca essa dupla passagem por duas coisas: uma segunda subida ao Puerto de El Purche e uma passagem única pelo Puerto de El Duque, estreante absoluto na prova. El Duque tem 4,8 km a 8,2% e cume a 1.670 metros. Divide os dois quilômetros finais com o Hazallanas — é literalmente a mesma estrada no topo, alcançada por um flanco diferente.
A distância oficial segue em 187 km na página da etapa. A Cyclingnews mediu 186,8 km e um desnível de cerca de 5.000 metros, contra os aproximadamente 5.120 do desenho original. São números de terceiros, não da organização — e a diferença é pequena o suficiente para a Unipublic dizer, com razão, que a quilometragem se mantém “praticamente idêntica”.
A faixa dos 10%
Em 3 de julho, dias antes da largada do Tour de France 2026, a Cyclingnews publicou um confronto fisiológico entre Pogačar e Jonas Vingegaard que explica melhor essa etapa do que qualquer altimetria.
Pogačar pesa entre 64 e 66 quilos. Vingegaard, cerca de 60. A 7 watts por quilo, o esloveno entrega aproximadamente 455 watts; o dinamarquês, 420. São 35 watts de diferença absoluta — e watts absolutos vencem inclinações moderadas, onde a velocidade é maior e a resistência do ar ainda cobra pedágio. A frase da reportagem é categórica: “até o gradiente passar de 10%, a vantagem de potência bruta de Pogačar se traduz em velocidade superior.” Ele sobe uma rampa de 8% na coroa grande.
Acima de 10% é onde a conta vira. A velocidade cai, o ar deixa de importar, e o que sobra é peso contra gravidade. Ali os 60 quilos de Vingegaard rendem mais por watt do que os 66 do esloveno — e ali, e só ali, um adversário mais leve ganha terreno.
Agora releia a troca com esse limiar na cabeça. O Hazallanas tinha 9,8% de média, mas trazia rampas de 18% e 19%. Duas vezes. Eram os únicos trechos acima de 10% no meio da etapa — as duas janelas em que um ataque de longe, a 60 ou 40 quilômetros da meta, tinha física a favor de quem atacava. O El Duque, com 8,2%, não tem nada disso documentado.
O desnível total quase não mudou. O que mudou é que as rampas capazes de machucar Pogačar deixaram de existir a meio caminho e passaram a existir em um só lugar: os oito quilômetros finais.
O que sobrou de perigo
E esse lugar, a mudança não tocou. É a coisa que importa.
A etapa 20 continua terminando no Collado del Alguacil: 8,3 km a 9,8% de média, com trechos de até 20%, segundo os dados oficiais da Vuelta. Cume acima dos 1.880 metros, por estrada estreita. A organização o descreve como “uma subida sem precedentes no mundo do ciclismo profissional” — catalogada pelo cicloturismo local, jamais usada em corrida profissional.
É a segunda chegada em alto da história no município de Güéjar Sierra. A primeira foi o Hazallanas, em 2013. As duas montanhas ficam no mesmo pedaço de mapa; uma foi levada pela água, a outra estreia num sábado de setembro decidindo uma Grande Volta.
Depois dela, sobra apenas a etapa 21: 99,4 km entre Armilla e Granada, com cinco passagens por uma subida de cerca de 1 km a 7,3% — parte em paralelepípedo — até a Alhambra, com a linha de chegada pouco antes do cume. Granada se torna a oitava cidade da história a coroar um campeão da Vuelta, depois de Madri, Bilbao, San Sebastián, Miranda de Ebro, Salamanca, Jerez de la Frontera e Santiago de Compostela. Uma etapa capaz de mudar segundos, não minutos.
Ou seja: quem quiser ganhar a Vuelta 2026 sem ser Pogačar tem oito quilômetros e trezentos metros para isso.
O nono nome de uma lista de oito
A conta que o esloveno veio fazer na Espanha é maior do que uma etapa.
Em 3 de agosto, a UAE Team Emirates-XRG o confirmou na Vuelta. “Estou animado em dizer que estou voltando à Vuelta. Foi a minha primeira Grande Volta, em 2019, e uma experiência incrível”, declarou ele no comunicado da equipe. Em 2019, com 20 anos, terminou 3º na geral e venceu três etapas — algo que, segundo a própria Vuelta, não se via de um ciclista com menos de 21 anos numa Grande Volta desde Giuseppe Saronni, no Giro de 1978.
Sete anos depois, ele volta com cinco Tours de France (2020, 2021, 2024, 2025 e o de 2026, que igualou o recorde de Anquetil, Merckx, Hinault e Indurain), um Giro d’Italia e uma temporada em que venceu quatro das seis etapas do Tour de Romandie antes de o calendário sério começar. Falta a Vuelta. Só ela — é a mais visível das lacunas que ainda restam no palmarès dele.
Vencer em Granada o transformaria no nono ciclista da história a ganhar as três Grandes Voltas. A lista tem oito nomes — e ganhou o último em 31 de maio deste ano, quando Jonas Vingegaard fechou o Giro d’Italia em Roma e entrou no clube de Anquetil, Gimondi, Merckx, Hinault, Contador, Nibali e Froome. Vingegaard levou oito temporadas de profissionalismo e uma reconstrução de carreira para chegar lá. Pogačar chega aos 27 anos, com a chance de fazer no mesmo ano a dobradinha Tour-Vuelta que só Anquetil (1963), Hinault (1978) e Froome (2017) conseguiram. Para medir onde isso o coloca, vale comparar com os dez maiores ciclistas de todos os tempos.
Quem sobrou para brigar
E aqui a mudança de percurso fica ainda mais desconfortável.
O ciclista cuja fisiologia mais se beneficiaria das rampas de 19% do Hazallanas é justamente Vingegaard. Ele abandonou o Tour na etapa 15, em 19 de julho, quando era segundo colocado, com fratura de clavícula. Foi operado dois dias depois. Não aparece na lista provisória de largada da Vuelta, e a Visma não fechou o calendário dele para o resto do ano.
Sobram, entre os confirmados ou esperados, Primož Roglič — quatro Vueltas, recorde igualado com Roberto Heras, 36 anos —, Felix Gall, Mattias Skjelmose e Enric Mas. E sobra João Almeida, segundo colocado em 2025, que a UAE escalou como apoio a Pogačar e segunda opção de geral. Na quinta-feira (6), o português abandonou o Tour de Pologne depois de uma queda que envolveu 30 a 40 ciclistas na etapa 4. Sem fraturas. “O asfalto era praticamente como gelo. Super escorregadio, não conseguias fazer nada”, disse. Segue previsto para largar em Mônaco em 22 de agosto. Isaac del Toro, terceiro no Tour, ficou de fora por gestão de carga.
“Praticamente idêntica”
O comunicado da Unipublic diz que a quilometragem da etapa se mantém “praticamente idêntica” à original e agradece às administrações locais a colaboração para “definir a melhor alternativa possível”. Nada ali é falso. A etapa 20 continua com cerca de 5.000 metros de desnível, continua terminando numa parede de 9,8% que ninguém nunca correu, e continua sendo um dos perfis mais cruéis de qualquer calendário recente.
Só que quilometragem e desnível não são a moeda em que se paga uma Grande Volta. A moeda é oportunidade. Oito milhões e novecentos mil euros de reparo em uma estrada de montanha é a medida real do que a água fez em Güéjar Sierra em fevereiro. E o que ela fez, do ponto de vista da corrida, foi apagar as duas únicas janelas em que alguém poderia atacar Pogačar de longe, deixando uma só — a última, com a linha de chegada em cima.
Em 12 de setembro, o pelotão vai chegar ao pé do Collado del Alguacil com cinco mil metros nas pernas e uma tarefa clara: descontar em 8,3 quilômetros o que já não pode ser descontado em nenhum outro lugar. Foi assim que a etapa ficou depois da enchente. Resta saber se alguém aparece para aproveitar.
A Vuelta a España 2026 acontece entre 22 de agosto, com um contrarrelógio de 9 km em Mônaco, e 13 de setembro, em Granada, ao longo de 21 etapas. No Brasil, a prova é historicamente transmitida pela ESPN e pelo Disney+; a emissora ainda não divulgou a grade oficial desta edição. Acompanhe toda a cobertura da Vuelta a España por aqui.




