Quem abriu o site da Lapierre nesta semana não achou bicicleta. Achou o contato de um administrador judicial. Raleigh e Ghost fizeram o mesmo redirecionamento. Três marcas que somam mais de duzentos anos de estrada agora atendem por escritório de advocacia.
A holandesa Accell Group recebeu suspensão provisória de pagamentos em 5 de agosto de 2026 e anunciou a insolvência no dia seguinte. Na prática, a empresa deixou de ser obrigada a pagar seus credores. O destino de quinze marcas passou para administradores nomeados por tribunais de três países.
A lista é maior do que a manchete sugere: Haibike, Winora, Ghost, Batavus, Koga, Lapierre, Raleigh, Sparta, Babboe, Carqon, Van Nicholas, Loekie, Tunturi, Nishiki e a XLC, de peças e acessórios. Se você tem um par de manoplas ou um suporte de guidão XLC na sua bike, comprou de uma empresa que hoje está sob tutela judicial.
Quatro dias que derrubaram um conglomerado
4 de agosto. A venda para a Tri Star E-Moving desmorona. A compradora já tinha aprovação antitruste na Alemanha, na Áustria e na Polônia. Faltou fechar.
5 de agosto. O tribunal concede suspensão provisória de pagamentos à Accell Group Holding B.V.
6 de agosto. A empresa comunica ao mercado. O CEO Jonas Nilsson escreve que a situação é “profundamente triste e frustrante” e que “toda opção realista para o futuro do negócio foi incansavelmente explorada”.
7 de agosto. A Lapierre entra com pedido de recuperação judicial no Tribunal de Comércio de Dijon. No Reino Unido, a Accell UK & Ireland protocola aviso de intenção de nomear administradores, o que garante cerca de dez dias de blindagem legal para tentar vender ou reestruturar a Raleigh.
William Perrier, que dirige a Lapierre, resumiu a posição da fábrica francesa: “Vamos lutar para preservar o máximo de empregos possível e manter essa história viva em Dijon.”
A conta que ninguém queria olhar
Volte quatro anos. Em 2022, no auge da corrida por bicicletas que a pandemia criou, um consórcio liderado pela KKR comprou a Accell numa operação avaliada em cerca de 1,8 bilhão de euros. Compra alavancada: pouco capital próprio, muito dinheiro emprestado, aposta de que a demanda seguiria subindo para sempre.
Ela não seguiu. Entre meados de 2023 e o início de 2025, a KKR e a coacionista Teslin injetaram algo em torno de 300 milhões de euros em empréstimos de emergência. Em fevereiro de 2026 veio a rendição: os credores assumiram o controle, perdoaram por volta de 850 milhões de euros em dívida e mantiveram 270 milhões em financiamento super-sênior. Os acionistas ainda colocaram mais 30 milhões para a transição não travar. Mais de 1,1 bilhão de euros de capital próprio da KKR virou pó.
Perdoaram 850 milhões de euros em fevereiro. Não foi suficiente para chegar a agosto.
Tem um detalhe que quase não aparece nas manchetes e pesou muito nessa conta. O recall global das cargo bikes Babboe, aberto em 2024 por falhas de quadro, já havia custado 50 milhões de euros até julho daquele ano. Uma marca de nicho dentro de um conglomerado gigante consumiu sozinha mais do que muitos fabricantes faturam num ano inteiro.
E se o problema não for a demanda?
O diagnóstico fácil é “o mercado de bicicleta encolheu depois do boom”. Encolheu mesmo. Só que os números não fecham com a tese de que faltou comprador.
No Brasil, o primeiro semestre de 2026 fechou com 163.158 bicicletas produzidas no Polo Industrial de Manaus, queda de 9,6% na comparação anual, segundo a Abraciclo. Dentro desse total, as elétricas somaram 34.122 unidades e cresceram 87,2%. Já representam 20,9% de tudo que sai das fábricas de lá. Em 2025 a produção nacional terminou em 335.560 bicicletas, acima da projeção de 320 mil feita no começo daquele ano, e a entidade projeta 350 mil para 2026.
O segmento que mais cresce no Brasil é exatamente aquele em que a Accell era líder europeia. Haibike e Winora foram construídas em cima de bicicleta elétrica. A demanda estava lá. O que não estava era fôlego financeiro para esperar por ela com 270 milhões de euros de dívida sênior no pescoço.
Uma fabricante sem dívida atravessa dois anos ruins cortando linha e segurando lançamento. Uma fabricante comprada com dinheiro emprestado tem prazo. Prazo não negocia.
O que muda para quem tem uma dessas bikes
Essa é a parte que a maioria das reportagens não escreve, e é a que interessa a quem tem a bicicleta na garagem.
Garantia não some por decreto. Ela vira crédito na fila do processo, o que na prática faz o acionamento depender de quem comprar a marca e do que esse comprador assumir. No Brasil existe uma camada de proteção a mais: pelo Código de Defesa do Consumidor, importador e loja respondem solidariamente pelo vício do produto, independente do que aconteça na Holanda. Guarde nota fiscal e termo de garantia num lugar que você consiga achar.
Peça de reposição é o ponto sensível de verdade. Quadro proprietário, suporte de motor, bateria e eletrônica embarcada não têm equivalente genérico no balcão. Quem anda de Haibike ou de Ghost elétrica faz bem em antecipar a compra de itens de desgaste específicos enquanto o estoque europeu ainda circula. Para o resto, a lógica dos equipamentos e acessórios segue igual: o que é padrão de mercado você acha em qualquer lugar.
Preço de bike nova dessas marcas tende a cair rápido. Distribuidor com estoque parado vai querer virar bicicleta em caixa. Para quadro convencional, sem componente eletrônico dependente de firmware, é oportunidade honesta. Para e-bike, o desconto está pagando um risco que passa a ser seu.
Usado perde liquidez antes de perder preço de anúncio. O vendedor demora a aceitar, o comprador já sabe.
O pelotão também entra na conta
Em dezembro de 2024 a Accell assinou contrato de quatro anos com o Team Picnic PostNL, válido a partir de 1º de janeiro de 2025. A Lapierre voltou ao WorldTour como fornecedora de bicicletas, com a XLC entregando acessórios e material de viagem. Estamos no segundo ano de quatro.
Equipe de WorldTour não escolhe fornecedor de bike em novembro para janeiro. Escolhe com doze a dezoito meses de antecedência, porque quadro de time é desenvolvido, testado e homologado. A insolvência chega no pior ponto possível do calendário: temporada em curso, Vuelta a poucos dias e a janela de decisão para 2027 já aberta.
O que sobra
As máquinas continuam lá. As fábricas de Dijon e da Alemanha continuam capazes de produzir. Os desenhos de quadro, os moldes, os nomes com um século de história, tudo isso continua existindo e vale dinheiro. É bem provável que boa parte dessas marcas reapareça em 2027 sob outro dono, menor e mais enxuta. Confesso que aposto nisso.
O que não volta é o intervalo. Entre a suspensão de pagamentos e a assinatura de um novo comprador existem meses em que a linha de montagem para, o fornecedor de Taiwan corta o crédito, o mecânico da sua cidade não consegue o suporte de motor e o ciclista aprende, na marra, que a marca escrita no tubo superior é só uma parte da história. Vale para quem tem uma Ghost em Curitiba e vale para brasileiro correndo na Europa com material de equipe.
Os sites da Lapierre, da Raleigh e da Ghost seguem redirecionando para administradores judiciais. É o endereço mais honesto que essas marcas tiveram em muito tempo.



