Santiago Buitrago assinou nesta terça-feira um contrato de três anos, válido de 2027 a 2029. A equipe que o contratou existe com esse nome desde 20 de novembro de 2025.
O colombiano de 26 anos deixa a Bahrain Victorious depois de sete temporadas e vira o primeiro reforço anunciado pela NSN Cycling Team para 2027. É a primeira troca de equipe da carreira dele. E é uma aposta bem maior do que a manchete de transferência sugere.
O que a NSN está comprando
Buitrago virou profissional em 2020, aos 20 anos, na então Bahrain McLaren. Acumulou nove vitórias como pro. Venceu etapa do Giro d’Italia em 2022 e de novo em 2023. Ficou em terceiro na Liège-Bastogne-Liège de 2023, no mesmo ano em que terminou a Vuelta em décimo. No Tour de France de 2024, décimo outra vez. Em 2025 levou a Volta a la Comunitat Valenciana.
2026 foi mais irregular. Ganhou o Trofeo Laigueglia no começo do ano, fez sétimo na Tirreno-Adriático, abandonou o Giro logo na segunda etapa depois de uma queda com concussão e voltou discreto, em 21º no Tour de Pologne.
Esse é o perfil: um escalador que entrega top 10 em Grande Volta com regularidade, ganha corrida de uma semana e ainda não achou o degrau seguinte. Kjell Carlström, que comanda a equipe, foi direto ao ponto ao explicar a contratação: “Apesar de uma carreira que já dura sete anos, aos 26 Santiago tem muito tempo pela frente e margem para continuar crescendo.”
O próprio corredor fala a mesma língua. “Após sete anos na Bahrain Victorious, senti que era o momento certo para um novo desafio”, disse. E completou: “Ainda sinto que tenho muito espaço para crescer, então, nos próximos três anos, quero continuar dando passos à frente.”
A parte que o comunicado não conta
NSN não é uma equipe nova. É o novo nome da antiga Israel-Premier Tech, rebatizada em novembro de 2025 depois que a Never Say Never, empresa de esportes e entretenimento cofundada por Andrés Iniesta, assumiu o controle com respaldo financeiro do banco de investimentos suíço Stoneweg. A equipe passou a correr com licença suíça e bases em Girona e Barcelona.
Sylvan Adams, o empresário canadense-israelense que fundou o projeto em 2014, saiu da operação do dia a dia. Meses antes ele havia dito que a equipe nunca correria sem o nome Israel no peito. Correu.
A virada veio depois de uma temporada difícil dentro e fora da estrada. Na Vuelta a España de 2025, manifestações pró-Palestina acompanharam a corrida: quatro etapas foram encurtadas e duas terminaram sem vencedor declarado. Em outubro, a equipe foi desconvidada do Giro dell’Emilia por questões de segurança.
Chris Froome, tetracampeão do Tour de France, foi liberado. Derek Gee segue em litígio com a estrutura, com pedido de indenização reportado na casa dos 30 milhões de euros. A Factor encerrou o fornecimento de bicicletas. Biniam Girmay, camisa verde do Tour, é aguardado. Isso tudo em nove meses.
Três anos é muito tempo para um projeto de nove meses
O que me chama atenção nessa história é a aritmética. Buitrago está entregando os anos 27, 28 e 29 da vida dele. Para escalador de Grande Volta, essa é a faixa em que a conta costuma fechar: potência madura, leitura de corrida construída, corpo ainda inteiro. Não é fase de fazer teste.
Comparado com o que outros corredores da geração dele assinaram, o contrato também é curto. Isaac del Toro renovou com a UAE até 2031, cinco anos de horizonte. Buitrago pegou três, com um projeto que ainda precisa mostrar que atravessa uma crise sem trocar de nome de novo.
O outro lado é o que justifica a assinatura. Na Bahrain Victorious, Buitrago raramente teve a equipe inteira montada em torno do próprio nome: a estrutura sempre chegou às grandes voltas com mais de um plano. Na NSN ele entra como a peça de classificação geral do projeto, e disse o que se espera de quem chega nessa posição: “Meu principal objetivo será manter a competitividade nas corridas por etapas e continuar evoluindo nas Grandes Voltas.”
Liderança de verdade é a moeda mais cara do pelotão. Vale mais que salário para quem tem 26 anos e ainda quer descobrir do que é capaz numa Grande Volta com a equipe inteira trabalhando para ele.
A leitura brasileira dessa transferência
Dois motivos práticos.
O primeiro é o mais óbvio: quando um colombiano assume liderança de Grande Volta, o horário de transmissão no Brasil vira compromisso. Foi assim com Nairo Quintana, foi assim com Bernal. A escola colombiana é o ciclismo latino-americano que mais aparece no WorldTour, e o público brasileiro acompanha essas carreiras como quase-nossas, do mesmo jeito que acompanha os brasileiros que correm na Europa.
O segundo é menos evidente e mais importante. Uma empresa de um jogador de futebol aposentado comprou uma equipe WorldTour e, nove meses depois, está contratando líder de Grande Volta com contrato longo. Isso diz algo sobre de onde vem o dinheiro do pelotão profissional em 2026: menos de marcas de bicicleta, cada vez mais de fundos, bancos e figuras de outros esportes.
Vale prestar atenção. É o mesmo movimento que decide, lá na frente, quantas vagas existem para corredor sul-americano no topo do esporte.
O teste começa antes de 2027
Buitrago ainda tem uma temporada e meia de Bahrain pela frente, e a Vuelta a España começa em poucos dias. É a última chance dele de chegar à nova equipe com um resultado grande na bagagem em vez de uma promessa.
Um top 5 em Madri muda a conversa inteira. Sem isso, o que a NSN comprou por três anos foi um corredor que faz décimo lugar muito bem. E décimo lugar não sustenta projeto que precisa se explicar todo mês.



