No domingo, 2 de agosto, uma campervan velha parou na rua principal de Bowral, interior de Nova Gales do Sul. Quem desceu da bicicleta primeiro foi um garoto de 18 anos. Atrás dele veio o avô, Bob Montgomery, 82, que havia largado de Broome — costa noroeste da Austrália, do outro lado do continente — quarenta e um dias antes. No volante da van estava Jenny, casada com ele havia 59 anos. Na segunda-feira houve festa, abraço de vizinho, foto. Na noite de segunda, voltando para casa com Jenny ao lado, Bob teve um mal súbito e morreu.
A manchete que rodou o mundo nos últimos dois dias é sempre a mesma: “ciclista de 82 anos morre um dia depois de atravessar a Austrália”. É uma frase honesta e é uma frase inútil. Ela junta dois fatos por proximidade temporal e deixa o leitor preencher a causalidade sozinho — normalmente com a conclusão errada.
A história inteira não está no dia seguinte. Está nos 41 dias antes. E nos treze anos antes disso.
A conta que quase ninguém fez: 160 km por dia, aos 82
Comece pelos números, porque eles são mais interessantes do que a comoção. A travessia saiu de Broome em 22 de junho e terminou em Bowral em 2 de agosto: 41 dias cruzando Austrália Ocidental, Território do Norte, Queensland e Nova Gales do Sul. A distância aparece de três formas diferentes na imprensa — a Cycling Weekly registrou 5.290 km, a Bicycling Australia arredondou para 5.300 e o jornal da cidade dele usou 5.200. A média de pedal nos dias em que rodou: cerca de 160 quilômetros.
Para ter escala: a edição mais longa da história do Tour de France, em 1926, teve 5.745 km — número que levantamos quando reunimos 30 curiosidades verificadas da maior prova de ciclismo do mundo. Bob Montgomery fez 92% daquilo. Sem contrato, sem patrocínio, sem ônibus da equipe esperando na chegada de cada etapa — e com 82 anos nas pernas.
Ele resumiu a viagem, no meio dela, numa frase que vale mais que qualquer relatório de potência: “Plenty of problems, mate, plenty of problems, but the team’s holding together well.” Um monte de problema, cara, um monte de problema — mas o time está aguentando bem.
Repare na palavra que ele escolheu. Time.
Judith, 2013, e as seis travessias
Bob não começou a pedalar longe aos 82. Começou aos 69, em 2013, dias depois de perder a prima Judith para a esclerose lateral amiotrófica — a doença que os australianos chamam de MND, motor neurone disease. A primeira travessia foi Katoomba a Port Douglas. Vieram mais cinco.
- 3.000 km — Three Sisters a Port Douglas
- 2.900 km — Darwin a Port Douglas
- 3.900 km — Perth às Blue Mountains
- 4.200 km — Darwin a Perth
- 1.121 km — Sydney a Melbourne, em 2019, com o neto Tom, então com 12 anos
- 5.290 km — Broome a Bowral, 2026, com o mesmo Tom, agora com 18
Some a coluna: mais de 20 mil quilômetros de travessia acumulados entre os 69 e os 82 anos, e a mais longa de todas por último. Isso não é a curva de um corpo em declínio tentando um último feito impossível — é um projeto de treze anos, construído tijolo por tijolo, exatamente do jeito que a fisiologia manda construir. Nós já detalhamos por que a resistência à fadiga se constrói com volume acumulado, e não com heroísmo pontual.
A última se chamava “Miles for MND: One Last Ride”. Quem batizou foi Jenny. Ela sabia o que estava escrevendo.
Por que essa doença deveria interessar ao ciclista brasileiro
A ELA é uma doença neurodegenerativa que mata os neurônios motores — os que mandam o comando do cérebro para o músculo. O paciente perde força, depois movimento, depois fala e deglutição, mantendo a consciência intacta até o fim. Não tem cura.
Os números que a Academia Brasileira de Neurologia usa: incidência mundial entre 0,3 e 2 casos por 100 mil habitantes por ano, prevalência em torno de 5 por 100 mil. Aplicada à população brasileira, essa prevalência sugere algo próximo de 10 mil pessoas vivendo com ELA no país — uma estimativa, não um censo, porque o primeiro registro epidemiológico nacional só começou a ser montado em 2022 e o Brasil ainda não tem número próprio consolidado. O buraco de dados é parte do problema.
E aqui está o detalhe que arrepia: os sintomas costumam aparecer entre os 55 e os 75 anos. É exatamente a faixa etária que Bob Montgomery atravessou pedalando. É exatamente a faixa etária de uma parcela enorme do pelotão de sábado de manhã em qualquer cidade brasileira. A travessia dele não foi por uma causa distante — foi pela estatística que ele próprio estava vivendo dentro.
A conta final da “One Last Ride”: AU$ 104.965. Somados aos mais de AU$ 200 mil arrecadados nas travessias anteriores, dá um homem que converteu treze anos de pedal em mais de trezentos mil dólares australianos para pesquisa e assistência a pacientes. A meta que ele havia estabelecido era AU$ 500 mil. Ele não chegou lá. A página de doação continua aberta.
A pergunta errada — e a que vale a pena fazer
A pergunta que todo mundo faz em silêncio é: a bicicleta matou o Bob?
Não dá para responder, e é importante ser explícito sobre isso. A família descreveu um “episódio médico” na noite de segunda-feira e não divulgou causa. Ninguém de fora tem acesso ao histórico cardíaco dele, aos exames, à medicação. Qualquer afirmação nos dois sentidos — “foi o esforço” ou “não teve nada a ver” — é chute vestido de análise. Um homem de 82 anos tem risco de evento cardiovascular em qualquer segunda-feira do ano, tendo ou não pedalado 5.290 km antes.
O que dá para dizer com segurança é mais interessante. Aos 82 anos, ele sustentou 160 km diários por seis semanas em pleno inverno australiano. Isso não é sorte genética: é o resultado acumulado de treze anos de estímulo aeróbico contínuo. A literatura sobre atletas máster mostra que o VO₂máx cai com a idade em qualquer cenário, mas cai em ritmos brutalmente diferentes conforme a pessoa continue treinando ou não — e o caso mais conhecido do ciclismo é o de Ned Overend, que segue vencendo provas de mountain bike aos 70 contra rivais décadas mais novos. Bob Montgomery é a versão amadora do mesmo fenômeno, e há um outro exemplo recente na estrada profissional: Taylor Phinney voltou à pista aos 35 num esporte que trata os 30 como aposentadoria precoce.
A pergunta útil não é o que a bicicleta tirou de Bob Montgomery no dia 3 de agosto. É quantos anos ela deu a ele antes.
Vale a ressalva óbvia, e ela não é burocrática: travessia de milhares de quilômetros depois dos 60 pede avaliação cardiológica prévia, teste ergométrico e acompanhamento — não porque o esforço seja perigoso em si, mas porque descobrir um problema em Bowral é melhor do que descobrir no meio do outback, a 300 km do hospital mais próximo. E há efeitos colaterais que ninguém comenta: o ciclismo é um esporte sem impacto, o que é ótimo para as articulações e péssimo para a densidade óssea de quem pedala muito e não faz mais nada. Quem pretende atravessar um continente aos 80 precisa levantar peso aos 70.
O que dá para copiar do método Montgomery
Aqui está a parte que os obituários não escrevem, porque não é comovente — é operacional. Nada do que Bob fez era inimitável. Tudo era montável.
Dose diária fixa, não pique. Cento e sessenta quilômetros repetidos são um problema de logística e alimentação, não de potência. Ninguém quebra recorde em nenhum dos 41 dias. A trava mental de “só mais um dia igual ao de ontem” é o que torna o número final possível.
Estrutura de apoio antes de tudo. Jenny na campervan, Tara Whitie na retaguarda, Tom na roda. Bob não pedalava sozinho: ele pedalava na frente de uma operação. A palavra “time”, que ele usou no meio da travessia, era literal.
Progressão de anos, não de meses. De 3.000 para 5.290 km levou treze anos. Quem tenta o salto em uma temporada não chega — e é aí que mora a maioria das lesões e das desistências entre ciclistas mais velhos.
Um motivo externo ao próprio ego. É o item que mais separa quem termina de quem abandona no dia 12. Bob pedalava por Judith. O neto explicou melhor do que qualquer coach: “Se a gente conseguir aumentar a conscientização e ajudar pessoas que vivem com MND, então cada quilômetro vale a pena.”
Esse último ponto tem lastro além da retórica. Os efeitos do pedal sobre humor, cognição e longevidade estão entre os benefícios mais bem documentados do ciclismo regular, e valem para qualquer idade — inclusive, e principalmente, para quem só começou a se mexer depois dos 60. Bob começou aos 69.
O último quilômetro
Liam O’Meara, diretor-executivo da MND NSW, escolheu bem as palavras: “sua conquista mais recente, pedalar de Broome a Bowral aos 82 anos ao lado do neto de 18, foi simplesmente inspiradora”. A neta Camille foi mais direta, e ficou com a frase da semana: “Papa era uma lenda absoluta, e a história dele era realmente única.”
Tom, o neto de 18 anos, tem uma vida inteira pela frente e já rodou cerca de 6.400 km ao lado do avô em duas travessias separadas por seis anos. Ele não vai precisar de motivação emprestada.
Bob Montgomery chegou em casa no domingo, foi abraçado pela cidade inteira na segunda e morreu naquela noite, ao lado da mulher com quem viveu 59 anos. Existem formas piores de escrever um último capítulo, e quase nenhuma melhor.
Na próxima vez que você olhar para o guidão numa segunda-feira de inverno e pensar que já passou da idade, faça a conta que a manchete não fez: quarenta e um dias, cinco mil duzentos e noventa quilômetros, oitenta e dois anos. E depois decida se o problema é a idade.




