A neve estava empilhada nas laterais da estrada quando Steven Kruijswijk começou a descer o Colle dell’Agnello. Era a etapa 19 do Giro d’Italia de 2016. Ele vestia a maglia rosa havia seis dias e tinha mais de três minutos de vantagem sobre o segundo colocado. Faltavam dois dias para virar o primeiro holandês a ganhar o Giro.
Ele entrou numa curva rápido demais, bateu num banco de neve e caiu. Levantou, voltou para a bicicleta e completou a etapa. Terminou aquele Giro em quarto.
Dez anos depois, aos 39, Kruijswijk anunciou que para no fim de 2026. Contou no programa De Avondetappe, da emissora holandesa NOS, com a frase mais seca possível: “Tenho mais uma Grande Volta pela frente. Essa será a última. Depois disso, minha carreira como ciclista acabou.”
A conta de dezessete temporadas
Ele virou profissional em 2010, na Rabobank. A equipe trocou de nome várias vezes desde então: Blanco, Belkin, LottoNL-Jumbo, Jumbo-Visma e agora Visma | Lease a Bike. Kruijswijk nunca trocou. Dezessete temporadas, uma única estrutura, do começo ao fim.
Os números da carreira até aqui: 23 Grandes Voltas disputadas, sendo nove Giros, sete Tours e sete Vueltas. Um pódio, o terceiro lugar no Tour de France de 2019, atrás de Egan Bernal e Geraint Thomas. Quarto lugar no Giro de 2016 e quarto na Vuelta de 2018. Uma etapa do Tour de Suisse em 2011 e a geral da Arctic Race of Norway em 2014.
Nenhuma vitória de etapa em Grande Volta. Nenhum título grande. Vinte e três tentativas.
Se você olhar só essa planilha, vai chamar de carreira frustrada. Quem acompanhou o pelotão holandês nesses dezessete anos não chama.
O que ele fez que não aparece no resultado
Kruijswijk entrou numa equipe que ninguém temia e sai de uma que domina o calendário. No meio do caminho ele foi líder, foi plano B, foi gregário de luxo em montanha, foi o cara que segura o ritmo no penúltimo colo para o líder atacar no último. Grischa Niermann, chefe de corrida da Visma, resumiu o valor dele na renovação do ano passado falando em versatilidade e em experiência transmitida aos corredores mais novos.
Esse tipo de contribuição não tem métrica pública. Não entra em ranking UCI, não vira manchete, não rende contrato milionário. Mas é o que separa equipe que ganha corrida de equipe que ganha temporada.
Vale comparar com o mercado de agora. Isaac del Toro renovou com a UAE até 2031 aos 22 anos. Contrato de cinco anos virou notícia grande justamente porque virou raridade. Kruijswijk fez dezessete temporadas seguidas no mesmo endereço numa época em que corredor troca de equipe a cada dois ou três anos. É quase uma peça de museu.
A última corrida é em casa
A Vuelta a España de 2026 larga em 22 de agosto, em Mônaco. Kruijswijk mora lá há cerca de dez anos. O contrarrelógio de abertura passa perto da casa dele.
Vai ser a oitava Vuelta e a 24ª Grande Volta da carreira. Um corredor que passou dezessete anos correndo longe de casa vai começar a despedida a poucos quarteirões da própria porta. Não dá para roteirizar melhor que isso.
Depois de Madri, acabou.
O que a descida do Agnello ensina a quem pedala aos domingos
Volto ao banco de neve, porque tem uma lição prática ali que vale para qualquer ciclista.
Kruijswijk não caiu porque descia mal. Ele caiu porque estava defendendo três minutos e escolheu não perder tempo numa descida em que o risco tinha subido. Quando você está na frente, a matemática correta quase sempre é ceder alguns segundos. O instinto pede o contrário.
Todo mundo que pedala em grupo já viveu a versão amadora disso: a descida molhada em que você não quer largar a roda de quem está na frente, e a decisão certa era largar. Romain Bardet foi parar no hospital neste mês descendo o Ventoux num pedal com o filho, sem número nas costas, sem nada em jogo. Descida não perdoa distração nem em corrida nem fora dela.
O legado que fica
Aposentadoria de ciclista quase sempre vem acompanhada de uma lista de vitórias. A de Esteban Chaves, que anunciou a dele em novembro passado, tinha um Monumento. A de Kruijswijk não tem nada parecido.
O que ela tem é constância: dezessete anos em altíssimo nível, 24 largadas em Grande Volta contando a de agosto, um pódio no Tour aos 32 anos e uma equipe inteira que aprendeu a ganhar com ele dentro. Poucos corredores conseguem isso. Muito menos do que conseguem uma vitória isolada.
Em 22 de agosto, quando o pelotão sair de Mônaco, procure o número dele. Vale mais assistir a essa Vuelta sabendo quem é o holandês de 39 anos puxando na frente do grupo. É a última vez.




