Em 3 de agosto, uma loja online alemã publicou a ficha das rodas DT Swiss G 1800 Classic com quatro opções de núcleo de roda livre. Três eram conhecidas: SRAM XDR, Shimano HG de 11 velocidades e Shimano Micro Spline.
A quarta era um padrão Shimano de 13 velocidades que não existe no mercado, nunca foi anunciado e não tem nome comercial. A Shimano não comentou.
Vazamento de e-commerce parece detalhe pequeno. Não é. Fabricante de roda precisa saber do padrão bem antes do grupo chegar às lojas, porque tem que produzir o núcleo. Quando essa informação aparece num formulário de produto, alguém preencheu um campo com dado real.
O que é o núcleo e por que ele decide tudo
O núcleo de roda livre é o cilindro estriado onde o cassete encaixa. Ele fica no cubo traseiro e é a peça que transmite a força do pedal para a roda.
Aqui está o ponto que a maioria das reportagens sobre “Shimano 13 velocidades” ignora: o número de marchas é a parte menos importante da notícia. Quem decide se a sua roda continua servindo é o núcleo. Cassete novo em núcleo antigo não encaixa, e ponto final.
É por isso que a quarta linha daquela ficha de produto vale mais que qualquer especulação sobre relação de marchas.
O mapa dos padrões que já existem
Shimano HG. O padrão clássico, com nove estrias. Na versão de estrada tem 36,75 mm e aceita cassete de 8 a 12 velocidades. Na versão MTB tem 34,9 mm.
Shimano HG-L2. Criado para o Dura-Ace de 12 velocidades. Tem 37,65 mm e dezoito estrias menores e mais profundas, desenhadas para acabar com o problema de marcação do alumínio.
Shimano Micro Spline. O padrão de MTB e gravel de 12 velocidades. Só 26 mm, com 23 estrias, e existe por um motivo específico: permite pinhão de 10 dentes, coisa que o HG não permite. Não é compatível com HG nem com os padrões da SRAM.
SRAM XD e XDR. O XD é de MTB. O XDR é a versão de estrada, 1,85 mm mais longa, e já nasceu preparado para 12 e 13 velocidades.
Campagnolo N3W. Mantém as oito estrias do desenho clássico da marca, só que mais curto para abrir espaço a pinhões menores. Aceita cassete Campagnolo antigo com adaptador.
Treze velocidades não obrigam ninguém a mudar de núcleo
Esta é a parte que merece atenção antes de o mercado entrar em pânico.
A Campagnolo já vende 13 velocidades e chegou lá sem abandonar o próprio desenho de estrias. A SRAM oferece 13 velocidades no XPLR AXS de uma coroa, usando o XDR que já existia bem antes disso.
Ou seja: acrescentar um pinhão não exige, por si só, um corpo de roda livre novo. Se a Shimano criar um, será uma decisão de projeto, não uma imposição da física.
E há razões técnicas legítimas para tomar essa decisão. Um corpo mais curto libera espaço para pinhão menor que 11 dentes na estrada, o que muda a faixa de marchas sem aumentar a coroa. Mais estrias distribuem melhor o esforço e reduzem marcação. Foi exatamente esse raciocínio que produziu o Micro Spline e o HG-L2.
O que incomoda não é a engenharia. É que a Shimano teria, então, quatro padrões de núcleo convivendo ao mesmo tempo, num mercado que já obriga o mecânico da esquina a decorar tabela de compatibilidade para trocar um cassete. Cada padrão novo empurra a conta da inovação para quem monta e para quem mantém a bicicleta.
O que muda para a roda que você já tem
A notícia razoavelmente boa: na maioria dos cubos decentes, núcleo é peça trocável. DT Swiss, Hope, SRAM e a própria Shimano vendem kits de conversão, e em vários modelos a troca é feita sem ferramenta.
Isso significa que uma roda de bom nível provavelmente sobrevive à mudança de padrão pagando o preço do núcleo, não o de uma roda nova. Já rodas de entrada, com cubo de desenho fechado, tendem a não ter kit disponível. Vale conferir isso antes da próxima compra, junto com o resto do que um bom teste de bicicleta costuma detalhar.
Vale a mesma lógica que já discutimos sobre o que acontece quando a indústria muda de rumo no meio do caminho: componente proprietário é sempre o primeiro a virar problema.
O que fazer agora
Nada.
Sério. Não adie compra de roda por causa de vazamento, não venda cassete no susto e não pague preço de lançamento em nada. Um campo preenchido numa loja alemã não é anúncio de produto, e a Shimano não confirmou uma vírgula disso.
Se você está escolhendo bicicleta agora, o critério continua o mesmo de sempre: cubo com kit de conversão disponível vale mais que cubo com nome bonito. Isso já era verdade antes do vazamento e continua sendo depois.
E quando o grupo for anunciado de verdade, a pergunta a fazer na loja não é quantas marchas ele tem. É qual núcleo ele exige, e se o seu cubo aceita.
O que se sabe e o que não se sabe
Sabe-se que uma listagem de loja, publicada em 3 de agosto de 2026 e referente a uma roda DT Swiss lançada dias antes, listou um núcleo Shimano de 13 velocidades entre as opções.
Não se sabe qual grupo usaria esse padrão. A aposta mais comum recai sobre o GRX, que foi para 12 velocidades na versão mecânica em 2023 e na eletrônica em junho de 2025, e sobre um futuro Dura-Ace. Também não se sabe a data, as medidas do novo corpo, nem se ele conviveria com os atuais ou substituiria algum.
É pouco. Mas é mais do que a indústria costuma entregar antes de um lançamento, e explica por que a ficha técnica de um componente aparentemente banal merece ser lida com atenção.




