Faltavam 25 quilômetros e, na rampa da Côte de Rousset, Alex Baudin fez a conta que ninguém no pelotão de favoritos quis fazer. Atacou sozinho. Atrás dele, a elite que o Brasil acostumou a ver em julho se vigiava de canto de olho — del Toro olhando Ayuso, Ayuso olhando Skjelmose, todos esperando o outro mover primeiro. Ninguém moveu. O francês da EF Education-EasyPost desceu rumo a Saint-Ismier, segurou os 32 segundos de vantagem e venceu a primeira etapa do Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026. Primeira vitória dele no WorldTour. E o detalhe que importa: nenhum dos quatro homens que vão decidir o Tour de France daqui a um mês estava ali para impedir.
Porque eles não vieram. Pela primeira vez em anos, a prova que serve de espelho para o Tour — antes chamada Critérium du Dauphiné, rebatizada nesta temporada — abriu sem Tadej Pogačar, sem Jonas Vingegaard, sem Mathieu van der Poel e sem Remco Evenepoel. O ensaio-geral do Tour de France 2026 perdeu o elenco principal. E o que sobrou no palco é, talvez, mais interessante do que a peça que todo mundo esperava assistir.
Em resumo
• A Etapa 1 (domingo, 7 de junho, com chegada em Saint-Ismier, na Isère) foi vencida pelo francês Alex Baudin (EF Education-EasyPost) após ataque de longa distância — sua primeira vitória no WorldTour.
• Baudin veste a primeira camisa de líder e lidera também as classificações por pontos, da montanha e dos jovens.
• O ex-Critérium du Dauphiné foi rebatizado Tour Auvergne-Rhône-Alpes em 2026, mantendo a função de principal preparação para o Tour de France.
• A prova começou sem Pogačar, Vingegaard, Van der Poel e Evenepoel — todos optaram por outro calendário rumo a julho.
• Entre os candidatos à vitória geral: Paul Seixas (19 anos), Isaac del Toro, Juan Ayuso, João Almeida, Mattias Skjelmose e Matteo Jorgenson. Wout van Aert faz aqui seu retorno às corridas.
• O Tour de France 2026 larga em 4 de julho, em Barcelona.
O nome mudou, a função permanece — por enquanto
Comecemos pelo que mais incomoda o purista. A prova que por décadas se chamou Critérium du Dauphiné — vitrine de junho onde Bradley Wiggins, Chris Froome e o próprio Pogačar afinaram pernas antes de conquistar o Tour — agora atende por Tour Auvergne-Rhône-Alpes. Um nome de mapa administrativo no lugar de um nome de província histórica. A troca parece cosmética. Não é.
Quando uma corrida de 78 anos abandona a marca que a tornou reconhecível em todo o mundo, ela está dizendo algo sobre quem manda no ciclismo moderno: o patrocínio regional e o calendário, não a tradição. E aqui mora a primeira pista para o leitor brasileiro que liga a TV em julho — o ciclismo que ele ama está sendo reescrito nos bastidores, etapa por etapa, contrato por contrato. O nome novo é só a parte visível.
O que não mudou foi a vocação: oito dias de montanha real, no coração dos Alpes franceses, desenhados para responder uma pergunta que vale ouro em julho — quem está em forma? Só que, neste ano, a pergunta foi feita para a sala quase vazia.
Os quatro ausentes que esvaziaram o termômetro
Faça a chamada dos protagonistas de julho e veja quantos respondem “presente” no Tour Auvergne-Rhône-Alpes. Tadej Pogačar e Mathieu van der Poel escolheram o Tour de Suisse, de 17 a 21 de junho. Jonas Vingegaard, que acaba de vencer o Giro d’Italia 2026, decidiu descansar entre as duas Grandes Voltas e não corre até o Tour. Remco Evenepoel optou por uma preparação sem nenhuma prova por etapas no caminho para a França.
Quatro nomes, quatro estratégias diferentes, um resultado só: o medidor de forma mais confiável do calendário ficou sem os corpos que mais interessam medir. Para o torcedor brasileiro que acorda cedo querendo adivinhar o pódio de Paris, o Dauphiné sempre foi a cola da prova final. Em 2026, a cola veio em branco.
E aqui está a tese que nenhum preview em inglês colocou na mesa com todas as letras: o ensaio-geral do Tour de France 2026 não vai nos dizer quase nada sobre o Tour de France 2026. A lógica que valia há cinco anos — “quem vai bem no Dauphiné chega forte em julho” — depende de os favoritos correrem o Dauphiné. Quando os quatro homens da disputa real treinam em casa, em altitude, longe das câmeras, a forma deles vira segredo guardado. O que esta semana mede não é quem ganha o Tour. É quem está autorizado a sonhar com ele depois.
A audição da próxima geração
Quando os reis saem de cena, os herdeiros entram. E a lista de quem disputa a vitória geral neste Tour Auvergne-Rhône-Alpes parece menos um pelotão de junho e mais um catálogo do ciclismo de 2028.
O nome que carrega a França nas costas é Paul Seixas, da Decathlon CMA CGM. Dezenove anos. Um adolescente disputando a geral de uma prova WorldTour de montanha contra homens feitos — e sendo apontado como favorito local. No domingo, porém, o garoto levou a primeira lição da semana: ficou preso na divisão do pelotão no final e perdeu 44 segundos para Baudin, o mesmo tempo de del Toro, Ayuso e Skjelmose. Detalhe que prova o tamanho do desafio: a etapa que deveria ser dos favoritos foi roubada por um fugitivo, e os favoritos pagaram o preço de se vigiarem.
Ao lado de Seixas, a artilharia da UAE — Isaac del Toro e João Almeida — testa hierarquia interna num time que vive o luxo e o problema de ter jovens demais querendo o mesmo lugar. Na Lidl-Trek, Juan Ayuso e Mattias Skjelmose formam dupla de peso; Matteo Jorgenson completa o time dos que vão tentar transformar esta semana em currículo. Nenhum deles é Pogačar. Todos eles querem ser o próximo a incomodá-lo.
Van Aert volta — e a queda à realidade
Há ainda um reencontro nesta corrida. Wout van Aert, vencedor da Paris-Roubaix em abril, faz no Tour Auvergne-Rhône-Alpes seu retorno à competição depois de semanas longe do número nas costas. O belga da Visma-Lease a Bike voltou, nas palavras que circularam na própria equipe, “com os pés no chão” — um primeiro dia de pernas pesadas, daqueles que todo ciclista de fim de semana reconhece: a forma não espera por você quando você para.
Para o brasileiro, Van Aert é figura de respeito imediato — o homem que ganha sprint, contrarrelógio e montanha na mesma semana de Tour. Vê-lo reencontrar o ritmo aqui, em junho, é parte do roteiro que leva a julho. A Visma o trouxe com Jorgenson e Ben Tulett ao redor; o time não veio passear.
Classificação geral após a Etapa 1
| Pos. | Ciclista | Equipe | Tempo |
|---|---|---|---|
| 1º | Alex Baudin | EF Education-EasyPost | 3h43’58” |
| 2º | Ramses Debruyne | Alpecin-Premier Tech | +32″ |
| 3º | Léo Bisiaux | Decathlon CMA CGM | +32″ |
| 6º | Ben Tulett | Visma-Lease a Bike | +23″ |
| 12º | Isaac del Toro | UAE Team Emirates XRG | +44″ |
| 16º | Juan Ayuso | Lidl-Trek | +44″ |
| 17º | Paul Seixas | Decathlon CMA CGM | +44″ |
| 19º | Mattias Skjelmose | Lidl-Trek | +44″ |
| 20º | Matteo Jorgenson | Visma-Lease a Bike | +44″ |
O que observar nos próximos dias
São oito etapas até domingo, 14 de junho, e a montanha vem com força — tanto que um ex-vencedor de sete etapas do Tour já reclamou em público que o percurso deste ano é difícil demais. Para o espectador brasileiro, o roteiro é simples: ignore a classificação geral como prova de quem ganha o Tour, e use-a como prova de quem chega afiado a Barcelona. Seixas aguenta uma semana de alta montanha contra homens experientes? A UAE consegue gerenciar três galos no mesmo poleiro? Van Aert recupera o brilho a tempo?
Nenhuma dessas perguntas decide o Tour de France 2026. Todas elas, porém, dizem quem vai chegar lá com o direito de ousar. E é por isso que vale acordar cedo nesta semana, mesmo sabendo que os reis não estão no grid: às vezes o ensaio sem os astros revela melhor quem são os próximos do que a peça com eles.
Perguntas frequentes
O que é o Tour Auvergne-Rhône-Alpes e por que mudou de nome?
O Tour Auvergne-Rhône-Alpes é a prova por etapas francesa de uma semana, disputada nos Alpes em junho, que até 2025 se chamava Critérium du Dauphiné. Em 2026 foi rebatizada com o nome da região administrativa que a sedia. A função permanece a mesma: é a principal corrida de preparação para o Tour de France, tradicionalmente usada pelos favoritos para afinar a forma antes de julho.
Quem venceu a Etapa 1 do Tour Auvergne-Rhône-Alpes 2026?
O francês Alex Baudin (EF Education-EasyPost) venceu a Etapa 1, disputada no domingo 7 de junho, após um ataque de longa distância iniciado na Côte de Rousset. Foi sua primeira vitória no WorldTour. Ele terminou com 32 segundos de vantagem sobre o segundo colocado e assumiu a liderança da classificação geral, além das camisas de pontos, montanha e melhor jovem.
Por que Pogačar, Vingegaard, Van der Poel e Evenepoel não estão na corrida?
Cada um optou por um caminho diferente rumo ao Tour de France 2026. Tadej Pogačar e Mathieu van der Poel preferiram o Tour de Suisse (17 a 21 de junho); Jonas Vingegaard, vencedor do Giro d’Italia 2026, escolheu descansar entre as duas Grandes Voltas; e Remco Evenepoel decidiu preparar o Tour sem disputar nenhuma corrida por etapas antes. Por isso, o tradicional termômetro de forma de junho começou sem os principais candidatos ao título em julho.
Quem são os favoritos à vitória geral?
Na ausência dos grandes nomes, a disputa fica aberta para a nova geração: Paul Seixas (Decathlon CMA CGM, 19 anos), Isaac del Toro e João Almeida (UAE Team Emirates), Juan Ayuso e Mattias Skjelmose (Lidl-Trek) e Matteo Jorgenson (Visma-Lease a Bike). Wout van Aert também corre, em seu retorno à competição, mas com foco em recuperar ritmo.
Quando e onde começa o Tour de France 2026?
O Tour de France 2026 tem largada (Grand Départ) marcada para 4 de julho de 2026, em Barcelona, na Espanha. O Tour Auvergne-Rhône-Alpes, encerrado em 14 de junho, é a última grande prova por etapas de preparação antes da maior corrida de ciclismo do mundo.




