Em 31 de julho, Primož Roglič publicou um aviso curto nas redes: “Fui atingido por um carro há alguns dias.” Na sequência, a parte prática. “Infelizmente, não participarei em San Sebastián e em Burgos. Não é o melhor cenário, mas é a vida.”
Fechou otimista: “Agora é tudo em direção à Vuelta, trabalhamos e esperamos que as coisas melhorem.”
Onze dias antes da largada em Mônaco, as coisas não melhoraram o suficiente. Em 8 de agosto, o jornalista Ciro Scognamiglio, da Gazzetta dello Sport, escreveu: “Sobre Primoz Roglic iniciar na Vuelta. Nossas fontes nos informaram nesta noite que as chances são de 50%.”
O que ele apostou nesta corrida
Roglič tem quatro vitórias na Vuelta. Está empatado com Roberto Heras no topo da história da prova. A quinta o deixaria sozinho lá.
Por isso ele desenhou 2026 inteira em torno de agosto. Pulou o Giro. Pulou o Tour. A Vuelta é a única Grande Volta dele no ano, num calendário em que corredor de classificação geral costuma fazer duas. E tem mais camada nessa aposta: seria a última Grande Volta pela Red Bull-BORA-hansgrohe, já que a saída ao fim da temporada é dada como certa pela imprensa especializada, e seria o primeiro duelo dele contra Tadej Pogačar numa Grande Volta desde a Vuelta de 2019.
Um ano inteiro de planejamento numa corrida só. É uma estratégia que funciona quando tudo dá certo e não tem plano B quando não dá.
O problema não é a perna
A lesão em si não parece grave. Ele escapou do atropelamento em grande parte ileso, com um hematoma enorme na parte de trás da perna. Hematoma some.
O número que assusta é outro: a última corrida de Roglič foi em 26 de junho, no Campeonato Nacional da Eslovênia. Se ele largar em 22 de agosto, terá quase dois meses sem número nas costas.
Isso não se resolve com treino. Ritmo de corrida é uma coisa específica: velocidade de reação numa curva a 60 km/h, leitura de quando o ataque vai sair, disposição de brigar por posição na entrada de um estreitamento. Um bloco de altitude devolve potência. Não devolve isso.
A perna sara em onze dias. O ritmo de corrida, não.
E a Vuelta 2026 é péssima para quem chega enferrujado. A primeira semana tem três chegadas em alto antes do oitavo dia, incluindo o circuito curto de Andorra logo no quarto. Não existe fase de aquecimento nesse percurso.
O carro de novo
Vale registrar como a temporada tem entregado esse tipo de notícia.
Há poucos dias escrevemos sobre Yanis Berthoud, 16 anos, aposta da Visma, internado com risco de paraplegia depois de colidir com a traseira de um carro em treino. Mesmo mês, mesma causa, escalas de gravidade incomparáveis: um adolescente pode não voltar a andar, um tetracampeão de Grande Volta pode perder uma corrida.
O que os dois casos têm em comum é o lugar. O ciclismo profissional regula tudo dentro da corrida: largura de guidão, posição do selim, comprimento de manivela, distância mínima de moto, protocolo de calor. Fora dela, o corredor mais bem pago do pelotão divide asfalto com um motorista distraído, igual a você e igual a mim.
Não existe regulamento da UCI para isso. E é onde o esporte perde mais tempo de carreira.
O que a Vuelta perde se ele não largar
Uma corrida sem Roglič ainda tem Pogačar atrás da única Grande Volta que falta no currículo dele. É uma boa história. É também a única.
Com Roglič dentro, a Vuelta ganha uma segunda linha narrativa capaz de brigar com a primeira: o recordista tentando se desempatar de Heras aos 36 anos, contra o corredor que dominou a década, sete anos depois do último encontro dos dois numa Grande Volta. Sem ele, sobram Felix Gall, Oscar Onley, Richard Carapaz e Enric Mas disputando o segundo lugar.
A UAE, aliás, chega com o time mais completo e os próprios problemas: João Almeida se recuperando do abandono no Tour de Pologne e Isaac del Toro fora da convocação.
O prazo
A Red Bull não é obrigada a anunciar a escalação antes da semana da corrida, e a Vuelta é justamente a Grande Volta em que as equipes decidem mais em cima da hora. Na prática, a resposta deve sair entre 18 e 20 de agosto.
Cinquenta por cento é o número mais honesto que alguém podia dar. Também é o número mais desconfortável para um corredor que apostou doze meses num único mês.




