Foi numa estrada da Bulgária, ainda na primeira semana do Giro d’Italia, que a preparação de Tadej Pogačar para julho começou a desmoronar — sem que ele estivesse lá para ver. Na segunda etapa, uma queda em massa derrubou quase trinta ciclistas. Entre os corpos no asfalto estava o de Marc Soler, o espanhol que há quatro anos faz o trabalho sujo nas montanhas para o esloveno. Diagnóstico: fratura na pelve. Um mês depois, a conta dessa queda chega ao endereço mais caro do pelotão.
Nesta quarta-feira, 10 de junho, a imprensa catalã antecipou o que a UAE Team Emirates-XRG ainda não quis oficializar: Soler não deve disputar o Tour de France 2026. A menos de um mês da largada, marcada para 4 de julho em Barcelona, o homem que Pogačar mais usa quando a estrada empina ficou de fora da lista. E a ironia tem endereço: a corrida vai passar pela cidade onde ele nasceu.
Em resumo
• Marc Soler (UAE Team Emirates-XRG) deve ficar fora do Tour de France 2026, ainda em recuperação de uma fratura na pelve.
• A lesão veio de uma queda em massa na 2ª etapa do Giro d’Italia, que afetou cerca de 30 ciclistas — entre eles os companheiros de equipe Jay Vine e Adam Yates.
• A informação foi antecipada pelo jornalista Isaac Vilalta (Catalunya Ràdio) e pelo jornal Sport; a UAE ainda não confirmou oficialmente.
• Soler é gregário de Pogačar desde 2022 e correu todas as edições do Tour desde então.
• A 2ª etapa do Tour (5 de julho) passa por Vilanova i la Geltrú, cidade natal do espanhol.
• Pogačar persegue em 2026 seu 5º título na maior corrida do mundo.
O gregário que ninguém vê — até ele faltar
Marc Soler não vende camisa nem aparece no pódio. É exatamente por isso que importa. Desde que trocou a Movistar pela UAE em 2022, o espanhol virou uma daquelas peças invisíveis que decidem corridas de três semanas: o corredor que puxa o ritmo na base da montanha para estourar os adversários, que entrega a última garrafa antes do ataque, que sacrifica a própria classificação para que o líder economize trinta segundos de energia num dia qualquer. Ninguém escreve manchete sobre isso. Todo mundo sente quando some.
E some agora, no pior momento possível. A ausência foi antecipada por Isaac Vilalta, da Catalunya Ràdio, e confirmada pelo jornal Sport: depois de oito participações seguidas, Soler vai assistir ao Tour de casa. A UAE ainda não bateu o martelo oficial — novos exames estão marcados para a próxima semana —, mas o tom de quem acompanha a equipe por dentro não deixa muita margem para reviravolta.
A queda que não acabou em maio
Aqui está o detalhe que a maioria das notas em inglês trata como nota de rodapé e que merece o centro da história: a baixa de Soler não é um caso isolado, é a fatura atrasada de um acidente coletivo. Aquela queda búlgara na segunda etapa do Giro não levou só o espanhol. Levou Jay Vine, que sofreu concussão e fratura no cotovelo, e atingiu Adam Yates, outra peça pesada do xadrez de Pogačar para julho. Um único segundo de caos numa estrada estreita, em maio, vai ecoar na composição da equipe mais forte do mundo em pleno Tour de France.
É a parte do esporte que o torcedor brasileiro, acostumado a ligar a TV só em julho, raramente enxerga: o Tour não começa em Barcelona. Começa nas semanas anteriores, nos boletins médicos, nas pelves que não soldam no prazo, nas decisões silenciosas sobre quem está apto e quem fica. O calendário moderno empilha Giro e Tour com menos de um mês de intervalo, e quem paga a conta dessa proximidade são justamente os gregários — os corpos que se gastam primeiro.
Por que o golpe assusta menos do que parece
E mesmo assim — eis a tese que vai contra a manchete fácil — perder Soler dói menos nas pernas de Pogačar do que na narrativa em torno dele. A UAE Team Emirates-XRG é, hoje, o time mais profundo da história recente do ciclismo: tem escaladores sobrando, tem Adam Yates caminhando para a recuperação, tem nomes capazes de fazer o serviço de montanha que Soler faria. O próprio diretor esportivo Joxean “Matxin” Fernández já sinalizava isso durante o Giro.
“Marc Soler não está em condições de participar no momento, ele ainda está se recuperando e não tem treinado”, disse Matxin ao portal Domestique. “Adam Yates está bem, e esperamos que ele esteja em boa forma para o Tour.” Traduzindo o que está nas entrelinhas: a equipe já trabalhava com a ausência como cenário provável, e já tinha um plano B respirando. Um time que disputa o Tour para colocar Pogačar no caminho do 5º título não treme porque perdeu um gregário — treme se perder o líder.
A perda que é de Soler, não de Pogačar
O verdadeiro prejuízo, então, tem dono — e não é o esloveno. É do próprio espanhol. A 2ª etapa do Tour de France 2026, no dia 5 de julho, sai de Tarragona rumo a Barcelona e cruza, no caminho, Vilanova i la Geltrú: a cidade onde Marc Soler nasceu. Era a chance, rara na carreira de um gregário, de pedalar diante da própria gente, na maior vitrine do esporte, com a família na beira da estrada. Soler não vai faltar nas pernas de Pogačar; vai faltar na cidade onde aprendeu a pedalar.
É a diferença entre o que uma equipe perde e o que um homem perde. A UAE perde um peão num tabuleiro onde tem peças de sobra. Soler perde um capítulo que não se repete — o dia em que o anônimo das montanhas teria, por algumas horas, o nome gritado em casa. O ciclismo é cruel justamente assim: distribui as feridas onde elas pesam mais no coração e menos no resultado.
O que observar daqui até 4 de julho
Com a confirmação cada vez mais próxima, a UAE deve correr atrás de alternativas para blindar Pogačar na alta montanha. A pergunta que sobra não é se o esloveno chega forte — ele chega, como sempre. É se o time, fragilizado por uma queda de maio que ninguém esqueceu, mantém a folga absurda que o transformou no algoz do pelotão. O ensaio-geral de junho já mostrou um pelotão em transição, e o Tour de 2026, com largada em Barcelona, promete ser menos previsível do que o domínio recente sugeria.
Por ora, fica a imagem que resume tudo: enquanto Pogačar afina a forma longe das câmeras, um de seus homens de confiança torce para que a pelve solde a tempo de, ao menos, ver de perto a corrida passar pela porta de casa. Às vezes a notícia mais dura do ciclismo não está em quem vai ganhar. Está em quem não vai nem largar.
Perguntas frequentes
Por que Marc Soler está fora do Tour de France 2026?
Soler se recupera de uma fratura na pelve sofrida em uma queda em massa na 2ª etapa do Giro d’Italia 2026, na Bulgária. Sem ter voltado a competir nem retomado os treinos plenamente, não deve ter condições de disputar o Tour, que começa em 4 de julho. A informação foi antecipada pela imprensa catalã, mas a UAE Team Emirates-XRG ainda não fez o anúncio oficial.
Quem é Marc Soler e qual seu papel na equipe de Pogačar?
Marc Soler é um ciclista espanhol da UAE Team Emirates-XRG, equipe que defende desde 2022, após sair da Movistar. Atua como gregário — o corredor que trabalha em favor do líder —, especialmente nas montanhas, sendo um dos principais apoios de Tadej Pogačar nas etapas decisivas do Tour de France.
A ausência de Soler atrapalha a busca de Pogačar pelo 5º título?
É uma perda, mas administrável. A UAE Team Emirates-XRG é uma das equipes mais profundas do pelotão e conta com outros escaladores de alto nível, como Adam Yates. O impacto esportivo existe, porém a equipe já vinha trabalhando com o cenário de ausência e deve buscar reforços para o bloco de montanha.
Por que essa ausência tem um peso pessoal para Marc Soler?
Porque a 2ª etapa do Tour de France 2026, em 5 de julho, passa por Vilanova i la Geltrú, cidade natal de Soler. Ficar de fora significa perder a oportunidade de correr a maior prova do mundo diante de sua própria comunidade.
Quando e onde começa o Tour de France 2026?
O Tour de France 2026 tem o Grand Départ marcado para 4 de julho de 2026, em Barcelona, na Espanha. A 2ª etapa, no dia seguinte, liga Tarragona a Barcelona, passando por municípios da Catalunha antes do circuito final na capital.




